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BRASIL
Viagem às idéias do líder nas pesquisas
24 de agosto de 1994
O que FHC pensa do Real, de Itamar, da campanha, do PFL, da Constituição, o que ele quer e por quê
A virada foi rápida como um raio, fulminante como uma mudança de moeda. De repente, o candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, passou a dominar o panorama da eleição presidencial. Sua vantagem em relação ao candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, é de 10 pontos porcentuais, nas medições dos diversos institutos. Ele lidera em todas as classes e em quase todas as regiões - a exceção é o Nordeste, onde, na semana passada, prevalecia um empate técnico. FHC é um sucesso tão grande quanto o real.
Mas, ainda que pareça descabido, pergunta-se: em nome de que, mesmo, ele está concorrendo? Que causas, que posições? A poucas semanas da eleição, seu programa de governo não foi divulgado ainda. E não houve horário eleitoral de TV que lhe esmiuçasse o pensamento como se deve fazer com um pretendente tão forte ao primeiro cargo do país. Com esse objetivo, VEJA organizou, na quinta-feira passada, uma expedição à casa do candidato, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Inquirido por uma comitiva de quatro jornalistas da revista - Tales Alvarenga, Paulo Moreira Leite, Expedito Filho e Roberto Pompeu de Toledo -, ele não deixaria de ter razão se dissesse, ao final, que havia sido vítima de uma expedição punitiva. Pois a sabatina durou três horas e meia e só terminou por volta de meia-noite de um dia de campanha duro como todos. Eis a entrevista:
VEJA - Dá para ganhar no primeiro turno?
FERNANDO HENRIQUE - O jogo ainda está começando e é melhor botar as barbas de molho, mas para mim seria muito bom ganhar logo em outubro. Eu teria mais tempo na preparação para o governo. Não me preparei para ser presidente da República. Tomei a decisão de me candidatar pouco antes de deixar o Ministério da Fazenda.
VEJA - Corno se sente na posição de candidato sustentado pelo Real?
FERNANDO HENRIQUE - Obviamente, o Real tem sido um elemento importante. Mas a expectativa favorável a minha candidatura vem de antes do Real. Havia uma base de confiança, que eu conquistei como ministro da Fazenda. Nós estamos numa sociedade de massa. Nela, uma candidatura funciona quando o candidato e sintoniza com o sentimento da sociedade naquele momento. Eleição a gente ganha quando há eletricidade no ar.
VEJA - O senhor atribui ao Real quanto por cento dessa eletricidade que está aí nas pesquisas?
FERNANDO HENRIQUE - Pelo menos a metade é conseqüência de a sociedade ter visto que o Real não era blefe. No fundo é isso. Pesquisas anteriores mostravam que havia uma disposição das pessoas para mudar o voto em caso de queda da inflação. Muita gente imaginou naquela época que houvesse uma cristalização de voto. Não havia. O número de votos espontâneos era muito baixo ainda. Mas todo mundo raciocinava como se o Lula já tivesse conseguido um patamar de votação muito elevado.
VEJA - Há a possibilidade de Lula deixar de ser seu principal adversário?
FERNANDO HENRIQUE - É difícil, porque o patamar em que estão os outros candidatos não lhes dá expectativa de êxito. Mesmo que haja um desempenho bom na televisão, é muito improvável que algum deles possa subir tanto. Temos poucas semanas de campanha na televisão. Eu não creio que haja tempo para algum outro candidato deslocar o Lula do segundo lugar.
VEJA - Lula está tendo um bom desempenho na televisão?
FERNANDO HENRIQUE - O programa do PT me decepcionou. No começo, foi muito confuso no aspecto gráfico, tão embrulhado que não dava para entender bem do que se tratava. Acho que o Lula não está à vontade. Num dado momento, devem tê-lo obrigado a ter uma posição de presidente. Põe paletó, põe gravata e fala devagar. Agora não é mais posição de presidente. É de alguém que está com ira. Esse ziguezague não me parece convincente. Acho que é um grave erro fazer tantos ataques. Não é isso que a população espera. A população quer verificar se a pessoa tem proposta, se é confiável. Também acho engraçado como as pessoas não tomam consciência do que seja uma sociedade de massa, do que é comunicação em sociedade de massa. Ficam falando de aliança com esse ou aquele, e isso é grego para a maioria dos eleitores. Aliança não é o que está pesando. Além do mais, as pessoas têm biografia. Tentaram me comparar com o Collor. É ridículo. Não tem como pegar. Outra coisa muito equivocada é a crítica ao Real. O Real não tirou o salário de ninguém, aumentou o poder de compra, dístendeu a sociedade - talvez mais isso do que qualquer outra coisa. Ir contra isso é um engano.
VEJA - Em que a máquina do governo está ajudando a sua campanha?
FERNANDO HENRIQUE - Em nada.
VEJA - E a intenção do ministro Alexis Stepanenko de inaugurar obras até as eleições?
FERNANDO HENRIQUE - Você acha que a essa altura dos acontecimentos inaugurar uma obra altera voto? Agora, isso não tem nada a ver com a campanha. Vamos voltar àquela idéia de como se faz uma candidatura vitoriosa numa sociedade de massa. Felizmente ou infelizmente eu sou sociólogo. Não é por aí, com inauguração de obras, que você ganha uma eleição de 100 milhões de eleitores. Seria um erro brutal tentar influenciar os eleitores dessa forma. Eu não pedi nada. Não pedi obra nenhuma.
VEJA - Mas estão vindo obras para ajudar o senhor.
FERNANDO HENRIQUE - Não, não. Isso eu recuso terminantemente. Eu nem sei se há obras. Eu nunca me informei. Não me interessei. Não creio que isso altere em nada. Agora, é obrigação dos governos fazer coisas. E todo governo quando vai chegando ao fim quer ter feito alguma coisa. Mas isso não tem nada a ver com a campanha. Ganha-se eleição no Brasil de hoje inspirando confiança, crença, esperança. Essa é minha tese central. O Brasil já é outro. Qualquer dessas técnicas laterais de auxilio tem apenas um efeito marginal. Pode ser que alguém pense em fazer isso para me ajudar, mas não tem influência na aceitação do candidato.
VEJA - O senhor sabia que o empresário Sergio Motta, secretário-geral do PSDB e tesoureiro da sua campanha, pagou propinas para receber pagamentos atrasados do Estado?
FERNANDO HENRIQUE - Eu não tenho nenhuma noção sobre o que o empresário Sergio Motta tenha feito aqui ou ali em suas empresas. Nunca soube que tenha feito pedidos para suas empresas, ele nunca me pediu que fizesse isso. Quem encontrar algum exemplo disso, que apresente...
VEJA - Essa informação foi publicada por VEJA nesta semana e não foi desmentida. Que providência o senhor pode tomar?
FERNANDO HENRIQUE - Nenhuma. Isso não tem nada a ver comigo. Eu não tenho nenhuma relação com isso.
VEJA - O senhor não vai nem perguntar a ele sobre isso?
FERNANDO HENRIQUE - Posso perguntar. Mas eu não sou policial. Vocês investiguem bem o caso. Pagou a quem, quando, em que circunstância e punam os dois. Quem pagou e quem recebeu. Se alguém tem uma informação e não anuncia, também é criminoso. Nesse terreno é preciso ser ao mesmo tempo firme e cuidadoso. Não dá para jogar a honra dos outros na lama. Eu vi agora com o senador José Paulo Bisol. Ele fez erros políticos. Mas eu sempre disse que achava o Bisol um homem de bem. Ele não podia assinar uma proposta para uma emenda que beneficiaria uma prefeitura, um município onde ele tem uma fazenda. Embora eu não ache que fez isso com propósito pessoal.
VEJA - Por falar em tesoureiro de campanha, quanto o senhor espera arrecadar?
FERNANDO HENRIQUE - Nós tínhamos calculado a possibilidade de arrecadar 60 milhões de dólares. Hoje, acho que se nós conseguirmos a terça parte disso, estou feliz. E acho que não precisa mais.
VEJA - Quem são os empresários que mais colaboram com Sua campanha?
FERNANDO HENRIQUE - Não vou entrar em detalhes. Se a lei tivesse previsto, eu diria.
VEJA - Mas o senhor dizer sem ser obrigado legalmente...
FERNANDO HENRIQUE - Eu não faço isso. Tudo está sendo feito dentro da lei.
VEJA - O senhor está uma campanha apoiado pelo mundo político, pelo empresariado. Sua campanha é contra alguém?
FERNANDO HENRIQUE - Não, sou a favor. É uma campanha a favor de uma mudança do estilo de governar o Brasil. Tomei medidas no governo que são contra os setores importantes do capital e todos os setores especulativos do Brasil. Nós estamos mudando o modo pelo qual se ganha dinheiro no Brasil. Nós fizemos uma política econômica em benefício da maioria e não em beneficio de se ganhar no capital financeiro. E por isso hoje eu tenho popularidade. Quem ganha? Basicamente, até agora, povão que não tem conta em banco. São eles que estão fazendo compras agora. A expansão do consumo não se dá nas grandes lojas, nos grandes supermercados, mas nas pequenas. Então, é uma política a favor da maioria e dos mais pobres e contra setores que sempre ganharam no Brasil.
VEJA - No entanto não se sente nenhum protesto, nenhuma crítica por parte dos setores especulativos. Por quê?
FERNANDO HENRIQUE - Eu acho eles chegaram à conclusão de que com a hiperinflação que estava aí anunciada, poderia haver um estrago maior.
VEJA - Que nota o senhor daria ao governo Itamar?
FERNANDO HENRIQUE - Aprovo com louvor. É preciso lembrar que o governo Itamar Franco enfrentou problemas que precisava ter coragem para enfrentar, como o da inflação. Também mexeu nas questões das estatais e tirou o governo do noticiário policial. Acho que é um governo bom. E há as circunstâncias. Não foi eleito, não teve apoio direto, e mesmo assim conseguiu coisas difíceis de ser feitas, deu mais confiança ao Brasil. Com toda sinceridade, o Itamar foi quem me colocou no ministério. Sem ele não haveria estabilização. Essa equipe, inclusive alguns deles que tinham sido críticos de Itamar, ele sustentou, sem a menor hesitação. O Itamar sempre me apoiou, sempre quis que eu fosse candidato à Presidência da República, essa é a grande verdade. De minha parte, eu só posso ter sentimento de gratidão. Todo mundo dizia que ele era teimoso. Não. Era uma pessoa que demonstrou a capacidade de absorver posições que não eram tradicionalmente as dele. Na economia, o Itamar jamais tocou o telefone para que eu liberasse urna verba, para que desse uma atenção maior para esse ou aquele. O Itamar não é clientelista nem fisiológico. Ele abraça causas. Você pode discutir se a causa é certa ou errada. Mas essa é uma vantagem fundamental. Se um ministro da Fazenda recebe a pressão de um presidente que é fisiológico, está perdido. Porque no Tesouro só há duas pessoas que mandam liberar: o ministro da Fazenda e o presidente.
VEJA - Qual seria a diferença entre o governo Itamar Franco e um eventual governo Fernando Henrique?
FERNANDO HENRIQUE - Não vamos assumir antes da hora. Mas eu acho que, primeiro, vamos ter uma eleição direta, enquanto o Itamar não foi eleito como presidente, sim como vice. Em segundo lugar, eu pertenço a um partido que tem uma coerência, uma consistência. Em terceiro lugar, a coligação está formada antes mesmo de virar governo. Em caso de vitória, já terá tido tempo para acomodar uma porção de coisas. Itamar teve de assumir um governo de repente, teve de fazer uma composição com todas as forças do Congresso, e como foi possível. Em quarto lugar, eu vou ser beneficiário, se eu for presidente, do governo Itamar, que já colocou a casa em ordem. Posso dar continuidade porque eu fui parte integrante do governo. Eu sei dos programas, não preciso parar, posso avançar. E tem uma outra coisa que eu vejo mais importante do que tudo isso.
VEJA - O que é?
FERNANDO HENRIQUE - E que o Brasil está num outro momento hoje. Quando Itamar assumiu, era um momento positivo do ponto de vista institucional, por causa do impeachment, mas era um momento de desalento. Agora não é um momento de desalento. Qualquer que venha a ser o presidente, não vai assumir num momento de desalento, vai assumir num momento de esperança. E um Brasil com a economia mais em ordem, você tem um mundo melhor, um mundo sem a ameaça de guerra. Você tem um mundo que retomou o crescimento. Eu acho que vai ser um governo que vai poder avançar mais. Vai ter um outro desafio, o social. Saúde, educação, essas vão ser as questões importantes. As transformações têm de ser operadas nessa área. Quando eu uso como metáfora as metas do Juscelino, é porque não é sempre que você pode fazer as coisas na História. Há momentos, há brechas. Eu acho que nós temos uma boa brecha no Brasil hoje. Para retomar, digamos, para usar uma expressão que já foi um pouco batida, um projeto do país. Qual é o projeto do Brasil hoje? Só tem um, forte: é ser mais humanitário. Todo mundo fala da dívida social, só que agora tem como pagar, eu acho que a população sente isso.
VEJA - Mas como se pode pagar a dívida social?
FERNANDO HENRIQUE - Se você deixar só para o mecanismo de mercado resolver essa questão, não vai dar. O mercado só resolve uma parte dos problemas, mas não a pobreza. Quando você consolida ma massa de pobreza, o mercado não resolve, deixa à margem. Você tem de ter Estado. Você tem de ter uma reforma efetiva do aparelho de Estado.
VEJA - No caso de sua incapacitação, impeachment ou renúncia, Marco Maciel seria um bom presidente?
FERNANDO HENRIQUE - Se essas hipóteses trágicas que você está levantando acontecerem nos dois primeiros anos de governo, haverá nova eleição. Se acontecerem nos dois últimos, o caminho está traçado e o Marco Maciel é um homem competente, tem experiência e vai ser um bom presidente.
VEJA - Quais serão as atribuições do vice, Marco Maciel, no seu governo?
FERNANDO HENRIQUE - Muitas, e eu for presidente. Porque o Marco tem uma enorme capacidade negociadora.
VEJA - As negociações dele não sempre à custa do Erário?
FERNANDO HENRIQUE - Não é o estilo dele. Não é gastador nem fisiológico.
VEJA - Fama de grande empregador ele tem.
FERNANDO HENRIQUE - Não sei dizer. A tradição de empreguismo o Brasil é grande, mas isso acabou. Você não tem mais como empregar.
VEJA - O senhor atribui a essa aliança com o PFL um grande peso político e eleitoral?
FERNANDO HENRIQUE - Nós não tínhamos como penetrar no Nordeste. Nós lá só temos o Ceará. Agora a história já transcorreu. É difícil saber se teria havido o mesmo efeito e transmissão, essa eletricidade no ar, se nós tivéssemos ficado isolados. Porque o PSDB não tem estruturas, precisávamos da aliança. Isso o lado eleitoral. Do lado político, é melhor fazer alianças na campanha, em cima de um programa, do que, depois de ganhar, começar a negociar no Congresso. Porque aí é fisiológico. O PFL nunca exigiu nada. Só o vice eles queriam. Nós não temos nenhum compromisso de ministério, nem com o PFL nem com nenhum partido.
VEJA - Como transformar o Nordeste tendo aliados cujo interesse maior é a conservação das atuais estruturas? FERNANDO HENRIQUE - Será isso mesmo? Pega o Antônio Carlos. O que ele fez na Bahia nesse governo? Ele manteve as estruturas? Por que o Antônio Carlos tem 60% ou 70% de aceitação? Porque percebeu o sinal dos tempos. O Antonio Carlos, imediatamente depois do Collor, começou a falar de moralidade.
VEJA - Na Nova República as alianças políticas levaram ao imobilismo. O senhor não teme que isso possa repetir-se no seu governo?
FERNANDO HENRIQUE - Não foram as alianças. O que houve na Nova República foi uma substituição da tecnoburocracia formada pelo regime militar pelo filhotismo político. As bancadas indicando gente. Isso foi uma perda líquida para o Estado. Outro dia eu disse ao presidente da República: "Nós ficamos aqui discutindo se nomeamos esse ou aquele, para uma companhia telefônica ou um porto. As bancadas vêem, pedem. Você acha que isso dá voto? Isso dá é dinheiro", Bom, a Nova República foi feito assim. Houve interpretação errônea de que isso era democracia. A raiz do problema é o apoio ao governo no Congresso por essa via. Por isso eu digo logo de cara que não vou fazer isso. O governante tem que criar condições de nomear tendo em vista a qualificação das pessoas. Se for eleito, não ficarei devendo minha eleição a um órgão de imprensa, uma empresa, nada disso, só a uma sintonia com o movimento da sociedade. Ou sigo essa sintonia ou vou me afundar politicamente. Então não vou fazer essas composições que levem ao desastre. O que tenho é de fazer política certa. Valorizar mais as políticas do que os políticos. Os políticos são bons quando estão seguindo uma política.
VEJA - Há diferenças, como sustentou Ruth Cardoso, entre o PFL de Krause e Stephanes e o de ACM?
FERNANDO HENRIQUE - Ela não sustentou isso. Foi uma utilização precipitada do que ela disse. A pessoa que perguntou disse que o PFL tem fulano de tal. E ela disse: Mas também tem sicrano". Todos os partidos têm pessoas com posições diferentes.
VEJA - O senhor acha que diferença entre o governador Antonio Carlos e Gustavo Krause?
FERNANDO HENRIQUE - De estilo, certamente. O Antônio Carlos tem uma agilidade, uma capacidade de dar a volta por cima e uma agressividade política muito grandes. É um dos políticos brasileiros mais competentes. Fez uma administração na Bahia que está sendo reconhecida pelo voto. Não vejo que seja a encarnação de uma coisa negativa. Pelo contrário, acho o Antonio Carlos uma pessoa muito inteligente e, nas poucas vezes que falei com ele, as coisas que me disse eram sensatas.
VEJA - Que papel terá Ruth Cardoso em sem governo?
FERNANDO HENRIQUE - Nenhum. No governo participa quem for ministro. Agora, se você quiser saber que ela pensa de ser mulher do presidente da República, ela dirá, com toda a liberdade. Ela tem uma personalidade forte, idéias próprias e capacidade, mas nunca misturou sua vida intelectual com a vida política.
VEJA - O senhor tem um espaço determinado para ela?
FERNANDO HENRIQUE - Não. Acho que, se depender dela, o que mais vai querer é continuar fazendo pesquisa. Manter a atividade intelectual. No limite em que isso ser possível, depende primeiro de saber se eu vou ser eleito. Se não for, para todo mundo aqui é melhor. Do ponto de vista da família, mexe menos.
VEJA - Deve-se esperar medidas de impacto, logo de saída, no seu governo? como "os 100 dias" de Roosevelt?
FERNANDO HENRIQUE - Do que precisamos, no Brasil, não são medidas de impacto. É mudança de rumo. Um dos males da nossa vida política tem sido precisamente essa permanente busca e solução de impacto. Isso não vai haver. Vou voltar à minha experiência no Ministério da Fazenda. O pessoal queria, o tempo todo, impacto. Eu disse o tempo todo que queria traçar um rumo. O Brasil precisa de rumo. O que se tem de fazer é, delineado o caminho, tomar as medidas, nesse rumo, permanentemente, e não só nos 100 primeiros dias.
VEJA - Quais são os pontos fundamentais que precisam ser alterados na Constituição?
FERNANDO HENRIQUE - O sistema tributário, Previdência e Saúde, definição de empresa nacional. Outro, mais complicado, é o dos monopólios. E outro que tem de regulamentar é o sistema financeiro, que é a questão do Banco Central.
VEJA - Qual é a sua proposta de reforma tributária?
FERNANDO HENRIQUE - Quase todo mundo quer diminuir imposto e, ao mesmo tempo, quer mais atribuições para o governo. É preciso ter um sistema que permita que a massa de recursos aumente, porque senão você não vai ter também como fazer face às necessidades sociais do país.
VEJA - E a vinculação de impostos, como os que se destinam à educação, deve continuar?
FERNANDO HENRIQUE - Em tese, sou contra as vinculações. Porque se vinculou a educação agora se quer vincular tudo? Porque se imaginava, sobretudo o regime militar, quando não havia democracia, que a educação era lesada, e eventualmente era. Bom, vinculou-se. O que acontece? Hoje você tem municípios que já não sabem o que fazer com o dinheiro da educação, mas que não têm dinheiro para a saúde. E não se pode usar o dinheiro. Está errado. Essa vinculação é feita a partir do pressuposto de que o Congresso não é responsável, de que o Executivo vai usar mal o dinheiro. Se você mantiver esse pressuposto, todo mundo vai querer vincular. Vincula educação, vincula transportes, todo mundo quer vincular. Só que a soma é soma para mais de 100. Porque todo mundo quer mais, então não dá, não fecha. Como você hoje tem um Estado democrático, um Congresso com poder sobre o Orçamento e você tem os planos plurianuais, aí a prioridade deve ser dada pelo Congresso, plurianualmente. Nos próximos cinco anos vamos gastar, digamos, em educação, que eu acho importante, até mais que os 18%. Pode até aumentar para 25%. Mas e daqui a dez anos? Vai continuar com 25%? Não tem sentido.
VEJA - O que deve ser mudado na Previdência e na Saúde?
FERNANDO HENRIQUE - A questão da Previdência e a da Saúde não são fáceis. Agora mesmo começam a dizer que eu vou querer separar o salário mínimo da Previdência. Isso é uma contradição nos termos. Porque quem paga salário mínimo é a Previdência. Onze milhões e meio de salários mínimos são pagos pela Previdência. Quando eu digo que é preciso melhorar a Previdência, é melhorar o salário mínimo.
VEJA - Então se deve aumentar a pensão do aposentado?
FERNANDO HENRIQUE - Sim, dos que são mais pobres. Agora, como é que aumenta? Quem paga? Você vai ter de complementar o setor. Você não pode imaginar que, num país como o Brasil, se privatize a Previdência. Agora você não pode imaginar que, num país como o Brasil, tudo é estatizado, que não dá. Mas se você quiser melhorar a sua aposentadoria, digamos acima de x salários mínimos, teria de recorrer ao sistema complementar. Isso só pode ser feito se você tem ao mesmo tempo, complementando, um sistema de aposentadoria privado, que seja bom. Porque senão você vai decretar que o aposentado morra de fome.
VEJA - Até onde iria o seu programa de privatização?
FERNANDO HENRIQUE - Privatização não é uma questão ideológica. É uma questão prática. Há dois argumentos para provar isso. O primeiro é gerencial. O Estado, em certos setores, é bom gerente. A Vale do Rio Doce, a própria Petrobrás, você não pode dizer que não têm um desempenho bom. Não pode dizer automaticamente que porque é privado é melhor do que do Estado, em termos gerenciais. O outro argumento é mais forte. As empresas precisam de expansão. E o Estado hoje não tem condições de sustentar a expansão dessas empresas. Pega, por exemplo, o setor energético. Você tem hoje não sei se dezesseis ou dezenove obras paradas. Isso implicaria um investimento enorme. O Estado deve gastar uns 2 bilhões de dólares com elas paradas. Então, se você quiser ter expansão do setor energético, você tem de ter parceria. Pega a Petrobrás. Ela é uma empresa boa, se expandiu bastante. Ela precisa de 4 a 5 bilhões de dólares de investimento para manter o ritmo. O Orçamento não dá isso para ela. Eu não penso em propor a privatização da Petrobrás. Mas eu penso em flexibilizar o monopólio. Não se deve vender qualquer estatal, a qualquer momento, na bacia das almas. Não tenho essa febre privatízante. Quem tem isso são os lobbies, que querem tomar o pedaço melhor para eles. Acho que se deve fazer uma privatização tendo em vista o interesse público, que não se confunde com o interesse estatal e tampouco procura o monopólio privado.
VEJA - O senhor vai sugerir o fim da estabilidade dos funcionários públicos?
FERNANDO HENRIQUE - Para começo de conversa, há muitos funcionários que não têm estabilidade nenhuma, que podem ser postos para fora e não são. São estáveis os funcionários que em 1988 tinham cinco anos de exercício, mais ninguém. O que acontece é que não se põe para fora por causa da questão de emprego, da clientela. Numa situação em que a economia não cresce, você pôr para fora é o desespero. O problema do funcionalismo é que você tem de ter o recrutamento por concurso e por carreira. Há certas carreiras que têm de ser resguardadas. Não se pode demitir e acabar com as garantias do trabalho. Isso não existe. O problema é que o Estado tem hoje uma enorme massa de gente subpaga, fazendo pouco. Eu acho que não tem por que manter a estabilidade para todos indiscriminadamente.
VEJA - O senhor, então, é contra a estabilidade do funcionalismo?
FERNANDO HENRIQUE - Sim, mas isso não quer dizer que acabam as garantias.
VEJA - Qual deveria ser o papel das Forças Armadas?
FERNANDO HENRIQUE - O que está na Constituição. Ela tem atribuições constitucionais de garantir a integridade territorial e, num determinado momento, da ordem e da lei. Sob demanda do Executivo. Há também a questão da bandidagem, das grandes cidades, do Rio de Janeiro. As Forças Armadas não podem ser transformadas em polícia, Até porque corre o risco da corrupção. Entrar no controle de droga é muito complicado. O problema é reaparelhar a Polícia Federal, que hoje tem 6 000 funcionários. E é responsável pelo controle de contrabando, drogas. Agora, quando as coisas tomam a gravidade de certas áreas, como no Rio, você vai ter de, em certos momentos, se o governador pedir, dar o apoio das Forças Armadas. Isso eu não hesitaria em dar.
VEJA - Atribuiu-se ao senhor a informação de que se criariam 8 milhões de empregos no seu governo. Como pretende fazer isso?
FERNANDO HENRIQUE - Embora exista urna pressão para se definirem números, isso depende da taxa de investimentos e em que áreas. Por exemplo, o Brasil tem hoje 4 milhões de hectares de terras irrigadas. Se você conseguir irrigar mais 1,5 milhão, você pode aumentar aí mais 3 milhões, 3,5 milhões de empregos. Você pode consertar as estradas que estão malpavimentadas. A Petrobrás tem um imposto que o governo está destinando para isso, você pode pegar uns 500, 600 milhões de reais por ano e pode manter mais uns 150.000 empregos. Depende do que você faz. Você pode dar incentivo à pequena e à média empresa. Eu tenho muito medo de falar assim em 8 milhões de empregos. Depende de muitas variáveis. Qual é hoje a oferta de mão-de-obra anual? Deve ser de pelo menos 1,5 milhão. É preciso criar pelo menos isso para estancar o desemprego, ou está mal.
VEJA - Seriam criados, então, pelo menos 6 milhões de empregos?
FERNANDO HENRIQUE - Pelo menos. Isso é pouco. Agora, vai poder criar mais? Depende do crescimento. O crescimento do turismo, da agricultura, das pequenas, médias e microempresas, as áreas multiplicadoras de empregos. Obras públicas. Se você fizer um plano, por exemplo, uma coisa de hidrelétrica, de reativar com parceria do capital privado, essas 19 hidrelétricas, quantos empregos você cria? Agora, não é o Estado que vai criar. Ele tem a condição de estimular. Se retomar a taxa histórica de crescimento. Não vamos botar 7%, 8%, mas 6% ao ano, aí você tem condições. Se você orientar para essas áreas.
VEJA - Com o desenvolvimento tecnológico, a tendência mundial é de redução do emprego. Ela não se choca com a necessidade brasileira de gerá-lo em grande quantidade?
FERNANDO HENRIQUE - Provavelmente nas próximas décadas o problema do emprego vai ser crucial no mundo. Nós aqui temos uma situação desse ângulo pior e melhor. Pior porque temos uma massa de subempregados muito grande. Melhor por que você tem uma situação no Brasil que não é muito comum. Compare com a Índia e a China - tem comparar com o que é comparável. A Índia e a China não têm para onde expandir a agricultura. A área agrículturável da China é igual à do Pará. Quase tudo é deserto, montanha. Nós aqui temos uma enorme área agriculturável. Só o cerrado, é uma brutalidade o que você pode expandir. Com baixo custo de investimento relativamente à indústria. Tudo isso depende de reformas. O principal problema é você encontrar alguém com capacidade de liderança, com capacidade de reformar mesmo. E reformar não é quebrar louça, fazer artes espetaculares, no primeiro dia mudar tudo. É ter um rumo. E motivar as pessoas para andarem nesse rumo. Se fizer isso você muda o Brasil em dez anos. Você tem de ter líderes. Não existe reforma sem líderes.
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