BRASIL
Atrás da cena, FHC afia as armas do seu triunfo
12 de outubro de 1994

Expedito Filho

O pior dia da campanha do presidente eleito, Fernando Henrique, foi o último. Na manhã de 2 de outubro, quando ia visitar um tio no Rio de Janeiro, no meio do caminho da comitiva aconteceu um assalto a mão armada. Saindo do Arpoador, FHC deu de cara com o início de um arrastão de praia. O candidato não pensou em atentado nem teve medo de levar uma bala perdida. Mas o sociólogo e cidadão percebeu, de chofre, o que é a insegurança carioca - e assustou-se, como nunca antes na campanha.

Na noite antes da eleição, em seu apartamento em Higienópolis, em São Paulo, Fernando Henrique tentou relaxar e tomou um copo de uísque. Mas só conseguiu descontrair urn pouco quando Alberico de Sousa Cruz, diretor de jornalismo da Globo, telefonou para lhe passar os números, ainda parciais, da última pesquisa do lbope. Fernando Henrique anotou num papel: "48 a 21". Pouco depois, sua filha Luciana avisou: "Pai, o lbope". Fernando Henrique saltou da cadeira e correu para a frente da televisão. Queria certificar-se de que os números eram aqueles mesmos. Ali ficou. Assistiu à reportagem do Fantástico sobre o célebre debate televisivo da campanha presidencial americana em 1960, em que John Kennedy deu sua virada sobre Richard Nixon. Fernando Henrique cornentou, sern nenhuma modéstia: "Na TV, sou melhor que John Kennedy".

A vaidade, um pecadilho confesso, não foi suficiente para afugentar os fantasmas daquela noite de véspera de eleição. Temia que sua vitória no primeiro tumo não se confirmasse. "Só vou acreditar no resultado final", disse. Foi dormir com a dúvida na cabeça e acha que não sonhou. Fernando Henrique é desses que nunca se lembram dos sonhos ao acordar. Quando se levantou no dia seguinte, olheiras profundas, estava pronto para o último gesto antes de desaparecer. Ao meio-dia, votou na Escola Alberto Levy, no bairro de Indianópolis, em São Paulo. Dava-se ali o ato derradeiro de uma campanha que teve a forma geral de uma disputa de alto nível, mas também foi um mosaico de segredos bem guardados, intrigas e conflitos, e um punhado de golpes baixos escondidos na manga para uma situação qualquer de emergência.

Em fevereiro, quando em público ainda se dizia em dúvida sobre ser ou não candidato, Fernando Henrique já se movimentava em privado para montar a sua campanha. Certo dia, deixou seu apartamento em Brasília para um encontro sigiloso com Carlos Augusto Montenegro, dono do Ibope. Na reunião, no apartamento de Eduardo Jorge Caldas Pereira, assessor de Fernando Henrique desde 1983, Montenegro mostrou os seus números sobre a sucessão presidencial. "O Lula está inflado", disse o dono do Ibope. "Está em campanha desde 1989, e não ganha as eleições." Montenegro informou que havia dois nomes em boas condições de bater Lula. "O senhor e o Britto", disse, referindo-se ao então ministro da Previdência, Antônio Britto.

Fernando Henrique quis saber se precisaria, para vencer, fazer aliança com o PFL. "O senhor vence corri unia chapa puro-sangue. O PFL vem atrás." Fernando Henrique guardou na mernória as avaliações do homem do lbope, mas duvidava da tese de que a aliança com o PFL era desnecessária. Desconfiava que, sozinho, apoiado só na frágil estrutura partidária do PSDB, seu vôo não teria longo alcance.

Mais candidato do que nunca, mas ainda ministro da Fazenda, Fernando Heririque deu a última palavra sobre o seu futuro em outra reunião secreta. Nos dias 5 e 6 de março, na fazenda que mantém em sociedade com o amigo Sergio Motta, no interior de Minas, encontrou-se com o próprio Motta, o "Serjão", e Eduardo Jorge. O tucano tinha três dúvidas. Queria discutir a aliança com o PFL, dissecar o estrago que a saída do Ministério da Fazenda poderia causar em sua reputação e, por fim, avaliar em que nível a campanha seria feita.

Estava preocupado com boatos envolvendo sua vida pessoal, que poderiam destroçar a candidatura. Durante dois dias, o trio avaliou tudo. Concluiu que a aliança com o PFL seria eleitoralmente lucrativa e a renúncia ao ministério, um problerna menor. Sobre as baixarias de campanha, não havia o que fazer - era correr o risco, ainda que acreditasse que Lula não permitiria que o PT tomasse públicos assuntos familiares. "Vou ser candidato", disse aos amigos. "Mas antes vou conversar com Ruth". Assim fez. Aproveitou uma viagem a Nova York para ter uma longa conversa corn sua mulher, Ruth Cardoso. Ela sabia dos boatos, tinha nojo ante a possibilidade de que a vida da família fosse devassada. Ainda assim, a futura primeira-darna concordou com os argumentos do rnarido.

Com a aliança com o PFL acertada num café da manhã em Brasília, FHC deixou a Fazenda em abril. Recebeu então um estudo, sob o título "Perfil de um presidente ideal", feito por Antônio Lavareda, o sociólogo que coordenou as pesquisas da campanha tucana. O estudo dá uma série de dicas e chega a falar sobre o nome que o candidato deveria usar. "Fernando" é descartado porque "também é o nome de Collor". "Fernando Cardoso" também não pode, pois tem as iniciais de Fernando Collor. "Fernando Henrique Cardoso" é longo dernais e as iniciais, "FHC", parecern nome de remédio. Aconselha o uso de "Ferriando Henrique". apenas. No mesmo estudo, Lavareda diz que a imagem do candidato precísava de um retoque. "A falta de proximidade com o povo precisa ser neutralizada." Pensou-se numa forma de aproximar o candidato dos pobres, mas quem avisou que isso era bobagem foi o americano James Carville, o rnarketeiro que virou o cérebro da campanha vitoriosa de Bill Clinton à Casa Branca. Em vez de uma imagem forçada, que o ligasse aos pobres, Carville recomendou que FHC aparecesse corno o "homem preparado para resolver o problema dos pobres". Assim foi na propaganda da televisão.

James Carville chegou ao Brasil causando furor. "Ele se achava o máximo", desdenha urn dos publicitários do PSDB. A primeira reunião da equipe de marketing com Carville foi no Hotel Caesar Park. em São Paulo. Estavam lá Nizan Guanaes e Geraldo Waither, da agência DM9, e Einhart Jacome da Paz, dono da Diana TV e cunhado do ministro Ciro Gomes. Carville apareceu com sua mulher. Mary Matalin, também marketeira, que trabalhou na reeleição de George Bush. Durante uma exposição feita por brasileiros sobre o perfil do eleitorado, Carville e Matalin não demonstraram muito interesse. Trocavam beijinhos e apertos de mão por baixo da mesa. Carville fez uma palestra com tradução simultânea e, em seguida, quis saber como seria o material de campanha - logotipos, símbolos e marcas em geral. Nenhum inteurante da equipe brasileira se havia preparado para uma exposição sobre o assunto. Os assessores tucanos começaram a trocar acusações ern português. Um colocando a culpa no outro, o que levou Carville a mandar um bilhete para um sócio americano que o acompanhava. Findo o encontro, por esquecimento, o bilhete de Carville ficou em cima de uma mesa. Um dos membros da equipe o leu e colocou-o no bolso. Referindo-se ao publicitário que fez carreira como dono do marketing do prefeito Paulo Maluf, o papelzinho dizia, em inglês: "O Duda Mendonça é melhor que todos eles". Os publicitários ficaram loucos. "Se esse cara aparecer de novo, eu saio da campanha". ameaçou Nizan Guanaes.

Um problema maior surgiu quando se descobriu que o assessor de Bill Clinton trabalhava na campanha de FHC. Sergio Motta ligou para os assessores que tiveram contato com Carville para erguer urn muro de silêncio. "Ninguém fala nada. Tem um problema aí sobre quern paga ele. Só quem fala é o Fernando." Na época, o candidato limitou-se a garantir que não havia "contrato entre Carville e o PSDB". Quando Pimenta da Veiga, presidente do PSDB, confirmou a notícia de que o americano estava na campanha, Fernando Henrique passou-lhe um pito. O problema de quern pagou Carville permanece nas sombras.

Outra aparição curiosa foi a do espanhol Jesus Pedregal, que vive em Nova York e tem fama de genial (para uns) e de maluco (para rnuitos). Em junho, FHC levou Pedregal ao estúdio para exibir seus programas. Quando viu o símbolo da mão espalmada ern frente à bandeira, Pedregal não gostou. "Que pelota azul estrafia és aquella? Para que poner esa pelota?" Explicaram-lhe que se tratava do formoso céu risonho e límpido da bandeira. Guanaes ficou tão irritado com os palpites que, numa reunião, ameaçou avançar sobre o espanhol com urna cadeira na mão. Pedregal não voltou mais ao estúdio e passou a dar conselhos de seu quarto no hotel Bonaparte, em Brasília.

A briga na área publicitária não ficou apenas entre os profissionais do ramo. Chegou à cúpula dos tucanos, mas por rnotivos mais concretos - a verba de 8 milhões de dólares reservada para o prograrna de televisão do candidato. Fernando Henrique chegou a pensar em contratar um pool de agências, mas acabou optando apenas pela DM9. Além do talento de Geraldo Walther e Nizan Guanaes. a DM9 contava corri um excelente pistolão: Einhart Jacorne da Paz. Cunhado do ministro Ciro Gomes e diretor de TV das campanhas tucanas no Ceará, Einhart tinha Tasso Jereissati para fazer lobby a favor de sua Diana TV, que se uniu à DM9 na campanha. Mas Pimenta da Veiga quis levar a conta milionária para um amigo mineiro, o publicitário Chico Bastos, criador do tucaninho que até hoje é símbolo do PSDB. Mais uma vez, Sergio Motta entrou em ação. Ligou para Tasso Jereissati, informando sobre a idéia de Pimenta. O ex-governador do Ceará largou sua campanha à reeleição no Estado e tomou um jatinho para Brasília. Desembarcou disposto a manter a conta publicitária nas mãos dos amigos. Ganhou a parada.

Ao chamar o publicitário Nizan Guanaes, Fernando Henrique impôs condições. "Eu quero influir diretamente no programa. Não quero ser apresentado como um sabonete", era a primeira. "Só eu e o Sergio Motta podemos palpitas", a segunda condição. Em dois meses de campanha, nenhum político meteu o bedelho nos programas de televisão. A avaliação da campanha era feita todas as noites, em onze grupos de pesquisa qualitativa, reunidos em diferentes cidades. O horário político se encerrava às 9h30 e, por volta das 23 horas, a equipe da TV já sabia a opinião dos eleitores reunidos para avaliar o programa.

A campanha de Fernando Henrique dá a impressão de ter sido concebida nos moldes de uma disputa na Suécia, bem educada e só preocupada com o debate das idéias. Por trás dessa aparência, os tucanos recolheram armas pesadas e foram atrás de munição de alto calibre e baixa categoria. Em agosto, a empresa que fez sua assessoria de comunicação, a Free Press, colocou seus jornalistas para acompanhar secretamente, e até fazer fotos, da suposta amante de um dos adversários de Fernando Henrique. Se algum candidato dissesse algo sobre a vida privada de FHC, haveria troco. A Free Press também esquadrinhou o acidente de carro que matou o líder estudantil Luís Travassos no Rio de Janeiro, em 1982. Quem dirigia o carro era Aloizio Mercadante, candidato a vice de Lula. A arapongagem tucana "descobriu" que o inquérito sobre o acidente fatal fora arquivado por um suposto tio de Mercadante, secretário de Segurança do Rio, Waldir Muniz, famoso pelo envolvimento com o atentado do Riocentro.

Os tucanos trabalharam para que as informações chegassem à redação de um jornal do Rio de Janeiro, aguardando que a sua publicação tivesse o efeito de uma bomba sobre a campanha de Lula. Deu chabu. Mercadante não tem nenhum tio com o nome de Waldir Muniz, muito menos secretário de Segurança no Rio. Os arapongas do PSDB confundiram a figura com Wilson Muniz, esse, sim, tio de Mercadante e ex-reitor da Universidade de São Paulo. Enquanto a assessoria preparava dossiês sobre os adversários, Fernando Heririque adotou uma política de boa vizinhança preventiva. Ainda em maio, manteve um encontro secreto em São Paulo com o candidato do PMDB, Orestes Quércia. Reunidos na casa do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, os dois candidatos conversaram sobre o tom da campanha. Depois de fazer um apelo contra a baixaria, FHC disse: "Eu só tenho um probleminha, a fazenda. Mas isso é uma bobagem". A fazenda que tem com Sergio Motta, como já havia sido divulgado, foi comprada em maio de 1989 e registrada um ano depois por apenas 2.000 dólares, valor abaixo do de mercado, corroído pela inflação do período.

Em maio, o comando tucano discutiu quem seria o responsável pelo caixa da campanha. Havia um certo consenso de que a tarefa não poderia ficar a cargo de Sergio Motta, apesar de sua habilidade com as finanças. "Vamos colocar o Bresser. Além de honesto, ele é ingênuo demais para roubar", decidiu Fernando Henrique. Em agosto, Sergio Motta admitiu a VEJA que já havia desembolsado propinas para receber o pagamento de obras executadas pela sua empresa, a Hidrobrasileira, para o Estado. Fernando Henrique quis saber detalhes e Motta respondeu que falava em tese - não de um fato concreto. Feito isso, Motta começou a receber jornalistas para deixar claro que era o secretário-geral do PSDB e não caixa de campanha. FHC não gostou. "Esse pessoal está-se inviabilizando. Estão querendo se limpar", comentou. Às vésperas de ser eleito, o candidato já estava em bons termos com o amigo. "Não serei injusto com Sergio Motta. Irá para o governo, mas ainda não sei que cargo terá", disse.

Fernando Henrique fez com que Guilherme Palmeira fosse defenestrado rapidamente da condição de vice depois que se descobriram as relações de um assessor seu com a mala preta de unia empreiteira. Não queria Marco Maciel, figura que sempre achou ligada demais ao regime militar, e tratou de escondê-lo durante a campanha. Antes mesmo de vir a público a denúncia de que Marco Maciel recebera indiretamente dinheiro de PC Farias para sua campanha ao Senado em 1990, FHC encomendou uma pesquisa em regime de urgência. Os entrevistados acenderam uma luz vermelha ao mostrar que ninguém aceitaria relações com PC. Numa conversa com Fernando Henrique, Marco Maciel garantiu, de olhos marejados, que não havia nenhum cheque de PC na sua conta pessoal. Com essa informação e o sinal das pesquisas, estabeleceu-se a tática para enfrentar a denúncia. Não se negaria a ajuda indireta na campanhaa, apenas se diria que não havia dinheiro na conta pessoal. "O PFL enxerga longe, é um partido de profissionais". define Fernando Henrique.

Quem causou a maior preocupação da campanha tucana foi Rubens Ricupero. Até então, a equipe econômica funcionara em perfeita sintonia com as necessidades do candidato do governo. Quando o PT exibiu em circuito fechado seu programa para a economia, dois assessores da campanha tucana fizeram um relato para FHC sobre a proposta do PT. Feita a exposição, um deles indagou: "Podemos pautar o Bacha, o Gustavo Franco e o Ricupero para falar sobre a proposta deles?" Era a senha para colocar a equipe econômica na cola do PT, criticando as idéias na imprensa.

A tranqüilidade foi abalada na quinta-feira à noite, dia 1o de setembro. Logo depois da conversa de Ricupero com o jornalista Carlos Monforte, da Rede Globo, o assessor Eduardo Jorge recebeu um telefonema do diplomata Sérgio Amaral, chefe de gabinete de Ricupero. Amaral informou que o ministro fizera um desabafo ao jornalista e que as parabólicas haviam captado algumas "inconveniências". Eduardo Jorge ligou para o candidato. Disse o que sabia. A conversa envolvia o Real, a campanha e a Globo. "Mas o que é que ele disse exatamente?", insistia o tucano. O assessor não tinha detalhes e sugeriu a Fernando Henrique que ligasse na mesma hora para a Globo para tentar obter uma fita gravada da conversa. "Não posso ligar sem saber ao menos o que ele falou", respondeu o candidato.

Pouco depois, Eduardo Jorge soube que a assessoria de Ricupero fizera um acordo corn a Globo para não entregar a fita da conversa à Justiça Eleitoral, caso fosse requisitada. Não contavam com as gravações que foram feitas pelo país afora. Na sexta-feira, às 11 da noite, FHC recebeu um fax da conversa, na íntegra. Estava na casa do senador Pedro Simon, em Porto Alegre. "Isso é um absurdo. O Itarnar precisa trocar o ministro", disse Fernando Henrique a Simon, que concordou. O candidato ligou para o presidente Itamar, mas não conseguiu fazer com que a empregada Raimunda resolvesse acordá-lo. "Olha aqui, são 11 da noite e eu não tenho costume de ligar para o presidente a essa hora. A senhora, por favor, vá até o quarto de ltamar. Se ele não estiver com a porta fechada, avise que sou eu e que preciso falar com ele com urgência", implorou. A porta estava fechada. FHC e Itamar só conversaram às 9 da manhã do dia seguinte.

O presidente sabia da conversa e já estava decidido a demitir Ricupero. "Pode colocar alguém da equipe no lugar". sugeriu o tucano. "O Malan ou o Bacha". disse, referindo-se a Pedro Malan, presidente do Banco Central, e ao assessor especial Edmar Bacha. Na conversa, diante da dúvida de ltamar sobre se qualquer um dos dois toparia assurnir o cargo, Fernando Henrique blefou. Desesperado por unia solução urgente, disse que já havia conversado com ambos e recebera sinal verde. Não era verdade. Duas horas depois, Itamar telefonou, falando de Ciro Gomes na cabeça. "Ótimo, Itamar, acho ótimo", disse Fernando Henrique.

Mas havia um problema com Ciro Gomes. Via Tasso, Fernando Henrique Cardoso manda urn recado para Ciro: não havia nenhum compromisso de que ele seria mantido no ministério caso o candidato tucano fosse eleito presidente. Ciro voltou atrís e disse a Itamar que não queria o cargo. O presidente voltou a pensar em outros nomes. Numa conversa exploratória, procurou o ex-ministro da Justiça Maurício Corréa. "Ô Itamar, o Ives Gandra Martins é urn bom nome. É um homem de São Paulo, conhecido em todo o Brasil", sugeriu o ex-ministro, referindo-se a um dos mais conhecidos advogados tributaristas do país. Itamar gostou da idéia. O presidente deu a boa nova para FHC.

- Estou pensando em outro norne que me foi sugerido pelo Maurício.

- Qual? - perguntou o candidato.

- O Ives Gandra.

- O que é isso, Itamar? Você quer, como eu, o bem do Brasil, manter o Real e vai nomear o Ives Gandra. Ele é liberal, votou no Maluf.

- Mas o Ciro não quer.

- Pode deixar. Eu vou falar com o Ciro.

Era manhã de dorningo. No estúdio de televisão em São Paulo, onde ensaiava uma declaração sobre o caso Ricupero, Fernando Henrique saiu à procura do futuro ministro, que assistia a um jogo de vôlei de praia em Fortaleza. Conseguiu localizá-lo e pediu que aceitasse o cargo de qualquer maneira. Afirmou que o país precisava dele e sua nomeação não era apenas "importante" para o "projeto nacional" do PSDB, mas "decisiva". Ciro então telefonou para Itamar e aceitou a nomeação para a Fazenda. Agradecido, FHC agora cogita oferecer para Ciro o Ministério da Saúde.