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Rios A SINFONIA DA ÁGUAO Rio
Amazonas, que já correu para trás, Tales Alvarenga
De volta ao passado. Há milhões de anos, aquilo que viria a ser chamado de Cordilheira dos Andes ainda não se havia levantado do chão e os grandes rios da Amazônia corriam para o Oceano Pacífico ou para o Caribe. Quando os Andes se ergueram, a saída para o Pacífico ficou bloqueada. Os rios se empoçaram, suas águas se uniram e desabrochou na Amazônia o maior lago da terra. Por muito tempo, esse mar represado ficou esperando que as condições geológicas se alterassem outra vez e lhe dessem um caminho de saída para o lado oposto, o do Oceano Atlântico. A Amazônia, portanto, já reuniu mais água ainda do que a quantidade absurda que hoje banha suas matas. Esse volume diluviano, cuja cauda se precipita nos Andes de escarpas a 5.000 metros de altura, logo deita numa planície com uma monotonia de relevo que é outra das excentricidades amazônicas. Não existe em outro lugar do mundo um território de dimensões continentais como o da Bacia Amazônica em que a altitude varie tão pouco. Se o Atlântico subisse apenas 55 metros, suas águas chegariam a banhar Tabatinga, cidade brasileira da margem do Amazonas, na fronteira com a Colômbia e o Peru, a 4.000 quilômetros de distância do mar. A cada quilômetro dentro do Brasil, o Rio Amazonas desce pouco mais de 2 centímetros. Suas águas vão em frente não tanto pela inclinação do terreno. A razão mais forte é hidráulica: as águas são empurradas continuamente por mais e mais água que vem de trás, como nos encanamentos domésticos.
Depois de descer da cordilheira, o Amazonas recebe o reforço de 1100 afluentes e torna-se uma massa líquida cujas dimensões estão fora dos padrões mentais com que as pessoas normalmente trabalham. Em certas partes mais abertas do Rio Negro, o quarto rio do mundo, é possível ver claramente a curvatura da terra na água, como acontece quando se olha para o horizonte no mar. Junto a Manaus, o Negro chega a ter 100 metros de profundidade, um abismo coberto por aquela água cor de Coca-Cola, com a pureza de líquido destilado. E o Negro, embora gigantesco, é apenas um dos afluentes do Amazonas. Há uns vinte quase tão grandes quanto ele. E centenas de outros que na Europa seriam considerados rios enormes. Como eixo de um sistema hídrico que corre junto ao Equador, o Rio Amazonas recebe água dos dois hemisférios, cada um deles com sua estação de chuvas numa época diferente. Assim, o Amazonas passa a maior parte do ano bebendo as enchentes que ora vêm do norte, ora chegam do sul. Quando as águas transbordam e invadem campos e matas, a área inundada da Bacia Amazônica cobre um território duas vezes maior que a Áustria. A enchente dura meio ano mais ou menos e é uma bênção da natureza. É nas planícies alagáveis que se concentra o mais rico viveiro da Amazônia. Elas são também um sistema ecológico em risco de vida. "Grande parte da floresta das planícies de inundação já não existe mais ou foi grandemente alterada, sobretudo no médio e baixo Amazonas. A não ser que providências sejam tomadas urgentemente, poderá ser tarde demais", escrevem Michael Goulding, Nigel Smith e Dennis Mahar em Enchentes da Fortuna, primeiro livro a apresentar uma visão panorâmica a respeito das áreas alagáveis da Amazônia, um sistema que tem recebido menos atenção do que merece. Os rios da Amazônia podem parecer pouco excitantes na superfície. A paisagem se altera pouco e não há muitas surpresas à espera do viajante. Se ele pudesse observar o que está acontecendo debaixo da superfície do rio, veria um cenário diferente. Em certos períodos e lugares, o rio parece uma praça em dia de quermesse. Seus habitantes estão sempre se movimentando para algum lugar. Tambaquis, pirapitingas, matrinxãs, piramutabas e dourados estão entre as multidões de peixes que desfilam rio acima em grandes cardumes para desovar. Alguns, como a piramutaba, um bagróide, saem do estuário do Rio Amazonas e atravessam o Brasil inteiro na direção oeste, desovam depois da viagem de 3.000 quilômetros e voltam ao lugar de onde partiram. Outros 3.000 quilômetros. Nessa viagem, a piramutaba percorre a distância entre Nova York e Paris. No ano seguinte, repete a jornada. Quem não achar grande coisa imagine-se viajando até a França a pé. O tambaqui, um comedor de frutos que tem uma carne deslumbrante, adota um regime de viagens peculiar. Ele migra para as áreas de inundação durante as enchentes e engorda o quanto pode com o alimento que cai das árvores. Na fase em que as águas descem, vai para o canal dos rios e fica jejuando e emagrecendo, até a próxima estação de fartura.
Muitos outros peixes correm para as áreas de inundação no período de cheia. Lá, entre capins, cipós e troncos de árvores, eles desovam e se empanturram com sementes, frutos e microorganismos. Ao mesmo tempo, escondem-se dos predadores. A vida seria perfeita se alguns desses predadores não aparecessem por ali, patrulhando as águas sombrias em busca de seu almoço. Um deles, o boto-cor-de-rosa (chamado de boto-vermelho na Amazônia), um mamífero quase cego, usa seu sistema de sonar para circular entre os troncos submersos e atacar as presas. Apresentado em documentários de TV como um ser mimoso, o boto-rosa é o segundo maior predador da Amazônia. O primeiro é o homem. Seu parente menor, o boto-tucuxi, cópia fluvial do golfinho do mar, tem a armadura óssea mais rígida e não consegue tourear os troncos espetados no fundo da água com a mesma maleabilidade do boto-rosa. Nesse ambiente, é preciso curvar o corpo como um atleta, senão fica difícil pegar o pacu fujão que se esconde atrás do toco. O tucuxi prefere a calha dos rios. Junta-se em bandos e vai perseguir os cardumes agitados que sobem pelos canais dos rios para a desova. A caçada não depende da sorte. Tanto os pescadores quanto os peixes que vivem de comer os outros sabem exatamente onde esperar suas presas. Os pescadores armam suas redes no lugar certo enquanto os predadores submarinos se reúnem nas imediações. Nas planícies de inundação vive ou passa parte do dia um terço das aves amazônicas. Patos e marrecas têm lá seu domicílio. Papagaios e araras dormem em terra firme e vão às florestas alagadas procurar alimento durante o dia. As capivaras ariscas, cansadas de levar tiro na beira dos rios, também são freqüentadoras das áreas de inundação. Várias espécies de tartaruga entram no bloco dos aficionados desse pomar amazônico, da mesma forma que as lontras e exemplares tímidos como o peixe-boi, o maior mamífero da região, que lembra um hipopótamo. Perseguido desde o tempo da chegada dos portugueses, ele é uma presa excepcional: sua carne saborosa e a manta espessa de gordura podem atingir 500 quilos, num corpanzil de 2 a 3 metros de comprimento. Nas planícies alagadas, o peixe-boi encontra um pasto verdejante e rico para o seu calmo destroçar diário de 50 quilos de capim. Se o leitor, de novo, acha que isso não é nada, pense no que seria comer 10% do seu peso em alface a cada dia. Pois bem: esse herbívoro pacífico é um animal ameaçado de extinção. O caçador estaciona a canoa próximo a um monte de capim flutuante e espera o animal subir para respirar. Pode ficar vinte minutos submerso. A espera compensa. Depois de arpoá-lo, o caçador deixa a presa se cansar e dá o golpe definitivo quando consegue enfiar dois tocos circulares nas narinas do bicho, no momento em que ele vem à tona em busca de ar. O peixe-boi morre por asfixia.
Nas
várzeas inundadas, que no caso do Rio Amazonas chegam a
ter 40 quilômetros de cada lado do canal do rio, os
solos são fertilizados anualmente por toneladas de terra
e mato trazidas pela correnteza. Se a grande maioria dos
solos da Amazônia é pobre, as várzeas contrariam essa
regra. Quando as águas se retiram, os caboclos plantam
ali suas roças, aproveitando todo o adubo que o rio
deixou. Também tiram partido do capim viçoso que brota
do chão para criar algumas cabeças de gado. Na época
em que a enchente retorna, o gado é retirado para terras
mais altas Para se locomover, o caboclo da Amazônia usa a canoa que o índio inventou, um instrumento leve, capaz de se enfiar por entre os troncos das florestas alagadas sem espantar os peixes que serão pescados. O caboclo amazônico vive sem conforto na beira da água, sem esgoto nem luz elétrica, mas o peixe e a roça não deixam que ele conheça a miséria. Descendente do índio, dos primeiros europeus e dos negros, ele adotou o anzol e a rede de pesca, mas usa também arco, flecha e arpão. Em cima de um flutuante que vende confortos da civilização, como sabonete e isqueiro a gás, é comum estar espetada uma antena parabólica que atrai os vizinhos à noite. O caboclo vive numa dimensão de tempo diferente. Ele é um índio que vê novela da Globo e usa óleo de soja. Na maior parte da
bacia, as águas levam um ano aproximadamente para subir
e descer. No estuário do Rio Amazonas, o sobe-e-desce é
diário. Sob efeito das marés oceânicas, o Amazonas tem
maré alta e maré baixa a até 400 quilômetros da foz.
Até 1.000 quilômetros rio acima ainda é possível
perceber a influência do movimento do oceano. As
planícies alagáveis do estuário seriam estéreis se a
água do mar as banhasse todos os dias, mas um princípio
da física as protege. Como a água doce é mais leve,
ela fica por cima da água salgada As florestas alagáveis, pelo abrigo e pela nutrição que fornecem a centenas de espécies, formam um dos ambientes ecológicos mais preciosos da Amazônia. Nas últimas décadas, essas áreas, como outras da floresta, têm sofrido ataque constante, principalmente entre Manaus e a região do estuário. A razão é a mesma: a obtenção de dividendos econômicos à custa do patrimônio natural. "Não há como aceitar a idéia simplista de que a determinados espaços ecológicos devam corresponder espaços econômicos", comenta Aziz Ab'Saber, professor de geografia da Universidade de São Paulo. Um tipo de depredação é a retirada de árvores para as madeireiras. Os troncos são abatidos na seca e deixados onde caem. Na cheia, eles bóiam e podem ser puxados de barco até a serraria. Outra ameaça para as planícies inundáveis é a criação de bois e búfalos. Para abrir espaço às pastagens, os criadores cortam árvores. O capim aquático, jardim da infância dos filhotes de peixes, também é danificado pelo gado. A ocupação crescente das planícies de inundação e a pesca comercial em grande escala já começaram a produzir alguns estragos no estoque de peixes amazônicos. O volume pescado não diminuiu. Tende até a aumentar. Tira-se da bacia algo como 200.000 toneladas de peixes por ano. O potencial de pesca, que ninguém consegue avaliar com precisão, poderia variar de 300.000 toneladas anuais, a conta dos alarmistas, a 900.000 toneladas, no cálculo mais otimista. Pela segunda hipótese, a pesca continuará sendo a principal atividade econômica da região amazônica. O problema é outro. Com a expansão da pesca comercial e a introdução de métodos mais eficientes, algumas espécies seletas da Bacia Amazônica passaram a sofrer assédio muito maior. Até o fim dos anos 70, o melhor peixe era mais barato do que a pior carne de boi e podia ser apanhado nas vizinhanças das cidades. Hoje, os melhores peixes estão mais caros do que a carne, e os barcos precisam viajar até 1.000 quilômetros para pegá-los em quantidade que compense. Para ajudar na tarefa, os comerciantes têm recrutado caboclos em rios e lagos. Deixam o isopor com gelo na ida e passam na volta para recolher os peixes que os ribeirinhos tenham conseguido coletar. O pirarucu, que pode chegar a 3 metros de comprimento, já foi o rei dos mercados de peixe amazônicos. Hoje, para proteção da espécie, a pesca só é permitida durante meio ano, e não se pode vender o pirarucu com menos de 1 metro. Mas a pesca continua ativa por baixo do pano e pirarucus jovens, de apenas 50 centímetros, são comuns no comércio. Já se tornou fato raro ver um dos gigantes de antigamente. Para pescar pirarucus adultos com facilidade é preciso ir muito mais longe que há vinte anos. O comércio da piramutaba está faturando hoje um terço do que rendia. Pescam-se tambaquis jovens com um décimo do peso a que o peixe pode chegar na vida adulta. É proibido comercializar esses exemplares, mas quem quer obtém o seu minitambaqui. São apenas alguns exemplos. Não devem ser entendidos como uma sinalização dramática de que o estoque inteiro das águas amazônicas esteja sob pressão. Mas não deixa de ser irônico que, antes mesmo de se ter classificado cientificamente todas as espécies dos rios, algumas delas, justamente as mais apreciadas pelo sabor, já não sejam tão numerosas quanto em outros tempos.
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