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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Moisés Naím

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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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Por estar distante do
epicentro da crise global
desencadeada pelos
atentados, a América Latina
vai ser uma vez mais esquecida?

O maior risco para
a América Latina é
continuar invisível

No fim de 2001, São Paulo, a Cidade do México e Buenos Aires tiveram de competir pela atenção mundial com Cabul, Kondoz e Kandahar. E perderam. Isso é natural e talvez não tenha importância. Daqui a uns meses, essas cidades do Afeganistão, e tudo o que significam, serão tão remotas e esquecidas como hoje estão as cidades de Kosovo ou da Somália que, em seu momento, também ocuparam a atenção mundial. Lamentavelmente, é possível que a invisibilidade mundial que se abateu sobre a América Latina e o Caribe no fim deste ano persista quando a guerra no Afeganistão tiver deixado de ser o tema central e Osama bin Laden estiver morto ou desaparecido.

A América Latina não é considerada parte importante dos problemas que vão preocupar, em 2002, os países mais influentes do mundo nem parte importante de suas soluções.

O 11 de setembro introduziu novos temas na agenda política mundial e acelerou tendências econômicas internacionais que já existiam. A guerra ao terrorismo e a recessão econômica na maior parte do planeta são experiências para as quais a década de 90 não havia preparado o mundo. Então, para esse mundo mais preocupado em neutralizar as redes globais de terroristas suicidas e em reativar as economias anêmicas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, as necessidades e as oportunidades da América Latina ficam ainda mais invisíveis do que normalmente já são.

Essa invisibilidade não constitui nenhuma catástrofe, mas é um problema. Que a prioridade política ou militar que Washington ou Bruxelas atribuam à América Latina seja mínima não é tão grave. Mas que as bolsas de Nova York e de Londres não tenham a América Latina em suas telas de radar, a não ser para se protegerem da Argentina, isso, sim, é mais preocupante.

Mudou o mundo depois de 11 de setembro? Sim e não. Ainda é cedo para identificar quais as conseqüências mais permanentes e quais serão passageiras. Poucos dias antes dos ataques terroristas, Vicente Fox, presidente do México, era recebido com festa pelo presidente Bush como o melhor amigo dos Estados Unidos. Na campanha eleitoral, Bush não soube responder ao jornalista gaiato que lhe perguntou quem era o presidente do Paquistão, país que os EUA castigavam com sanções econômicas e isolamento político. Depois de 11 de setembro, Vicente Fox desapareceu do noticiário e da cabeça do governo americano, enquanto Pervez Musharraf virou um aliado crucial dos EUA. Quase instantaneamente, a ajuda econômica e os empréstimos do Banco Mundial substituíram as sanções e o isolamento do Paquistão.

Será essa recomposição de prioridades dos Estados Unidos uma conseqüência permanente de 11 de setembro? Não. A geografia e as realidades geopolíticas não são assim tão voláteis. O atentado terrorista não mudou o fato de que os EUA têm uma extensa fronteira com o México, que o tratado de livre comércio faz do México um sócio permanente e que os mexicanos que vivem nos EUA se tornam rapidamente uma das minorias de maior influência política. A longo prazo, esses três fatores garantem para o México um lugar de relevo na agenda americana. Mas no momento não.

Por ora, as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos são avançar na guerra ao terrorismo, fortalecer suas defesas ante novos ataques, controlar a efervescência no Oriente Médio e consolidar suas novas e melhores relações com a Rússia e a China. E, naturalmente, reativar a economia. Não quer isso dizer que outros objetivos sejam abandonados. Até é possível que, no âmbito formal e retórico, outros objetivos continuem sendo mencionados como muito importantes, talvez mesmo como prioridades do governo Bush. Mas não nos iludamos com retórica. Uma coisa são as prioridades fundamentais, outra são os objetivos atraentes. Montar um tratado de livre comércio em todo o continente continua sendo um objetivo atraente para os EUA. Mas não é uma prioridade fundamental. Pelo menos comparado com o objetivo de garantir que a monarquia da Arábia Saudita não sofra o mesmo destino do xá do Irã e se veja substituída por um regime fundamentalista islâmico. Ou, comparado com a necessidade de desmantelar todos os laços da Al Qaeda fora do Afeganistão, de tornar a China um aliado estratégico e não um rival conflituoso, de a Rússia não ser uma ameaça nuclear ou o Iraque uma ameaça biológica. Esses não são objetivos interessantes, são prioridades fundamentais a que se subordinam todos os demais objetivos, por mais atraentes que sejam.

É bem verdade que avançar nessas prioridades fundamentais não impede tratar de atingir outros objetivos menos cruciais. Teoricamente é possível, digamos, amarrar um tratado continental de livre comércio ao mesmo tempo que se manobra a transição árabe-saudita. Teoricamente. Na prática, o capital político, os recursos humanos e os meios de organização de qualquer governo, mesmo um tão rico quanto o dos Estados Unidos, têm limites. Nada mais escasso que o tempo de um presidente e de seus ministros, nem algo mais congestionado que a agenda de um Congresso como o americano. A falta de tempo do presidente e de seu gabinete ou a impossibilidade de incluir assuntos na pauta de discussões e deliberações do Congresso são questões poucas vezes consideradas na análise das forças que determinam a conduta internacional dos EUA. Mas na prática esses engarrafamentos que parecem triviais são os fatores que definem com a maior precisão que objetivos importantes, sem nenhuma contradição, é necessário adiar.

Muitos dos objetivos relacionados com a América Latina serão, portanto, adiados em 2002. Na América Latina, aparecem apenas dois candidatos à atenção de alto nível e a algum tipo de reação por parte dos EUA no futuro próximo: a Colômbia e a Venezuela.

A piora do conflito armado na Colômbia e a clara possibilidade de que as guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) avancem no controle do território colombiano a ponto de pôr em perigo a sobrevivência do governo de Bogotá poderiam motivar uma ação americana, provavelmente por intermédio de outros países do hemisfério. A intensificação e a exportação do ativismo antiamericano de Hugo Chávez na Venezuela e uma guerra civil prolongada ali poderiam resultar em reação similar. Essas duas crises são possíveis, mas, no momento, pouco prováveis.

Coisa que também parece pouco provável é a assinatura de um tratado de livre comércio na América Latina. Essa improbabilidade não resulta apenas da concentração do governo americano em outros objetivos mais prioritários. Vem também do pouco apoio político nos EUA a essa idéia e da precariedade das economias que são os atores fundamentais de um possível acordo. A experiência mostra que os principais ingredientes para o êxito da integração econômica não são a vontade política ou a freqüência dos encontros presidenciais. É a estabilidade macroeconômica dos países que devem participar dessa integração. O progresso do Mercosul, por exemplo, não foi freado pela falta de vontade política, mas pela volatilidade macroeconômica de seus membros principais. Infelizmente, volatilidade macroeconômica continuará sendo uma característica da América Latina nos anos vindouros.

Uma das características dos anos 90 foi que, de quando em vez, algum país do mundo sofreu um colapso financeiro. Todos pegaram de surpresa banqueiros, governos, políticos, acadêmicos e demais especialistas de fama mundial voltados para o assunto. Além disso, todos esses terremotos financeiros tiveram efeitos surpreendentes e imediatos em outros países, mesmo os que, situados em outro continente, não mantinham muitas relações econômicas com os atingidos. O Brasil, por exemplo, sofreu mais com a crise financeira russa de 1998 que com o crash financeiro do México em 1995. A América Latina ainda não se recuperou de todo dos efeitos da crise asiática. E agora deve sofrer as conseqüências da mãe de todas as crises: o colapso dos investimentos americanos em empresas ligadas à nova economia, em particular à internet. O superinvestimento em bens de capital relacionados com empresas destinadas a beneficiar-se da nova economia não é a causa única da recessão americana. Mas é a principal. A falência de muitas dessas empresas, a queda da confiança dos investidores, a perda de 3 trilhões de dólares de capital nas bolsas de valores e seu efeito sobre a propensão de consumo conjugaram-se para que, depois de 120 meses seguidos de crescimento (de março de 1991 a março de 2001), a economia americana começasse a encolher. Os ataques terroristas de 11 de setembro naturalmente contribuíram para agravar os problemas econômicos dos EUA.

Ainda não se sabe quanto, quando e onde se farão sentir os efeitos da recessão americana. Sabemos, sim, que a América Latina já os sente e que 2002 será um ano péssimo para as economias do hemisfério, especialmente as que já se apresentavam débeis. Por azar, as más notícias vêm de todos os lados. Os preços internacionais dos produtos que a América Latina exporta estão baixos demais porque se contraiu a demanda mundial de minérios e de commodities em geral. Também o turismo caiu drasticamente, o que afeta particularmente os países do Caribe e o México. As remessas de fundos por parte dos imigrantes latinos que vivem nos EUA para a família na América Latina também cairão, já que o desemprego americano reduzirá as fontes de emprego e de renda dos latinos.

O mais sério, porém, é que uma vez mais governos e empresas latino-americanos enfrentarão enormes problemas no financiamento internacional de que tanto dependem. É bem verdade que uma das boas notícias é que a recessão mundial trouxe como conseqüência uma forte queda nas taxas de juros. Mas não para os governos e empresas latino-americanos que requerem capital novo. As multinacionais, a principal fonte de investimento estrangeiro direto, ainda digerem os efeitos da recessão, cortando orçamentos de inversão e analisando as conseqüências que o estado da segurança pós-11 de setembro terá sobre suas operações internacionais. Os investidores institucionais e os fundos de investimento ainda não se recuperaram das perdas sofridas no colapso de suas aplicações na nova economia. Um mundo onde os investidores pareciam ignorar o que fosse o risco e se mostravam dispostos a investir somas imensas em empresas da internet sem ativos tangíveis e sem lucros previsíveis deu lugar a outro em que os investidores vêem perigos e riscos em toda parte, mesmo onde não existem. É também um mundo onde antes se premiava a velocidade e agora se premia a cautela, a paciência. Por que investir agora na América Latina se ainda não sabemos que conseqüências terá o colapso da Argentina?, perguntam-se os investidores. A probabilidade de que minhas aplicações na América Latina, dentro de seis meses, valham mais é muitíssimo menor que a de valerem menos, observa outro. Daí, entre ele e muitos outros colegas, a decisão mais comum é não investir na América Latina. Por ora.

Nesse sentido, é muito importante que o desenlace da crise argentina seja absorvido. Só depois de analisadas as conseqüências do "grande evento" e suas ondas de choque em outros países a situação se encaminhará para a normalidade. Uma boa surpresa possível é que o contágio desse "grande evento" cujo epicentro é a Argentina não seja nem tão profundo, nem tão longo, nem tão disseminado por outros países como muitos esperam. Para haver contágio é preciso haver surpresa. Ora, desde meados do ano que passou a possibilidade de a Argentina sofrer um acidente financeiro de vulto não era mais surpresa. Mas também é certo que, se os investidores internacionais em bônus argentinos considerarem muito grandes suas perdas, esse sentimento poderá afetar a confiança do mercado nesse tipo de bônus no âmbito mundial.

Por outro lado, também é possível divisar sinais encorajadores para certas economias da América Latina. No início dos anos 90, houve um boom de afluxo de capitais na região. As reformas econômicas daquela época serviram de ímã para capitais que eram expulsos das economias européias por taxas de juros muito baixas. A década de 2000 começa também com taxas de juros ainda mais baixas e com investidores que, mais cedo ou mais tarde, recuperarão algo de seu apetite pelo risco. Muitos não tolerarão por longo tempo que seu dinheiro renda 3% ao ano. A América Latina hoje não causa o entusiasmo que as reformas econômicas produziram naquele momento. Mas agora tem algo melhor: preços baixíssimos. Empresas familiares e grupos econômicos que precisam de capital para crescer e aumentar sua competitividade estão à venda total ou parcialmente por preços muito atraentes. Os preços de edificações, fábricas, equipamentos e terras produtivas podem ser o ímã que atraia parte dos investidores que buscam maior rendimento para seu dinheiro. Esses investidores não irão aos países mais instáveis, àqueles cujo governo não consiga estabilizar a economia ou onde as leis repelem o investimento estrangeiro, em vez de atraí-lo. Mas na América Latina a maioria dos governos empenha-se em criar um clima atrativo ao investimento. Essa é uma grande lição dos anos 90 que não se perdeu. E é aprendendo que a América Latina pode evitar ser financeiramente invisível nos próximos anos.

 

Moisés Naím
Venezuelano, economista e editor da revista Foreign Policy, em Washington



 
 
   
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