Parto

Cesária demais

As mulheres e os médicos estão exagerando na dose

Ano após ano, o Brasil se distancia no posto de campeão internacional de cesárias. Como é um país em desenvolvimento, há uma razoável justificativa para um índice mais elevado do que o resto do mundo. Os hospitais públicos, que fazem a maioria dos partos, recebem mulheres que estão para dar à luz sem que tenham feito nenhum exame pré-natal. "O médico fica sem saber se a paciente está esperando um ou mais filhos, se o bebê está sentado ou pronto para nascer. Nessa hora, fazer a cesária é um procedimento a favor da vida", diz o ginecologista Pedro Luiz Lacordia, do Hospital São Paulo, um estabelecimento público. É um dado a ser considerado, mas o índice de cesária no Brasil cresce principalmente nos hospitais mais chiques, privados. Nesses, a cesária é a opção escolhida em oito de cada dez partos. São casos como o da psicóloga mineira Lúcia Autran Dourado, de 31 anos. Ela decidiu que seu filho iria nascer de cesária assim que soube que estava grávida. "Pensei na minha comodidade", explica. "Ficava angustiada em imaginar as dores do parto e, ao mesmo tempo, queria programar minha agenda de trabalho para ter o bebê em Belo Horizonte, onde está minha família."

Medo da dor é uma das razões que têm levado as mulheres a escolher a cesária. Outra é o conforto do médico, que não quer ficar até doze horas esperando para fazer uma criança nascer de modo normal, se pode conduzir três ou quatro cesárias no mesmo tempo. Mas não há nenhuma justificativa técnica para isso. A cirurgia tem indicações precisas: sempre que a mãe ou o bebê correm algum tipo de risco. Fora essas situações, ela é desnecessária e, comparada com o parto normal, tem desvantagens gritantes. A mortalidade materna é de duas a quatro vezes maior e o risco de infecções cresce sete vezes. Após a cesária, a mãe fica sonolenta por causa da anestesia, está mais dolorida e não pode dar ao filho a atenção que gostaria. O bebê também é prejudicado. Nada menos do que 70% das crianças que nascem de cesária apresentam problemas respiratórios de algum grau. O parto normal garante um nascimento mais saudável.

Por que o humor da grávida oscila tanto?

O corpo passa por uma revolução hormonal, no momento em que a mulher está tomada por dúvidas e medos

Apesar de todos os avanços da obstetrícia, a Europa nunca deixou de ter como primeira opção o parto normal. Na França, 20% a 30% dos partos são feitos por parteiras na própria casa da grávida. Na Inglaterra, são oferecidas à gestante diversas opções de parto — natural, de cócoras, na água --, mas a cesária nem sequer é mencionada. Será uma decisão do médico em caso de necessidade. Também lá, assim como na Alemanha e na Holanda, são as parteiras que acompanham a gestante desde o pré-natal até a hora do nascimento. O médico só é chamado quando necessário. No Brasil, a decisão virou uma opção como escolher, em um restaurante, a ala de fumantes ou não fumantes. Falta critério científico.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line