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Transamazônica
40 anos de poeira
A estrada que liga o "nada a coisa nenhuma"
é
uma cicatriz no meio da selva e um monumento
à cegueira ambiental das
gerações passadas e lama

Thomaz Favaro, de Rurópolis, Pará
Araquém Alcántara  |
| SEIS MESES POR ANO
Nos 2 200 quilômetros sem asfalto da Transamazônica, o tráfego
só flui na metade
sem chuvas do ano |
Quem viaja pela Transamazônica tem a impressão de
trafegar sobre um esboço de estrada. O asfalto só existe em trechos
esparsos e a sinalização é um luxo inexistente. Nos seis
meses do verão amazônico, a falta de chuvas ajuda a secar os atoleiros
e o tráfego flui em meio a grossas nuvens de poeira. Centenas de tratores
ocupam-se de efetuar reparos em vários pontos. É um ritual que
se repete há décadas no período da seca. Nos seis meses
seguintes, quando a chuva não dá trégua, a natureza e o
tráfego de caminhões se encarregam de destruir o pouco que foi
consertado. Acaba a poeira, volta a lama. Os caminhoneiros já se adaptaram
ao ciclo infernal. "Quando as mangueiras e castanheiras começam
a florir, é hora de voltar para casa", diz o gaúcho Alemar
dos Santos, caminhoneiro há três décadas, que trabalha apenas
na metade seca do ano. Os atoleiros tornam o frete tão caro que muitas
vezes não vale a pena fazer o transporte. Quem insiste acaba por enfrentar
um rali na selva. "Para percorrer os mesmos 800 quilômetros, demoro
oito dias no verão e 25 no inverno", diz o paraense Antonio Eduardo
Figueira, cuja carga inclui peças de motocicleta e combustível.
Faz parte de sua rotina passar noites em atoleiros à espera de um reboque.
Solano José/AE
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Obra faraônica
Abertura da Transamazônica na região de Altamira, em 1972 |
A Transamazônica tem mais de 4 000 quilômetros
de extensão. Se tivesse sido aberta na Europa, cruzaria o continente
de Lisboa a Moscou. O projeto original previa a fronteira com o Peru como ponto
final, mas o último trecho nunca foi construído. A parte nordestina,
com cerca de 2 000 quilômetros, é asfaltada e pode ser usada
durante todo o ano. O governo federal prometeu pavimentar o trecho amazônico
com maior população em seu entorno, uns 850 quilômetros,
no Pará, até 2011. As obras andam a passo de jabuti, em parte
devido a pendengas judiciais. Até agora, estão prontos menos de
200 quilômetros. Mantido o ritmo atual, levará mais vinte anos
para o serviço terminar. Só então se pensará em
asfaltar os restantes 1 300 quilômetros de chão batido.
A estrada que atravessa a maior floresta tropical do planeta permite
uma visão dolorosa das mazelas do Norte brasileiro. No trecho dentro
da Amazônia Legal vive 1,2 milhão de pessoas, das quais 66% não
têm água encanada e 27% não têm instalações
sanitárias. O índice de analfabetismo é o dobro da média
nacional. A parte mais próspera é no Pará, onde a floresta
derrubada foi substituída por pastagens, fazendolas, vilas e cidades
que vivem em função da rodovia. A produtividade das plantações
de cacau é a mais alta do país. Mas a distância e a precariedade
da estrada tornam o frete cinco vezes mais caro que o do cacau da Bahia, o maior
produtor nacional.
Para quem tem urgência, a Transamazônica é
um obstáculo. O agricultor José Lázaro Magalhães,
de 55 anos, mora em um vilarejo localizado no ponto em que a Transamazônica
e a BR-163 são uma só estrada por 110 quilômetros. O médico
mais próximo fica a 300 quilômetros dali, em Santarém. Se
um de seus dois filhos fica doente no período de chuva, José tem
de literalmente se desviar da rodovia. O trajeto até o médico
inclui 30 quilômetros de carona no sentido contrário até
o Rio Tapajós, para então seguir de barco rumo a Santarém.
"Saímos cedo para amanhecer no outro dia no hospital", diz
José. Não há praticamente oposição ambientalista
ao asfaltamento do trecho paraense. O asfalto vai permitir o escoamento da produção
local e melhorar a vida dos moradores. A maioria dos fazendeiros tem título
de propriedade de suas terras. A situação é bem diferente
no estado do Amazonas. Lá a floresta está praticamente intacta
e há poucas comunidades no entorno da estrada. Em parte, isso se deve
à dificuldade de acesso. A região tem todos os ingredientes que
servem de estímulo à grilagem e ao desmatamento: abundância
de terras, estrutura fundiária pouco definida e ausência do poder
público. A Transamazônica foi uma das três maiores obras
de infraestrutura projetadas pelo regime militar na década de 70, ao
lado da Usina de Itaipu e da Ponte Rio-Niterói. Naquele tempo, ninguém
achava má ideia ocupar a Amazônia com os agricultores malsucedidos
de outras regiões, sobretudo nordestinos flagelados pela seca. Nunca
houve um estudo de viabilidade econômica ou de impacto ambiental para
justificar a construção da rodovia e a colonização
de seu entorno.
Os primeiros moradores da região cortada pela Transamazônica
foram festejados como exploradores de um novo eldorado mas ficou evidente
que quase 90% das terras em torno da estrada eram ruins para a agricultura.
Quando o goiano Antônio Silva da Costa, 49 anos, chegou ao município
de Rurópolis, a 200 quilômetros de Santarém, em 1979, já
encontrou os colonos em debandada. Antônio formou uma fazenda a 7 quilômetros
da Transamazônica com a compra dos lotes dos assentados que desejavam
ir embora. Hoje, ele é dono de 500 cabeças de gado, planta milho
e arroz. Mas sua família são onze filhos, dos quais oito
ainda moram em sua casa sofre com a mesma falta de infraestrutura que
afugentou os primeiros colonos. "Passo seis meses ilhado, porque com a
chuva é impossível chegar até a rodovia", diz Antônio.
O asfaltamento completo da Transamazônica está previsto para ser
feito em três etapas. Ao todo, a obra vai custar 2,3 bilhões de
reais aos cofres públicos. Isso significa que cada quilômetro de
asfalto sairá por cerca de 1 milhão de reais. É caro, mas
é o preço a ser pago por quatro décadas de equívocos
e falta de planejamento.
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O desastre das agrovilas
Léo Caldas/Titular
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O projeto de colonização do regime militar previa
a criação de agrovilas, pequenas comunidades na beira da Transamazônica.
No papel, cada uma teria até 64 famílias, escola, igreja ecumênica,
posto médico e pequeno comércio. Umas poucas agrovilas prosperaram
e se tornaram cidades, como Rurópolis, no estado do Pará, com
30 000 habitantes. O maranhense José Pereira Silva, de 63 anos, chegou
ao município em 1975 para ocupar um lote de 100 hectares dentro de um
programa de colonização e não encontrou nem sombra
da infraestrutura prometida. "O Incra só abriu uma estrada vicinal
e entregou o título da terra", diz. Sem tecnologia para produzir
nem meios de escoar a colheita, tudo o que José conseguiu durante trinta
anos foi manter uma agricultura de subsistência no meio da floresta. Hoje,
ele vive ainda mais isolado do que quando chegou. A maior parte dos colonos
foi embora e a estrada vicinal de 7 quilômetros que liga seu sítio
à Transamazônica fica intransitável durante metade do ano.
Nem energia elétrica ele tem.
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