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Internacional
Terrorismo, o mal de dois séculos

Oditador líbio Muamar Kadafi é o Osama bin Laden de ontem. Nos anos 70 e 80, ele era o grande financiador do terrorismo mundial. Seu país fornecia a base material de operação dos grupos terroristas. Na entrevista dada a VEJA em 1973, Kadafi fez a apologia dos seqüestros de avião. Depois de uma retaliação do presidente americano Ronald Reagan, em que caças bombardearam seu palácio e mataram uma de suas filhas, Kadafi aos poucos mudou de atitude. Atualmente, o coronel de 61 anos que governa a Líbia há 34 tem ajudado as autoridades ocidentais a combater o terrorismo. Tentou reaproximar-se do Ocidente entregando ao tribunal internacional de Haia dois líbios acusados de explodir um avião de passageiros. Recentemente Kadafi pagou o resgate de seis reféns ocidentais presos por grupos muçulmanos das Filipinas. O mundo ainda duvida de sua sinceridade.

 

fev 73    Muammar Kaddafi


"Não aceitamos nem justificamos os seqüestros aéreos, mas não se pode confundir seqüestradores em busca de lucro com aqueles que agem movidos por impulsos patrióticos ou em reação contra o inimigo."
Muamar Kadafi

VEJA – A sorte dos refugiados palestinos é uma das preocupações principais manifestadas em seus pronunciamentos públicos. Como esse problema poderá ser resolvido?
KADAFI – De uma maneira muito simples. Os palestinos vivem perdidos, sem casa, sem unidade, sem nada. Suas terras foram roubadas, e somente poderá haver solução para a tragédia quando elas forem devolvidas. Se aqueles que as roubaram voltarem para os lugares de onde vieram, a questão palestina poderá ser resolvida pacificamente. Não me parece possível, porém, que os judeus tenham o desprendimento necessário para dissolver aquilo que chamam de Estado de Israel. Aos palestinos, portanto, não resta alternativa senão voltar para casa pela força das armas. Não há como fugir da guerra.

VEJA – Sua reputação hoje é de "inimigo número 1 de Israel". Mas está seguro de que o povo líbio e os árabes de modo geral querem a guerra?
KADAFI – Ninguém quer a guerra pela guerra. Se a questão palestina puder se resolver pacificamente, seremos os primeiros a proclamar nossa felicidade. Não vejo, porém, alternativa: os judeus têm de sair de Israel.

VEJA – Enquanto aguardam o início dessa guerra, os terroristas palestinos vêm causando indignação mundial com os repetidos seqüestros de aviões, que põem em risco a vida de pessoas inocentes. Por que a Líbia mantém as portas abertas aos guerrilheiros, estimulando esse tipo de terrorismo?
KADAFI – Faz-se muita confusão sobre os seqüestros de aviões. É preciso distinguir entre aqueles praticados por criminosos em busca de enriquecimento, loucos que querem ver suas fotos nos jornais, ou irresponsáveis que desejam apenas viajar de graça para um determinado país, e aqueles executados com objetivos políticos. Não aceitamos nem justificamos os seqüestros aéreos, mas não se pode confundir seqüestradores em busca de lucro com aqueles que agem movidos por impulsos patrióticos ou em reação contra o inimigo.

VEJA – Mas ao acolher os seqüestradores do avião da Lufthansa, que exigiram a libertação dos palestinos detidos em Munique após o massacre dos Jogos Olímpicos, a Líbia colocou-se a favor da pirataria aérea.
KADAFI – Acolhemos os seqüestradores por uma questão de solidariedade humana.

VEJA – Acredita que o povo líbio tenha compreendido o espírito de sua revolução?
KADAFI – Sim. Não só o povo líbio, como todos os povos árabes. O que estamos construindo não é novidade. O islamismo já falava de socialismo, princípio de igualdade, e defesa dos direitos dos pobres e dos trabalhadores muito antes de Lenin e Marx. Estamos fazendo a história de um povo, não a glória de alguns indivíduos. E, como guia, seguimos o verso do Corão que diz: "Cairá primeiro o edifício construído com tijolos do que aquele erguido com devoção e temor a Deus".

VEJA – Ao propor os ensinamentos do Corão como base para a revolução e a unificação do mundo árabe, está realmente convencido de que uma sociedade moderna possa ser regida por um texto que data de 1 300 anos?
KADAFI – O Corão ensina os homens a viver. Seguindo-se suas lições, podem-se construir uma família, um Estado, a união socialista árabe.

VEJA – Na Líbia, todo ladrão tem a mão direita amputada. Se for ladrão a mão armada, também é amputada a perna esquerda, em execuções públicas. Está certo transformar o Corão em códigos civil e penal?
KADAFI – O Corão não fala apenas de amputações. Contém preceitos e ensinamentos capazes de regular a vida de um indivíduo na sociedade, suas relações com Deus, as relações entre nações.


Leia entrevista na íntegra

 



Uma doença difícil de combater

O terrorismo é um dos males do século XX. Houve o terrorismo fascista nos anos 20 e 30 e o terrorismo de esquerda do fim dos anos 70. O fenômeno não tem cor política. Existe terrorismo separatista, como o do ETA espanhol e do IRA irlandês, de extrema direita, como o de Timothy McVeigh, e fundamentalista, como o patrocinado por Muamar Kadafi nos anos 70 e 80 e por Osama bin Laden hoje. O terrorismo é um mal difícil de erradicar, porque não se acaba com ele prestando atenção às causas que os terroristas abraçam. Não se evita, por exemplo, o terrorismo de esquerda acabando com a miséria – aliás, sempre houve mais terrorismo em países ricos que no Terceiro Mundo. É um fenômeno difícil de mapear na medida em que seus adeptos costumam agir movidos por variados graus de insanidade, de fanatismo político ou religioso. Com o progresso tecnológico, os terroristas têm hoje meios muito mais letais à disposição. O 11 de setembro nos Estados Unidos marcou o início da era do terrorismo de massa. O mundo vive ainda sob o impacto daquelas explosões.

 

O terrorismo não tem cor

Existem terroristas devotados a praticamente todas as causas. Eis uma lista com alguns dos principais grupos que atuaram nos últimos 35 anos:

FUNDAMENTALISTAS ISLÂMICOS
• Organização Abu Nidal (Líbano)
• Grupo Islâmico Armado (Argélia)
• Hamas (territórios palestinos ocupados)
• Hezbollah (Líbano)
• Al-Jihad (Egito)
• Jihad Islâmico (territórios palestinos ocupados)
• Frente Popular para Libertação da Palestina (territórios ocupados)
• Al Qaeda (Afeganistão, com conexões em todo o mundo)

EXTREMA ESQUERDA
• Exército Vermelho Japonês
• Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
• Sendero Luminoso (Peru)
• Tupac Amaru (Peru)

NACIONALISTAS/ÉTNICOS
• ETA – Pátria Basca e Liberdade (Espanha)
• Partido dos Trabalhadores do Curdistão
• IRA – Exército Republicano Irlandês
• IRA Autêntico

MESSIÂNICO
• Ensino da Verdade Suprema (Japão)

EXTREMA DIREITA
• Autodefesas Unidas da Colômbia