Entrevista: BILL GATES
Palavra de bilionário

Homem mais rico de seu país aos 36 anos, o gênio
da informática liga pouco para o dinheiro e prevê a
troca do computador pessoal por telas de uso público

Elio Gaspari

Em algum momento de sua vida todo mundo já divagou em torno da pergunta: "Por que é que eu não fiquei milionário?" Muitos culpam o governo, a maioria culpa o patrão, uns apontam para a mulher e todos garantem que lhes faltou a oportunidade. Afinal: John Rockefeller já descobriu como ganhar dinheiro com petróleo. Henry Ford já inventou a linha de montagem de carros.

Em janeiro de 1975, quando no Brasil estavam começando as pressões que criariam a devastadora experiência do cartório de reserva de mercado da informática, William Gates III tinha 19 anos. Era filho de um próspero advogado e estudava Matemática na Universidade de Harvard. Um amigo mostrou-lhe a capa da revista Popular Electronics com uma fotografia de Altair, uma caixa de metal chamada pelo fabricante de "computador individual". Gates mandou para o espaço Harvard e a Matemática. Estava certo de que ainda na sua geração haveria uma daquelas caixas em cada casa americana e sua idéia era escrever programas para fazê-las funcionar. Nesse preciso momento, com uma idéia tão banal quanto o capim, Bill Gates começou a se tornar o homem mais rico dos Estados Unidos.

Dono da Microsoft, empresa que produz o programa Windows para computadores da linha IBM, com mais de 10 milhões de cópias vendidas, Gates ocupa três espaços mitológicos. É o homem mais rico dos Estados Unidos, o milionário mais excêntrico (alimenta-se de pizzas, veste-se como um estudante e usa óculos de aro azul) e o gênio mais produtivo (quem comprou suas ações há dez anos ganhou mais de 1000%). A Microsoft está espalhada por dezenas de países e já investiu no Brasil 1,5 milhão de dólares para dar suporte técnico aos usuários de seus produtos. No seu quartel-general, em Seatle, noroeste dos Estados Unidos, a empresa tem a marca de Gates: os prédios não incomodam a paisagem e os refrigerantes são grátis.

VEJA - O que é mais emocionante: juntar 100.000 dólares, 1 milhão ou 1 bilhão?
GATES - Não sei. Não tenho lembrança dessas acumulações de dinheiro. A minha excitação vem com as coisas que a gente faz, com produtos, idéias. Lembro-me perfeitamente do prazer que tive fazendo coisas e da satisfação que o sucesso desses produtos me trouxe. Juntar dinheiro não me estimula nem atrai minha curiosidade, até mesmo porque durante dez anos eu não tirei um único centavo da companhia. O que entrou foi reinvestido.

VEJA - O senhor está querendo me dizer que se tornou bilionário sem perceber?
GATES- O que é esse negócio de virar bilionário? Trata-se de uma conta na qual multiplica-se o valor de cada ação da Microsoft pelo tamanho da minha participação. Eu não faço essa conta. Aliás, não acompanho o movimento da bolsa.

VEJA - Há poucos meses o senhor se tornou o homem mais rico dos Estados Unidos, com quase 7 bilhões de dólares, superando John Kluge, o dono da Metromédia. Isso não lhe provocou qualquer emoção?
GATES - Não. Foi o The Wall Street Journal quem fez a conta, sempre com base no valor das ações da Microsoft. Eu li a notícia no Journal.

VEJA - E o que lhe veio à cabeça?
GATES - Que esse tipo de notícia ia chamar mais atenção sobre mim, o que não é bom. As pessoas começam a pensar só no dinheiro que o outro tem, começam a achar que você devia distribuir os seus produtos de graça.

VEJA - Qual a coisa mais cara que o senhor tem em casa?
GATES - É um carro, um Porsche. Tenho também uma escultura, coisa comprada há pouco tempo, arte contemporânea.

VEJA - Qual foi a sua maior despesa no último mês?
GATES - Deixe-me ver... Deve ter sido com comida... Não. Foi jogando golfe. Gastei 170 dólares.

VEJA - Como serão os computadores daqui a dez anos?
GATES - Ele terá o tamanho que você quiser. Poderá ser do tamanho da sua carteira ou da sua parede. A pessoa andará com um computador do tamanho da carteira, dará os comandos através de teclados, da escrita manual ou de palavras e as informações serão vistas em terminais planos, finos, pendurados nas paredes. (William Gates mete a mão no bolso de trás da calça e puxa a carteira do homem mais rico dos Estados Unidos. É marrom, gordinha, velha e um pouco suja. Na mão de um pobre faria má figura.) Nessas superfícies planas, substitutas daquilo que hoje são os tubos dos terminais e das televisões, aparecerão dados, filmes, textos, arquivos, o que você quiser. Haverá telas desse tipo em todos os lugares. As pessoas terão uma enorme liberdade de escolha desses equipamentos. Não vai existir mais aquilo que hoje nós chamamos de o meu computador.

VEJA - O senhor não acha esse cenário um pouco carregado de ficção científica?
GATES - De jeito nenhum. Lembre-se bem de uma coisa: ainda não havia estradas e as fábricas estavam produzindo carros. Os carros não pararam de ser produzidos por falta de estradas. É preciso se levar em conta que o computador é um instrumento de comunicação. Todos os equipamentos de comunicação, dos aparelhos de TV às emissoras, dos cabos aos telefones, todos serão mudados pela tecnologia do computador. Vai mudar a maneira como a pessoa recebe a informação e a maneira como ela a transmite. Isso altera desde o acesso às notícias e à educação até a expressão política. As pessoas poderão indicar se estão gostando ou não de uma coisa sem precisar se levantar de seus sofás. Mudanças desse tipo serão importantes para o funcionamento da democracia.

VEJA - Essa revolução através do computador parece teoricamente inevitável, mas há exemplo de produtos maravilhosos que se apresentam como soluções para problemas incríveis, quando são pouco mais que badulaques querendo resolver problema inexistentes.
GATES - Qual!

VEJA - A idéia de botar toda a obra de Shakespeare num disquete para depois ver quantas vezes ele usou a palavra guardanapo. Que utilidade tem isso? Quem vai ler Shakespeare num terminal se pode ler num livro, que é muito mais confortável? E quem precisa saber quantos guardanapos Shakespeare usou.

GATES - Nesse caso, sem dúvida estamos diante de um caso de função inútil dada a um invento, mas o problema está na inutilidade da função, não no invento. Para uma criança pode ser muito mais interessante e didático ler uma narrativa de viagem num terminal onde aparecem os sons e os bichos em movimento do que num livro.

VEJA - Onde o senhor acha que vai terminar o livro e começar o computador?
GATES - Eu acredito que pegando-se um livro e colocando-o pura e simplesmente na memória de um computador adiciona-se pouco valor ao que já se tinha. No caso do livro, o papel é melhor que o vídeo e vai demorar até que cheguemos à tela portátil. Para uma tela portátil de boa resolução teremos de esperar algo como dez anos. Mas veja o caso de um livro com informações médicas. Você pode incluir gráficos, movimento e ainda tirar vantagem da capacidade de localização instantânea do assunto de seu interesse. Nesse caso a informação é melhor recebida através do computador. No caso da literatura, porém, acho que a eletrônica não tem nada a fazer. Continuará sendo melhor negócio ler o livro de folhas de papel.

VEJA - Ainda não existe um produto capaz de simbolizar as virtudes da associação de textos, sons e imagens, que vem sendo chamada de multimídia, como ocorreu com o Pac Man em relação aos videogames. Vai demorar muito?
GATES - Talvez esse produto ainda não exista, mas é assim mesmo. Essas coisas demoram. Há algumas enciclopédias cujos projetos são de boa qualidade. Os livros de medicina também. Espere um pouco e esses produtos aparecerão. As pessoas querem que seus filhos aprendam e é muito mais fácil você estudar história, geografia ou ciências diante de um vídeo em que você pode passar do texto para a imagem e para o som do que ficar virando páginas de livros. Não esqueça um detalhe: o garoto que está estudando algo como a música do século XVIII poderá pedir uma foto de Mozart, ou de Viena, ou ainda que se toque um pedaço de sua obra. Fará isso movido pela sua curiosidade individual, passando de um meio para outro conforme a sua vontade.

VEJA - Quanta vai custar o computador capaz de fazer coisas desse tipo?
GATES - Menos de 1.000 dólares.

VEJA - Pelas contas que o senhor fez em 1990 a IBM iria à garra em sete anos. Faltam cinco para ela acabar?
GATES - Eu nunca disse isso. É uma invenção, como muitas que enfiam nos perfis que se publicam a meu respeito. Nesse caso, ao mesmo tempo em que inventaram a história tiveram o cuidado de dizer que ao fazer essa previsão eu estava bêbado.

VEJA - O seu bar acha que a IBM vai acabar?
GATES
- Acabar não vai, mas ela está diante de um ambiente bem diverso daquele em que progrediu a ponto de se tornar uma das maiores empresas do mundo. Eles gastam muito dinheiro, seus projetos são sempre muito caros e agora estão passando por um grande desafio. Estão redefinindo seu papel no mercado, bem como o papel de seus próprios talentos, sua maneira de trabalhar e, finalmente, seus custos.

VEJA - Quais são os seus erros mais freqüentes cometidos por homens de negócios ao se relacionarem com computadores?
GATES - Bem, se você não entende como essa tecnologia pode ajudar o seu negócio, algum dos seus concorrentes haverá de descobrir uma utilidade para o computador e, com ela, vai derrotá-lo. O segundo erro é cometido pelo empresário que gasta dinheiro demais comprando coisas que não precisa porque não quis pesquisar o que realmente precisava. Há um terceiro: o sujeito que computadoriza a sua velha maneira de tratar os negócios. Nesse caso o empresário gasta dinheiro e fica sem resultado algum, reclamando do computador.

VEJA - O seu programa de processamento de texto Word 5.0 custa perto de 500 dólares. Como o senhor acha que um professor universitário brasileiro - ganhando um salário de 1.000 dólares - vai comprá-lo? Não lhe parece mais lógico fazer uma cópia pirata?
GATES - Bem, quanto ao professor, acho que ele é uma pessoa honesta e portanto não vai usar o Word 5.0 no seu computador pessoal sem tê-lo comprado. As universidades têm laboratórios onde os professores podem usar esses programas. Além disso temos sistemas de venda a preço reduzido para professores e alunos em diversas universidades.

VEJA - Tem nos Estados Unidos. No Brasil, não. O Word 5.0 custa 500 dólares nas lojas, mas pode ser comprado a preço especial de 100 dólares na Universidade de Columbia, desde que a pessoa seja professor ou aluno da escola. No Brasil ele custará o mesmo preço para empresas, estudantes e professores, sempre em torno de 500 dólares.
GATES - Eu acho que no Brasil há um programa de descontos para universitários.

VEJA - Não tem.
GATES - Se ainda não há, vai haver, em pelo menos uma grande universidade, na qual os programas serão vendidos com descontos significativos.

VEJA - É verdade que durante uma de suas viagens ao Brasil o senhor foi convidado para um passeio de barco com fantásticas mulheres a bordo e desceu direto para o camarote, onde se trancou para ler, porque havia programado terminar um livro?
GATES - Era um fim de semana, o barco era muito bom e havia bonitas mulheres a bordo. A gente conversou um pouco e eu realmente desci para terminar um ótimo livro sobre biotecnologia.

VEJA - Mas a biotecnologia que o senhor deixou no convés não era melhor?
GATES - Era, mas a vida é curta. Eu não podia ficar o tempo todo lá em cima conversando. O livro era realmente muito bom.

VEJA - O desenvolvimento dos bancos de dados está se tornando uma coisa tão poderosa que dentro de alguns anos um país subdesenvolvido - a Nigéria, por exemplo - poderá pesquisar sua História e sua vida com mais rapidez e qualidade nos arquivos americanos do que nos do seu próprio país. O senhor acha isso saudável?
GATES - Essa distorção já existe. Há muitos países onde as pessoas ligam a CNN para saber o que está acontecendo em suas próprias cidades. Parece-me que não há dúvida de que é bom. Além do mais, imagine que um nigeriano aborreceu-se com o excesso de informações americanas ou européias e só quer ler coisas colocadas num determinado arquivo pelos africanos. Os bancos de dados permitem que ele dê uma ordem para que no resultado de sua pesquisa não venha nada americano ou europeu. O problema, portanto, não é incontornável. Agora, admitamos que existe um arquivo nigeriano e que ele não entrou no banco de dados. Não entrou, mas pode entrar e só pode entrar porque existe o banco de dados não lhe parece? O problema não está no banco de dados, mas no fato de se ver um predomínio de material americano ou europeu como uma distorção.

VEJA - Num dia, em janeiro de 1975, aos 19 anos, o senhor vinha andando pelo gramado do campus de Havard quando seu antigo Paul Allen mostrou-lhe a capa da revista Popular Electronics. Nela estava uma foto de uma caixa de metal, o Altair, primeiro computador pessoal, primitivo, sem teclado nem vídeo, coisa para maníacos. Naquela hora o senhor largou a universidade e foi escrever programas para máquinas como Altair. Nessa hora o senhor pensou em quê? Dinheiro, poder, prestígio?
GATES - A minha primeira sensação foi perceber que alguém estava fazendo aquilo sem a minha participação. Tanto eu quanto Paul Allen vínhamos pensando e discutindo a criação de uma linguagem para esse tipo de equipamento. Então que eu pensei foi: alguém vai fazer isso sem nós e nós vamos ficar aqui, no frio estudando. Vamos embora. E fomos.

VEJA - A que o senhor atribui o fato de o grande salto dos computadores pessoais ter sido dados nos Estados Unidos e não na Europa, fora do circuito das grandes empresas, fora até mesma da academia?
GATES - Tinha gente mexendo com as mesmas coisas que nós na França e no Canadá. O que havia de único aqui nos Estados Unidos era a nossa idéia de que o centro de tudo, em matéria de computadores pessoais, era a programação. Nós não pensávamos em computadores como equipamento, mas em linguagem, em formas através das quais ele se tornaria útil. Eu estava mexendo nisso desde os 12 anos de idade.

VEJA - Mas mesmo assim, por que William Gates virou Bill Gates? O que foi que o diferenciou em relação às outras pessoas que estavam mexendo com linguagem de computador?
GATES - Em primeiro lugar o que nos diferenciou, a mim e a Paul Allen, foi o fato de termos saltado de Harvard. E isso não é pouca coisa. Nós acreditamos na nossa visão. Depois, trabalhamos como escravos, dia e noite. A visão certamente nos ajudou, mas nós contávamos para todo mundo o que estávamos sonhando e o que estávamos fazendo, de forma que idéia em si não foi o único fator. Ela estava disponível. O sucesso teve mais a ver com as pessoas de quem nos cercamos, as pessoas com quem nos metemos. Mesmo olhando hoje, com tantos avanços, a nossa produção daquela época era tremenda, acredite.

VEJA - É verdade que o senhor já foi a uma festa da Microsoft vestido de imperador romano?
GATES - É. Foi em Roma e estávamos na festa que encerrava uma reunião de vendas internacionais, na qual seriam distribuídos prêmios a diversos funcionários. Botaram-me uma coroa de louros na cabeça e cobriram-me com uma capa. Eu subi num cavalo, ou num burro, não lembro direito, e dei uma volta pelo salão ao som da música de Quo Vadis. Houve outra vez em que eu andei de motocicleta. São coisas que a gente faz para criar uma boa atmosfera nas reuniões.

VEJA - Faria de novo?
GATES - Não.