Religião

A CORRIDA DA FÉ

O protestantismo ganha terreno sobre
o catolicismo em toda a região Amazônica

Franco Iacomini

Batismo de um novo pastor evangélico na praia fluvial de Porto Velho: trinta seitas já se espalham pela capital
Foto: Antonio Milena  

Uma grande corrida hoje na Amazônia já é tão visível quanto a dos garimpeiros e a dos madeireiros. Nos últimos anos, multiplicaram-se as igrejas que disputam a preferência dos habitantes da floresta, considerada uma das últimas grandes fronteiras da fé. Nos séculos XVIII e XIX, eram missionários da Igreja Católica que procuravam cativar a clientela amazônica. Hoje, vários outros agrupamentos religiosos estão empenhados nessa cruzada, muitos de origem presbiteriana, batista e metodista e são os crentes que estão levando a melhor. Estima-se que existam hoje cerca de 1.000 missionários embrenhados na selva, incluindo católicos e evangélicos, sem contar o pessoal de apoio. Quase a metade deles procura catequizar índios. A Amazônia é uma das regiões do mundo que mais atraem voluntários, perdendo apenas para países em guerra, como Angola, Ruanda e Zaire, na África.

Os missionários chegam a auxiliar 300.000 pessoas na Amazônia o equivalente à população do Estado do Amapá. E, com isso, conquistam um público cativo para suas pregações. Os resultados são visíveis e apontam um crescimento das igrejas evangélicas, de cunho protestante, que ganham rapidamente terreno sobre o catolicismo. Segundo dados do IBGE, 8,56% da população brasileira declarava-se seguidora de igrejas evangélicas no Censo de 1991. Nos sete Estados da Região Norte do país esse porcentual já era de 11,31%. Em Rondônia, elas já haviam sido adotadas por 20,56% da população.

Foto: Antonio Milena
Um pastor adventista prega
de barco no Rio Madeira, a
100 quilômetros de Porto Velho:
a religião mistura-se ao
combate à miséria e ganha
adeptos graças aos apelos
contra o fumo, as bebedeiras
e a preguiça
Foto: Pedro Martinelli  

Há sinais de que o número de evangélicos venha crescendo ainda mais. Com 320.000 habitantes, Porto Velho abriga hoje cerca de trinta seitas evangélicas. O avanço evangélico não ocorre apenas nas grandes cidades. "A Igreja Católica não tem mais a hegemonia da ação social na Amazônia", afirma a socióloga Marilene Corrêa, da Universidade do Amazonas. "A região está passando hoje por um processo de recolonização que repete, de certa maneira, a conquista desse território, três séculos atrás." Segundo ela, ocorre na Região Norte um fenômeno equivalente ao da transição na Europa do feudalismo para o capitalismo, no qual o protestantismo também teve papel importante. Junto com as novas igrejas, chega às margens dos rios e aos povoados mais distantes um sistema ético e moral que estimula o trabalho e condena desvios como bebedeiras e uso de drogas.

O analfabetismo de um quarto da população amazônica é um dos maiores inimigos dos evangélicos, que precisam ler a Bíblia para o culto. Pastores jovens, muitas vezes formados entre os moradores da própria comunidade, chegam com uma mensagem simples: quem não beber, não fumar, não roubar e acreditar em Jesus vai ser recompensado por Deus. Com isso a religião passa a ser um dos motores do desenvolvimento regional. "Nós admitimos que os evangélicos têm resolvido o problema da droga, do álcool e da estabilidade familiar entre eles", diz o padre católico Umberto Guidotti, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da CNBB. "Há lugares onde os nossos pastores são muito mal recebidos", conta o pastor Gilberto Marques, presidente da Assembléia de Deus no Pará. "As lideranças locais sabem que depois que a gente chega os bares vendem menos cachaça e as casas de tolerância acabam fechando."

Existem lugares onde os evangélicos já conseguem resultados. "Neste fim de mundo onde a gente mora viver já é difícil", desabafa Afonso Ferreira dos Santos, lavrador convertido há seis meses na localidade de Terra Firme um amontoado de casebres encarapitados nas barrancas do Rio Madeira, a 200 quilômetros de Porto Velho. "Se o homem trabalha só pela cachaça, como é que vai alimentar a família?" Em Terra Firme, o atendimento médico dos 300 habitantes depende do barco Nova Esperança. Ancorada há três anos no vilarejo, a embarcação pertence à congregação evangélica Jovens com Uma Missão (Jocum). Três missionários moram no Nova Esperança. O presbiteriano Wilson França, um paranaense de 27 anos que vive há sete em Rondônia, é quem cuida da escassa farmácia do povoado remédios contra diarréia, vermes e micoses, males que atacam principalmente as crianças. Realiza também exames de sangue para detectar malária, que atinge um em cada quatro moradores da vila e das localidades próximas. Os outros missionários do Nova Esperança são os batistas Ole Klepp e sua mulher, Adriana, um norueguês e uma holandesa que levam consigo uma filha de quase 2 anos de idade. "No Brasil, as missões dão assistência em regiões onde o Estado simplesmente não existe", diz Eduardo Luz, vice-presidente da missão Novas Tribos do Brasil, responsável por 50.000 atendimentos por ano com seu contingente de 180 pessoas em campo na Amazônia incluindo aí médicos, enfermeiros e agentes de saúde.

Há muitos missionários estrangeiros na floresta. É o caso da Sociedade Internacional de Lingüística, SIL, uma organização de origem americana. Sua base em Porto Velho abriga vinte equipes de duas pessoas, que trabalham em dez aldeias na tradução do Novo Testamento para idiomas indígenas um trabalho árduo, que vai tomar entre vinte e trinta anos. As equipes de campo alternam três meses nas aldeias com um mês de estudo e descanso na base, com o apoio de aviões. Entre eles há médicos, agentes de saúde e educadores que ensinam os indígenas a ler e escrever em português e na sua própria língua. Na base de Porto Velho, dezoito crianças filhas de missionários têm aulas em inglês. "Trabalhamos há quarenta anos no Brasil e ajudamos muitas tribos", salienta o diretor da SIL, Allan Lee. "Depois da chegada do Evangelho, a vida dos índios muda e, na maior parte dos casos, a população volta a crescer."

Embora reconheçam os méritos do trabalho missionário, os antropólogos em sua maioria não vêem com bons olhos sua atuação junto aos índios. "As missões são perniciosas quando tentam tirar os índios dos locais onde eles vivem para ir morar na cidade", diz Marina Kahn, antropóloga da ONG Instituto Socioambiental. "Os missionários são pessoas bondosas, que, em muitos casos, não estão ligando a mínima para os valores tradicionais." De acordo com ela, há pelo menos duas exceções: o Conselho Indigenista Missionário da Igreja Católica e o Grupo de Trabalho Missionário Evangélico, ligado à igreja luterana. "São grupos que procuram melhorar as condições de vida dos indígenas com um mínimo de impacto nos seus sistemas de valores", avalia.

A discórdia com os antropólogos está longe de ser a maior dificuldade na vida dos missionários. Em muitos lugares, é preciso ainda um grande esforço para firmar a religião. Na Igreja Adventista de São Carlos, vila localizada na beira do Rio Madeira, a 100 quilômetros de Porto Velho, o pastor aparece três vezes por ano. "É que nós temos muito poucos pastores mesmo", justifica o diretor local da igreja, Cláudio Moraes. No ano passado, a cheia do rio destruiu o templo adventista. "É ruim ficar sem igreja, porque as pessoas esquecem a palavra de Deus", reclama Moraes. A sede regional de Porto Velho mandou 800 reais para comprar material e construir um novo templo, que vem sendo erguido em regime de mutirão.

No esforço para recuperar terreno na Amazônia, a Igreja Católica também avalia seus problemas. Um deles é a lentidão para formar pessoas que trabalhem na floresta. "Enquanto nós, católicos, demoramos oito anos para formar um padre, as igrejas evangélicas treinam um pastor da própria comunidade em seis meses", explica dom Antônio Possamai, presidente da regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Para não perder mais terreno ainda, a Igreja Católica investe na formação de lideranças leigas, que recebem cursos de teologia e de pastoral para exercer funções específicas, chamadas de ministérios. "Temos mais de 50.000 lideranças leigas na Amazônia, exercendo os ministérios do batismo, do casamento, da eucaristia, entre outros", afirma Possamai. Com certeza, a Igreja Católica não quer ver num futuro próximo uma Amazônia protestante. Há sinais de que isso não é uma coisa impossível.




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