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Geral
A
epidemia da globalização
Divulgação

Rock
Hudson: o ator de
Hollywood morreu em 1985 e foi a primeira celebridade vitimada pela
Aids |
Quando o americano Robert Gallo isolou o vírus da Aids, em 1983,
a doença era chamada de "peste gay" e matava nove em cada dez pacientes,
na imensa maioria homossexuais e usuários de drogas injetáveis.
A façanha do americano, repetida quase ao mesmo tempo pelo francês
Luc Montagnier, abriu caminho para a sintetização das drogas
antivirais que transformaram a Aids em uma doença crônica,
tratável e de baixa letalidade. Gallo está com 66 anos e
trabalha atualmente na pesquisa de uma vacina contra a Aids. Prevê
que esse medicamento pode estar disponível em no máximo
seis anos. O cientista americano deu esta entrevista a VEJA em 1996, ano
que foi um marco no tratamento da doença. O coquetel de drogas
que interrompe quase completamente a proliferação do vírus
começava a dar resultados positivos. Gallo falou a VEJA dessa revolução
no momento exato do disparo do primeiro tiro.
VEJA Existe fundamento para o entusiasmo despertado pelas
novas drogas contra a Aids?
GALLO
Lamento dizer: sim e não. São bastante raros
os casos de drogas capazes de combater com eficácia algum tipo
de vírus. É muito mais difícil combater um vírus
do que parasitas e bactérias, que vivem fora da célula.
Os parasitas e as bactérias têm seu próprio metabolismo,
são mais fáceis de atingir e, portanto, mais fáceis
de destruir. Mas é evidente que estamos no limiar de uma nova era
nas investigações. Sabemos muito mais sobre vírus
em geral e, especialmente, sobre o HIV. Era apenas uma questão
de tempo até que drogas relativamente potentes e específicas
fossem encontradas. O que tem causado entusiasmo na comunidade científica
é o uso das novas drogas, baseadas na inibição de
uma das enzimas necessárias para a reprodução do
vírus HIV, a protease. Esses novos medicamentos agem em conjunto
com as drogas antigas, como o AZT, que atua sobre a transcriptase reversa,
outra enzima do ciclo do HIV. Esse coquetel de remédios não
deixa muita margem para que o HIV escape da célula infectada para
atacar as células vizinhas, mas é preciso destacar também
os aspectos negativos da medicação, os problemas que persistem.
VEJA E o problema do preço, já que o coquetel
anti-Aids custa cerca de 10 000 dólares anuais?
GALLO
O grande problema com essas drogas é, de fato, o custo.
Quem pode comprá-las? Noventa por cento dos doentes não
podem. Qualquer solução para o tratamento da Aids terá,
obrigatoriamente, de incluir o lado econômico. O custo elevado torna
essas drogas inacessíveis aos pacientes dos países em desenvolvimento
e, até mesmo, a muitos pacientes das nações industrializadas.
VEJA
Quais serão os próximos passos contra a Aids?
GALLO
É necessário aprofundar nossos conhecimentos sobre o HIV
e desenvolver uma maneira mais natural e biológica de controlar
a reprodução do vírus no organismo. A indústria
farmacêutica deverá continuar o que está fazendo,
ou seja, desenvolver novas substâncias químicas contra as
enzimas do vírus a protease, a transcriptase reversa, a
integrase. A indústria está atualmente numa posição
muito favorável. Essas enzimas são fáceis de estudar
e, quando se descobre sua estrutura molecular, torna-se simples encontrar
as drogas mais eficazes para anular sua atuação.
| De
doença fatal a mal crônico |
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Desde
que os primeiros casos de Aids foram diagnosticados, em 1981, a
pesquisa médica sobre a doença passou por
três
fases. A época inicial ficou marcada pelas primeiras
e
seminais descobertas, como o isolamento do vírus, em 1983,
e a invenção do teste anti-HIV, em 1985. Para os pacientes
a Aids era ainda uma doença fatal, que matava em média
em um ano. Os avanços científicos começaram
a render frutos
em 1986, com a descoberta do AZT, medicamento que
prolongava a sobrevida dos pacientes. Essa foi a segunda
fase da moléstia, que durou dez anos. Em
1996, foi descoberto o coquetel de drogas que dificulta a proliferação
do HIV no organismo. Os remédios do coquetel vêm recebendo
aperfeiçoamentos a cada ano. Com
os cuidados necessários, a Aids pode ser cuidada e
mantida
sob controle como uma doença crônica qualquer, como,
por exemplo, o diabetes.
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| Fama
e calvário |
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Além
do ator Rock Hudson, outros famosos levaram a opinião pública
a discutir sobre a Aids:
Cazuza
O cantor viveu sua agonia em público, falando corajosamente
sobre a doença. Morreu em 1990
Magic Johnson
O craque do basquete americano descobriu ser soropositivo em 1991.
Tornou-se usuário do coquetel de drogas em 1996 e hoje leva
uma vida normal, administrando vários negócios e produzindo
um programa na MTV
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| O
paciente zero |
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O
comissário de bordo canadense Gaetan Dugas é
considerado o "paciente zero" da Aids. Estima-se
que ele tenha contaminado aproximadamente 250
pessoas por ano em diversos países no início da década
de 80. Sua história foi
contada no livro E a Vida Continua, publicado nos Estados
Unidos em 1987 e considerado uma das melhores crônicas sobre
a doença. A obra sugere que a Aids seria uma "epidemia da
globalização", própria
de uma era em que
existe facilidade de
locomoção. A Sars seria outra dessas epidemias.
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