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Empregos tipo exportação

Aumento das vendas lá fora abre
milhares de vagas aqui dentro


Por Fábia Prates e Maurício Oliveira


Oscar Cabral
O produtor rural Eraí Scheffer com parte dos 100 empregados que contratou de uma só vez no interior de Mato Grosso: superpatrão

O cidadão que aparece sentado em cima de um fardo de algodão e com pose de patrão na foto que ilustra esta página é o produtor rural Eraí Maggi Scheffer, de 45 anos, dono de um grupo de empresas que leva o sugestivo nome de Bom Futuro. Ele planta 140 000 hectares de soja, algodão e milho em quinze fazendas localizadas em sete municípios de Mato Grosso e deve faturar 300 milhões de reais neste ano. Os cidadãos que ladeiam Scheffer fazem parte de um time de 100 profissionais contratados de uma única vez pelo Bom Futuro, em julho último, para operar uma usina de beneficiamento de algodão importada dos Estados Unidos. A máquina – que está instalada no município de Campo Verde, a 140 quilômetros de Cuiabá – custou 5 milhões de dólares e tem capacidade para processar 1 400 toneladas de pluma por dia. Entre os empregados, há de operadores de máquinas a engenheiros, com salários que variam entre 660 e 3 000 reais. Todos com carteira assinada.

Scheffer – que é primo do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi – gera 1 400 empregos diretos no Estado e destina 80% de sua produção ao exterior. Sua história ilustra bem um fenômeno que está ocorrendo em todas as regiões brasileiras: a geração de empregos criados com o aumento das exportações. Além de equilibrar a balança comercial, o aumento das vendas externas permite também a abertura de milhares de postos de trabalho em diversos setores da economia, como pode ser constatado nos quadros espalhados ao longo desta reportagem.

Para fazerem frente ao crescimento da demanda por produtos brasileiros no exterior, empresas de vários ramos estão investindo na ampliação da capacidade de produção e, em muitos casos, na construção de novas fábricas. Nos últimos dez meses, a Fiat Automóveis, de Betim, contratou 920 funcionários para atender ao aumento de demanda, sobretudo os pedidos vindos do exterior. A empresa deverá exportar 80 000 veículos neste ano – duas vezes e meia mais do que em 2003. A Aracruz Celulose está investindo 1,2 bilhão de dólares na construção de uma nova fábrica em Eunápolis, no sul da Bahia, que será inaugurada no ano que vem e gerará 2 000 empregos diretos e 10 000 indiretos. Toda a produção será destinada ao exterior.

Depois de ter enfrentado um período de vacas magras ao longo de toda a década de 90, por causa do câmbio sobrevalorizado, a cidade paulista de Franca, o segundo maior pólo calçadista do país, teve sua economia reaquecida e voltou a contratar graças à retomada das exportações. No ano passado, as fábricas locais produziram 30 milhões de pares de sapatos – 23% dos quais vendidos no exterior. Foram abertas mais de 5000 vagas em diversos setores da cadeia produtiva de calçados, que inclui profissionais de áreas diversas, de químicos a vendedores e produtores de moda.

Estudos demonstram que um em cada três empregos gerados com o aumento das exportações tem ligação direta com o agronegócio. Um desses trabalhos, publicado recentemente pelo Ministério da Fazenda, revela que a maior parte das novas vagas está sendo aberta em pequenas e médias cidades localizadas no interior do país. A pesquisa conclui que esse movimento de interiorização do emprego tem duas causas principais: o processo de desconcentração industrial iniciado na última década e o bom desempenho do agronegócio, que criou novos pólos de desenvolvimento em várias regiões.

Em Rio Verde, no sudoeste de Goiás, um complexo agroindustrial da Perdigão gerou 5 500 empregos diretos e 15 000 indiretos nos últimos quatro anos. A agência local do Sistema Nacional de Emprego registra mais de 100 ofertas de vagas por dia em vários setores. "A maior demanda é por mão-de-obra especializada", avisa Rubens Barroso, presidente da Associação Comercial e Industrial do município. A Perdigão gera 29 000 empregos diretos em treze fábricas espalhadas pelo país, além de comprar a produção de 6 000 produtores integrados de frangos, perus e suínos.

As cooperativas agropecuárias estão entre as maiores geradoras de postos de trabalho no interior. O programa de trainees da Cooperativa Agroindustrial de Maringá, no Paraná, recruta engenheiros agrônomos e de alimentos, administradores de empresa, economistas e profissionais das áreas de estatística, marketing e comércio exterior. A prioridade é para quem tem curso de pós-graduação e fez estágios no exterior. A entidade mantém um curso de MBA em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e um convênio com a Escola Superior de Agricultura de Angers, na França, para onde já encaminhou dezesseis funcionários para especialização em mercados internacionais. A Cooperativa Agropecuária de Campo Mourão, também paranaense, exige que os novos funcionários dominem pelo menos o inglês e o espanhol. "O quesito línguas é fundamental na hora de negociar exportações", justifica o presidente da entidade, José Aroldo Gallassini.

O reflexo do agronegócio sobre o mercado de trabalho extrapola o campo. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores credita o aumento de 23% nas vendas de caminhões ocorrido nos seis primeiros meses de 2004 à demanda do setor rural. Crescem também as vendas de máquinas e equipamentos agrícolas e as vagas nas indústrias que os fabricam. Em Horizontina, cidade gaúcha de 17 000 habitantes, quase toda a população trabalha direta ou indiretamente para a montadora John Deere. A CNH, holding do grupo Fiat que controla as montadoras Case e New Holland, aumentou em quase 50% o número de funcionários e prestadores de serviços nos últimos três anos.

Outra profissão em alta é a de piloto de avião agrícola. Neste ano, a Escola Aero Agrícola Santos Dumont, localizada na cidade gaúcha de Cachoeira do Sul, já formou cinqüenta novos profissionais. Apenas nas duas edições da Agrishow de Rondonópolis e Ribeirão Preto, a empresa Neiva, subsidiária da Embraer para o setor, vendeu 75 aviões agrícolas a um preço médio de 250 000 dólares cada um. "Numa boa safra, em apenas seis meses, é possível ganhar 100 000 reais", diz o piloto paulista Alberto Donatti, de 30 anos, que presta serviços para fazendeiros de Mato Grosso. Pilotos particulares de grandes produtores rurais podem ganhar 15 000 reais por mês. "O agronegócio está criando uma vasta e diversificada rede de oportunidades de trabalho no interior do país", diz Antônio Márcio Buainain, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas.

 

Mascate de luxo


Claudio Rossi
Jader da Rocha

A abertura de novos mercados e o aumento do número de empresas brasileiras que fazem negócios no exterior fizeram crescer de forma expressiva a procura por profissionais especializados em gestão de comércio exterior. Uma prova disso está na proliferação de cursos nessa área. Em todo o Brasil já são 427 reconhecidos pelo Ministério da Educação – mais do que o triplo de cinco anos atrás. Além de noções de administração e economia, um bom profissional do setor deve possuir sólidos conhecimentos sobre a legislação tributária do Brasil e de outros países, dominar questões relacionadas a barreiras comerciais e incentivos fiscais, bem como ter habilidade para negociar e faro para identificar boas oportunidades de negócios. São fundamentais ainda um bom nível de conhecimentos gerais e o domínio de pelo menos dois idiomas, de preferência o inglês e o espanhol. "Quem quiser acompanhar o processo de expansão das empresas tem de estar sempre se reciclando", ensina José Eduardo Casarin, gerente do departamento de comércio exterior da fábrica de biscoitos Marilan, de Marília, no interior paulista. Aos 31 anos, Casarin fala cinco idiomas e já visitou 46 países. Agora está aprendendo russo para ajudar a empresa a ganhar mercados no Leste Europeu. Além da graduação, profissionais com formação em outras áreas podem optar por cursos de especialização em comércio exterior. Com duração média de doze meses, eles custam de 8 400 a 28 000 reais. Para quem quiser turbinar o currículo é possível fazer MBA em negócios internacionais no exterior, mas, nesse caso, é preciso ter fôlego financeiro. Na inglesa London Business School, o aluno tem de desembolsar 340 000 reais por dois anos de curso (incluindo hospedagem e alimentação). Depois de passar seis meses como bolsista na San Diego State University, na Califórnia, Estados Unidos, Fernanda Beatriz de Oliveira, de 24 anos, recém-formada no curso de relações exteriores, conseguiu emprego no departamento de compras da fábrica de eletrodomésticos Electrolux, em Curitiba. Ela conta que a experiência foi fundamental não apenas para conseguir a vaga como também para o dia-a-dia de seu trabalho na empresa, que é controlada por uma multinacional e tem boa parte de suas operações voltada para o exterior. "Entendi o que quer dizer diversidade cultural ao conviver com gente de mais de 100 países", diz Fernanda. "Além disso, os cursos americanos de fato preparam os alunos para atuar em um mundo globalizado."

 

Todos na granja


Eduardo Marques/Tempo Editorial

A família de Nivaldo Santi (o primeiro à esq.) fatura 40 000 reais por mês com a produção de frangos para a Perdigão, em Videira, no interior de Santa Catarina. O trabalho se dá dentro de um sistema de produção integrada, no qual a empresa fornece matrizes, ração e assistência técnica e recebe os animais em ponto de abate. Os produtores entram com a mão-de-obra e as instalações. Para entregarem 200 000 aves por mês, os Santi contrataram os serviços de outras cinco famílias.

 

O engenheiro e o operador


Oscar Cabral
Joel Rocha

Depois de ficar desempregado durante seis meses, em 2003 o engenheiro mecânico paranaense Luis Salomão, de 26 anos, conseguiu uma vaga na fábrica de tratores e colheitadeiras da CNH, em Curitiba. Começou como trainee e há quatro meses foi efetivado como engenheiro júnior, com salário de 2 500 reais. O trabalho de Salomão é detalhar processos de produção na linha de montagem de máquinas agrícolas – como a que é pilotada pelo operador Giovani Cardoso Silva (à esq.) em Campo Verde, interior de Mato Grosso. Aos 27 anos e com o 2º- grau incompleto, Silva teve de passar por vários treinamentos para poder pilotar uma colheitadeira de algodão cujo preço gira em torno de 260 000 dólares. "É uma máquina muito moderna e cheia de comandos diferentes", diz o operador, que ganha 1 050 reais por mês, com carteira assinada e vários benefícios.

 

Renda com qualidade de vida


Divulgação/Cocamar

Em 2002, a engenheira de alimentos Renata de Andrade Almeida, de 34 anos, aceitou o desafio de deixar o emprego numa indústria de São Carlos, no interior paulista, para ajudar a implantar uma fábrica de sucos na Cooperativa Agroindustrial de Maringá, no Paraná. Hoje, ela comanda uma equipe de 28 profissionais responsáveis pela produção mensal de 4,3 milhões de litros de suco. Além de ganhar qualidade de vida, Renata conseguiu dobrar sua renda mensal, que hoje gira em torno de 8 000 reais.

  
       
 
 
 
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