O estilo net

Em nome da criatividade e da descontração, os jovens que trabalham na internet decidiram trocar terno e sapato alto por camiseta, jeans e tênis


Renata Costa

Ricardo Benichio
Jovens da equipe de técnicos do Submarino: trabalho às 3 da manhã para corrigir um problema que o webmaster identificou quando navegava em casa


E
ra muito fácil reconhecer um jovem milionário de Wall Street na década de 80. Bastava olhar para o paletó de grife, a caneta Mont Blanc, o relógio Rolex e, em alguns casos, as chaves da BMW. Os integrantes dessa tribo de operadores de bolsa que fizeram fortuna vendendo e comprando ações foram batizados de yuppies. Ganharam estudos sociológicos e filmes em Hollywood. Eram tão arrogantes que desprezavam quem estava fora desse mundo, principalmente aqueles garotos que ficavam trancados em casa brincando com o computador. Agora, na era da internet, os yuppies saíram de cena e estão dando lugar a um grupo sem o kit do novo-rico. Homens de gravata e paletó? Esqueça!! Mulheres de tailleur? Também! Os garotos e garotas que estão ganhando dinheiro na nova economia preferem os jeans, a camiseta e o tênis. Tudo em nome do conforto e em favor da criatividade. Os yetties, sigla em inglês de "young entrepreneurial tech-based" (jovens empreendedores da área de tecnologia), estão conseguindo trazer mais informalidade ao local de trabalho e sendo responsáveis por uma mudança de comportamento nas empresas.

Os motivos? Bem, o ambiente de trabalho dos yetties costuma ter o jeitão da própria internet. Em geral, formalidade significa perda de tempo. Logo, viva a informalidade, que facilita o acesso – não à web, mas às pessoas. Numa economia interligada mundialmente, não se pode demorar para tomar decisões. Também não cabe impor padrões de comportamento rígidos em um ambiente em que a criatividade é vital. O modelo nasceu nas empresas do Vale do Silício, nos Estados Unidos. Steve Jobs, o fundador e o ressuscitador da Apple, andava descalço pela empresa nos primeiros anos de criação de seu Macintosh. "Quanto mais for estimulada a ter conforto, mais a pessoa se sentirá livre para produzir", analisa Carmem Lúcia Rittner, psicóloga da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O gerente-geral do Yahoo! no Brasil, o carioca Bruno Fiorentini, representa uma das maiores empresas virtuais do planeta, com um valor de mercado em torno de 70 bilhões de dólares, mas sua roupa usual é jeans e camisa com as mangas dobradas. Os ternos? "Estão pegando mofo", afirma.

"O que está acontecendo atualmente é uma reaproximação entre o trabalho e a casa das pessoas", afirma o sociólogo Glauco Arbix, da Universidade de São Paulo. Com essa descentralização, a responsabilidade aumenta. Norton Amato Junior, webmaster do site de vendas Submarino, tem apenas 20 anos e oito pessoas sob sua coordenação. Certa vez, ele percebeu um erro no site quando navegava pela rede em sua casa às 3 da manhã. Não teve dúvida. Foi imediatamente para o trabalho fazer a correção. "O site também é meu, porque participamos das decisões", diz.

Gladstone Campos
Brincadeira de yetties: funcionários do UOL elegeram a quarta-feira como o dia de ir ao trabalho usando roupas formais. Mas o "uniforme oficial" é a calça


A descontração é tanta que às vezes até inclui gravata e paletó. Em muitas empresas tradicionais, a sexta-feira é o dia em que todos são liberados para comparecer ao serviço descontraídos. A sexta-feirainformal, que a maioria chama pelo nome em inglês, casual friday, é uma senha para começar a relaxar, pois o sábado está chegando. Na sede do Universo Online (UOL), o maior provedor de acesso à internet do Brasil, um grupo de técnicos resolveu inverter esses papéis. Elegeram a quarta-feira como o dia em que trocam camiseta, jeans e tênis por caretíssimos paletós e gravatas. É a formal wednesday. Pura brincadeira de yetties.

 

 

 

 

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