| |
BRASIL A última chance de Itamar 26 de maio de 1993
Ao escolher Fernando Henrique, o presidente coloca o governo nos eixos
Não adianta Iamentar os oito meses e quatro substituições no Ministério da Fazenda. Perdeu-se um tempo precioso enquanto a inflação prosseguia sua desembestada carreira e a crise se aprofundava. A sucessão de desastres é responsabilidade total, única e exclusiva do presidente da República. Itamar Franco escolheu ministros fracos e os enfraqueceu ainda mais. Atritou-se com Gustavo Krause, deixou que Paulo Haddad o enganasse e negou apoio a Eliseu Resende quando a credibilidade do ministro se erodia. É de Itamar Franco, igualmente, a responsabilidade total, única e absoluta por ter dado a grande tacada. Aquela que pode fazer com que o Brasil, depois de ter atingido o fundo do poço em matéria de desgoverno, se recupere e prospere. Ao colocar Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda, o presidente fez a melhor escolha possível.
O professor Fernando Henrique Cardoso faz a aposta da sua vida, enquanto o engenheiro Itamar Franco joga a sua última cartada. Se vencer a inflação e der estabilidade à economia, o ex-chanceler terá condição de surgir como um presidenciável imbatível. E Itamar Franco entrará para a História como o presidente que assumiu o poder em condições dificílimas e mesmo assim conseguiu colocar o país nos trilhos e fez o sucessor. Se fracassarem, não se assistirá apenas ao esboroamento dos sonhos de dois políticos, que passarão o resto de suas vidas culpando um ao outro pela débâcle. Se fracassarem, pobre Brasil.
É da química entre Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso que se chegará a porto seguro ou se consumará o naufrágio. As intrigas palacianas, as broncas através da imprensa, a falta de apoio às ações do ministro, a complacência com os espertalhões que se beneficiam da inflação e a contemporização com os sonegadores e devedores farão com que Itamar e Fernando Henrique caiam juntos. A sintonia fina entre ambos é a única esperança. A tarefa é perigosa. Mas, como lembrou certa vez o general Golbery do Couto e Silva, citando o verso de Corneille no Cid, "vencer sem perigo é triunfar sem glória".
Golbery, então chefe do Gabinete Civil do presidente João Figueiredo, fez a citação do dramaturgo francês numa circunstância semelhante à nomeação de Fernando Henrique para a Fazenda. Foi em agosto de 1979, quando Delfim Netto substituiu Mario Henrique Simonsen no comando da economia. Delfim era respeitadíssimo, os aplausos à sua escolha foram unânimes e Figueiredo deu-lhe força total. De lá para cá, todos os nove ministros encarregados da economia foram menores que o cargo que foram chamados a ocupar, e todos saíram ainda mais diminuídos. Dilson Funaro cresceu a partir do ministério, mas hoje o Plano Cruzado é motivo de piada. A senhora Chico Anysio começou como dama de ferro e está hoje com sérios problemas policiais. O ético Marcílio Marques Moreira encerrou seus dias no governo de peixeira na mão, como cangaceiro da tropa de choque collorida.
"Senhores, preparem seus arados e suas máquinas: nós vamos crescer", disse Delfim ao tomar posse, há treze anos. O Brasil não cresceu, passou a diminuir e a supeninflação tomou-se endêmica. Fernando Henrique tomou posse também num diapasão otimista, defendendo que a pior crise já passou. Eis o que disse a VEJA em Nova York, horas antes de ser convidado por Itamar: "O Brasil tem um produto interno de 450 bilhões de dólares e deve 41 bilhões aos bancos privados. Nossas reservas estão em 23 bilhões e deveremos terminar o ano com pouco mais que isso. Exportamos perto de 40 bilhões de dólares e importamos pouco mais de 20 bilhões. A indústria brasileira já atravessou o momento mais difícil de ajustamento ao mercado. As tarifas de importações brasileiras estão hoje em 17%, índice bastante razoável do ponto de vista internacional. A produção industrial cresceu 26% desde o início do ano. O governo Itamar Franco já privatizou seis estatais, em operações que somaram 1,6 bilhão de dólares. Esses não são números de uma economia falida, muito menos de um país que vá acabar. Pelo contrário, indicam uma economia vigorosa e um governo que está fazendo reformas".
Otimismo róseo? Não. Fernando Henrique prossegue: "Se os grandes números da economia são positivos, onde está o problema? Numa inflação perversa, provocada pela crise do Estado, que não pode continuar gastando o que não tem. A principal tarefa é baixar a inflação, prosseguindo a reforma do Estado, as privatizações e o enxugamento das despesas. Tudo passa pela derrubada da inflação, pois é ela que está abatendo a confiança do povo brasileiro".
"Delfim Netto foi o último ministro que tinha amplo direito de agir", opina o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. "No Brasil de hoje, o ministro da Fazenda precisa de um pouco mais de poder do que Delfim tinha." O grau de autonomia e o poder real concedido pelo presidente ao seu ministro não é um monolito. É um processo que caberá a Itamar e Fernando Henrique negociar a cada passo, por dois motivos. Primeiro, porque o sistema brasileiro é presidencialista, ainda que o ministro da Fazenda faça as vezes de um primeiro-ministro. E depois porque é uma ilusão imaginar que Itamar vá abdicar do seu poder.
Itamar e Femando Henrique já deram os primeiros passos para definir essas questões de autonomia e poder do ministro da Fazenda. No primeiro, o presidente confirmou Alexis Stepanenko no Ministério do Planejamento sem consultar Fernando Henrique, o que seria sinal de desprestígio. No telefonema a Fernando Henrique depois da sua entronização, no entanto, Itamar lhe disse: "Nomeei o Stepanenko, mas fique tranqüilo, se precisar mexer não haverá problemas". No segundo passo, Itamar colocou no Itamaraty um velho amigo mineiro, José Aparecido, em tudo e por tudo inadequado para o cargo. Fernando Henrique preferia outro sucessor, mas é prerrogativa do presidente escolher seus ministros. Feitas as contas até agora, constata-se que é melhor que o ministro da Fazenda tenha liberdade para montar sua equipe do que ter escolhido seu substituto no Itamaraty.
Nos primeiros dias do consulado de Fernando Henrique deu-se ênfase ao temperamento impulsivo do presidente, que poderia dificultar o trabalho do ministro. Do lado de Fernando Henrique também há obstáculos políticos e de temperamento. "Como a inflação é crescente, e Fernando Henrique é candidato à Presidência, já vejo um congelamento no horizonte", diz o deputado Vladimir Palmeira, líder do PT na Câmara. Pelas regras atuais, Fernando Henrique precisaria deixar o ministério em abril para disputar a eleição presidencial. Apesar do tempo curto, o ministro empenha toda a sua credibilidade, que é imensa, para garantir que não fará um pacotaço, congelativo e demagógico.
O sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, ex-aluno de Fernando Henrique, vê no temperamento do colega motivo para ceticismo. "Ele caiu numa panela em que sua habilidade de acomodador é contraditória com o posto: um ministro da Fazenda precisa dizer muitos nãos, e cada sim que disser terá conseqüências para a nação inteira", afirma Rodrigues, sublinhando que para Fernando Henrique é muito mais fácil acomodar do que brigar. No comando da economia, Fernando Henrique terá de acomodar e brigar, num jogo perigoso e decisivo. Terá de vencer os perigos para triunfar com glória.
O anjo da guarda do Planalto
Sem saber, Fernando Henrique foi dormir chanceler e acordou superministro
Expedito Filho, de Brasília
Mesmo sem transmissão direta pela televisão, foi a melhor notícia que o país já recebeu desde o impeachment de Fernando Collor. Escoltado pelos cardeais do PSDB, Tasso Jereissati, presidente do partido, o deputado José Serra e o governador do Ceará, Ciro Gomes, na manhã de sexta-feira Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda numa cerimônia concorrida. Ele é o quarto ministro a ocupar o cargo, mas foi o primeiro a tomar posse sem provocar perplexidade, desânimo ou desconfiança. Até o presidente da Fiesp, Carlos Eduardo Moreira Ferreira, que no dia anterior defendia a permanencia de Eliseu Resende, foi a Brasília. para aplaudir. Estava repetindo a velha máxima segundo a qual melhor que o atual ministro da Fazenda só o próximo.
Num discurso claro e articulado, Fernando Henrique afirmou sua autoridade: "Enquanto estiver no ministério, quem fala de política econômica sou eu". Definiu sua prioridade: "Nosso fantasma é uma peste, uma praga, o flagelo do povo: a inflação". Repetiu compromissos com a abertura da economia e as privatizações: "Não é mais uma discussão ideológica". E mandou uma mensagem para o próprio governo: "O povo brasileiro não só sabe das possibilidades que tem como também se cansou da desordem na casa". Numa referência à nuvem de uma crise institucional que fez sombra ao governo Itamar nas últimas semanas, e sumiu do horizonte no instante em que sua nomeação foi anunciada, Fernando Henrique sustentou que "somos uma democracia e nunca deixaremos de ser. Temos anjos da guarda", acrescentou, olhando para trás, onde se avistava o quepe do ministro da Aeronáutica, Lélio Lobo. O auditório divertiu-se com a irônica troca de papéis. Na semana passada, o verdadeiro anjo da guarda de Itamar Franco chamava-se Fernando Henrique.
O senador assumiu o posto número 2 da República por uma decisão pessoal do presidente. Na quarta-feira, Itamar reuniu-se com assessores no Palácio com a disposição de não sair dali enquanto não encontrasse um sucessor para Eliseu Resende, que assinara sua carta de demissão três dias antes, no domingo. Prevenido, o presidente determinou que os trabalhos da oficina que imprime o Diário Oficial fossem paralisados até o instante em que o ato de nomeação do novo ministro estivesse redigido e assinado para ser publicado. Durante a conversa, elaborou-se uma lista com seis nomes. Fernando Henrique era o primeiro da relação, mas Itamar tinha tanta certeza de que seria impossível convencê-lo a trocar as rendas do Itamaraty pelo suadouro de uma pasta que já desfez uma massa enorme de reputações que convocou, para sua ante-sala, o segundo da lista. Era o banqueiro José Eduardo Andrade Vieira, do Bamerindus e atual titular da Indústria e Comércio.
"Fernando Henrique não quer, ele já me disse", lamentava o presidente. Um de seus assessores o convenceu a fazer uma última tentativa. "Você conversou com ele hipoteticamente, e talvez por isso ele não tenha aceitado. Tem que chegar, colocar o problema objetivamente e perguntar: 'Fernando Henrique, o Eliseu pediu demissão, e eu quero saber se você assume o Ministério da Fazenda'." No mesmo dia, almoçando em Nova York, no restaurante Bravo Gianni, na Rua 63, Fernando Henrique foi informado da queda de Luiza Erundina pouco depois do meio-dia. O assunto não rendeu um dedo de prosa na mesa de almoço. Já as especulações sobre o destino de Eliseu mereceram um comentário bem informado. "O Eliseu não dura", disse Fernando Henrique. "Eu conheço o Itamar, ele está com o caso atravessado" (e fez o sinal de quem fica com uma espinha de peixe entalada na garganta).
Informado por assessores de que "a crise estava grave", Fernando Henrique ligou depois do almoço para o Brasil. Queria conversar com o presidente, mas, reunido com deputados, Itamar informou que não poderia atendê-lo naquele momento. Pediu que deixasse um número de telefone em que pudesse ser encontrado mais tarde. Já passava de 10 da noite em Brasilia. Andrade Vieira continuava firme na ante-sala - quando o assessor de imprensa Francisco Baker bateu à porta do gabinete presidencial. "A imprensa aí fora está dizendo que o ministro Eliseu está caindo", disse Baker. "Não tem nada disso não", despistou Itamar. O porta-voz saiu dali com a ingrata missão profissional de desmentir um boato que logo mais se revelaria verdadeiro. Eliseu, que se encontrava no gabinete, comentou com amargura: "Esse pessoal fareja longe". Às 11h05 da noite, Itamar ligou para a casa do embaixador Ronaldo Sardenberg, em Nova York, onde Fernando Henrique jantava. Quando o telefone tocou, o chanceler estava com a taça na mão para brindar sua viagem pelos Estados Unidos e Japão. Do outro lado da linha, Itamar falou da saída de Luiza Erundina e Lázaro Barboza. Fernando Henrique fingiu que não sabia. Em seguida, fazendo questão de manter segredo da grande novidade - que a saída de Eliseu era um fato consumado -, Itamar perguntou:
- Você está sentado?
- Por quê, Itamar? - quis saber o ministro.
- Não conte para ninguém, mas estou saindo agora do palácio para uma conversa com o ministro Eliseu lá em casa. Ele não tem mais condições de ficar. Se isso acontecer, vou precisar de você - prosseguiu o presidente.
- Itamar, nós já conversamos sobre isso. Eu já lhe disse minha posição. Estou muito bem no Itamaraty e você sabe onde eu gostaria de ficar.
- Mas não sou eu, o Itamar, que precisa de você. É o Brasil - respondeu o presidente.
- ltamar, eu sou apenas um ministro e você é o presidente. Você é o juiz da História. Você sabe o que eu penso, mas você é aquele que decide.
- Eu te dou cinco minutos para pensar no assunto e já falamos propôs o presidente.
- Itamar, nem cinco nem quinze minutos vão fazer diferença. Não precisa. Você conhece minha posição. É você quem decide.
- Então, está bem. Estou indo para o jantar e ligo depois.
Quando se despediram, o engenheiro ltamar e o sociólogo Fernando Henrique haviam encerrado um desses diálogos em que cada pessoa fala uma língua diferente. Itamar ouviu mais o "você decide" e saiu do Planalto com um sorriso no rosto. Às 2h30 da manhã, já em casa, assinou o ato de nomeação. Despreocupado, o presidente deterininou a seu ajudante-de-ordens, o comandante Carvalho, que tornasse a telefonar para o chanceler, informando que não ligaria àquela hora, mas no dia seguinte. Fernando Henrique voltou aos brindes, certo de que a súmula da conversa havia sido a sua frase "estou bem no Itamaraty". Fez até uma piada: "Continuo ministro". Cinco horas antes do telefonema presidencial, ele ouvira de um amigo que no Brasil já circulavam rumores a respeito de sua transferência de mínistério, mas descartara a idéia como "totalmente louca". Depois, o próprio Itamar ainda lhe dissera que iria "jantar com Eliseu". Não disse que a demissão seria naquela noite. Quando o comandante Carvalho ligou, interpretou que a saída de Eliseu iria demorar mais. No hotel Intercontinental, Fernando Henrique adormeceu chanceler. Desconfiou que acordara ministro da Fazenda pela manhã, ao ser informado de que o saguão estava lotado de repórteres. Seu imediato no ltamaraty, Luis Felipe Lampreia, ligou de Brasília:
- Você é o novo ministro da Fazenda e eu sou o ministro interino das Relações Exteriores.
- Como? Que é isso, Lampreia?
- Está no Diário Oficial. O Alexis Stepanenko foi efetivado no Planejamento.
Desorientado, Fernando Henrique procurou ltamar em casa. Atendeu Raimunda, a empregada doméstica do presidente:
- O doutor Itamar está rio banho.
Quando retomou a ligação, ltamar explicou:
- Seu nome está lá no Diário Oficial e a repercussão foi muito boa.
- Mas, ltamar, você ficou de ligar para mim e não ligou.
- É, mas a repercussão foi boa. Está no Diário Oficial, Você é o novo ministro da Fazenda. E olha, eu nomeei o Stepanenko, mas você fique trarqüilo, se precisar mexer, não haverá problemas.
- E no Banco Central, posso mexer?
- Pode mexer onde você quiser. Nomeei também o Osires Filho para a Receita, mas ele foi avisado de que a permanência dele dependia de uma conversa com você - disse Itamar.
- ltamar, você sabe que não sou de quebrar louça, mas talvez no Planejamento eu precise de alguém mais técnico porque não sou economista.
- Não tem problema, conversamos na volta.
Fernando Henrique ligou para o diretor-gerente do FMI, Michel Carridessus, que o cumprimentou. "Parabéns pela coragem em assumir o Ministério da Economia do Brasil." Ainda em Nova York, tomou providências mais urgentes. Organizada quando ainda era chanceler, sua viagem de volta ao país estava prevista para sábado e teve de ser antecipada em um dia. Foi preciso explicar na recepção do hotel que a reserva da última noite teria de ser cancelada porque o hóspede fora promovido de ministério. Fernando Henrique ligou para Tasso Jereissati, que o aconselhou a brigar pelo Ministério do Planejamento. Pelo telefone celular de uma limusine da representação do Brasil na ONU, conversou com o deputado José Serra. Os dois trocaram idéias sobre a formação da equipe da Fazenda. "O Serra me apoiou muito e teve um comportamento exemplar nesse episódio", diz o ministro. A caminho do Rio, onde fez escala antes de seguir para Brasília, o novo ministro estava com o humor em excelente estado. "Pode pedir asilo aqui?", perguntou, ao entrar na sala VIP da Varig no Aeroporto John Kennedy. "Vou ter de entrar em casa pela porta dos fundos", brincou, ao ser lembrado que a antropóloga Ruth Cardoso, com quem está casado há quarenta anos, poderia não apoiar sua ida para a Fazenda.
Fernando Henrique aterrissou em Brasília numa posição de força e disposto a usá-la. "Se alguém se intrometer, vou ao presidente", comentou com um amigo. "Se o presidente não tirar o intrometido do meu caminho, peço demissão e vou embora. Agora é ou vai ou racha." O novo ministro não assumiu com a disposição de quebrar louça inutilmente e, em seus primeiros dias, pretende mexer pouco na equipe que herdou. Pedro Malan continua responsável pelas negociações da dívida externa e, a menos que lhe apresentem uma alternativa espetacular para o posto, deve manter Paulo César Ximenes na presidência do Banco Central. Fernando Henrique gostaria de contar em sua secretaria com o economista Edinar Bacha, integrante da equipe de Dilson Funaro no Cruzado. Na noite de sexta-feira passada, foi informado de que Bacha, por motivos pessoais, pretende continuar morando no Rio.
Embora autorizado por Itamar, o novo ministro não saiu à procura de outro nome para o Planejamento. É uma opção pela prudência. Se forçasse, levaria a cabeça de Stepanenko na hora. Na quarta-feira pela manhã, Stepanenko acordou sem conhecer o melhor da história. Sabia da queda de Eliseu, mas não da ascensão de Fernando Henrique. Amigo da ala de Juiz de Fora, ligou para o Palácio com uma sugestão na cabeça, a do professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro Paulo Rabelo de Castro. "Seria um grande nome", disse a um assessor do presidente. Ao saber que o nome do novo ministro já estava no Diário Oficial, Stepanenko desmanchou-se em elogios a Fernando Henrique. "Fico contente em saber que a economia estará nas mãos de dois sociólogos", declarou aos jornais.
Com 62 anos completos no próximo dia 18, três filhos crescidos e três netas, Ferrando Henrique assumiu um posto que é a consagração numa carreira política feita em alta velocidade. Ele tornou-se o número 2 da República menos de vinte anos depois de acumular as funções de patrono do Cebrap, o mais respeitado instituto de pesquisas do país, com as de conselheiro do velho MDB de Ulysses Guimarães. De lá para cá, disputou três eleições, perdeu duas, para o Senado, em 1978, e para a prefeitura de São Paulo, em 1985, e ganhou uma, como senador, em 1986, no embalo do Plano Cruzado. Em 1975, o homem que na semana passada era louvado pelo país inteiro como a última chance para o governo se acertar foi levado de casa para ser interrogado no DOI-Codi paulista. Encapuzado para não reconhecer quem o interrogava, passou um dia inteiro respondendo a perguntas sobre uma imaginária vinculação com movimentos trotskistas. Empossado com honras que não foram dispensadas a nenhum colega do governo, Fernando Henrique é o primeiro ministro da Fazenda que foi cassado pelo AI-5 e impedido de dar aulas na universidade nos tempos do milagre econômico.
O novo ministro cresceu numa família de militares. Seu avô foi marechal, um tio-avô chegou a ministro da Guerra de Getúlio Vargas em 1932, quando os paulistas promoveram a Revolução Constitucionafista, e seu pai, o general Leônidas Cardoso, foi um dos patronos da campanha O Petróleo É Nosso. Perseguido em 1964, exilou-se no Chile, onde ficou amigo do presidente Eduardo Frei e do então senador Salvador Allende. Circulava por Santiago ao volante de uma Mercedes e residia numa casa confortável. Intelectual brilhante, desenvolveu a celebrada Teoria da Dependência, considerada uma das raras interpretações criativas de um trabalho do revolucionário russo Vladimir Lenin, o livro Inperialismo, Etapa Superior do Capitalismo. Na França, foi professor de Daniel Cohn-Bendit, líder das barricadas de maio de 68. Fernando Henrique usou seu prestígio nos meios universitários para ajudar Cohn-Bendit a livrar-se de um processo de expulsão, movido por um ministro inconformado porque aquele estudante de cabelos ruivos e alemão de nascimento o chamara de fascista numa manifestação.
Fernando Henrique não chegou à Fazenda porque escreveu livros bonitos nem porque costuma expressar mais idéias inteligentes do que besteiras. Subiu de posto porque ele e Itamar quiseram. O novo ministro gosta do poder - e há pelo menos dez anos o poder vem dando sinais de que gosta cada vez mais dele. Líder da Nova República de Tancredo Neves, foi mantido no cargo por José Sarney. Na Constituinte, atuou como um dos principais redatores da Carta de 1988, ajudando a desfazer boa parte das trapalhadas do boto Bemardo Cabral. Eleito, Fernando Collor quis levá-lo para o mesmo Itamaraty onde seria instalado por Itamar. Sem apoio do PSDB, contudo, o senador desistiu. Em abril de 1992, apenas um mês antes de Pedro Collor dizer ao país que "PC é o testa-de-ferro de Fernando", ele se mobilizava para forjar uma aliança dos tucanos com o Planalto.
Em sua personalidade, Fernando Henrique combina dois elementos químicos. É dessas pessoas que preferem agradar a desagradar. Afável, possui uma paciência infinita e um bom humor de dar inveja. Ao mesmo tempo, o novo ministro da Fazenda construiu uma carreira com alguns aspectos muito nítidos. Já deu o braço a companhias estranhas, como Orestes Quércia, mas se afastou delas sem manchas. O intelectual esquerdista ficou para trás, mas, mesmo num jantar com tubarões da Fiesp, é impossível deixar de acreditar na sinceridade de suas preocupações com as mazelas sociais do país.
Desligado, na campanha de 1978 chegou a passar diversas noites dentro de um automóvel na estrada porque esquecera de abastecer o carro. O amigo e professor Bolívar Lamounier lembra uma passagem interessante. Alguns anos atrás, num restaurante, os dois descobriram que havia um grande alvoroço entre fregueses e garçons na hora de pagar a conta. "Só então ficamos sabendo que havia acontecido um assalto", conta Lamounier. "Entretidos em nossas discussões, nem percebemos o que ocorria." Das jornadas pelas diretas já de 1984 à sabedoria com que se mobilizou em oito meses de Ministério Itamar para tentar dar estabilidade a um governo desarrumado, Fernando Henrique mostrou que tem senso de responsabilidade. Teria sido muito mais confortável fazer piadas sobre o presidente do que ajudá-lo a encontrar saídas. O novo ministro preferiu assumir o mais difícil. Agora, mais do que nunca, a mistura irá decidir o destino de Fernando Henrique e do governo Itamar. "Pode ser que ele não dê certo", admite seu ex-aluno Francisco Weffort. "Mas, nesse caso, o governo Itamar não dará certo com ninguém."
O ministro é candidato
Elio Gaspari
Começou o consulado do ministro Fernando Henrique Cardoso. Poderá durar seis meses ou seis anos. Ele é candidato a dois destinos. Um é o de seus antecessores e consiste num ciclo que, começando com grandes banquetes, termina com a janta do homenageado. O segundo é a Presidência da República. Fernando Henrique Cardoso quer ser presidente, e isso é ótimo.
Ao contrário do que sucede com Lula e Paulo Maluf, cujas candidaturas dependem do fracasso alheio, Fernando Henrique Cardoso precisa do sucesso. Nisso joga tanto o futuro quanto o passado. Surgiu no quadro da crise brasileira o primeiro candidato disposto a ajudar São Jorge em vez de torcer pelo dragão, o que é um conforto até mesmo para o empresário malufista sufocado pela taxa de juros ou para o sociólogo petista atazanado pelo desemprego.
Há na ida de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda um eco da História. O que teria acontecido ao presidente João Goulart se em 1962 tivesse sustentado a indicação do professor Santiago Dantas para o lugar de prímeiro-ministro? Não teria morrido no exílio. Num plano secundário, o que lhe teria acontecido se um ano depois não tivesse colocado um obscuro Ney Galvão no Ministério da Fazenda? Há na escolha do novo ministro uma espécie de revanche da sensatez. Tudo muito bonito, mas será que vai dar certo? Isso ninguém sabe, nem o próprio ministro. Em compensação, até as pedras sabem o caminho do fracasso. Basta prosseguir a política suicida de complacência com a especulação financeira, o fisiologismo político e a anarquia administrativa. Em resumo: o ministro da Fazenda precisa ter o controle absoluto dos instrumentos de política econômica. É preciso que ele mande e que obedeçam aqueles que tiverem juízo. Nunca é demais lembrar que o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Trata-se de exercê-lo, porque o Brasil não pode mais viver de emanações. Isso significa demitir presidentes de bancos estatais nomeados por compadrio, denunciar governadorés caloteiros e barrar fisiológicos vulgares que ocupam cadeiras no Congresso ou em guildas de empresários. Nunca foi tão fácil. O povo brasileiro, único na história humana a aplaudir o confisco de sua poupança, apóia qualquer esforço que resulte na queda da inflação.
O suave senador Cardoso poderá ser o homem certo para esse papel que parece desenhado para o Antônio Conselheiro porque é candidato a presidente da República, e só por isso. Ou morde a carcaça alheia ou haverão de comer-lhe a sua. É só escolher. Com inflação em queda será chamado de erudito, acadêmico que evoluiu em suas posições políticas, operador prudente. Inflação em alta? Vaidoso, volátil, vacilante.
Ou ele enche a caneta de tinta e pendura meia dúzia de esqueletos na porta de sua taba, como faziam os tamoios, ou vira mais um zumbi da nobiliarquia nacional. São pessoas que ocuparam ministérios fracassados em governos desgraçados e passam o resto de suas vidas procurando platéia para as histórias tenebrosas que contam a respeito da vida dos presidentes a quem serviram. Como se fosse possível jogar sobre personagens a quem bajularam (e a quem muitas coisas pediram, mas nunca a demissão) toda a culpa pelo que lhes faltou coragem para fazer.
|
|