Fábrica de Quadrinhos
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Qual o impacto dos
atentados sobre o
processo de globalização?
As escolhas individuais
vão
derrotar a recessão
Em que pesem
as muitas notícias econômicas negativas que foram divulgadas
de 11 de setembro em diante, o mercado acionário parece estar se
sustentando bem. Desde o abismo negativo de setembro, o índice
Standard & Poor's 500 da bolsa americana subiu 18%. O índice
Bovespa acumulou ganhos de 28% no mesmo período. Esse sinal de
vida significa então que deveríamos ignorar as sirenes de
alarme e adotar uma atitude francamente otimista com relação
ao desempenho da economia em geral? Afinal de contas, o mercado de ações
é um dos indicadores mais confiáveis. A história
recomenda que se observe o comportamento do mercado acionário nesses
momentos. Em duas das três recessões dos últimos cinqüenta
anos em que o mercado subiu nos primeiros seis meses, a recessão
durou menos de nove meses. Em quatro das cinco recessões dos últimos
cinqüenta anos em que o mercado caiu nos primeiros seis meses, a
recessão durou mais de nove meses.
Infelizmente,
quando usamos o funcionamento pregresso do mercado acionário como
ferramenta para prever se estamos saindo da recessão, os sinais
não são muito animadores. Tendo em vista que a economia
começou a se estagnar em março último, estamos então
em seu décimo mês. Caso estivéssemos diante de uma
recessão curta, ela já deveria ter terminado. Mas observemos
o comportamento do mercado desde que a recessão começou.
Apesar da forte arregimentação ocorrida depois de 11 de
setembro, o índice Standard & Poor's 500 caiu 3% de março
para cá e 9% desde maio, quando o PIB atingiu seu ponto mais alto
no ano. O índice Bovespa está 8% negativo desde março
e 9% desde maio. Se o comportamento do mercado a partir de março
ou de maio for usado como o principal indicador, essa medição
poderia sugerir que a estagnação atual será mais
longa que o normal.
No entanto,
o mais acertado seria concluir que os sinais emitidos pelo mercado não
são muito confiáveis como o principal indicador dos rumos
e da temperatura da economia. As perspectivas econômicas para 2002
e os próximos anos estão marcadas por incertezas fora do
comum. A razão disso está no passado recente. Os dois eventos
econômicos preponderantes que nos colocaram onde estamos hoje até
então nunca tinham ocorrido ao mesmo tempo. O primeiro evento é
o fim da "exuberância irracional". O índice Nasdaq aumentou
em seis vezes seu valor de 1995 a 2000, representando o surgimento de
expectativas incomuns para a nova economia. Em seguida, caiu dois terços,
o que marcou o fim daquelas expectativas irracionais. O único exemplo
comparável de uma bolha e de seu subseqüente estouro tão
dramático foi a famosa quebra da bolsa em 1929.
O segundo
evento preponderante foram os atentados de 11 de setembro, os ataques
bacteriológicos das semanas seguintes e a ameaça perene
de que os Estados Unidos e outros países do Ocidente sofram mais
atos terroristas. Essas investidas criaram uma incerteza inusitada. Elas
desencadearam uma onda de sentimentos patrióticos semelhantes àqueles
motivados pelas grandes guerras. Ocorre que esses sentimentos não
foram obviamente acompanhados pelos estímulos econômicos
que em geral vêm associados a períodos de grande mobilização
militar. Na verdade, o Congresso americano até agora não
conseguiu entrar num acordo sobre como seria esse pacote de estímulos.
É
natural que se queira tomar a recessão em que nos encontramos agora
como mais uma de uma longa lista. E é natural que se procurem padrões
nas recessões anteriores que possam servir de indicativo para o
que vai ocorrer desta vez. Nem sempre o que nos parece natural, porém,
é correto. Além de não haver precedentes históricos
que se encaixem exatamente sobre os acontecimentos recentes, o venerando
conceito de recessão nem sempre é uma boa maneira de organizar
as idéias.
O termo
"recessão" (ou contração) foi definido de maneira
clara, pela primeira vez, por Arthur Burns e Wesley Clair Mitchell num
livro de 1946 intitulado Medindo os Ciclos Econômicos. Foi
uma obra de grande influência, e até hoje os dados sobre
recessão usados pelos economistas são meras atualizações
da famosa Tabela 16 de Burns e Mitchell. Como se tratasse de um homem
altamente estimado por seu trabalho erudito a respeito dos ciclos econômicos,
Burns era um candidato natural à presidência do Fed, o banco
central americano, posição que ocupou de 1970 a 1978. Mas
ele não foi um dirigente bem-sucedido. Burns baixou de tal forma
as taxas de juro que elas se tornaram nitidamente negativas ao mesmo tempo
que a economia vivia um momento inflacionário peculiar. Isso numa
ocasião em que o país enfrentava a maior onda inflacionária
de sua história fora de um período de guerra. Além
disso, o douto presidente do Fed foi pego de surpresa por uma grande crise
de energia e por um ciclo vicioso de expectativas inflacionárias.
Foram fenômenos igualmente sem precedentes naquele período
histórico. Talvez por isso, nem todas as fabulosas análises
estatísticas de ciclos econômicos anteriores feitas por Burns
foram capazes de ajudá-lo a entender o que estava ocorrendo na
economia.
Um novo
termo para a recessão de 1973-1974 e a seguinte se popularizou:
a temida palavra "estagflação", que se referia a uma estagnação
econômica desencadeada ao mesmo tempo que um período de inflação
alta. As barbeiragens da política econômica de Burns que
alimentaram a inflação tiveram de ser desfeitas pelo presidente
seguinte do Fed, Paul Volcker. O custo da correção de curso
foi a mais pronunciada estagnação econômica americana
desde o pós-guerra, a recessão de 1981-1982.
O que nos
ensinam os passos errados de Burns? Entre todos os presidentes do Fed,
foi ele quem presidiu o maior fracasso econômico. Esse seu fracasso
não é necessariamente uma refutação teórica
do conceito de "recessão" que ele ajudou a criar. O caso Burns
indica, porém, que devemos ao menos ser cautelosos quando tentarmos
generalizar e passar de acontecimentos econômicos anteriores aos
atuais. Cada recessão é distinta das demais, e esta agora
é, sem dúvida, a mais diferente. No momento, enfrentamos
uma grande incógnita e não sabemos qual será a evolução
do consumo e dos investimentos nos próximos anos. Será que
os consumidores cortarão ainda mais os gastos devido às
ameaças terroristas? Será que continuarão reduzindo
despesas com viagens e férias? Será que irão cortar
a demanda por imóveis e forçar a queda dos preços,
ampliando ainda mais o declínio da riqueza total do país?
Ou será que uma vitória espetacular sobre o terrorismo conseguirá
restaurar de repente o bom humor de todos? Será que aqueles antigos
sentimentos puramente patrióticos conseguirão no fim das
contas incentivar o consumidor a gastar?
E, com relação
às empresas, elas se tornarão pessimistas demais para lançar
campanhas, investir dinheiro em novas fábricas e equipamentos,
contratar e treinar funcionários? Os empreendedores estarão
ainda dispostos a se comprometer em aventuras arriscadas que lhes sugarão
tempo e energia emocional em troca de possíveis recompensas incertas
no futuro? Ou encontrarão oportunidades e coisas emocionantes para
fazer em época de grandes mudanças?
Essas são
perguntas que não podem ser respondidas tomando-se por base padrões
observados durante recessões passadas. Não estamos condenados
a repetir a história. Felizmente. O que acontecerá daqui
para a frente depende das escolhas que fizermos hoje. Depende do tipo
de pacote de estímulos econômicos que o Congresso nos der.
Depende da decisão de cada um de nós de levar adiante nossos
negócios, apesar da incerteza atual.
Robert
Shiller
Professor de economia e finanças na
Universidade Yale e autor de Exuberância Irracional
Tradução
de Beth Vieira
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