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Poluição do Ar
O pulmão intoxicado pelo diesel

As 260 termelétricas da Amazônia emitem o dobro
dos poluentes produzidos pela frota de veículos
da cidade de São Paulo. Não faz sentido falar
em preservação ambiental Sem que pelo menos
90%da energia da região venha de fontes limpas


Ronaldo Soares, de Novo Airão

Pedro Martinelli

Navegantes da fumaça
Petroleiro no Rio Negro levando diesel para a Amazônia: eletricidade cinco vezes mais cara
do que no restante do Brasil

A maioria das pessoas acredita que a Floresta Amazônica é o pulmão do planeta. Que, se ela desaparecer, o aquecimento global vai se acelerar de modo calamitoso. Quanto a isso, vale uma ressalva. Para merecer o título de pulmão do planeta, a região precisaria parar de envenenar a atmosfera com gases do efeito estufa. Atualmente, as 260 usinas termelétricas em operação em sete estados amazônicos, a grande maioria movida a óleo diesel, despejam todo ano na atmosfera 6 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), o principal gás que causa o aquecimento global. Parece pouco diante dos 770 milhões de toneladas de CO2 emitidas anualmente pelo desmatamento e pelas queimadas na floresta. O CO2 produzido pelas termelétricas amazônicas, contudo, equivale ao dobro das emissões produzidas no mesmo período pela frota de veículos da cidade de São Paulo, a maior do país. Manaus abriga uma das mais bem-sucedidas experiências de desenvolvimento sustentável, a Zona Franca, que produz riquezas sem precisar destruir um só graveto da floresta. Para movimentar suas indústrias, no entanto, a cidade depende quase integralmente da queima de óleo. As termelétricas respondem por 85% da eletricidade consumida no Amazonas, 70% no caso do Acre e 60% no do Amapá. O pulmão do mundo encontra-se intoxicado pela fumaceira.

Pedro Martinelli
Eletricidade mais barata
Caldeira alimentada por resíduos de madeira certificada para gerar energia:
solução encontrada por ribeirinhos da Ilha de Marajó para não depender
do diesel

Numa região rica de recursos hídricos, não é nada de mais esperar que pelo menos 90% da energia elétrica consumida em suas cidades venha de fontes limpas, como as hidrelétricas. "As termelétricas, além de poluidoras, não são confiáveis. Há grandes oscilações de energia ao longo do dia e às vezes falta luz. Isso representa um custo tremendo para as empresas, que instalam geradores próprios para se precaver das falhas de energia", diz Ronaldo Mota, diretor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas. A poluição e o custo extra para as indústrias não são os únicos ônus da dependência da Amazônia das termelétricas. A região não produz uma só gota do óleo diesel queimado nas usinas. Ele vem de São Paulo, do Rio de Janeiro e até de outros países, como Índia, Estados Unidos e Venezuela. O resultado é uma energia até cinco vezes mais cara do que a utilizada no restante do país. Se fosse integralmente repassada ao consumidor final, essa diferença praticamente inviabilizaria a venda da energia das termelétricas. Por isso, existe um mecanismo para subsidiar o diesel usado na Amazônia, a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), estimada neste ano em 2,7 bilhões de reais. Esse valor é rateado por todos os consumidores do país. Entre 2% e 3% da conta de luz que o brasileiro paga, more ele em Porto Alegre, Salvador ou Vitória, destina-se a subsidiar a energia da Amazônia.

Os que têm sorte
Casa com antena parabólica à beira
da hidrelétrica de Samuel, em Rondônia:
o povo da floresta também quer
televisão em casa

Levar o óleo diesel às termelétricas da Amazônia é uma operação, além de custosa, complicada. Todos os meses atracam em Manaus cinco petroleiros carregados com 180 milhões de litros de óleo para abastecer as usinas e o setor de transportes da Região Norte. Os petroleiros percorrem quase 6 000 quilômetros, do Sudeste até Manaus (veja o quadro abaixo). De lá, o diesel é levado para outras cidades da Região Norte a bordo de quase 200 balsas-tanque e 500 caminhões. Há trechos, como o que se percorre até Cruzeiro do Sul, no Acre, que exigem mais de 4 000 quilômetros de navegação pelos rios. A viagem dura 25 dias, ou mais, além dos quinze gastos inicialmente no transporte a partir do Sudeste, dependendo das dificuldades criadas pela natureza. Nos períodos de seca, quando o nível dos rios fica muito baixo, o transporte por balsas é interrompido durante quatro meses e o combustível precisa ser estocado para não haver desabastecimento na cidade. Essas condições adversas resultam às vezes em situações esdrúxulas. Dependendo do destino do diesel, chega-se a gastar 2 litros dele como combustível para transportar cada litro que vai alimentar uma termelétrica.

Além de produzir poluição e atrapalhar a atividade econômica, a dependência de diesel causa vários transtornos à população da Amazônia. Nas comunidades ribeirinhas onde a única fonte de energia é um pequeno gerador, os moradores precisam racionar combustível para ter luz o mês inteiro. E, mesmo assim, apenas parcialmente, porque nesses casos o equipamento só é ligado três horas por dia, geralmente à noite. Em Aracari, comunidade ribeirinha a duas horas de barco de Novo Airão, no interior do Amazonas, os moradores recebem uma cota de 50 litros de diesel por mês da prefeitura. "Isso nem dá para o mês inteiro, só para três semanas", diz a professora Yolanda Santiago, que transfere alunos do turno da noite para o da manhã quando o diesel acaba por completo.

Acabar com a dependência do diesel na Amazônia é uma prioridade que esbarra sistematicamente na oposição de ambientalistas e do Ibama. Há hoje no Brasil dezoito projetos de hidrelétricas que não saem do papel ou cujas obras estão atrasadas por causa de ações judiciais que questionam seu impacto ambiental. Os motivos são variados: os rios que receberão as turbinas passam por reservas indígenas ou áreas de preservação. No Madeira, gastou-se em estudos sobre o impacto na piracema dos bagres (a conclusão foi que bastava deixar uma passagem para os peixes, como normalmente é feito em barragens). Uma dessas hidrelétricas, a de Belo Monte, no Rio Xingu, foi o pivô de uma cena selvagem ocorrida no ano passado. Numa apresentação do projeto da obra promovida por ONGs e ambientalistas, o engenheiro Paulo Fernando Rezende, da Eletrobrás, foi atacado a facão por índios caiapós e sofreu um corte profundo no braço. A oposição do Ibama e dos ambientalistas a obras energéticas necessárias ao desenvolvimento da Amazônia não interessa a ninguém, muito menos aos moradores da região. O Brasil precisa ampliar sua produção de energia em 50% até 2017. As usinas hidrelétricas constituem a forma mais limpa e barata de produzi-la. A tecnologia hoje permite que os reservatórios das hidrelétricas tenham apenas 15% do tamanho que tinham no passado. Ou seja, seu impacto ambiental é muito menor. Mesmo assim, no Brasil, por incrível que pareça, os ambientalistas têm mais fôlego para combater as hidrelétricas do que as carvoarias.

Pedro Martinelli
Luz no fundo do buraco
Construção da hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia: a obra
pode tirar esse estado e o Acre da dependência do óleo diesel

Como a Amazônia tem características geográficas complexas, com rios gigantescos e florestas densas, levar as linhas de transmissão de eletricidade a muitos pontos da região é difícil. Estudos mostram que, nessas áreas, o ideal seria recorrer às fontes alternativas de energia. Entre elas, a eólica tem potencial restrito. Poderia ser explorada quase exclusivamente na costa do Amapá, com condições de vento semelhantes às do Nordeste. A opção que se mostra mais viável nesses casos é a energia solar. A Amazônia tem média de radiação solar três vezes superior à de países como a Alemanha, líder mundial em energia produzida por painéis fotovoltaicos. A implantação da energia solar em municípios de porte médio ou pequeno é uma operação relativamente rápida que poderia, em pouco tempo, reduzir o uso das usinas termelétricas em diversos pontos da Amazônia. Em comunidades ribeirinhas, as fontes alternativas de energia podem substituir por completo os geradores a diesel. Como aconteceu na comunidade Santo Antônio, da Ilha do Siriri, no município paraense de Breves, que há um ano abriga um projeto da Universidade Federal do Pará de uso de biomassa. O antigo gerador a diesel, que funcionava quatro horas por dia, foi substituído por um sistema de geração a partir de uma caldeira alimentada por resíduos de madeira, sobras de uma serraria que usa madeira certificada. É preciso tirar do papel os projetos de grande porte, como as hidrelétricas, e apostar nas energias alternativas para livrar a Amazônia da fumaceira poluente e cara do óleo diesel.

Combustível é com o presidente

Pedro Martinelli

Quando acaba o diesel usado no gerador de energia de Aracari, comunidade ribeirinha às margens do Rio Negro, no Amazonas, os moradores chamam o presidente. No caso, Rosedilson Jardim, de 43 anos. É ele que, na condição de presidente, como são tratados os líderes de comunidades ribeirinhas, requisita à prefeitura mais próxima uma cota extra de combustível para manter o gerador funcionando. Sem a perna direita, amputada devido a uma picada de surucucu, Jardim vive nas mesmas condições que os demais cinquenta moradores: é semianalfabeto e sobrevive da agricultura, pesca e carpintaria. O que o distingue dos outros é o fato de ser o único a ter uma televisão em casa. "Mas só ligo à noite, porque o diesel é muito caro", lamenta o presidente.