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Religião A CORRIDA DA FÉO
protestantismo ganha terreno sobre Franco Iacomini
Uma grande corrida
hoje na Amazônia já é tão visível quanto a dos
garimpeiros e a dos madeireiros. Nos últimos anos,
multiplicaram-se as igrejas que disputam a preferência
dos habitantes da floresta, considerada uma das últimas
grandes fronteiras da fé. Nos séculos XVIII e XIX, eram
missionários da Igreja Católica que procuravam cativar
a clientela amazônica. Hoje, vários outros agrupamentos
religiosos estão empenhados nessa cruzada, muitos de
origem presbiteriana, batista e metodista Os missionários
chegam a auxiliar 300.000 pessoas na Amazônia
Há sinais de que o número de evangélicos venha crescendo ainda mais. Com 320.000 habitantes, Porto Velho abriga hoje cerca de trinta seitas evangélicas. O avanço evangélico não ocorre apenas nas grandes cidades. "A Igreja Católica não tem mais a hegemonia da ação social na Amazônia", afirma a socióloga Marilene Corrêa, da Universidade do Amazonas. "A região está passando hoje por um processo de recolonização que repete, de certa maneira, a conquista desse território, três séculos atrás." Segundo ela, ocorre na Região Norte um fenômeno equivalente ao da transição na Europa do feudalismo para o capitalismo, no qual o protestantismo também teve papel importante. Junto com as novas igrejas, chega às margens dos rios e aos povoados mais distantes um sistema ético e moral que estimula o trabalho e condena desvios como bebedeiras e uso de drogas. O analfabetismo de um quarto da população amazônica é um dos maiores inimigos dos evangélicos, que precisam ler a Bíblia para o culto. Pastores jovens, muitas vezes formados entre os moradores da própria comunidade, chegam com uma mensagem simples: quem não beber, não fumar, não roubar e acreditar em Jesus vai ser recompensado por Deus. Com isso a religião passa a ser um dos motores do desenvolvimento regional. "Nós admitimos que os evangélicos têm resolvido o problema da droga, do álcool e da estabilidade familiar entre eles", diz o padre católico Umberto Guidotti, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da CNBB. "Há lugares onde os nossos pastores são muito mal recebidos", conta o pastor Gilberto Marques, presidente da Assembléia de Deus no Pará. "As lideranças locais sabem que depois que a gente chega os bares vendem menos cachaça e as casas de tolerância acabam fechando." Existem lugares
onde os evangélicos já conseguem resultados.
"Neste fim de mundo onde a gente mora viver já é
difícil", desabafa Afonso Ferreira dos Santos,
lavrador convertido há seis meses na localidade de Terra
Firme Há muitos
missionários estrangeiros na floresta. É o caso da
Sociedade Internacional de Lingüística, SIL, uma
organização de origem americana. Sua base em Porto
Velho abriga vinte equipes de duas pessoas, que trabalham
em dez aldeias na tradução do Novo Testamento para
idiomas indígenas Embora reconheçam os méritos do trabalho missionário, os antropólogos em sua maioria não vêem com bons olhos sua atuação junto aos índios. "As missões são perniciosas quando tentam tirar os índios dos locais onde eles vivem para ir morar na cidade", diz Marina Kahn, antropóloga da ONG Instituto Socioambiental. "Os missionários são pessoas bondosas, que, em muitos casos, não estão ligando a mínima para os valores tradicionais." De acordo com ela, há pelo menos duas exceções: o Conselho Indigenista Missionário da Igreja Católica e o Grupo de Trabalho Missionário Evangélico, ligado à igreja luterana. "São grupos que procuram melhorar as condições de vida dos indígenas com um mínimo de impacto nos seus sistemas de valores", avalia. A discórdia com os antropólogos está longe de ser a maior dificuldade na vida dos missionários. Em muitos lugares, é preciso ainda um grande esforço para firmar a religião. Na Igreja Adventista de São Carlos, vila localizada na beira do Rio Madeira, a 100 quilômetros de Porto Velho, o pastor aparece três vezes por ano. "É que nós temos muito poucos pastores mesmo", justifica o diretor local da igreja, Cláudio Moraes. No ano passado, a cheia do rio destruiu o templo adventista. "É ruim ficar sem igreja, porque as pessoas esquecem a palavra de Deus", reclama Moraes. A sede regional de Porto Velho mandou 800 reais para comprar material e construir um novo templo, que vem sendo erguido em regime de mutirão. No esforço para recuperar terreno na Amazônia, a Igreja Católica também avalia seus problemas. Um deles é a lentidão para formar pessoas que trabalhem na floresta. "Enquanto nós, católicos, demoramos oito anos para formar um padre, as igrejas evangélicas treinam um pastor da própria comunidade em seis meses", explica dom Antônio Possamai, presidente da regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Para não perder mais terreno ainda, a Igreja Católica investe na formação de lideranças leigas, que recebem cursos de teologia e de pastoral para exercer funções específicas, chamadas de ministérios. "Temos mais de 50.000 lideranças leigas na Amazônia, exercendo os ministérios do batismo, do casamento, da eucaristia, entre outros", afirma Possamai. Com certeza, a Igreja Católica não quer ver num futuro próximo uma Amazônia protestante. Há sinais de que isso não é uma coisa impossível.
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