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Estão nos empurrando velhariasO
professor, vítima do Unabomber, diz que os
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Jesse Mobley ![]() |
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"A memória dos nossos computadores funciona como os velhos arquivos de aço, com suas pastas em ordem alfabética" |
David Gelernter não figura nas listas dos milionários da
internet e nem de longe tem a fama de um Bill Gates, o criador da Microsoft,
ou de um Jeff Bezos, o dono da Amazon.com. Ainda assim, esse professor
da Universidade Yale é um ponto de referência quando se discute
a evolução do mundo digital. Foi ele um dos primeiros a
descrever, no início da década de 90, como seria a rede
mundial de computadores que conhecemos hoje. É tão marcante
nessa área que, em 1993, o Unabomber, terrorista que se opunha
ao avanço da tecnologia, o escolheu como símbolo de sua
campanha e lhe enviou uma carta-bomba. Galernter sofreu mutilações
provocadas pela explosão. Aos 45 anos, é doutor em ciência
da computação, autor de diversos livros sobre o tema e membro
honorário do grupo The Third Culture (A Terceira Cultura), formado
por cientistas que se dedicam a refletir sobre a sociedade do futuro.
O professor, que considera "porcarias baratas" os atuais computadores
e sistemas operacionais, deu a seguinte entrevista a VEJA Vida Digital.
Veja O que há de errado com os computadores?
Gelernter
O problema é que todas as máquinas e programas vendidos
atualmente são baseados em sistemas obsoletos. Estão nos
empurrando velharias. A última grande revolução no
mundo dos sistemas operacionais foi o Macintosh, há dezesseis anos.
A grande vedete de hoje é o Linux, uma versão do Unix, lançado
em 1976. A interface de ícones e janelas foi uma invenção
brilhante, mas está ultrapassada. Ela gasta espaço de tela
com imagens insignificantes, falha em não fornecer pistas adequadas
sobre o que está dentro dos arquivos representados por aquelas
pequenas e embaçadas imagens (ícones) e deixa os usuários
manobrando janelas em uma batalha perdida por espaço de trabalho.
Veja Mas os computadores permitem que as pessoas tenham acesso
a um volume de informações com o qual nunca sonharam no
passado. Isso não é bom?
Gelernter
Poderia ser muito melhor. Os computadores modernos são baseados
em uma analogia com os armários de arquivos. Antigamente, para
achar um documento num arquivo de aço, você tinha de abrir
uma gaveta e procurar lá dentro em pastas organizadas por ordem
alfabética, numérica ou outra qualquer. Por incrível
que pareça, é assim que funciona até hoje a memória
de nossos computadores. Isso é fundamentalmente errado e afeta
todos os movimentos que fazemos. O rígido sistema de arquivos e
diretórios foi criado por programadores para programadores. É
ótimo para eles, mas ruim para não-programadores. Se você
tem três cachorros de estimação, pode dar nome a eles.
Mas, se tem 10.000 ovelhas, não se importa com nomes. Hoje, na
internet e na memória de nossos computadores há bilhões
e bilhões de páginas e arquivos. E cada qual tem nome e
endereço. É como se, num rebanho de 100 000 cabeças,
você tivesse de identificar individualmente cada animal. É
preciso encontrar uma forma mais racional de organizar informações.
Veja Alguma sugestão?
Gelernter
Deve-se abandonar o sistema dos armários de arquivos e buscar um
critério mais sofisticado e menos burocrático. Um exemplo
é a mente humana. É o mais complexo e maravilhoso sistema
de organização de informações que se conhece
até hoje. Os elementos guardados na mente não possuem nomes
e não são ordenados em pastas. Eles são acessados
não por um nome, mas pelo conteúdo. Você pode "ver"
tudo o que está em sua mente do ponto de vista do passado, presente
e futuro. Na moderna ciência da computação, existe
um conceito chamado lifestream, que consiste em organizar as informações
de forma parecida com a da mente humana.
Veja Como ele funciona?
Gelernter
Nesse sistema, todos os tipos de documento e-mails, fotografias
digitais, bookmarks, aplicativos ficam ordenados do mais recente
para o mais antigo. Os documentos não têm nomes nem diretórios.
Podem ser procurados pelo conteúdo. Fácil de navegar e de
pesquisar. Você gerencia o lifestream com apenas dois controles:
adicionar e olhar, que correspondem a adquirir uma lembrança e
relembrá-la. No início, os computadores lidavam com números
e palavras. Hoje, trabalham mais com imagens. No período que se
aproxima, eles vão lidar primordialmente com o tempo. E ficarão
cada vez mais parecidos com a mente humana.
Veja Isso também vale para os sites da internet?
Gelernter
Sem dúvida. Hoje, as pessoas estão afogadas em informações
e os computadores tornam o problema ainda mais difícil. Estão
afogadas em e-mails e os computadores não ajudam a gerenciar o
problema. Recebo muitos e-mails e me esqueço de respondê-los.
Mando e-mails e as pessoas se esquecem de me responder. O mesmo problema
acontece quando crio ou faço o download de arquivos e depois não
os encontro. Preciso me preocupar se o documento em que estou trabalhando
está no computador em casa ou no escritório. Arquivos de
computador são os documentos mais portáteis e fáceis
de copiar da história. Por que preciso me preocupar com o local
onde estão? Se estão no lugar errado, que venham até
mim!
Veja O senhor diz que estamos no limiar da segunda revolução
da informação. Como será ela?
Gelernter Ela
envolve duas mudanças principais. Primeiro, o computador deixará
de ser um ícone visível e presente em nossa vida. Hoje você
chega ao trabalho e seu micro está lá, ocupando espaço
sobre a mesa. Em casa, ele tem um lugar reservado no escritório.
No futuro, não será assim.
O lugar de destaque não será mais ocupado por uma máquina chamada computador, mas pela informação pura e simples, disponível em todo e qualquer lugar e em quantidades colossais. O computador estará presente em cada detalhe de nossa vida, mas será apenas um meio de acesso às informações, e não mais uma forma de armazená-las. Não fará diferença qual computador utilizo, nem em que computador as informações estão guardadas. Nesse novo mundo, a informação viajará por um mar de computadores anônimos e intercambiáveis. As pessoas não querem mais se conectar com computadores ou servidores remotos. Elas querem se conectar com a informação.
Veja Qual é a diferença?
Gelernter
Imagine novamente uma biblioteca, com seus milhões de livros. Quando
vou à biblioteca, não fico "surfando" pelas prateleiras
até encontrar o livro que desejo. Sei o que procuro e onde encontrar.
Um grande problema do mundo do software é que nada nele se parece
com um livro. Você pode saber muito sobre um livro apenas olhando-o
de fora. Sabe como ele está organizado, onde estão o índice
e o texto, o tamanho do volume todo e como "operá-lo". À
medida que o utiliza, sabe até onde foi e quanto falta para chegar
ao fim. Nada disso vale para os atuais sites da internet.
Veja Por quê?
Gelernter
Os atuais sites são opacos. Eles precisam ser transparentes. Você
deve enxergar imediatamente, em vez de calcular ou deduzir o tamanho,
a profundidade e a organização das informações
contidas neles. Detesto brincar de esconde-esconde na internet, tentando
descobrir como achar a informação que quero.
Veja Como será a internet do futuro?
Gelernter
Será muito parecida com a biblioteca. É o que chamo de ciberesfera.
É a internet em que os computadores individuais são anônimos,
toda a informação está agrupada de forma lógica
e o acesso é fácil, como num livro. Nessa internet, vou
procurar por uma coleção de informações, e
não por um endereço (a URL) capaz de me conectar com um
servidor onde elas estão armazenadas. Essa coleção
de informações é o que chamo de cibercorpo. É
o livro dentro de uma biblioteca. A diferença é que, ao
contrário de um livro, o cibercorpo pode se reproduzir de acordo
com o número de usuários que tentam acessá-lo.
Veja Cada pessoa terá o próprio cibercorpo?
Gelernter
Sim. Haverá cibercorpos públicos e privados. Hoje, guardo
todas as informações e documentos de meu interesse numa
área. Esse é o meu cibercorpo privado. Só eu tenho
acesso a ele, embora possa permitir que outras pessoas tenham. A empresa
em que trabalho também tem o seu espaço privado. O governo,
outro. Uma parcela dos documentos e das informações da empresa
ou do governo é aberta ao público. Na prática, já
estamos vivendo nesse mundo. O que é hoje um website senão
um cibercorpo aberto ao público ou a seus assinantes? Toda informação
digital pertence a algum cibercorpo e todos eles podem ser acessados por
qualquer computador conectado. A única coisa que diferencia um
sistema de arquivos pessoal de um banco de dados de empresa é a
distinção entre quem tem e quem não tem permissão
para enxergar o cibercorpo.
Veja Alguns críticos dizem que jamais teremos tecnologia
para tudo o que o senhor descreve como o mundo do futuro. O senhor se
considera um sonhador?
Gelernter
Não. Muitos desktops já são poderosos o suficiente
e estão ociosos na maior parte do tempo. Os proprietários
não têm como gerar demanda suficiente para ocupá-los.
Está claro que os computadores estão se tornando mais baratos
e mais poderosos rapidamente. Quem possui telefone celular tem um computador
ocioso na maior parte do tempo, que poderia fazer muito mais do que é
exigido. Continuaremos tendo mais poder de processamento do que coisas
para fazer com ele.
Veja O papel vai acabar com a evolução da internet?
Gelernter
O papel é um meio perfeito para guardar informações
temporariamente, muito melhor que um computador. É barato, forte,
leve, portátil; posso escrever nele, levá-lo comigo e usá-lo
onde quiser. Os sistemas operacionais do futuro tornarão mais fácil
pôr informações no papel.
Veja O comércio eletrônico movimentará
mais dinheiro que o comércio tradicional?
Gelernter
Provavelmente, o comércio eletrônico será maior que
o tradicional, mas nossa vida não será melhor por isso.
Atualmente, as pessoas tomam avião para longas viagens porque precisam.
Aviões são mais eficientes. Mas elas gostavam muito mais
das viagens em barcos e trens. Fazer compras passeando pelas vitrines
de um shopping ou percorrer as prateleiras de uma loja de vinhos é
muito mais agradável que comprar pela internet. Ocorre que a transação
pelo computador tende a se tornar muito mais rápida, cômoda
e barata. Logo, as pessoas vão abrir mão do prazer em favor
da comodidade.
Veja Como vai terminar a batalha entre as gravadoras e os
sites que distribuem música gratuita pela internet? A idéia
de que tudo deve ser de graça na internet tem algum fundamento?
Gelernter
O tema é crucial para o desenvolvimento da ciberesfera. Se não
inventarmos um modo de pagar as pessoas por seu trabalho, elas não
trabalharão. Tudo estará disponível na ciberesfera.
Em muitos casos, você pagará para acessar o que quer. Seu
dinheiro estará em uma conta on-line e toda a transferência
será on-line. Isso é fácil de realizar. Basta que
as pessoas abandonem a idéia maluca de que o avanço da tecnologia
fará com que produtores de áudio, vídeo e outras
formas de entretenimento não sejam mais pagos por seu trabalho.
Veja O senhor foi seriamente ferido em 1993 por uma carta-bomba
enviada pelo Unabomber. Esse terrorista afirmava que a tecnologia é
nociva à humanidade e, por essa razão, decidira lutar contra
a ciência e seus avanços. O que o senhor pensa a respeito
disso?
Gelernter
Não me importo com as coisas em que esse sujeito acredita. A visão
de assassinos covardes não me interessa. Estaria cometendo um insulto
moral a mim mesmo se discutisse essas opiniões como se fossem as
de um ser humano decente. As pessoas que as discutem e muitos americanos,
principalmente em universidades, o fazem me deixam enjoado.
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