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Economia
Uma cidade de costas
para
a selva. Ainda bem
A Zona Franca de Manaus é um bom exemplo
de produção de riquezas e empregos sem exercer
pressão sobre a floresta. Outros polos industriais
semelhantes podem ser criados na Amazônia

José Edward, de Manaus
Fotos Manoel Marques  |
| Sem mexer no mato
Imagem aérea da Zona Franca de Manaus: faturamento anual de 60 bilhões
de reais,
o dobro do PIB da Bolívia |
A região amazônica é hoje pelo menos duas
vezes mais rica do que há três décadas, segundo indica o
PIB dos estados que a compõem. Esse crescimento econômico, no entanto,
se deu em grande parte graças a atividades que têm como base a
destruição da floresta a exploração madeireira
e a pecuária extensiva. Quem estuda a Amazônia a sério concorda
que, para evitar que a região continue a ser explorada de forma predatória,
é preciso desenvolver atividades econômicas que não exerçam
pressão sobre a floresta, promovam riquezas e assegurem emprego e renda
à população. A experiência mais bem-sucedida nesse
sentido, até agora, é a Zona Franca de Manaus, um enclave de eficiência
tecnológica na Amazônia. Criada em 1967, como parte do plano do
regime militar de integrar a Amazônia ao restante do país, essa
região de livre-comércio compreende uma área de 10 000
quilômetros quadrados, incluindo a capital amazonense. Para viabilizar
seu projeto, o governo federal passou a conceder incentivos fiscais às
empresas que se dispusessem a instalar fábricas no meio da selva.
A isenção fiscal sobretudo do imposto sobre produtos industrializados (IPI) para mercadorias que entram e saem da área resultou na criação de um dos maiores e mais diversificados complexos industriais da América Latina. Pouco mais de quatro décadas após sua fundação, a Zona Franca de Manaus concentra 550 indústrias modernas, que fabricam desde lentes oftalmológicas até motocicletas. No ano passado, essas companhias alcançaram, juntas, um faturamento de 60 bilhões de reais o dobro do PIB da Bolívia. Nessa conta não estão computados os resultados obtidos pelas duas centenas de empresas dos setores de comércio e prestação de serviços que gravitam em torno das fábricas. "Toda essa
riqueza é produzida sem que seja necessário derrubar uma única
árvore", diz José Alberto Machado, especialista em desenvolvimento
regional e professor da Universidade Federal do Amazonas. "Temos aqui,
de fato, uma indústria limpa, de costas para a floresta", acrescenta
o economista Alexandre Rivas.
Machado e Rivas são autores de um estudo recém-lançado
que demonstra de forma científica o impacto virtuoso que o polo industrial
de Manaus exerce sobre a proteção da Floresta Amazônica.
Os pesquisadores chegaram à conclusão de que a existência
do complexo industrial atenuou em pelo menos 70% o desmatamento no estado do
Amazonas. O trabalho conclui que a dinâmica econômica provocada
pelas indústrias instaladas na Zona Franca contribuiu de forma decisiva
para que o Amazonas tenha atualmente 98% de sua área de floresta preservada.
No vizinho Pará, onde a base da economia se concentra na extração
madeireira e na mineração, 20% da floresta já foi destroçada.
Em Mato Grosso, que tem a agropecuária como carro-chefe, esse índice
chega a quase 40%. De acordo com a pesquisa, a maior parte dos 500 000 empregos
100 000 diretos e 400 000 indiretos que o polo industrial de Manaus
cria atualmente é ocupada por migrantes do interior do Amazonas e de
outros estados da região. "Não fossem essas indústrias,
muitos de nós com certeza não teríamos outra opção
senão ficar nas mãos das madeireiras", constata o paraense
Amauri Faria, que há quinze anos começou a trabalhar como auxiliar
de produção na fábrica de motocicletas Honda e hoje gerencia
uma unidade automatizada da montadora, na qual comanda 36 operários.
"Na região de Óbidos, no Pará, onde nasci, o desmatamento
corre solto, em plena calha do Rio Amazonas, por falta de opções
de trabalho como as que temos aqui", ele completa.
Até o início da década de 1990, a Zona Franca
de Manaus funcionava basicamente como um entreposto para a importação
de produtos, sobretudo eletroeletrônicos. Na maior parte dos casos, os
equipamentos eram apenas montados lá e, depois, distribuídos para
o resto do país. Após a abertura da economia brasileira ao mercado
internacional e a redução generalizada das alíquotas de
importação, antes restrita à Zona Franca, as indústrias
locais tiveram de se reinventar para sobreviver. Graças aos investimentos
em tecnologia e à intensa qualificação da mão de
obra, elas conseguiram agregar valor à produção e tornar-se
competitivas. Atualmente, uma média de 30% dos componentes de seus produtos
são fabricados na própria região. Outros 20% são
produzidos em outros estados brasileiros. No ano passado, as compras de insumos
feitas dentro do Brasil pelas indústrias do polo ultrapassaram a casa
dos 14 bilhões de reais. Em algumas fábricas, o índice
de nacionalização da produção é muito superior.
É o caso da Honda, que tem mais de 90% das peças de suas motocicletas
fabricadas no país no modelo CG 150 Titan, o mais vendido, esse
índice chega a 99%. A Honda brasileira é hoje campeã de
produtividade: a cada vinte segundos sai uma moto de sua linha de montagem
metade do tempo médio registrado nas outras oito unidades que a multinacional
possui fora do Japão.
Obrigada a importar mais da metade dos componentes que integram
seus aparelhos celulares já que o Brasil não dispõe
de fábricas de semicondutores , a finlandesa Nokia, por sua vez,
vem investindo para que sua filial em Manaus se transforme em um centro de desenvolvimento
de tecnologias para o setor. Para isso, patrocina uma escola profissionalizante
de nível médio aberta à comunidade. Mantendo aulas em regime
integral, nos últimos dois anos a instituição ficou em
primeiro lugar no ranking do MEC para a Região Norte. A Nokia mantém
também um instituto de pesquisas onde 300 funcionários, entre
os quais mestres e doutores, se dedicam exclusivamente a buscar inovações
tecnológicas para seus produtos e processos. Foi de lá que saiu,
por exemplo, o equipamento que testa a resistência de aparelhos celulares
utilizado atualmente em todas as fábricas da multinacional ao redor do
mundo. Várias tecnologias presentes nos aparelhos vendidos mundialmente
pela Nokia também foram desenvolvidas aqui, sobretudo na área
de softwares.
Para que o polo industrial de Manaus se consolide, falta desatar
alguns nós. Um deles é o da infraestrutura logística da
região. Manaus é ainda hoje uma cidade praticamente isolada: o
acesso a ela só é possível de avião ou por meio
de longas viagens de barco ou navio. Há também o gargalo da energia,
que, a exemplo do que acontece no restante do estado, é alimentada pelo
poluente e caro óleo combustível. Ainda no capítulo da
logística, é necessário que a estrutura portuária
da cidade seja modernizada. A orla de Manaus, ao longo do Rio Negro, é
um verdadeiro caos, com o engarrafamento diário de centenas de embarcações
de passageiros e de cargas.
A consolidação da Zona Franca de Manaus passa também
pela capacidade das indústrias locais de agregar mais valor a seus produtos.
Para isso, ajudaria atrair uma indústria de semicondutores para a região.
Atualmente, esses dispositivos, que funcionam como o "coração"
de diversos equipamentos, são todos importados o que encarece
muito os custos. "Esse melhoramento só será possível
se houver uma decisão política de transformar o polo em um centro
de produção de ciência e alta tecnologia, como ocorre no
Vale do Silício americano", diz o economista José Alberto
Machado. Entre os produtos que utilizam a microeletrônica estão
os marca-passos, os aparelhos destinados a suprir deficiências motoras
e sensoriais, os vinculados à defesa e à gestão de território
e os associados aos conversores da TV digital. A ampliação da
Zona Franca de Manaus em direção à alta tecnologia produziria
empregos suficientes para modificar a vida de milhares de habitantes da Amazônia.
A criação de polos semelhantes aos de Manaus poderia
transformar a economia da Amazônia. Com investimentos maciços em
educação e formação de mão de obra, estados
cuja economia se baseia no extrativismo e na pecuária poderiam deslanchar
como centros industriais capazes de desviar da floresta a atenção
de seus habitantes. Em Rondônia, um novo polo que alcançasse metade
do sucesso da Zona Franca de Manaus seria suficiente para triplicar o PIB do
estado. Em estados menores, como Acre e Amapá, um polo industrial os
faria produzir doze vezes mais riquezas do que agora. É o desenvolvimento
de costas para a floresta.
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Sem usar uma folha da floresta
Fábrica de motocicletas da Honda: a mais produtiva entre as nove que
a empresa mantém fora do Japão |
O empurrão das multinacionais
O polo industrial de Manaus abriu perspectivas para milhares de
trabalhadores progredirem na vida. Muitos fizeram carreira nas multinacionais
que se estabeleceram na região. Nascido em Manaus, Fernando Melo, de
35 anos, é um deles. Ele fez o 2º grau em uma escola técnica
patrocinada pela fábrica de celulares finlandesa Nokia. Posteriormente,
cursou graduação em engenharia elétrica e mestrado em engenharia
da produção. Há onze anos, ingressou na fábrica
que a companhia tem na capital amazonense como engenheiro júnior e, desde
2007, é gerente de suprimento e distribuição, um cargo
alto no qual responde diretamente ao diretor-geral. "A empresa abriu todas
as portas para mim", ele diz. |
A natureza é ótima comar-condicionado
O advogado e economista Átila Denys, nascido em São
Paulo há cinquenta anos, sente-se perfeitamente adaptado à vida
na Amazônia. Depois de 32 anos morando em Manaus, incorporou hábitos
da região. "Às vezes saio para pescar tucunaré com
amigos, navegando pelos rios Negro ou Madeira", conta. Mas, para ele, vida
selvagem tem limite. "A proximidade com a natureza é ótima
quando se tem ar-condicionado e todo tipo de conforto em volta. A floresta é
bonita de ver ali do outro lado do rio", diz. Dono do maior escritório
de advocacia do Amazonas, Denys garante que não trocaria Manaus por nenhum
outro lugar do Brasil. "Sofro um pouco com o calor. Mas aqui ninguém
precisa andar com carro blindado." |
3 exemplos de riqueza sem devastação
1 petróleo verde no interior do Pará
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Vida nova
Colheita de dendê na Agropalma: renda para famílias que antes viviam
de derrubar árvores |
Promover o desenvolvimento da Amazônia e o bem-estar de
seus habitantes por meio do extrativismo artesanal tem se revelado uma ilusão.
Quando a industrialização de uma matéria-prima da floresta
é feita de forma extensiva, porém, os resultados podem ser espetaculares.
Desde a década de 80, a empresa Agropalma cultiva e processa em larga
escala no município paraense de Tailândia, na região conhecida
como arco do desmatamento, a palmeira de dendê. Essa planta é originária
das florestas tropicais africanas, mas tem características típicas
de palmáceas amazônicas como o inajá e o açaí.
A empresa que pertence ao banqueiro Aloysio Faria, dono do Banco Alfa
instalou-se na região no início da década de 80
e hoje é a maior produtora de óleo de dendê da América
Latina. A gordura bruta é extraída em cinco usinas instaladas
na própria área de plantação. De lá, é
transportada numa balsa pelo Rio Pará até Belém, onde é
processada em uma refinaria. O óleo de dendê é usado, basicamente,
nas indústrias alimentícias e de cosméticos. Os ácidos
graxos que restam após o refinamento são utilizados para fabricar
biodiesel. Hoje, metade do óleo de dendê consumido no Brasil é
importada. A Agropalma faturou 650 milhões de reais no ano passado e
já investiu quase o mesmo valor em todo o empreendimento.
Cerca de 40% da área de 106 000 hectares que a Agropalma
tem na região amazônica é voltada para o cultivo de dendezeiros.
Desde 2000, as novas plantações ocorrem somente em áreas
já desmatadas. Apenas na colheita e no processamento primário
do dendê são criados 3 500 empregos diretos. A refinaria
e a usina de biodiesel abrem outros 500 empregos. A empresa desenvolve ainda
parcerias com dezenas de famílias da região que antes viviam da
extração ilegal de madeira e hoje se dedicam ao cultivo de dendezeiros.
Os pequenos agricultores recebem assistência técnica e têm
mercado assegurado para sua produção. Muitas famílias tiveram
a renda média mensal aumentada em dez vezes.
2 O minério que cria empregos
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Passo à frente
Fábrica de alumínio da Albras: processar a bauxita produz mais
riquezas
do que vendê-la in natura |
Quase toda a produção mineral da Amazônia
é exportada de forma in natura, ou seja, sem nenhum processamento industrial.
A industrialização do minério é um modo de criar
alternativas de emprego e renda para pessoas que vivem do desmatamento da floresta
nos arredores das jazidas. Um exemplo nessa linha ocorre em Barcarena, no Pará,
onde a Alunorte e a Albras transformam parte da bauxita produzida no estado
em alumínio. O processamento do minério é responsável
por 6 000 empregos diretos o dobro do que é criado na etapa
de extração. Não estão incluídos nessa conta
os 20 000 postos de trabalho indiretos formados por fornecedores e prestadores
de serviço que atuam ao longo do processo de produção.
As duas indústrias injetam anualmente cerca de 1 bilhão de reais
na economia paraense com a compra de insumos, o pagamento de salários
e o recolhimento de impostos. A agregação de valor da bauxita
também resulta em mais divisas para o país. O alumínio
exportado pela Albras é vendido em média por 2 600 dólares
a tonelada valor 75 vezes superior ao preço de exportação
da tonelada de bauxita bruta.
A redenção do Projeto Jari
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O desmatamento caiu
Serraria da fábrica de celulose do Grupo Orsa: manejo florestal
com auditoria
alemã |
A lendária fábrica flutuante de celulose que o magnata
Daniel Ludwig instalou nas margens do Rio Jari, na década de 60, finalmente
se transformou num exemplo de empreendimento sustentável no meio da floresta.
O Grupo Orsa, que atualmente está no comando da indústria, investiu
200 milhões de dólares em sua modernização tecnológica
e ambiental. Foram implantados filtros para redução de poluentes
e equipamentos que proporcionam reutilização da água. A
companhia desenvolve também um projeto de manejo florestal numa área
de mata nativa e se submete a auditorias periódicas comandadas pela ONG
alemã Forest Stewardship Council (FSC). Juntos, os empreendimentos criaram
3 500 empregos diretos e são responsáveis por cerca de 80% da
movimentação econômica de uma região habitada por
mais de 100 000 pessoas. A companhia desenvolve programas de geração
de renda para pequenos agricultores que moram em comunidades localizadas na
ampla área que está sob sua administração. Depois
da implantação desses projetos, o desmatamento ilegal foi reduzido
drasticamente na região. "Os moradores transformaram-se em guardiães
da floresta", entusiasma-se Sergio Amoroso, presidente do Grupo Orsa.
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