A DESTRUIÇÃO
DA AMAZÔNIA

Uma área maior que a da França já foi devastada
ou seriamente danificada na floresta

Tales Alvarenga

Foto: Araquém Alcântara
O fogo na mata (acima) e um pôr-do-sol poético sobre a água e a floresta: o Brasil nunca retomou o vigor destrutivo dos anos 80, quando o país se tornou um pária mundial da ecologia, mas a floresta está desaparecendo ao ritmo de um território como o de Sergipe a cada ano e meio. Por que e para quê?
Foto: Pedro Martinelli  

Já aconteceu uma vez. Da Mata Atlântica, que cobria a costa brasileira do Rio Grande do Sul até o Ceará, só restam hoje entre 5% e 8%, na estimativa mais otimista. Agora, é a Amazônia que está sob ataque. Distante dos centros mais desenvolvidos, a Floresta Amazônica permaneceu quase intocada até trinta anos atrás. Nas três últimas décadas, suas árvores sofreram mais baixas do que nos quatro séculos anteriores. Não é um caso perdido. A Amazônia ainda está sob ocupação humana das mais ralas e há regiões com a dimensão de países europeus que continuam intactas. Ainda se pode viajar dez horas no Rio Negro, um dos maiores da Amazônia, sem cruzar com mais de quatro ou cinco barcos e sem ver movimentação nas margens, a não ser por uma dúzia de casebres solitários. Mas em regiões economicamente mais atraentes, lugares que já são ocupados por vilarejos e cidades, o ataque à floresta é brutal.

Desde o fim dos anos 60, quando começou essa cruzada de extermínio, uma capa vegetal com área maior que a da França já desapareceu na Amazônia, pela ação do fogo ou da motosserra. Não há registro de extinção de espécies animais na região. Mas as alterações do meio ambiente, a caça predatória e a pesca centralizada nos peixes preferidos pela culinária local ameaçam um zoológico inteiro de desaparecer para sempre. Dezenas de mamíferos e répteis estão na lista das espécies em risco. O peixe-boi, um mamífero pacífico que atinge até 500 quilos com uma dieta de capim aquático, está ficando cada vez mais raro. Onça e macacos figuram na lista, bem como algumas espécies de jacaré e tartaruga. Em breve, o pirarucu, maior peixe amazonense, pode fazer parte das espécies ameaçadas. Aos poucos, mas ininterruptamente, a Amazônia está sendo comida pelas queimadas, pelo furor das serrarias, pela poluição descontrolada dos garimpos e pela instalação de fazendas de gado em várzeas que funcionam como berçários de peixes. O Brasil nunca retomou o vigor destrutivo dos anos 80, quando o país se tornou um pária internacional da ecologia, mas atualmente a floresta está desaparecendo ao ritmo aproximado de um território como o de Sergipe a cada ano e meio. A pergunta a se fazer é: por que e para quê?

Foto: Pedro Martinelli
O encontro das águas do Negro com o Solimões: o viço da mata e a quantidade de água da bacia estimularam o mito da superabundância amazônica

A Amazônia, a mais rica e a maior floresta tropical do mundo, um território único pela variedade indescritível de sua flora e fauna, estende-se por nove países da América do Sul, dos quais o Brasil fica com a maior parte da mata, 60% do total. Na Amazônia brasileira, cortada de ponta a ponta pelo Rio Amazonas e empapada por mais de 1.000 de seus afluentes, caberiam catorze Alemanhas ou vinte Inglaterras. Não há outro lugar no mundo com tamanha variedade de espécies de pássaros, peixes e insetos. Numa área insignificante da mata tropical brasileira, uma extensão que se cruza a pé em algumas horas, existe mais diversidade de plantas do que em toda a Europa. Quando um estrangeiro pensa no Brasil, é provável que a primeira associação que faça, antes do futebol ou do samba, seja a floresta tropical. Quando um brasileiro pensa em si próprio em oposição a outros povos, também coloca a Amazônia como um dos mais irresistíveis símbolos de sua nacionalidade. Pois bem: como está sendo tratada essa província ecológica tão admirada dentro e fora do Brasil? "À medida que o novo século se aproxima, a Amazônia está sendo transformada por desmatamento, crescimento urbano, mineração, represas e uma exploração generalizada de seus recursos naturais", lê-se num dos melhores trabalhos já escritos sobre a região, Enchentes da Fortuna, de dois pesquisadores americanos que lá viveram, Michael Goulding e Nigel Smith, e de um especialista do Banco Mundial, Dennis Mahar. Toda a destruição está acontecendo em uma região que Goulding considera "a maior celebração da diversidade do planeta".

O viço da floresta e a quantidade absurda de líquido que por ela escorre, um quinto da água doce do planeta, estimularam a crença falsa de que a Amazônia é um celeiro inesgotável. Criou-se, sobre a Amazônia, o mito da superabundância, que persiste desde a chegada dos primeiros europeus, há quase 500 anos. A verdade é outra. O solo da Amazônia, argiloso ou arenoso em sua maior parte, é fraquíssimo. As árvores se nutrem do próprio material orgânico que cai ao chão. Galhos, folhas, flores, frutos, vermes, insetos, fungos tudo isso se desprende das copas e se amontoa no solo. O material apodrece, desfaz-se na terra e é sugado pela teia superficial das raízes. O chão da Amazônia não é o reservatório em que as plantas vão buscar os nutrientes, como acontece em outras regiões. Na maior floresta do mundo, o solo é só o lugar onde as árvores se apóiam fisicamente, nada mais. Retirada a capa verde, a terra não tem força para reerguer sozinha uma nova mata. A chuva tem um mecanismo parecido. A Amazônia só existe porque chove muito na região. Metade dessa chuva vem do Oceano Atlântico. A outra metade resulta da evaporação do suor da floresta, um fenômeno que os especialistas chamam de evapotranspiração. Cortando-se a cobertura vegetal, a chuva será reduzida pela metade e, nesse ponto, ninguém sabe o que acontecerá. "A região depende da manutenção de sua cobertura florestal e, sem ela, se estabelecerá um desequilíbrio, cujas conseqüências, no momento, são imprevisíveis", escreve Luiz Emydio de Mello Filho, professor de botânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em um livro de fotos e artigos científicos sobre a floresta, Amazônia Flora e Fauna. É só a partir de uma determinada quantidade de desmatamento que a floresta perderá a capacidade de auto-regeneração. Uma das coisas que os cientistas não sabem é em que lugar está situado esse ponto sem volta. Enquanto isso, a motosserra vai limpando o terreno. O barulho que a serra faz na floresta é muito alto. Mas, entre as autoridades responsáveis pelo meio ambiente, parece que todo mundo está usando protetores de ouvido.

Dois fenômenos aparentemente contraditórios convivem na biologia da Amazônia. Lá existe um número insuperável de espécies, mas relativamente poucos exemplares dentro de cada uma. Isso vale para árvores ou peixes, indiferentemente. Num espaço equivalente a um quarteirão é difícil encontrar três árvores da mesma família. Em razão da grande dispersão das árvores, os seringueiros precisam andar quilômetros e quilômetros na mata. Cada seringueira fica a 100, 200 metros uma da outra. Nos rios, o fenômeno se repete. O observador pouco familiarizado com a Amazônia tende a desconfiar dos biólogos que alertam para o risco que estariam correndo alguns peixes mais valorizados pelos consumidores da região. Estabelece-se, para esse observador, uma espécie de "paradoxo do atum". Se o atum é cada vez mais consumido no mundo inteiro e ninguém diz que essa espécie corre risco de extinção, raciocina ele, por que então as populações de pirarucu ou tambaqui, consumidas apenas pelos moradores da Amazônia, estariam sob qualquer tipo de ameaça?

Existe, na Amazônia, uma variedade incomparável de peixes, provavelmente umas 3.000 espécies no total, quinze vezes mais do que em todos os rios da Europa, mas o número de pirarucus ou de tambaquis representa uma fração da quantidade a que chegam certos tipos de peixes marítimos. Na base da cadeia alimentar dos oceanos há mais nutrientes do que nos rios, para começar. E esses nutrientes são pouco afetados pela intervenção do homem. Nos rios amazônicos, ao contrário, o homem já tem um efeito negativo visível sobre a fonte básica de alimentos, toneladas de frutos e sementes que as enchentes vão buscar nas florestas alagáveis durante os ciclos da chuva. Entre Manaus e o Rio Xingu, uma extensão de 2.000 quilômetros, as várzeas do Rio Amazonas estão se transformando rapidamente em pastagens para o gado. Desmata-se também nas áreas de inundação para tirar madeira. Boiando na corrente, as toras são facilmente transportadas até a serraria mais próxima.

A experiência mundial tem demonstrado que a devastação de áreas verdes ocorre com furor redobrado em regiões pobres e que é muito difícil proteger o verde deixando desprotegidos os habitantes. O sujeito que pega seu caminhão velho no sul do Pará e entra na mata para surrupiar uma tora e vender na serraria mais próxima está numa atividade de subsistência. É mais fácil transformá-lo num membro do Rotary Club do que num soldado da natureza. Em várias oportunidades, o governo tentou encontrar soluções para a pobreza endêmica da região amazônica e sempre optou por soluções ora simplistas, ora megalomaníacas, que, no final das contas, acabaram produzindo tipos como o derrubador de árvores. Brasília perturbou populações indígenas tirando-as de seus territórios a pretexto de fazer a Amazônia progredir, rasgou estradas inúteis no fundo da mata, atraiu sem-terra do Nordeste para desmatar e plantar na floresta, incentivou a criação de gado numa região que não se presta a isso. Cometeu todos os erros imagináveis nas circunstâncias e nunca quis enxergar o óbvio.

O turismo ecológico rende 260 bilhões de dólares por ano para os países que o exploram. A Amazônia, o mais poderoso complexo da ecologia mundial, leva apenas 0,01% dessa verba. Alguma coisa está errada e não é com o caboclo que está pondo fogo numa capoeira para plantar mandioca na margem do Rio Solimões. Os governos dos Estados do Pará e do Amazonas estendem tapetes vermelhos para atrair os madeireiros malaios, que têm Ph.D. no manejo da motosserra, sob o olhar contemplativo do governo federal. Com tanto entusiasmo oficial envolvido, fica-se com a impressão de que, pelo menos em termos econômicos, a Amazônia está fazendo um grande negócio com a derrubada de suas árvores, quando na verdade todo o comércio de madeira nobre no mundo equivale a menos da metade do que os americanos apuram sozinhos apenas com a pesca esportiva. A Amazônia tem uma vocação óbvia para atividades como o turismo ecológico e a pesca controlada. A mineração, com sua vantagem de derrubar pouca mata e render alto dividendo, é também uma vocação indiscutível. Tradicionalmente, o Brasil desconfia de grandes projetos nesse campo quando tocados pela iniciativa privada, sobretudo se há estrangeiros por trás. Enquanto isso, alguma força misteriosa faz com que os políticos da região se inclinem pelos madeireiros de olhos puxados.

Há incentivos oficiais para todo tipo de atividade predatória, e o que acaba dando certo é aquilo que não estava nos planos dos burocratas das capitais. Isso aconteceu com a extração da borracha. Nos primeiros anos deste século, pico do comércio da borracha na região, Manaus tinha renda per capita superior à do sul do Brasil. Os barões da seringueira, imitando parisienses, tomavam champanhe e vestiam roupas importadas da França. A vida em Manaus, segundo se dizia com orgulho por lá, era quatro vezes mais cara do que a de Nova York. Um hotel da cidade tinha a reputação de ser o maior do mundo e o teatro, deslumbrante para os padrões brasileiros na época, apresentava óperas com companhias européias. A festa durou até o momento em que o primeiro seringal da Malásia começasse a produzir látex por um sexto do preço vigente em Manaus.

No caso da borracha, não foi aplicado nenhum plano artificial de conquista da floresta. Com poucas exceções, sempre que isso aconteceu os resultados foram medíocres, às vezes patéticos. O pioneiro dos automóveis, o americano Henry Ford, derrubou a mata para plantar seringais às margens do Tapajós, nos anos 30, e deixou uma fortuna enterrada no solo amazônico. Na floresta, as seringueiras ficam distantes umas das outras, no meio da mata. Isso evita a dispersão de pragas. Ford plantou seringueiras como quem distribui mudas de café numa fazenda do Paraná. Deu praga e a plantação faliu. Outro magnata americano, Daniel Ludwig, comprou a maior propriedade rural do mundo no Amapá, nos anos 60, e lá perdeu 1 bilhão de dólares no sonho de fabricar polpa de papel, criar gado e plantar arroz.

Depois que o presidente Juscelino Kubitschek declarou que seu governo iria "arrombar a selva", ao iniciar as obras da Rodovia Belém--Brasília, em 1958, a receita da fanfarronice amazônica entrou na moda. Uma das fixações da ditadura militar nos anos 60 e 70 era integrar a Amazônia ao resto do Brasil a toque de corneta. Os militares temiam duas coisas. Uma delas, que o vazio da floresta fosse ocupado por invasores dos países vizinhos. A outra, que acabasse sendo reivindicado pelas nações ricas para acomodar os pobres que sobravam em outros lugares. Afinal, e se a ONU começasse a forçar a mão para que o Brasil aceitasse 300 milhões de chineses na Amazônia, onde é que iria parar a soberania brasileira sobre a floresta? Esse era o sentimento que predominava nos quartéis durante aqueles anos. A ordem em Brasília era colonizar a Amazônia de qualquer maneira, o mais depressa possível, custasse o que custasse. "Integrar para não entregar", conforme dizia um dos slogans da época. Nunca o desmatamento foi realizado com tanto esmero e idealismo.

Num delírio de grandeza, o governo resolveu cortar a selva inteira com uma rodovia, a Transamazônica, e instalar milhões de colonos às suas margens. A Transamazônica é hoje um caminho lamacento e semi-abandonado. Os colonos descobriram logo que o terreno de suas roças não dava mais do que duas ou três colheitas depois da queimada. Tentando uma correção de rota, Brasília trocou os agricultores humildes por empresas gigantescas que deveriam, segundo o plano dos estrategistas de gabinete, transformar a Amazônia num dos grandes exportadores mundiais de carne. Atraídas por incentivos fiscais e financiamentos, empresas sem nenhuma tradição na agropecuária, como a Volkswagen, a Varig e a companhia de seguros Atlântica Boavista, numa lista de 300, aceitaram o convite oficial e foram derrubar árvores no solo frágil da Amazônia a fim de plantar capim para os futuros rebanhos. Mas nem mesmo o capim se desenvolveu no chão fraco da região. Do plano, a única parte que deu certo foi a derrubada da mata.

Depois dessa série de malogros, a Amazônia ainda continua sendo vista como uma fruta que deve ser espremida a qualquer preço. O Brasil, hoje com o segundo maior rebanho bovino do mundo, 170 milhões de cabeças, precisaria de uma área não muito maior do que a de Minas Gerais para multiplicar esse plantel por cinco, tornando-se uma potência imbatível no ramo. Bastaria aplicar técnicas que hoje são corriqueiras na região do Triângulo Mineiro. Mas há pecuaristas desmatando a floresta tropical amazônica para engordar gado por lá. Na agricultura, acontece a mesma coisa. O Brasil já tem uma safra enorme, de 77 milhões de toneladas de grãos, mas poderia colher cinco vezes mais num pedaço de terra como o do Estado da Bahia, desde que aplicasse padrões europeus de plantio e colheita. Em vez disso, a agricultura avança nas bordas da floresta, deixando atrás um campo semeado de toras abatidas. Numa região que tem 20.000 quilômetros de rios navegáveis, constroem-se rodovias de pouca utilidade como a Perimetral Norte, que a floresta já comeu de volta. Não é exatamente a parte já destruída ou seriamente danificada da floresta que mais preocupa. Essa parte, no fim das contas, já está mesmo perdida. O que assusta é o ritmo imperturbável que o desmatamento adquiriu. Foi assim com a Mata Atlântica.




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