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Biodiversidade
O tesouro escondido na selva
A Amazônia tem a maior biodiversidade do planeta,
mas apenas
10% dela é conhecida pela ciência.
A falta de pesquisas e as leis
contra a biopirataria
impedem que o Brasil aproveite o potencial
de uso da flora
e dos microrganismos na medicina
e na indústria

Leandro Beguoci, de Manaus
Araquem Alcântara  |
| Rainha da floresta
Crianças brincam nas raízes de uma sumaúma, a maior árvore
do Brasil, que chega
a 60 metros de altura: 25% das substâncias usadas
hoje no tratamento de tumores
vêm de florestas tropicais |
Em poucos quilômetros quadrados da Floresta Amazônica
há mais espécies de plantas do que em toda a Europa. Há
mais espécies de animais do que na América Central. Uma única
árvore pode servir de lar a 1 700 tipos de invertebrados, que vão
de formigas a aranhas, de abelhas a besouros. A Amazônia é a região
de maior biodiversidade do mundo mas nós, brasileiros, só
temos uma pálida ideia dessa exuberância viva. Calcula-se que apenas
10% de todas as formas de vida que a Floresta Amazônica abriga já
tenham sido estudadas e catalogadas. Essa falta de conhecimento científico
sobre o bioma é uma das fragilidades amazônicas. O desconhecimento
representa um obstáculo para a produção de riqueza a partir
da floresta em pé. É impossível agregar valor ao que não
se conhece. Estima-se que a flora, a fauna, as bactérias, os fungos e
outros microrganismos da floresta guardem um enorme potencial para a produção
de remédios e alimentos e para vários setores da indústria.
A riqueza escondida, porém, não vale nada. É preciso mãos
e cérebros para descobri-la e é justamente isso que falta
de forma crônica à Amazônia.
O câmpus da Universidade de São Paulo em Ribeirão
Preto tem mais pesquisadores do que todo o estado do Amazonas. A Universidade
Federal do Rio Grande do Sul tem mais que o dobro do número de pesquisadores
do Pará, o estado líder na região em matéria de
cientistas qualificados. A Universidade de São Paulo tem o triplo de
doutores de toda a Amazônia. A região é cenário de
18% das pesquisas em biodiversidade no Brasil, contra 36% da Mata Atlântica,
embora essa última represente 2% da Amazônia. A falta de pesquisadores
é agravada pela baixa qualidade dos cursos de formação
de cientistas. Nenhum curso de mestrado ou doutorado de universidades amazônicas
alcança a nota máxima, 7, da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes), instituição ligada
ao Ministério da Educação. A maior parte leva 3, a nota
mínima para não fechar as portas.
Um prédio erguido em meio às indústrias da
Zona Franca de Manaus serve de símbolo do quadro desolador da pesquisa
científica na Região Norte. A construção abriga
o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), inaugurado em 2002 e dotado
de 25 laboratórios para explorar o potencial da floresta. Há bons
motivos para criar um centro de excelência em biotecnologia na Amazônia.
O Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, estima que 25% de
todas as substâncias usadas para tratamento de tumores no mundo, hoje,
venham de florestas tropicais. Só que o CBA virou um elefante branco
ou, como zombam os amazonenses, uma anta branca. O centro já consumiu
67 milhões de reais e ainda não produziu resultado algum.
Após a inauguração do CBA, sua administração
foi entregue provisoriamente à Superintendência da Zona Franca
de Manaus (Suframa). Desde então, os seis ministérios responsáveis
pelo projeto se perdem em discussões burocráticas tentando definir
qual deve ser seu modelo de gestão. A primeira opção seria
uma empresa pública só de pesquisas, com fins lucrativos, nos
moldes da Embrapa. A segunda, um instituto de pesquisa combinado a uma instituição
de ensino superior, como o Inpa, com objetivos puramente científicos.
Para a Suframa, o CBA é uma batata quente. O órgão não
sabe o que fazer dele nem tem autonomia para decidir seus rumos. "O Brasil
precisa aprender a transformar pesquisa em dinheiro e o CBA pode fazer isso,
mas não é a vocação da Suframa comandar um instituto
de biotecnologia", diz o economista Elilde Mota de Menezes, da Suframa.
Enquanto isso, semiparalisado, o CBA se limita a fazer análises químicas
para instituições de pesquisa e empresas particulares, subutilizando
seus aparelhos modernos, avaliados em 20 milhões de reais. Um dos últimos
trabalhos do órgão, acredite-se, foi avaliar a resistência
ao clima de uma marca de bombons fabricados em Manaus.
Para tirar a Amazônia do limbo científico, é
preciso também acabar com um mito tão arraigado quanto o do boto-cor-de-rosa
o mito da biopirataria. Segundo ele, ardilosos cientistas estrangeiros
entram na floresta e roubam do país plantas, animais e microrganismos
valiosos para a indústria farmacêutica, sem dar satisfação
ao país. A partir de 2001, para se precaver contra a suposta biopirataria,
um cipoal de decretos e normas burocratizou a produção científica
e pôs uma série de obstáculos às pesquisas. "O
mesmo governo que financia o pesquisador, com bolsas, desconfia dele e o trata
como biopirata em potencial", desabafa o paulista Thomas Lewinsohn, professor
da Unicamp e um dos maiores especialistas brasileiros em mapeamento da biodiversidade.
Para coletar plantas da floresta legalmente, um pesquisador, brasileiro ou
estrangeiro, precisa de uma licença do Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade (ICMBio), uma autarquia ligada ao Ministério do Meio
Ambiente. Para transportar as plantas que encontrar pelo caminho ao laboratório,
ele necessita de uma segunda licença do mesmo órgão. A
licença pode demorar dois meses para sair. Caso o cientista deseje estudar
os usos potenciais da planta que coletou, terá de pedir uma terceira
licença a outro órgão, o Conselho de Gestão do Patrimônio
Genético (Cgen), formado por representantes de dezenove entidades
entre elas a Fundação Cultural Palmares e a Fundação
Nacional do Índio. E quanto tempo demora essa licença? Só
o cacique sabe. Não menos do que vários meses. Existem hoje 167
processos desse tipo parados no Cgen. Não é à toa que muitos
cientistas desistem no meio do caminho, como o químico Lauro Barata,
da Unicamp. "É impossível lidar com a burocracia federal
na área de pesquisa", afirma. "Um único parágrafo
das leis te enlouquece."
Fotos Cristiano Mariz
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Pesquisa que
vira dinheiro
Cientista da Embrapa, em Belém, analisa o tucumã em laboratório.
Estudos indicam que desse fruto pode ser extraído um azeite mais
nutritivo
que o de oliva |
O resultado da caça às bruxas da biopirataria é
a debandada de pesquisadores estrangeiros do país. O Inpa, tradicional
parceiro de organismos internacionais, firmou apenas dois acordos de pesquisa
entre 2002 e 2007. A retomada só aconteceu em 2008, quando foram firmados
seis acordos de cooperação com órgãos de outros
países. Diz Ima Vieira, ex-diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi:
"Os pesquisadores estrangeiros sérios, que estudam biodiversidade,
foram embora. Cientista que vem ao país amparado por instituições
respeitadas não é biopirata. É mais fácil um turista
levar algo ilegalmente da floresta do que um pesquisador". Muitos estrangeiros
migraram para a Amazônia peruana ou para a Guiana Francesa, onde o cientista
é tratado como parceiro, não como ameaça.
Boa parte do conhecimento que se tem sobre a Amazônia se
deve aos estrangeiros. Um dos principais livros sobre a flora da região
(e do Brasil) foi escrito no século XIX pelo botânico alemão
Carl Friedrich Philipp von Martius, em que são descritas 22 700
espécies de plantas. A maior coleção de plantas amazônicas
está no Jardim Botânico de Nova York. Para saber se uma espécie
é nova ou não, é útil recorrer aos americanos. Os
dois projetos de mapeamento de biodiversidade da Amazônia mais importantes,
hoje, têm participação de cientistas e organizações
de outros países. A ONG americana Conservação Internacional
é a principal patrocinadora de um estudo que visa a mapear a biodiversidade
nas áreas tropicais do mundo. Seu projeto de longo prazo é saber
como as mudanças no clima do planeta afetam as espécies. Outro
projeto é o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), ligado ao
Ministério da Ciência e Tecnologia, que pretende descobrir, enfim,
quantas espécies existem na Amazônia e como elas se distribuem.
Um de seus idealizadores é o biólogo australiano William Ernest
Magnusson, de 57 anos, trinta dos quais atuando na Amazônia. "Nosso
papel é dizer para o governo onde ele deve construir uma estrada e onde
será mais vantajoso preservar a selva porque existem riquezas potenciais
por ali", explica Magnusson. Conhecer o bioma amazônico a fundo é
um passo importante para preservar a floresta.
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Vida de cientista
A bióloga paulista Andressa Scabin, do Inpa, no Rio Negro, no
município
de Novo Airão, a quatro horas de carro e barco de Manaus:
100 dias por
ano na floresta para pesquisar a biodiversidade de árvores
de regiões alagadas |
O governo incomoda mais que o mosquito
O entomólogo americano William Overal passou 33 dos seus
62 anos como funcionário do Museu Paraense Emílio Goeldi tentando
entender por que a Amazônia tem a maior biodiversidade do mundo. Isso
significa compreender por que há tantas espécies de abelhas, borboletas
e formigas em trechos pequenos de mata e o que influencia sua distribuição.
Seus artigos foram publicados nas principais revistas científicas do
mundo. Em seu escritório repleto de animais invertebrados de cores e
formas variadas, coletados em expedições que lhe custaram cinco
malárias, Overal só perde a paciência quando comenta o tamanho
da burocracia para fazer pesquisa no Brasil. "O governo precisa encontrar
uma vocação melhor do que atormentar pesquisadores", diz
ele. "Se o governo usar o que nós sabemos, em vez de criar empecilhos
para a pesquisa, ainda dá tempo de salvar a floresta." |
O multiplicador de
espécies
Graças ao botânico Michael Hopkins, nascido no País
de Gales, o número de espécies conhecidas na área mais
estudada da Floresta Amazônica, a Reserva Ducke, dobrou. Formado em Oxford,
Hopkins vive no Brasil há dezesseis anos. Ele ajudou a reorganizar os
herbários de Manaus e de Belém e, durante a tarefa, descobriu
que muitas das plantas estavam classificadas com nome errado. Ele também
é autor de uma pesquisa sobre a localização das áreas
da Amazônia menos exploradas pelos cientistas, o que os ajuda a organizar
expedições em busca de plantas raras e desconhecidas. A partir
de 2001, Hopkins viu seu projeto de mapeamento da flora amazônica ser
abortado por causa da legislação contra a biopirataria.
O financiamento internacional para seu trabalho secou porque os
investidores estrangeiros tiveram medo de ser criminalizados. "Há
um vazio de vinte anos de pesquisas básicas sobre a flora", diz
Hopkins. |
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