|
Pesquisa CIÊNCIA NA MATABiólogos
se embrenham nas matas para conhecer Flávia Varella
A primeira expedição científica à Amazônia foi feita em 1638 por George Marcgrave, um naturalista alemão. Até o final do século XVII, o que se procurava eram animais exóticos, dentro da ótica do "estranho mundo novo": peixe que dá choque, aranhas gigantes, mamíferos que vivem submersos nos rios. Nos séculos seguintes, o objetivo passou a ser a coleta do maior número possível de bichos de diferentes espécies. Até os anos 40, os museus estrangeiros pagavam coletores profissionais para levar espécimes da fauna e flora nacional para suas coleções. O Brasil só assumiu a pesquisa científica na Amazônia há poucas décadas. Agora, a idéia é conhecer e estudar para preservar. Numa manhã de abril do ano passado, um caboclo tocou a campainha na casa de Marc van Roosmalen, um holandês radicado há dez anos em Manaus e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Trazia na mão uma lata de leite em pó toda furada. Quando viram aquele macaco tamanho miniatura dentro da lata, os olhos azuis de Roosmalen brilharam. Estudioso de primatas há mais de vinte anos, ele logo percebeu que aquele ser era desconhecido da ciência. Também pressentiu rápido que não seria fácil descobrir onde fica o habitat do macaco, mas foi a campo. Colocou no seu barco de alumínio a mochila, a rede e a geladeira de plástico, com pão integral, queijo holandês, cerveja brasileira, espaguete e molho de tomate pronto, e partiu para a região do Rio Madeira. Com uma foto do macaquinho na mão, parava em cada conjunto de casas de ribeirinhos e perguntava: "Você conhece? Você já viu?". Nos poucos casos de respostas positivas, as pessoas estavam confundindo o procurado com algum outro. Como o macaco em questão é muito pequeno (170 gramas e 15 centímetros quando adulto), Roosmalen acreditava ser um parente do sagüi-leãozinho, que tem em média um terço do tamanho de um sagüi. Na Amazônia, a distribuição geográfica dos macacos é bastante delimitada. Algumas espécies vivem em determinadas áreas e nunca são encontradas em outras. Como não sabem nadar, não atravessam os rios, que funcionam como barreiras naturais. Com essa idéia na cabeça, Roosmalen acreditava que "seu macaco" deveria estar na margem esquerda do Rio Aripuanã, um afluente do Madeira, onde vivem os sagüis-leõezinhos. No último dia da sétima viagem, em novembro de 1996, o pesquisador estava desanimado, mas ainda achava que era melhor procurar no local onde, segundo a teoria, o macaquinho deveria estar. Seu mateiro, Valquemar Souza de Aguiar, o "Gordo", no entanto, tinha acordado com a "intuição" de que eles deveriam subir o Aripuanã. Mesmo contra toda sua convicção teórica, Roosmalen acatou o palpite do mateiro. "Sou muito tarimbado, para mim não carece de livro", gabou-se Gordo.
O
holandês não agüentava mais apresentar a foto. Naquele
dia, estava especialmente desanimado. Tinha enfrentado
uma tempestade dentro do barco descoberto e um motor
enguiçado. Mas pegou o retrato do macaquinho e, mais uma
vez, mostrou às pessoas. Estava em Nova Olinda, um
vilarejo onde dez famílias vivem à beira do Aripuanã Roosmalen acha que o animal do quintal de Damião é especialmente significativo. Ele seria não apenas uma nova espécie, mas um novo gênero. A última vez que se descobriu um gênero novo de macacos na Amazônia foi no final do século passado. O holandês acredita que o animal que ele está chamando de sagüi-anão seja o "elo perdido" entre os sagüis e os sagüis-leõezinhos, que são os menores macacos do mundo e considerados o arquétipo de todos os macacos da Amazônia. Acredita-se que do sagüi-leãozinho ou de algum ancestral seu derivaram todos os outros. "Minha hipótese é de que, há milhares de anos, uma família de sagüis-leõezinhos atravessou o rio para a área dos sagüis e aí evoluíram para esses sagüis-anões." Mas macacos nadam? "Não. Então, imagino que a família ou o casal pioneiro montou em algum tronco de árvore oco e veio boiando", explica. O trabalho de pesquisadores como Roosmalen pode ser aventureiro e glamouroso, mas não se justifica pelo simples prazer e orgulho de assinar a autoria da descrição de animais inéditos. A função maior é tentar impedir que animais e plantas desapareçam antes mesmo de ser conhecidos pela ciência. Se fica comprovado, por exemplo, que uma área é o único habitat de determinada espécie ou, então, que é moradia de uma diversidade muito grande de animais, ela merece e deve ser preservada. Os pesquisadores acreditam que a principal arma contra a devastação é o conhecimento. Para tê-lo, estudam e aventuram-se. O canadense Claude Gascon, de 37 anos, passou noites seguidas andando por igarapés lamacentos com água até o peito para saber que efeito teve o desmatamento de uma fazenda sobre a população de sapos, sua especialidade. Os sapos podem parecer sem graça para a maioria das pessoas. Não para Gascon. "Muitos sapos fazem a transferência de nutrientes da água para a terra e, como presas, sustentam várias aves, como os gansos, que comem girinos e peixes. Ao comer formigas, moscas e lombrigas também ajudam no equilíbrio do ambiente", comenta. Entender como as alterações na floresta afetam a fauna que vive nela foi também o que motivou a ornitóloga Magalli Henriques, do Museu Emílio Goeldi, a elaborar um projeto de estudo das aves da Floresta Nacional do Tapajós, escolhida para ser a primeira área pública que o governo cederá para a iniciativa privada explorar madeira comercialmente. Como o Ibama pretende que o modelo de extração de madeira planejada e seletiva testado no Tapajós seja encampado no futuro por todas as madeireiras da Amazônia, o projeto de Magalli é importantíssimo. "As aves podem ser boas sinalizadoras do que acontece com toda a fauna", explica a ornitóloga. "Se ao final do trabalho eu concluir que as aves sumiram da área, saberemos também que desapareceram os macacos, os veados, as cutias e tudo mais que houver por lá." Depois de meses gastos no escritório, em busca de patrocínio, elaborando a metodologia e providenciando equipamento, comida e detalhes como um talco com enxofre para tentar evitar o assédio dos insuportáveis e minúsculos carrapatos chamados micuim, o trabalho de campo de Magalli começou em agosto. Ela e o técnico Dionísio Pimentel Neto instalaram-se numa base do Ibama dentro da floresta. A primeira coisa que providenciaram dentro do galpão foi uma mesa de trabalho. Na primeira fase, os dois passaram 45 dias seguidos na floresta. Ainda está escuro. Magalli salta da rede, sacode Dionísio e vai para o mato. Com uma lanterna, encontram a trilha mal delineada que leva até as redes para captura de aves, estendidas no dia anterior. No caminho, ela já vai gravando os pios e cantos. Assim que clareia, as aves se enroscam nos 240 metros de rede estendidos pela floresta. Eles recolhem dois indivíduos de cada espécie para depois fazer o empalhamento. Nessa fase, o objetivo é montar um banco de dados sobre as aves da região. Depois, os dois farão o censo dos animais em dois lotes de floresta, um onde haverá extração de madeira e outro, vizinho, que vai ser preservado para servir como comparação. Na etapa seguinte, que deve durar dois anos, Magalli pretende passar dez dias de cada mês na área para avaliar as alterações. Os bichos agradecem.
|