Índice
 

Economia
Os campeões do liberalismo

"Margaret Thatcher é o melhor homem da Inglaterra." A frase é do ex-presidente americano Ronald Reagan, com quem "Maggie" formou uma dupla afinada. Quando ela assumiu o cargo, em 1979, a Inglaterra era a menos viável das nações industrializadas. Em onze anos e meio no poder, Thatcher privatizou furiosamente, peitou sindicalistas, encolheu o governo e recuperou a prosperidade dos ingleses. A receita de Maggie atraiu ira e admiração em doses descomunais. "Se quiser que um político diga algo, chame um homem. Se quiser que faça, chame uma mulher", afirmava. Quando VEJA falou com ela em 1994, em Londres, o liberalismo à moda de Thatcher começava a ser copiado em diversas partes do mundo.

 

mar 94   Margaret Thatcher


VEJA –
Como a senhora descreve sua idéia de um "capitalismo popular"?
THATCHER – É o meu sonho de fazer de cada cidadão um capitalista, o capitalismo das pessoas comuns. Não se esqueça de que na Inglaterra temos uma tradição de cidadania. A instituição do Parlamento começou no século XIII. O voto de poucos passou a ser o voto de todos. Vivemos sob o império da lei e sempre tivemos juízes capazes de dizer ao monarca: "Não há nenhum homem acima do rei, mas este está abaixo de Deus e da lei". Essa é nossa herança e nosso caráter. Mas, no início de meu governo, os ingleses não conseguiam ter uma poupança, não conseguiam acumular capital. Meu objetivo era fazer com que as pessoas, independentemente de sua origem, conseguissem adquirir ao menos a casa própria, acumulando algum capital para deixar aos filhos. Como nessa época 30% das casas e dos apartamentos pertenciam a órgãos públicos, fizemos um plano pelo qual os locatários tinham preferência e outras facilidades para comprar o imóvel onde moravam. Hoje, 68% dos ingleses são proprietários da casa onde moram e milhões têm ações de empresas privatizadas. Isso é capitalismo popular.

VEJA O governo da senhora ficou famoso pelas privatizações. Como foi a primeira privatização?
THATCHER – Foi no setor siderúrgico. O aço produzido pela estatal custava ao povo inglês 1,5 bilhão de dólares por ano em subsídios. Pouco depois da privatização, o aço já rendia ao Tesouro – ou seja, ao povo – 330 milhões de dólares anuais. Outro ponto positivo: o dinheiro fruto da venda das estatais vai direto para o Tesouro, o que, mais uma vez, quer dizer para o povo. Mais dinheiro no caixa do Tesouro significa menos necessidade de impostos e até menos dívida pública. Ou seja, não se está dando nada de graça. As pessoas estão comprando o que o governo vende, o Tesouro deixa de ter prejuízo e passa a ter renda. É um ótimo negócio para quem paga imposto.

VEJA – Quem se opõe à privatização das estatais no Brasil costuma dizer que privatizar é pegar algo que é propriedade de todos e dar de presente a alguns.
THATCHER – Ninguém está dando nada a ninguém. A verdade é o contrário: em geral as estatais têm de ser subsidiadas com o dinheiro dos contribuintes. O governo não sabe administrar empresas, quase sempre o faz de modo inepto. Logo, logo a empresa está perdendo dinheiro, e o contribuinte tem ao mesmo tempo de comprar o que ela produz e pagar o prejuízo.

VEJA – A senhora conheceu alguns líderes brasileiros, inclusive o ex-presidente Fernando Collor. Que impressão teve deles?
THATCHER – Não faço comentários sobre pessoas. Parece-me bem claro que o Brasil não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com administração profissional. Bastaria um período assim, acompanhado da verdadeira liberdade empresarial, para que o país se tornasse realmente próspero.

VEJA – A senhora concorda com a teoria de que a nova linha mundial de confrontação será entre civilizações e culturas diferentes, e não mais entre ideologias e sistemas econômicos?
THATCHER – A fonte fundamental de conflitos é a disputa entre tirania e liberdade, entre quem quer impor sua vontade pela força e os direitos humanos fundamentais e a liberdade dos povos. Creio que há no momento 48 conflitos armados pelo mundo. Houve tiranos em todas as eras, e eles continuam a nascer. O conflito é entre tirania e direito, não se trata de cultura.


Leia entrevista na íntegra

 


Os campeões do liberalismo

Durante a maior parte de sua vida, Friedrich von Hayek pregou no deserto. Expoente da chamada escola austríaca, grupo de economistas que adaptaram os conceitos do liberalismo clássico para a realidade do século XX, Hayek iniciou sua trajetória intelectual no pós-guerra, quando estavam em moda as idéias de John Maynard Keynes, defensor da intervenção estatal pesada na economia. Hayek achava que esse sistema levaria os países à quebradeira. Só em 1974, trinta anos após a publicação de seu livro mais famoso, Hayek recebeu a consagração, ganhando o Prêmio Nobel de Economia. Em 1979, em entrevista a VEJA, ele alertava para o perigo de remédios pretensamente milagrosos no combate à inflação, como o congelamento e o tabelamento de preços.

 

dez 79   Friedrich Von Hayek

Sergio Sade
"A curto prazo, a inflação reduz o desemprego. Mas, quando se utiliza a inflação como forma de reduzir o desemprego, acelera-se a própria inflação. No momento seguinte, o desemprego reaparece de forma ainda mais forte."
Friedrich von Hayek


VEJA –
Como solucionar o problema da inflação?
HAYEK – Naturalmente, é possível estancar a inflação cortando o excesso de dinheiro em circulação. Mas o preço é alto. A estabilização sempre leva a um período de desemprego agudo, a uma redução do nível geral de satisfação. Por isso, nenhum governo está disposto a enfrentar o problema com coragem. Afinal, seria difícil manter o poder.

VEJA – O desemprego é inevitável quando a inflação é alta?
HAYEK – Sem dúvida. O paradoxo é que, a curto prazo, a inflação reduz o desemprego. Mas, quando se utiliza a inflação como forma de reduzir o desemprego, acelera-se a própria inflação. No momento seguinte, quando se tenta controlar a inflação, o desemprego reaparece de forma ainda mais forte. Pois o que se fez foi criar empregos temporários que só se sustentariam enquanto estivesse ocorrendo a aceleração inflacionária.

VEJA – O controle de preços não é uma arma eficaz no combate às altas taxas de inflação?
HAYEK – De forma alguma. Ninguém tem poderes para controlar os preços de maneira eficiente. Os preços são sinais sobre coisas que ainda não conhecemos. Não se pode, enfim, corrigir um sinal do qual não se sabe o que está assinalando. O controle de preços termina por desorientar a produção, conduz à escassez e esta ao planejamento central. O fim dessa linha é o socialismo, e o socialismo é um equívoco.

VEJA – O sistema de livre mercado não padece também de ineficiências?
HAYEK – Ele necessita de uma moldura legal apropriada para funcionar eficientemente. No presente, é verdade, não se pode dizer que essa moldura seja a mais adequada. Precisamos, por isso, trabalhar para aperfeiçoar as leis. Por exemplo, deve-se aplicar às corporações empresariais as normas que, lentamente, foram desenvolvidas para regular a conduta dos indivíduos. De todo modo, essa adaptação tem de ser lenta e gradual, orientada pela experiência, jamais através de reformas radicais.

VEJA – Como o livre mercado poderia resolver os problemas das regiões subdesenvolvidas?
HAYEK – O desenvolvimento dessas regiões é uma questão de descobrir oportunidades e habilidades, as quais são mais efetivamente alcançadas através da livre competição. Somente quando for dada às massas subdesenvolvidas oportunidade para que utilizem suas capacidades elas terão a possibilidade de deixar o estado de pobreza em que se encontram.


Leia entrevista na íntegra

 



Cristãos-novos do capitalismo

Felipe González
País: Espanha
Mandato: 1982-1996
Como foi a conversão: demitiu funcionários públicos, privatizou estatais e abriu o país ao capital estrangeiro. Em seu mandato, a Espanha entrou para a Otan, aliança que se opunha ao bloco comunista
AFP


Tony Blair
País: Reino Unido
Mandato: desde 1997
Como foi a conversão: prometeu preservar a herança deixada por Margaret Thatcher, o que vem cumprindo. Continuou a abertura econômica e esforça-se para atrair investimentos


Lionel Jospin
País: França
Mandato: 1997-2002
Como foi a conversão: foi o governante francês que mais privatizou estatais, numa escala maior até que os governos conservadores que o precederam
AP

 

Crônica de uma vitória anunciada

O economista Friedrich von Hayek foi entrevistado por VEJA em 1979, o ano em que Margaret Thatcher assumia o governo da Inglaterra. Mais que uma coincidência, o momento marca uma transição da teoria para a prática. Em 1944, Hayek lançou seu livro mais conhecido, O Caminho da Servidão, prevendo que a Inglaterra perderia sua posição de destaque no mundo caso insistisse em políticas intervencionistas. Foram necessários 35 anos para que os ingleses percebessem que o velho pensador estava certo. Isso ocorreu quando Thatcher se incumbiu de soltar as amarras da economia britânica, colocando seu país novamente em velocidade de cruzeiro. O austríaco naturalizado inglês assistiu à vitória de seu pensamento. Acompanhou em vida o governo de Margaret Thatcher, que se tornou um exemplo para boa parte do mundo. Morreu em 1992, tendo assistido à queda do Muro de Berlim e ao esfarelamento da União Soviética. Hoje, governos de direita e de esquerda, de José María Aznar a Luiz Inácio Lula da Silva, baseiam suas políticas na idéia da qual Hayek foi o profeta e Thatcher, a executora: o liberalismo econômico.