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Edição 1 733 - 9 de janeiro de 2002
Artigos Amir Taheri

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Índice
Amir Taheri
É possível a integração dos países islâmicos ao mundo moderno?
Ahmad Dallal
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Todd Gitlin
O antiamericanismo tende a se dissipar no mundo depois dos atentados de 11 de setembro?
Robert Wright
O Islamismo é uma religião violenta?
Walter Laqueur
O terrorismo pode ser vencido?
Jacob Weisberg
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Robert Shiller
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Sir Michael Rose
O que a luta contra o terrorismo pode ensinar às potências políticas e militares?
Dominique Schnapper
Os jovens muçulmanos da Europa podem se integrar à vida local?
Jacques Le Goff
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Victor Bulmer-Thomas
Qual o impacto dos atentados sobre o processo de globalização?
Moisés Naím
A América Latina vai ser mais uma vez esquecida pelos países ricos?
Gustavo Franco
O papel do governo voltou a ser louvado. Qual o significado disso?
Fernando Henrique Cardoso
O que as mudanças no cenário mundial em 2001 significam para o Brasil?

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É possível a integração
dos países islâmicos ao
mundo moderno?

O ódio dos
muçulmanos ao
Ocidente é
cultivado por governos e imprensa

Ainda que a maioria não goste de admitir, porque seria pouco polido, pouco político, ou ambos, o fato é que existe no mundo muçulmano um sentimento de raiva contra o sistema global regido por um punhado de potências ocidentais, sobretudo pelos Estados Unidos.

Fingir, como faz o primeiro-ministro inglês, Tony Blair, que a guerra contra o terrorismo não tem nada a ver com o Islã é, no mínimo, ingenuidade. Tampouco a afirmação do presidente George W. Bush de que o Islã é uma "religião de amor e misericórdia" reflete a realidade existencial do islamismo de hoje.

Quase todo muçulmano acha que não teve papel algum na configuração do sistema mundial em vigor, na fixação de seus valores, na montagem de suas regras. Fascinados pelo mundo contemporâneo, alguns também se assustam com ele. E reagem de maneiras diversas.

 
Fotos Reuters
OVOS DA SERPENTE
Há indícios de que os terroristas que atacaram os Estados Unidos em 11 de setembro foram chefiados pelo egípcio Mohamed Atta (foto maior). Numa hipótese perversa, aventada no vídeo em que Osama bin Laden confessa ter conhecimento dos crimes e sugere tê-los planejado, alguns dos terroristas árabes não saberiam que se tratava de uma missão suicida. Só os pilotos dos aviões seqüestrados que se chocaram contra as torres gêmeas e o edifício do Pentágono, em Washington, sabiam da natureza do ataque. Os demais foram levados a pensar que o seqüestro lhes renderia um bom dinheiro e uma aposentadoria segura em algum país árabe que dá guarida a terroristas islâmicos. Atta e os comparsas aprenderam a pilotar nos Estados Unidos e freqüentaram escolas técnicas na Alemanha

A imensa maioria responde tentando minimizar seu contato com o mundo dominado pelo Ocidente. Mesmo os muçulmanos que vivem na Europa e na América do Norte procuram criar refúgios seguros – mentais, culturais, por vezes físicos, para não dizer guetos.

Medo do Ocidente e fascínio diante de suas realizações são temas constantes em praticamente todos os níveis do discurso islâmico. Lá estão, em quase todos os sermões das mesquitas, da Indonésia ao Marrocos, passando pela Europa e pelas Américas.

Os mais serenos desses sermões buscam marcar a distância entre o Islã e o Ocidente sem necessariamente incitar ódios. As versões mais radicais, porém, retratam o Ocidente como uma civilização baseada em cobiça, materialismo, corrupção e, pior, falta de religião. Apresentam o Islã como "a única fé verdadeira" e "a última chance para a humanidade" salvar-se da degeneração moral e da destruição completa. Quanto mais causticantes os ataques ao "Ocidente podre", mais altos os brados de "Allah Akbar" ("Alá é grande") nas multidões eletrizadas das preces de sexta-feira.

 
Reuters
O EFEITO DOMINÓ
Manifestações foram orquestradas pelos tradicionais inimigos dos Estados Unidos no mundo, em especial por ex-comunistas ainda pesarosos da derrocada da União Soviética, há dez anos. Em países como a Indonésia, o antiamericanismo se fundiu com o ressentimento religioso islâmico. O resultado foram greves gerais, tumultos de rua e protestos violentos produzidos por estudantes como o da foto, que freqüenta a Universidade da Indonésia em Jacarta

Durante a Guerra Fria, parte do repúdio muçulmano ao mundo moderno voltou-se contra o bloco soviético, execrado por seu ateísmo. De lá para cá, os Estados Unidos tornaram-se o alvo principal. Muitos ex-comunistas de origem muçulmana disfarçam agora seu ódio ao "imperialismo" americano como atos de "autodefesa cultural do Islã".

A raiva do Ocidente reflete-se nos livros didáticos em todo o mundo muçulmano. Muitas vezes eles oferecem uma visão acanhada da história, na qual a experiência das Cruzadas e do colonialismo define as relações atuais entre o Islã e a cristandade. Afastam-se o mais possível da "ciência ímpia" do Ocidente, insistindo em que todas as "boas ciências" provêm dos muçulmanos de séculos atrás.

Às publicações didáticas somam-se dezenas de livros de intelectuais muçulmanos que frisam o tema antiocidental de modo por vezes francamente vulgar. Numa recente feira de livros pan-islâmica em Doha, a capital do Catar, contamos mais de 100 títulos com temas contra o Ocidente e os judeus.

Boa parte da mídia do mundo muçulmano ganha dinheiro com o sentimento antiocidental. Quase sempre, mais por oportunismo comercial dos donos e gerentes da mídia que por análise refletida.

O fato de praticamente todo o produto cultural do mundo islâmico, da literatura ao cinema, à música, à arquitetura, ser obra de leigos aprofunda o senso de isolamento das massas muçulmanas, mesmo em seus países.

Para se distinguirem, muitos muçulmanos passaram a fazer uso da aparência física. Os homens deixaram crescer barbas hirsutas e as mulheres adotaram um pano especial na cabeça semelhante ao utilizado pelas freiras católicas, adereço até meados da década de 70 desconhecido no Islã. Muitos homens também adotaram o traje paquistanês (uma camisa comprida chamada qamis) e o gorro típico de algodão, modas, de novo, só lançadas nos anos 70.

Mais importante ainda, houve uma explosão no número de muçulmanos que mandam os filhos a escolas corânicas, em tempo integral ou de meio período. Mesmo na Europa, sempre que possível, muitos fazem questão de uma educação separada para meninos e meninas e organizam para eles cursos especiais. O objetivo desses cursos é "proteger as crianças" da contaminação de idéias ocidentais. Em diversas escolas para meninas muçulmanas na Inglaterra, os professores homens dão aula atrás de uma cortina, para não ver as alunas.

Nem todos os radicais defendem a violência, inclusive o terrorismo, para combater o Ocidente. A galáxia de organizações terroristas do mundo islâmico talvez se resuma a alguns milhares de homens espalhados por vários países. Mas, usando a analogia das bonecas matrioshkas russas, esses minúsculos grupos de terror estão lá no fundo das grandes comunidades.

Essas comunidades talvez não aprovem os métodos dos terroristas, mas certamente simpatizam ao menos com alguns de seus objetivos. A maioria dos muçulmanos com quem se fala no assunto condena os ataques de 11 de setembro a Nova York e a Washington. Porém em seguida argumentam por uma "compreensão" que, às vezes, beira a justificação. Argumento típico: os responsáveis pelo 11 de setembro erraram. Mas foram forçados ao extremismo pelo apoio dos Estados Unidos a Israel, que oprime os palestinos.

Claro que a questão de Israel não é o único motivo para "compreender" os atos terroristas em nome do Islã. Em 1979, os mulás montaram a tomada da embaixada americana em Teerã e fizeram reféns seus diplomatas não por causa de Israel, mas porque queriam que os Estados Unidos prendessem o ex-xá, hospitalizado em Nova York. Em 1983, terroristas islâmicos assassinaram cerca de 300 fuzileiros navais americanos que dormiam, em Beirute, não por causa de Israel, mas porque os EUA intervieram para ajudar Yasser Arafat a escapar de uma armadilha mortal montada por Ariel Sharon! O atentado aos fuzileiros foi organizado pela Síria e pelo Irã, que também queriam Arafat morto – ainda que por motivos próprios! Os soldados americanos que participavam da força de paz na Somália foram mortos não por causa de Israel, e sim porque tentaram prender o criminoso de guerra Mohamed Aidid, em nome das Nações Unidas.

Mesmo que Israel seja varrido do mapa, radicais haverá no mundo muçulmano convencidos da missão divina de uma "guerra santa" contra o Ocidente liderado pelos Estados Unidos.

Eles odeiam a democracia – qualificada por Khomeini como "forma de prostituição" – e os escandaliza o conceito de direitos humanos que trata como iguais homens e mulheres, crentes e não-crentes.

O radicalismo islâmico rega o solo no qual crescem e prosperam movimentos terroristas. A violência não se limita a degolar alguém num avião seqüestrado. Também vem sob a forma de campanha de ódio em sermões, livros, artigos de jornal e programas de rádio e televisão. É desnecessário dizer que as primeiras vítimas dessa violência são os muçulmanos que não se submetem aos radicais.

O radicalismo islâmico recruta quase todo o seu pessoal na classe média e nas camadas ricas das sociedades muçulmanas. Dizer que o terrorismo é a arma dos pobres não é verdade. Entre meados da década de 60 e fim dos anos 70, quase todos os grupos terroristas operantes no Islã foram criados e controlados por governos, sobretudo do Egito, da Síria e do Iraque. O grupo Fatah, de Yasser Arafat, nasceu de um cheque de 50 000 dólares do emir do Kuwait, em 1967. Todos os dezenove terroristas dos ataques de 11 de setembro a Nova York e Washington vinham de família abastada. Quinze eram da Arábia Saudita, o país mais rico do mundo muçulmano, enquanto dois outros eram cidadãos dos Emirados Árabes, que têm um PIB per capita de quase 20 000 dólares.

Novidade é a "privatização" do terrorismo no mundo islâmico, a partir dos anos 80, simbolizada pelo surgimento de grupos não controlados por nenhum Estado.

No momento, as organizações terroristas muçulmanas podem ser divididas em três categorias. A primeira é composta de grupos que são, pelo menos em parte, controlados por algum Estado. É o caso do Hezbollah, com filiais em dezessete países muçulmanos e forte presença de agentes "dormentes" na Europa, sobretudo na Alemanha, nos Estados Unidos e na América do Sul. Criado pelo serviço secreto iraniano, o movimento é financiado por Teerã. Já seu ramo libanês é obrigado a "consultar" também Damasco nas decisões-chave, quando mais não seja porque a Síria ocupa o Líbano, com cerca de 40 000 soldados. Outro exemplo é o grupo dos Combatentes do Povo, financiado e controlado pelo Iraque, que também controla o que restou do bando de Abu Nidal. Ainda nessa primeira categoria seria possível incluir uma série de organizações palestinas menores, em geral de esquerda, estabelecidas na Síria e controladas por Damasco. O Tehrik Jaafari (Movimento Xiita Jaafarita), do Paquistão, entra nessa categoria por causa das ligações financeiras e políticas que tem com Teerã, que também controla vários grupos menores, inclusive o bando Imad Mughniyah, no Líbano, e o Partido da Ação Islâmica, do Iraque. O Sudão fundou e continua a financiar o Congresso Popular do Povo Muçulmano e seus rebentos terroristas.

A segunda categoria de grupos que empregam o terrorismo é a dos que se concentram em questões específicas. Nela entram várias organizações palestinas, formadas por gente disposta a matar israelenses inocentes, mas que não opera contra outras nacionalidades e países. Também se poderiam incluir nessa categoria os grupos que lutam por autonomia ou independência na Caxemira, na Chechênia, em Xinjiang, no vale Fergana (Uzbequistão-Quirguistão), nas Filipinas e em várias ilhas indonésias.

Esses, e outras duas dúzias de grupos parecidos, ativos em partes da África, de Zanzibar à Nigéria, recorrem a táticas terroristas apenas contra inimigos locais.

A terceira categoria é composta de grupos terroristas pan-islâmicos que fazem uma guerra global contra os "inimigos do Islã", reais ou imaginários. Os EUA identificaram essa terceira categoria com um único homem: Osama bin Laden, um milionário saudita que, a certa altura da vida, participou de um esquema anti-soviético liderado pela CIA no Afeganistão. Mas o movimento armado islâmico vai muito além de Laden. Seus integrantes são vistos lutando ao lado da UCK em Kosovo e na Macedônia, onde Mohamed, o irmão mais moço de Aiman al-Zawahiri, tido como o herdeiro de Laden até ser morto no Afeganistão, comanda uma das unidades. E também são vistos combatendo numa dezena de outras frentes, de Sumatra à Argélia, passando pela Chechênia e Líbia. O movimento pan-islâmico terrorista criou uma teoideologia própria, baseada no wahabismo, versão radical do islamismo formulada inicialmente no século XVIII. Essa teoideologia se chama salafismo e é o alicerce da rede global tecida nos últimos 25 anos.

A Al Qaeda ("a base") de Laden, como o nome indica, era uma espécie de quartel-general do movimento armado mundial salafi. A Al Qaeda tinha cerca de cinqüenta acampamentos grandes e pequenos no Afeganistão. Alguns, como Badr I, Badr II e Abu Khabab, eram quartéis de grande porte, capazes de receber milhares de soldados a qualquer momento. O cerne do exército particular de Laden não deve ter passado de algumas centenas de homens comandados por seu segundo filho, Mohamed. Mas no passado o saudita fez uma série de alianças com comandantes irregulares afegãos e com chefes terroristas de uma dúzia de países árabes e chegou a dispor de uns 20 000 guerreiros no efetivo total. Além disso, a Al Qaeda ainda conta com uma rede de "células dormentes" em diversos países árabes e ocidentais.

Mencionem-se ainda vários grupos egípcios, entre os quais Anátema e Migração, Vanguardas da Vitória, Jihad Islâmica e Espada da Justiça. O grupo filipino Abu Sayyaf faz seqüestros e atua sobretudo em Mindanao. No entanto, alguns de seus integrantes têm combatido em outros teatros, inclusive no Afeganistão e no Uzbequistão.

Os maiores grupos salafis, contudo, têm base no Paquistão. Um deles é o Lashkar Taibah (Exército dos Puros), uma força, segundo se diz, de 50 000 homens. Suas operações se limitam, em princípio, a ataques contra xiitas paquistaneses e incursões ocasionais na Caxemira sob o domínio da Índia. Mas alguns de seus homens também combateram na Chechênia, no Daguestão, na Bósnia, em Kosovo e na Macedônia.

Vai mais longe, entretanto, o papel especial do Paquistão, que tem cerca de 70 000 escolas corânicas, financiadas pelos países petroleiros do Golfo Pérsico, onde 6 milhões de crianças são instruídas na versão mais militante do islamismo e preparadas para dedicar a vida à guerra santa.

O salafismo conseguiu dominar os movimentos radicais da Argélia, substituindo grupos mais tradicionais, como a Frente de Salvação Islâmica.

O Grupo Islâmico de Combate líbio, ainda que se dedique à derrubada do coronel Kadafi, também andou lutando em regiões muito distantes de sua base. Uma rede complexa de bancos, instituições de caridade, associações e empresas comerciais, dos quais só alguns têm ligação com Laden, apóia o movimento salafi e suas diversas facções armadas. Desmantelar essa rede pode levar anos.

O movimento terrorista contra o qual o presidente Bush declarou sua "cruzada" tem raízes profundas não só no Afeganistão e no Paquistão, mas numa dezena de outros países muçulmanos e em várias nações ocidentais, notadamente nos próprios Estados Unidos. Os EUA, na verdade, têm sido uma das principais fontes de recursos do salafismo, e isso desde o começo dos anos 80. Em 1985 houve em Dallas, no Texas, a maior conferência de líderes islâmicos radicais, a que estiveram presentes, inclusive, vários chefes terroristas ligados ao grupo de Laden.

Mesmo que Laden seja morto ou preso, com seus principais homens, o Ocidente ainda terá dois problemas cruciais. O primeiro é desmontar o polvo. O segundo é convencer o mundo muçulmano de que o sistema global, com todas as suas imperfeições, está aberto a todos. É nessa segunda frente que pode acabar sendo bem mais difícil vencer a guerra .

Amir Taheri
Iraniano, escritor e jornalista, editor da revista
Politique Internationale, publicada em Paris

Tradução de Beth Vieira

 
 
   
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