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BRASIL O candidato do gogó 6 de abril de 1994
A inflação continua alta, seu desempenho nas umas e uma incógnita, mas Fernando Henrique entra na campanha já como segundo colocado
Terça-feira passada, 11 horas da noite. Fernando Henrique Cardoso está na casa de amigos, balançando um copo de uísque na mão direita. Sem paletó, gravata afrouxada no pescoço, está de bom humor, depois de um dia difícil. Comenta que a marca do néctar escocês, Logan, é "homenagem ao Collor" e diz que tinha razão o falecido ministro Gama e Silva quando observou que, no fim do dia, o que um ministro brasileiro da Fazenda precisa é de uma dose de uísque e de um adulador contumaz ao lado. Usa a expressão popular que define os áulicos. É uma noite de transição. Ela marca o último dia de Fernando Henrique no ministério e o primeiro de sua campanha pelo cargo de sucessor de Itamar Franco. Quando explica que não foi colocado para escanteio pelo presidente Itamar, que teria nomeado o embaixador Rubens Ricupero para a Fazenda à sua revelia, Fernando Henrique comporta-se como ministro. Mas, quando diz que atacará Itamar Franco ou qualquer um que armar alçapões em sua campanha a presidente, já assume a face de candidato, agressivo e confiante.
"Sou intelectual mas não sou cretino", brinca. "Quero ser presidente do Brasil porque acho que sou o mais bem capacitado entre os que estão na disputa. O Maluf também tem condições de exercer a Presidência. Mas eu sou melhor. Tenho mais experiência, sei o que é este país." Nada mais natural que um político, qualquer que seja ele, almeje chegar ao topo da carreira, o Planalto. Nada mais natural. pois, que Fernando Henrique Cardoso tenha assumido há dez meses a Pasta da Fazenda com o objetivo de usá-la como trampolim para se lançar candidato. Que tenha acalmado Itamar, sempre disposto a dar palpites inoportunos no terreno econômico. Que tenha feito seu plano econômico para poder saltar mais alto. Que tenha lançado a URV três semanas antes de sair. Que a nova moeda, o real, esteja planejada para ir às ruas em junho. E que, pela estratégia de Fernando Henrique, em setembro, às vésperas da eleição, a inflação esteja lá embaixo, sem recessão. Todo o Brasil está careca de saber dessa urdidura.
Rompantes pacoteiros - Mesmo assim, Fernando Henrique nega a trama. Não se comove com as gargalhadas que desperta quando sustenta que só decidiu ser candidato em dezembro último. "Querer ser presidente é fácil, todo mundo quer", avalia. "Difícil é ter as condições para decidir-se a sair em campanha com possibilidades de sucesso, e essas condições só comecei a ter em dezembro." Antes, só teve problemas. Primeiro, o presidente e sua turma de Juiz de Fora, com seus rompantes pacoteiros, impaciência ante a escalada da inflação e vontade de intervir com mão pesada na economia. Pois Fernando Henrique conquistou a confiança de Itamar. Ele é o único ministro ou amigo que usa o elevador privativo do presidente no Palácio do Planalto. Está entre os quatro que podem entrar no gabinete de Itamar sem se fazer anunciar ou bater na porta. Os outros são José Aparecido de Oliveira, embaixador do Brasil em Portugal, José de Castro, presidente da Telerj, e o senador Pedro Simon. Fernando Henrique tem mais ascendência sobre o presidente que os juiz-foranos Mauro Durante, Maurício Corrêa os irmãos Ruth e Henrique Hargreaves. Na dialética do poder, a tese Itamar teve em Fernando Henrique uma antítese gerando uma síntese em que o presidente depende do ex-ministro candidato.
Na segunda ordem de problemas, o ministro teve de se haver com sua equipe econômica. Oscilando entre a cautela e o pavor de fazer algo que os deixasse mal entre seus pares da academia, os economistas que Fernando Henrique levou para Brasília passaram meses envoltos em dúvidas hamletianas. A tal ponto que André Lara Resende, alternando surtos de euforia e depressão, deixou o seu cargo de assessor especial e de negociador da dívida externa. Por fim, em meados do semestre passado, o ministro passou a ser cobrado pela sociedade civil, principalmente pela imprensa, por não fazer nada, por só falar, falar, dar belas entrevistas, e não agir para debelar a inflação. Em dezembro, as coisas começaram a se ajeitar. Não que elas se tenham resolvido. Os indicadores econômicos que Fernando Henrique lega ao país são desastrosos. Itamar continua o mesmo: na última hora, armou uma arapuca para que o governador mineiro Hélio Garcia virasse vice na chapa de Fernando Henrique, com base no argumento de que "Minas não ficar de fora, sô". Quanto à esperança de que a inflação caia, no terreno social ela se resume a isso mesmo: uma esperança.
"Durante um ano, só com gogó, consegui controlar esse Brasil conturbado", diz Fernando Henrique, tomando a sua terceira dose de uísque da noite e deixando entrever uma sensação de onipotência. Verdade em termos, pois com gogó e tudo a inflação continuou descabelada. E é a inflação que será sua Nêmesis na campanha eleitoral. "Se a inflação não cair, minha candidatura será nada", reconhece o ex-ministro. Para a inflação cair, pensa o candidato tucano, basta que Itamar e Ricupero se mantenham fiéis ao plano e saibam gerenciá-lo. No geral, Fernando Henrique acha que não haverá maiores problemas na manutenção de uma relação tão delicada como a sua com Itamar, mesmo sem poder irromper no gabinete presidencial quando bem entender. "Claro que há discordâncias entre nós, mas no fundamental Itamar sabe que não o traio e tem sido correto comigo", diz o ex-ministro, encaminhando-se para a mesa onde comerá camarão. "Nisso ele parece com o Mário Covas, que durante anos teve dúvidas e hoje sabe que pode confiar em mim."
Perfil esdrúxulo - Na nomeação de Ricupero, contudo, Itamar agiu com uma ponta de desconfiança em relação a Fernando Henrique. Na quinta-feira dia 24, encontraram-se no Planalto para discutir a sucessão. O ministro propôs que o presidente decidisse a sua substituição levando em conta três perfis. Primeiro, o de um político. "Nesse caso, o único que vejo é o Tasso", ponderou, referindo-se ao ex-governador tucano do Ceará. "Mas ele tem uma eleição praticamente certa no Ceará para governador e não quer o ministério." O segundo perfil seria o de um economista, de um técnico da equipe. Surgiram os nomes de Pedro Malan, presidente do Banco Central, do assessor especial Edmar Bacha e de Clóvis de Barros Carvalho, secretário executivo do ministério. Mas Pedro Malan, ainda que de público afirmasse que levaria o convite em consideração, já havia dito a Fernando Henrique que não queria o cargo, pois se considerava no limite de sua capacidade de exposição na imprensa e tinha dificuldades familiares (sua mulher, Catarina, mora em Washington). Bacha, mais cedo ainda, também recusara liminarmente as sondagens. E com Barros de Carvalho, que efetivamente toca o dia-a-dia do ministério, havia a dificuldade insuperável da pergunta, geral e atônita, caso fosse o escolhido: que Clóvis?
O terceiro perfil seria o de alguém "diferente", de preferência funcionário público de carreira. Ou seja, nesse perfil esdrúxulo só cabia um nome, o de Rubens Ricupero, lotado no Ministério do Meio Ambiente. "Mas parece que ele não quer", disse Fernando Henrique ao presidente. O diplomata havia viajado no mesmo vôo em que Ferriando Henrique retornou dos Estados Unidos uma semana antes, depois de suas conversas com o Fundo Monetário Internacional, e, sondado, disse que não queria a Fazenda. Fernando Henrique sabia que o nome era de agrado do presidente. Ricupero esteve entre os primeiros a ser cogitados para o cargo, assim que o impeachment de Fernando Collor foi votado, junto com o empresário Paulo Cunha, do grupo Ultra, e Carlos Antonio Rocca, executivo do Mappin. Ricupero não aceitou a incumbência pela segunda vez, quando Eliseu Resende saiu do ministério, argumentando que não entendia de economia. Agora, ele acha que entende: está há um ano no Brasil, sabe como as coisas funcionam e se propõe tão-somente a executar o plano feito pela equipe de Fernando Henrique. A conversa no Planalto foi encerrada com a lembrança de Fernando Henrique de que ainda não estava 100% decidido a concorrer à Presidência, com o compromisso de Itamar de que sondaria Ricupero novamente e com uma nova reunião entre ambos na segunda-feira. Só que, momentos depois de Fernando Henrique sair do gabinete, Itamar fez-se de bobo: ligou para Ricupero e, em vez de sondá-lo, convidou-o para assumir a Fazenda. E fez de bobo Fernando Henrique, que foi informado pelo próprio Ricupero no dia seguinte, quando Brasília, inteira já sabia, que Itamar o havia convidado para o cargo. "É o jeito de Itamar fazer política, e não má-fé", diz Fernando Henrique, recusando o vinho que lhe é oferecido no jantar.
Itamar nomeou Ricupero e, num outro lance, tentou colocar seu pão de queijo na campanha de Fernando Henrique. Na quarta-feira passada, o ministro-candidato apareceu no Planalto às 11 da manhã. No gabinete presidencial, Itamar e o governador mineiro Hélio Garcia o esperavam com a aflição de pai e noiva num altar de igreja. O presidente colocou o nome do governador na mesa como ideal para o de vice de Fernando Henrique e, só depois de notar o constrangimento do ministro, ressalvou: "É claro, se o Fernando Henrique concordar". Hélio Garcia, um desses políticos que acreditam em esperteza mineira nas artimanhas políticas, simulou modéstia. "Eu acho que posso ajudar mais ficando no governo de Minas", disse, com uma comovente falta de convicção. Fernando Henrique concordou, e o noivado parecia anulado antes de ter começado quando apareceu o senador Pedro Simon e quase estragou tudo.
Simon entrou no gabinete e foi logo dizendo que achava Hélio Garcia uma boa idéia, o que obrigou Fernando Henrique, imitando seu chefe, a se fazer de bobo. Argumentou que uma decisão dessas só poderia ser tomada em maio, na convenção do PSDB - quando nenhum dos presentes ignorava que uma deliberação desse quilate será acertada no silêncio dos bastidores, cabendo aos convencionais apenas referendar um acordo firmado com antecedência. Hélio Garcia entendeu a mensagem e comunicou ali mesmo que nem sequer se daria ao trabalho de se desincompatibilizar do cargo para aguardar a decisão dos tucanos. Mas o governador não perdeu a viagem. À saída do Planalto, deu uma entrevista dizendo que Fernando Henrique o convidara para vice.
Bebe muito - Ao patrocinar a vice-candidatura de Hélio Garcia, Itamar tentava repetir sua própria história. Na campanha de 1989, Fernando Collor tirou-o de uma aposentadoria precoce em Minas Gerais para transformá-lo num obscuro companheiro de chapa que o impeachment conduziria ao Planalto. Itamar também se rendeu a um de seus cacoetes mais conhecidos - a obsessão mineira. "O presidente se convenceu de que candidatura a vice-presidente do Hélio Garcia era a única forma de Minas Gerais participar diretamente da eleição presidencial. Não há outros nomes para outros cargos", afirma um ministro, também ele mineiro. Com 10,2 milhões de eleitores, Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país, tesouro valioso em qualquer disputa. Em 1989, em Minas, Collor foi o primeiro colocado nos dois turnos, o que não quer dizer que um aliado mineiro seja garantia automática de bons votos. Segundo governador mais impopular do país, logo atrás de Leonel Brizola, Hélio Garcia não seria o primeiro nome a vir logo à cabeça de muitas pessoas interessadas em ajudar Fernando Henrique. Quem levou essa idéia a Itamar foi outro mineiro, o embaixador em Lisboa, José Aparecido de Oliveira.
Bonachão, conhecido por sua pouca disposição de comparecer ao gabinete e pelo hábito de delegar responsabilidades a seus auxiliares, em Minas Gerais Hélio Garcia recebeu o apelido de "Dojão", referência ao velho automóvel Dodge Dart, que fazia muito sucesso nos anos 70. Por seu desempenho, o Dojão era conhecido como um automóvel que bebe muito. Por suas linhas aerodinâmicas, era considerado fora de moda - mas admitia-se que já fora bonito. Para os tucanos, o último contato com Hélio Garcia não foi uma experiência muito proveitosa. Há cerca de um mês e meio, o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, foi encontrar-se com o governador para uma conversa formal sobre a campanha presidencial. Era uma quarta-feira, expediente normal, e estava marcado um almoço na residência oficial do governo mineiro. O governador recebeu-o às 13 horas em camisa de mangas curtas sem gravata, aberta nos dois primeiros botões. Serviu-se de uma dose de uísque e começou a conversar, contar casos e comer torresminho. Os comes e bebes foram-se repetindo e apavorando o tucano, dono de três pontes de safena e pouco afeito ao álcool e às comidas gordurosas. O almoço não saía. Às 16h30, Hélio Garcia comunicou que a imprensa estava do lado de fora ávida por notícias. Abriu a sala, recebeu os jornalistas, deixou que Tasso falasse primeiro e depois, sem nada dizer, encerrou a entrevista. Às 17h30, Garcia convidou Tasso para, finalmente, almoçar: tutu, couve com alho, torresminho e costelas de porco.
A questão do vice da chapa de Fernando Henrique continua em aberto, mas nem tanto, já que o ex-ministro prefere alguém do PFL no cargo e o PFL, como é a postura do partido, quer alguém seu no cargo. O nome com maior trânsito entre tucanos e pefelistas é o do deputado Luís Eduardo Magalhães. No final da semana, Luís Eduardo estava dividido: sua reeleição como deputado é certa, e ele tem boas chances de, eleito, disputar e vencer a batalha para ser o presidente da Câmara, mas também gostaria de ser vice, desde que fosse firmado o compromisso de que seria nomeado para algum ministério. Depois dele, as preferências vão para Vilson Kleinübing, o governador de Santa Catarina. Fernando Henrique considera que o deputado pernambucano Gustavo Krause "não soma muito". Figura decisiva na indicação do vice do candidato tucano será o ex-governador da Bahia Antonio Carlos Magalhães, que disputa uma vaga para o Senado. E Antonio Carlos tem a mesma dúvida de seu filho Luís Eduardo: Fernando Henrique tem condições de vencer a eleição?
Trator - Ao se lançar, e com a desistência de Paulo Maluf de concorrer, ele já saltou para o segundo lugar nas pesquisas, com 19% das preferências, tornando-se o anti-Lula por excelência. É muito e é pouco. É muito porque até agora Fernando Henrique se resume ao seu célebre gogó, que promete inflação baixa, restauração da crença na moeda nacional. E pouco porque apesar de aparecer, sob ângulos favoráveis, na televisão dia sim e outro também, enquanto o candidato do PT quase não surge na tela, Lula está com o dobro das preferências. A trajetória eleitoral de Fernando Henrique mostra que ele não é exatamente um trator. Conseguiu ser suplente do senador Franco Montoro em 1978. Em 1985, perdeu a prefeitura paulistana para Jânio Quadros. Em 1986, conseguiu 6 milhões de votos, sendo ultrapassado apenas por Mário Covas. Sempre concorreu pelo PMDB, que naqueles tempos era uma máquina formidável de fazer votos. E na única eleição que ganhou foi tremendamente beneficiado pelo Plano Cruzado, que jogou para as alturas a popularidade dos candidatos peemedebistas.
No domingo anterior à Páscoa, Fernando Henrique telefonou para Antonio Carlos Magalhães, o chefe pefelista com o maior balaio de votos e autoridade política. A questão de a Vice-Presidência ir para o PFL foi facilmente resolvida. Um deixou o outro à vontade. "ACM terá a sabedoria de indicar um nome que eu queira", diz Fernando Henrique. "FHC deverá escolher o melhor nome que lhe convém numa eleição", afirma Antonio Carlos. Na questão de campanha, o ex-governador baiano disse o que pensa ao interlocutor. Acha que ele deve mudar. Que o seu estilo é muito suave. Que sua postura conciliadora é boa para governar, mas não para ganhar eleições. Que deve ser mais agressivo. Que precisa ser mais afirmativo e menos explicativo. O ex-presidente Fernando Collor, que entende de ganhar eleição, tem uma avaliação mais cética sobre as possibilidades de Fernando Henrique. "Eleição, principalmente entre os pobres, que formam o grosso dos votantes, é 90% de emoção e 10% de razão", diz. "Sem discutir suas qualidades de político, como candidato Fernando Henrique é muito professoral, acadêmico e racional, não tem empatia popular."
Tomando um cafezinho, quando vai alta a madrugada de quarta-feira, o candidato tucano discorda de restrições semelhantes que lhe são feitas pelos amigos. "Entrei tarde na política, vinha do exílio e das universidades, e consegui me eleger, estou na vida pública há mais de quinze anos", diz. E prossegue. "Dizem que sou intelectual como se fosse uma pecha, que não sei carregar criança no colo, apesar de ter dois netos. Mas é bom lembrar que quando concorri com o Jânio, e não sabia nada de eleição, comecei com 2% das preferências e quase ganhei. Tive 1 milhão de votos a mais que o Quércia, que continua dizendo que sou ruim de voto. Em eleição proporcional, só o Covas me superou. Sou a segunda maior votação da história do Brasil."
Síndrome Eduardo Gomes - Ainda assim, paira sobre a candidatura de Fernando Henrique a síndrome de Eduardo Gomes, o candidato da UDN nas eleições presidenciais de 1945. Queridinho das elites e bem visto pela classe média, o brigadeiro - "bonito e solteiro", como dizia o slogan da época - despontou como um vitorioso no início da campanha. Foi dizimado pelo general Eurico Gaspar Dutra, baixote, sisudo e com fama de energúmeno. Dutra tinha o apoio do ditador apeado, Getúlio Vargas, e da usina de votos que era o PTB. A síndrome de certa forma se repetiu em 1986, quando a candidatura do empresário Antonio Ermínio de Moraes ao governo paulista foi adotada pela fina flor da elite do Estado. Tantas bobagens Antonio Ermírio cometeu, caindo em todas as armadilhas que Orestes Quércia montava para fazê-lo perder a compostura, que perdeu feio para o candidato do PMDB. Eleição no Brasil está longe de ser um debate de idéias entre intelectuais. Nas semanas finais, quando os eleitores decidem em quem votar, costuma ser um vale-tudo sinistro. Fernando Henrique já foi vítima desse vale-tudo. Ao concorrer à prefeitura de São Paulo, os janistas explicaram que era "maconheiro", porque admitira numa entrevista que uma vez fumara a droga, e "ateu", pois titubeou ao responder a uma pergunta do jornalista Boris Casoy se acreditava em Deus. Agora, de fitinha do Senhor do Bonfim no pulso e esclarecendo que não poderia ter sido maconheiro até por uma questão de geração (tem 63 anos), Fernando Henrique diz que está disposto a responder a insinuação cabeluda ou infâmia sem resposta.
"Eu aprendi. Vou tratar meus adversários da maneira como eles me tratarem", revela. "Se vierem com dossiês, afirmações malévolas, baixarias, receberão o troco na hora." Antes de se decidir a disputar a eleição, Fernando Henrique conversou com a mulher, a socióloga Ruth Cardoso, e os três filhos. Segundo ele, a família sabe que o jogo poderá ser pesado e está ao seu lado para o que der e vier. Quando perguntam detalhes sobre a conversa com a família, Fernando Henrique é liminar: "Isso não é da sua alçada, a minha vida privada diz respeito a mim e a minha família".
No círculo do candidato do PSDB, avalia-se que, no primeiro turno, os ataques mais agressivos terão origem nas fileiras de Orestes Quércia, caso seja ele, e não o ex-presidente José Sarney, o candidato do PMDB. Atolado nos seus 6% de preferência nas pesquisas eleitorais, afundado em denúncias de corrupção, mas com muito dinheiro, Quércia não teria nada a perder ao apelar para a baixaria. "Não tenho medo de Quércia", diz Fernando Henrique. "Entrei no velho MDB como oposição ao quercismo. Sempre estivemos em posições opostas e o enfrentei em todas as ocasiões em que foi preciso." No segundo turno, caso os finalistas sejam Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique, os tucanos avaliam que o PT também poderá bater firme. "O PT acha que tem o direito divino de chegar ao poder e pode ser capaz de tudo", avalia o ex-ministro de Itamar. "Mesmo assim, conheço o Lula, sei como lidar com ele."
Foto de campanha - Quando os pratos são retirados da mesa de jantar, Fernando Henrique não compra a provocação: como se sente, pessoalmente, aliando-se ao PFL, partido conservador e fisiológico, quando na eleição passada votou no segundo turno em Lula? "PSDB e PT não governam sozinhos este país. Não basta ganhar a eleição. É preciso haver uma aliança sólida que garanta a governabilidade, que possibilite a realização de mudanças profundas, que faça o Brasil ir para a frente." Dois dias depois, já como candidato, Fernando Henrique não conseguiu andar para a frente. O Niva de sua filha, estacionado na garagem de seu prédio em Brasília, não pegava, e jornalistas tiveram de empurrá-lo no sentido da marcha à ré. Foram convencidos a ajudá-lo pelo gogó de Fernando Henrique, que conseguiu, de quebra, que uma simpática foto de campanha - a do cidadão comum que dirige o próprio carro - fosse estampada na primeira página dos jornais do dia seguinte.
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