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Entrevista:
CLAUDE LÉVI-STRAUSS
Um futuro de sombras
O grande
intelectual francês, estudioso das sociedades
primitivas e fundador do estruturalismo, manifesta
pessimismo com relação ao futuro da humanidade
Paulo Moreira Leite
Depois do desaparecimento de Jean-Paul
Sartre, em 1980, e de Raymond Aron, este ano, o professor Claude Lévi-Strauss,
de 75 anos, tornou-se talvez o solitário representante de uma estirpe
formidável, de sólida reputação e larga influência
ao redor do mundo: a dos grandes intelectuais franceses. Lévi-Strauss
firmou seu nome no universo cultural, sobretudo, como etnólogo,
um estudioso das sociedades primitivas. E granjeou discípulos e
seguidores como um dos fundadores, e patrono maior, do estruturalismo,
método que procura estudar o mundo real por meio de estruturas
que sempre se repetiriam em determinada situação. Mais que
apenas um etnólogo ou apenas um estruturalista, porém, Lévi-Strauss
é daqueles sábios cujo interesse se espraia por vários
domínios do conhecimento, das artes às ciências, e
cujas lições se aplicam a vários aspectos da realidade.
Apesar de aposentado do Collège
de France, Lévi-Strauss continua intelectualmente ativo como sempre,
e ainda este ano publicou seu 12º livro, Le Regard Eloigné (O Olhar
Distante). No centro de sua obra, porém, ainda permanece um livro
publicado em 1955, o hoje clássico Tristes Trópicos no qual
relata suas experiências com as sociedades indígenas durante
o período em que viveu no Brasil, entre 1935 e 1939, como um dos
professores estrangeiros convidados para formar a Universidade de São
Paulo. O período brasileiro desempenhou papel fundamental na formação
de Lévi-Strauss. Nesta entrevista ele fala de suas recordações
do Brasil, das sociedades primitivas, das distorções que
a seu ver sofreu o pensamento estruturalista e de suas peculiares idéias
sobre arte moderna, além de manifestar um profundo ceticismo com
relação ao futuro da civilização.
VEJA - O senhor, que sempre
se ocupou tanto com o percurso das civilizações, especialmente
as primitivas, como enxerga o futuro da nossa civilização?
LÉVI-STRAUSS - Não sou profeta, e tenho medo
de que qualquer coisa que dissesse nesse sentido soasse como uma bobagem.
Não sei se chegaremos, por exemplo, a um mundo como o descrito
por George Orwell, no romance 1984. Qualquer que seja sua forma, porém,
não acredito que os próximos anos serão um período
feliz para a humanidade.
VEJA - Por quê?
LÉVI-STRAUSS - Porque estamos atormentados por uma imensa
quantidade de problemas que não conseguimos resolver. Mesmo supondo
que seremos capazes de estudá-los e resolvê-los um dia, temos
de reconhecer que será preciso muito tempo para chegarmos até
lá.
VEJA - O senhor
parece muito pouco otimista.
LÉVI-STRAUSS - Como etnólogo, só posso
constatar que o mundo contemporâneo perdeu a fé em seus próprios
valores. Sei que este não é nem o nosso problema principal,
mas todos sabemos que, no final das contas, nenhuma civilização
pode se desenvolver se não possui valores aos quais se agarrar
profundamente. Acredito, por sinal, que nenhuma civilização
possa sequer se manter na situação em que a nossa se encontra.
VEJA - O senhor
se refere à possibilidade de uma hecatombe nuclear?
LÉVI-STRAUSS - Tenho medo, é claro, da hecatombe
nuclear. Não um medo pessoal, pois estou muito velho e, aliás,
até já poderia ter morrido. Não me sinto atingido
nesse nível. Mas temo, digamos assim, pelo que concerne a meus
filhos.
VEJA - O senhor,
que conhece tão bem as sociedades primitivas, poderia imaginar
se, dentro de 100 anos, elas serão mais felizes?
LÉVI-STRAUSS - Não sei quem será mais
feliz, mas, para serem felizes, os cidadãos dos países ricos
precisariam incorporar algumas lições das sociedades primitivas.
Para os índios, ao mesmo tempo, será preciso saber utilizar
o que há de útil para eles na civilização
ocidental, sem esquecer seu próprio passado e o valor de suas tradições
culturais.
VEJA - O que as
sociedades modernas poderiam aprender com as sociedades primitivas?
LÉVI-STRAUSS - Mais do que se imagina. Por mais humildes
e modestas que possam parecer, essas sociedades têm um prodigioso
conhecimento de seu meio natural. Dificilmente esse meio natural poderá
ser desenvolvido sem a incorporação, por parte das sociedades
modernas, desse saber.
VEJA - Como isso
poderia acontecer?
LÉVI-STRAUSS - Há muitos casos de países
como o Brasil que tentaram transformar florestas em áreas cultiváveis.
Ao final de poucos anos sempre se descobre que não existem mais
solos férteis, porque eram justamente as raízes das grandes
árvores que garantiam a riqueza das terras. Os índios não
fariam uma coisa dessas. Por isso eu acho que, nas regiões em que
ainda existem populações indígenas, deveríamos
desenvolver uma colaboração com elas - e não atuar
contra elas.
VEJA - O senhor
afirma em seu último livro, Le Regard Eloigné, que o estruturalismo,
do qual o senhor foi um dos pais, não está mais na moda.
É de se lamentar essa situação?
LÉVI-STRAUSS - Pelo contrário, eu me felicito
por isso. O estruturalismo só ficou na moda, na França e
em outros países, graças a uma série de mal-entendidos.
As pessoas imaginavam que se tratava de uma nova filosofia para a era
industrial e tecnocrática, e que o estruturalismo poderia resolver
todas as questões do mundo... Na verdade, o trabalho que se realiza
dentro do estruturalismo é um trabalho artesanal, distante do grande
público.
VEJA - Que é o
estruturalismo, então?
LÉVI-STRAUSS - É um esforço para aplicar, na
medida do possível, o pensamento científico àquelas
áreas que chamamos, impropriamente, de ciências sociais,
ou ciências humanas. Digo impropriamente porque elas não
são, nem nunca serão, ciências. Um etnólogo,
por exemplo, está envolvido demais com o objeto de seu estudo para
abandonar os preconceitos e as formas de pensamento que herdou. Isso se
explica, no fundo, pelo fato de que as chamadas ciências sociais
e ciências humanas não são coisas que se possam isolar
do mundo real. Podemos progredir um pouco em seu conhecimento, mas isso
é tudo.
VEJA - O que teria
levado o estruturalismo a ficar na moda?
LÉVI-STRAUSS - O problema é que existe uma comunicação
muito rápida, hoje em dia, entre o mundo científico e cultural,
mesmo o mais especializado, e o grande público. Há toda
uma cadeia de intermediários que se encarregam dessa comunicação
- e naturalmente, a cada etapa da transmissão, se produz uma deformação.
Foi assim que passaram a usar o estruturalismo a torto e a direito. Passaram
a empregá-lo para estudar o cinema, a literatura e várias
outras coisas.
VEJA - Qual seria,
hoje, o sistema de idéias em moda?
LÉVI-STRAUSS - Não faço a menor idéia.
Não vivemos, por sinal, uma etapa especialmente brilhante, em termos
intelectuais. É verdade que na França existe uma espécie
de fome intelectual que nos faz desejar, a cada cinco anos, um novo "ismo".
Foi assim que depois do estruturalismo houve uma volta a Jean-Paul Sartre
e ao existencialismo, e depois ainda vieram os "novos filósofos".
Mas hoje não há nada - ainda estamos à espera do
que virá amanhã.
VEJA - Há
vinte anos, para ficar no caso da França, havia Sartre e havia
Raymond Aron, e hoje parece que os grandes intelectuais estão em
vias de desaparecer. Há alguma razão para isso?
LÉVI-STRAUSS - Talvez haja grandes intelectuais hoje,
mas não os descobrimos ainda. Penso que existem períodos
particularmente notáveis, do ponto de vista da produção
intelectual, e períodos de vazio, e acredito que a atual fase é
do segundo tipo. Não me pergunte, porém, como sair dela.
Eu não sei.
VEJA - Qual foi,
na sua opinião, o intelectual mais importante de sua geração?
LÉVI-STRAUSS - Sem dúvida, Raymond Aron. Ele
tinha uma imensa cultura, que não consistia apenas no conhecimento
filosófico ou sociológico, que partilhávamos em comum,
mas que transbordava também para a política e para a economia.
Além disso, ele foi importante pelo extremo rigor que impunha a
seu pensamento, sua vontade de jamais ceder à ideologia, sua firmeza
em lutar contra o espírito de sistema. Enfim, acho que ele ocupou,
em nossa sociedade, a posição de um sábio. Talvez
tenha sido o último.
VEJA - Apesar de
ter sido um entusiasta da arte moderna na juventude, o senhor foi um dos
primeiros a afastar-se dela e denunciar suas deformações.
Como se sente na posição de uma das poucas pessoas com prestígio
intelectual, em todo o mundo, que não gostam de Pablo Picasso?
LÉVI-STRAUSS - Minha voz não conta para grande
coisa. Tenho uma grande admiração por Picasso, e não
há dúvida de que se tratava de um gênio. Sua capacidade
de se exprimir em gêneros tão diferentes, e de fazer exatamente
o que queria, sem dar importância à opinião dos outros,
são coisas que merecem nossa admiração. Dito isto,
creio que ele não era um grande pintor. A genialidade de Picasso
consistia em outra coisa.
VEJA - Por que
Picasso seria gênio, se não era um grande pintor?
LÉVI-STRAUSS - Ele conseguiu nos dar a ilusão
de que ainda fazia pintura, ao se servir, com uma extraordinária
maestria, dos restos da pintura de antigamente. Mas não fazia,
na verdade, mais do que uma retórica sobre a pintura. Não
era mais uma pintura. Era uma espécie de discurso sobre a pintura
do passado.
VEJA - E com relação
à arte moderna em geral - algo construído por sua própria
geração -, quais são suas restrições?
LÉVI-STRAUSS - Quando era adolescente, fui um apaixonado
pela arte moderna, e gosto de dizer isso para as pessoas saberem que não
sou um beócio, alguém que sempre permaneceu fechado em seu
próprio pensamento. Tenho a sensação, no entanto,
de que a pintura moderna deixou desaparecer, ou até destruir, as
bases mesmas da pintura, isto é: uma atividade culta, difícil,
que se aprendia durante anos e anos de trabalho no ateliê. Sem essa
atividade não há pintura de verdade. Já a música,
para mim, merece uma crítica oposta.
VEJA - Do que o
senhor não gosta na música moderna?
LÉVI-STRAUSS - A crítica que faço é
que a música se tornou uma atividade com desenvolvimento científico.
Hoje, a música moderna diz coisas que poderiam ser ditas igualmente
bem - ou melhor - sem a utilização dos sons.
VEJA - Se o senhor
pudesse escolher, em que sociedade gostaria de ter nascido?
LÉVI-STRAUSS - Na do século XIX. Sem hesitação.
Eu me sinto um homem do século XIX, época em que as grandes
conquistas da civilização já estavam desenvolvidas
em grau suficiente para que eu, homem do século XX, não
me sentisse muito deslocado. Também era uma época em que
ainda existia uma diversidade de culturas que, hoje, desaparece diante
de nossos olhos. No século XIX elas estavam relativamente intactas.
Seria o século ideal para mim.
VEJA - Por que
o senhor, então um jovem professor de 27 anos, resolveu dar aulas
no Brasil?
LÉVI-STRAUSS - Fui convidado pelo professor Georges
Dumas, que, na época, estava ajudando os brasileiros a criar a
Universidade de São Paulo. Eu dava aulas numa escola de província
e vivia esperando a possibilidade de fazer pesquisas de campo no terreno
da etnologia. Achei que seria uma ótima oportunidade para fazer
isso.
VEJA - Como o senhor
entrou em contato com os índios brasileiros?
LÉVI-STRAUSS - Durante todo o período em que
permaneci na Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, o que mais
me interessava não era dar aulas, mas fazer pesquisas de campo.
Então, aproveitava minhas férias para viajar. Na primeira
vez, conheci pequenas populações de língua tupi na
região Sul, Paraná e Santa Catarina. Depois aproveitei três
meses de férias e passei uma temporada maior com os caduvéus,
na fronteira com o Paraguai, e outra com os bororos, no centro de Mato
Grosso. Por fim, a terceira missão, que preparei durante todo um
ano, me levou às terras dos nambiquaras e outras populações
que vivem no norte de Mato Grosso.
VEJA - O senhor
conseguiu tornar-se amigo de algum índio?
LÉVI-STRAUSS - Tive a impressão de que poderia
me entender muito bem com eles, sobre qualquer assunto. Mas, na verdade,
não poderia ter a ambição de desenvolver uma verdadeira
amizade. Para se estabelecer relações pessoais com alguém
é preciso, para começar, conhecer muito bem sua língua
- e eu não sou muito bem dotado para as línguas, tanto que,
apesar de ter aprendido a ler e entender o português, não
sei falá-lo. Os índios com quem mantinha contato falavam
comigo um dialeto de umas cinqüenta ou 100 palavras, metade índias
e metade portuguesas. Dentro desses limites, tivemos as melhores relações
possíveis.
VEJA - As civilizações
indígenas sofreram uma sensível deterioração,
no Brasil, desde a época em que o senhor as conheceu. Isso seria
inevitável?
LÉVI-STRAUSS - Acredito que seja inevitável a
longo prazo. Ninguém pode impedir um país grande e moderno,
como o Brasil, de ocupar a totalidade de seu território e desenvolvê-lo.
O que me parece desejável, porém, é que isso seja
feito com mais consideração pelas sociedades indígenas.
Precisamos respeitar seus territórios, para que elas possam sobreviver.
É preciso dar tempo para que os índios façam suas
escolhas, e não trazê-los à força para dentro
da civilização moderna. Isso não traria vantagens
só para os índios, mas também para as sociedades
modernas.
VEJA - Existe hoje,
no Brasil, um cacique xavante, Mário Juruna, que foi eleito deputado.
A seu ver, isso é bom, ruim ou indiferente para os índios?
LÉVI-STRAUSS - É uma coisa inédita, e
muito importante. Provavelmente um único índio seja pouco
para que a voz de todos os índios seja ouvida pelos brancos. Mas,
se houver continuidade e se vierem outros índios, acredito que
será bom tanto para eles como para todos os brasileiros.
VEJA - Na época
em que o senhor esteve no Brasil, estiveram no país outros intelectuais
franceses, como o sociólogo Roger Bastide e o poeta Blaise Cendrars.
Como era para esse grupo conviver com o ambiente cultural brasileiro?
LÉVI-STRAUSS - A oportunidade de participar da criação
da Universidade de São Paulo nos estimulou muito a ir para lá.
E naquela época um francês poderia se sentir em casa no Brasil.
Todo brasileiro um pouco cultivado falava francês. Além disso,
pelo menos do ponto de vista da literatura, os intelectuais brasileiros
estavam a par de tudo o que acontecia. Eu diria, até, que eram
mais atualizados do que nós. Havia pessoas de uma vitalidade extraordinária.
VEJA - Quem, por
exemplo?
LÉVI-STRAUSS - Por exemplo o professor Paulo Duarte,
que continua meu amigo até hoje. Também guardo ótimas
lembranças de Mário de Andrade, um dos grandes poetas que
conheci. E havia outros, como Oswald de Andrade.
VEJA - Que lembranças
o senhor guarda de Oswald de Andrade?
LÉVI-STRAUSS - Ele realizava a ponte entre o movimento
surrealista europeu e as artes de São Paulo. Era uma pessoa prodigiosa,
capaz de se interessar por tudo: pintura, literatura, música, antropologia.
Como eu era etnólogo, gostava de conversar comigo, e dizia que
era por causa de suas teorias sobre o canibalismo. Era muito inteligente
e divertido.
VEJA - O senhor
escreveu, certa vez, que "o homem sempre pensou corretamente". O senhor
ainda acredita nisso?
LÉVI-STRAUSS - Sempre acreditei. É verdade que
o homem não pode pensar, sempre, com os mesmos instrumentos intelectuais.
As sociedades primitivas pensam com imagens em vez de pensar com conceitos.
Mas, mesmo com imagens, os homens pensavam tão bem como com conceitos.
VEJA - O senhor
acredita então que a humanidade progride ao longo da história?
LÉVI-STRAUSS - Essa já é outra história.
Não acredito que se possa falar em progresso com "P", maiúsculo.
As sociedades humanas apresentam, das mais primitivas às mais desenvolvidas,
um certo número de escolhas que foram realizadas em direções
diferentes, e nós não temos nenhum sistema de valores que
nos permita dizer que uma escolha é superior a outra. Para mim,
seria mais adequado falar em progressos, no plural. Não há
dúvida de que em vários domínios - na ciência,
por exemplo - um considerável progresso foi realizado.
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