Inteligência

Exercício cerebral

Novos estudos revêem a teoria de que as crianças têm
uma idade rígida para desenvolver suas habilidades

Por que as crianças gostam de dançar?

Pela mesma razão que gostam de pular. As crianças estão passando a controlar o próprio corpo e os movimentos da dança funcionam como um treinamento

Há dois anos uma novidade divulgada por alguns neurologistas americanos mudou a compreensão que se tinha do funcionamento do cérebro humano. Descobriu-se que os primeiros anos de vida poderiam ser essenciais para estimular o interesse da criança por determinadas atividades. Haveria uma idade certa para fazê-la se interessar por língua estrangeira, por música, esportes (veja quadro). Chamou-se isso de janelas da oportunidade, períodos em que se poderia passar certos conhecimentos com facilidade. Feito uma janela, o interesse teria hora de abrir e de fechar. Se nos primeiros dez anos de vida, os pais não estimulassem os filhos, aproveitando as janelas, elas se fechariam de modo irreversível. Sabe-se hoje em dia que houve certo exagero no anúncio da descoberta. Os médicos atualmente acreditam que o assunto tem de ser visto de maneira mais cuidadosa. "É perigoso falar em abrir e fechar de janela, como se depois a criança não conseguisse aprender mais ou aprendesse com extrema dificuldade, o que não é verdade", explica o neurologista Luiz Celso Vilanova, da Universidade Federal de São Paulo.

Eliminado o radicalismo da janela que se fecha para sempre, os estudos americanos são importantes porque podem ser lidos de outra forma. Como as janelas vão se abrindo aos poucos, e sem pressa, os pais não precisam ficar neuróticos na tentativa de fazer com que as crianças aprendam tudo de uma só vez. Não adianta esperar que seu filho de 1 ano se envolva em longas brincadeiras com os priminhos da mesma idade, quando o máximo que fará é se sentar junto deles poucos minutos. Ele não está maduro o suficiente para reagir com as outras crianças da maneira que você gostaria. Não adianta querer fazer seu filho pedalar antes dos 2 anos e meio. Somente nessa idade ele estará pronto para isso e as tentativas precipitadas poderão traumatizar a criança. Da mesma forma, pode ser demais esperar que uma criança tenha o domínio de uma língua estrangeira com menos de 4 anos de idade. Nesse período, uma janela anterior à da segunda língua, a da linguagem — aquela que controla nosso aprendizado da língua materna --, não está plenamente desenvolvida. Portanto, se a criança mal distingue os sons de sua própria língua, pode não conseguir aprender a falar outro idioma. Em alguns casos, vai, no máximo, repetir o que escuta.

Moleton: Costumex

Para aproveitar a abertura das janelas com equilíbrio, os pais não podem estar ansiosos. Acredita-se que a criança se torna apta a relacionar sons e notas musicais por volta dos 3 anos, quando se abre a chamada janela da música. Não por acaso, conhecem-se tão poucos concertistas que se tenham iniciado no aprendizado musical depois de começada a adolescência. Estimular aos 3 anos não quer dizer comprar uma coleção de CDs de música clássica. Basta apresentar a ela alguns sons, músicas infantis, fazer um batuque na mesa e verificar, em conjunto com a escola, se seu filho demonstra interesse pela área. Essa é uma regra geral. Os pais têm de ter em mente que não são professores dos filhos. O correto é dar a chance de a criança se desenvolver sozinha, dando a ela condições de conhecer de tudo um pouco. Isso é simples. Acontece toda vez que os pais aproveitam o tempo disponível para brincar com o filho, contar histórias, ler, cantar, incentivar brincadeiras que exijam coordenação.

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As perguntas são um termômetro da curiosidade infantil. Os estudos mostram que responder a tudo é garantir um adulto interessado em aprender

Os especialistas são unânimes em dizer que, se os pais ficarem atentos, será fácil saber se há maior interesse por um esporte, como natação, por uma língua estrangeira ou por um jogo de construção. O processo de estimulação fica mais agradável para a criança quando os pais participam diretamente. Fazer mais do que isso é um erro. Quando a criança se sente pressionada, pode, nos casos mais dramáticos, desenvolver sintomas físicos de fundo psicológico, como taquicardia, sudorese, dores de cabeça, enxaqueca e perda de apetite. "Nunca se deve antecipar etapas ou forçar a criança a fazer uma atividade para a qual ela não está amadurecida, porque isso pode causar stress infantil", diz Maria Spinelli, presidente da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Norte.

Os cinco primeiros anos na espécie humana são cruciais para seu desenvolvimento. É a fase em que nosso cérebro sai dos 400 gramas do nascimento para já chegar perto do 1,5 quilo da idade adulta. A diferença de tamanho é explicada pelas conexões que vão acontececendo nos cinco primeiros anos entre os neurônios da criança, formando uma rede de informações que fundamenta o que chamamos de inteligência. Nos bebês, o cérebro é um órgão de grande plasticidade. Seus dois hemisférios, o esquerdo e o direito, ainda não estão completamente especializados. Isso só acontecerá entre os 5 e os 10 anos de idade. Dentro de cada hemisfério, não se plugaram as terminações nervosas responsáveis por dons elementares, como a fala, a visão, o tato, ou tão refinados quanto o raciocínio matemático, o pensamento lógico ou musical.

Para se desenvolver, o cérebro precisa de ginástica. Basta dizer que cada pessoa pode realizar de 3 a 150.000 conexões neurais. O pico acontece por volta dos 2 anos de idade, havendo uma perda gradual com o passar do tempo. São muitas conexões, e melhores também. Isso porque, nessa fase, entre outras coisas, o organismo produz mielina — uma substância que envolve os neurônios, cuja finalidade é aumentar a velocidade e lisura durante a transmissão de informações. Só que essa produção termina na terceira década de vida. É por isso que, apesar de o adulto possuir neurônios e, conseqüentemente, ser capaz de aprender uma língua ou um esporte novo, o tempo necessário é muito maior -- nessas condições, ele dificilmente vai falar inglês ou jogar tênis tão bem como um jovem. Já não terá o mesmo "frescor" cerebral para fazer conexões. "É como se a educação fosse uma construção em que há um tempo ideal para erguer cada andar", explica o médico Vilanova. "Se não se fizer o que se deve fazer na hora certa, depois fica muito mais difícil, e não sai com a mesma qualidade."

A hora certa de agir

Versáteis e extremamente rápidas em assimilar novas informações, as crianças de até 5 anos vivem o momento ideal para aprender e treinar várias habilidades. Como esse desenvolvimento obedece a padrões bem mais rígidos do que se imagina, pode-se dizer que existe um momento mais apropriado para estimular seu filho a se interessar por música e outro para aprender uma língua estrangeira. Mas atenção: estimular não significa fazer as crianças queimarem etapas, mas sim dar a elas condições de aperfeiçoar as habilidades que demonstram ter. Embora se iniciem em idades diferentes, a maior parte das habilidades pode ser trabalhada com maior eficiência até os 10 anos. Acompanhe:

Emoção

HABILIDADE: seu filho expõe os sentimentos sem nenhuma censura, seja através do choro, sorriso, expressão enfezada ou semblante feliz. Por meio de experiências, começa a perceber que algumas atitudes suas são aceitas em certas situações, e outras não. Com isso, faz a sintonia fina do comportamento
ESTÍMULO: a rotina e a firmeza dos pais já ajudam a reforçar a estrutura emocional da criança. Outra maneira são as brincadeiras do tipo "esconde-achou", em que o bebê tem de controlar sentimentos como a tristeza da perda e a alegria do reencontro. Essa habilidade diminui na puberdade

Lógica

HABILIDADE: a criança começa a perceber que algumas coisas acontecem mesmo quando ela não quer. Diverte-se quando um copo com água cai no chão e fica indignada quando alguém tem de ir embora. Ou seja, ela vai aprendendo aos poucos que a vida é também um conjunto de regras, leis e acasos
ESTÍMULO: uma forma é ver televisão com o filho. Quando o programa acabar, ela pedir mais e os pais usarem o "só amanhã", a criança perceberá que não domina o mundo. Isso será importante no aprendizado de conteúdo lógico, como música, matemática ou idiomas. A habilidade perde força aos 10 anos

Música

HABILIDADE: a criança torna-se apta a relacionar notas e sons e a distinguir instrumentos musicais diferentes. Um estudo feito com músicos de uma orquestra sinfônica alemã mostrou que os mais hábeis eram aqueles que haviam se iniciado mais cedo no estudo formal de música
ESTÍMULO: basta ligar o equipamento de som, ou deixar a criança brincar com uma flauta doce, por exemplo. Se os pais percebem um interesse especial do filho pela matéria, podem matriculá-lo numa escola que reforce o ensino musical. Acredita-se que essa habilidade pode ser adquirida principalmente até os 10 anos

Língua

HABILIDADE: apesar de a criança ter a capacidade de distinguir os diferentes sons da sua própria língua e os de línguas diferentes desde o primeiro ano de vida, seu cérebro só está completamente preparado para aprender um segundo idioma a partir do quarto ano de idade
ESTÍMULO: acredita-se que quem estuda idiomas nessa fase tem quatro vezes mais chance de aprender que um adulto. Como a criança não tem como demonstrar interesse pelo tema, o único estímulo conhecido é matriculá-la numa escola. A habilidade diminui após os 12 anos de idade

Esportes
HABILIDADE: a criança já venceu os desafios programados em seu desenvolvimento motor, como andar, sentar, correr. Está pronta para iniciar atividades de coordenação fina, que precisam de treino e aprendizado, como amarrar os cadarços e praticar atividades esportivas como natação e jogos com bola
ESTÍMULO: se você é sócio de um clube, já pôde perceber se seu filho gosta de algum esporte. Se não é, já o escutou falando sobre algum esporte em particular. Por que não matriculá-lo num curso? Mas, antes de fazê-lo, um cuidado: não descarregue sobre seu filho as suas frustrações esportivas. A habilidade se reduz depois dos 12 anos




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