Entrevista: PIERRE CARDIN
O empresário da moda

O estilista que espalhou suas criações por todo o
mundo e se prepara para conquistar a China diz
que a elegância não está na moda

Luiz Henrique Fruet

Sob sua etiqueta, já se fabricam no Brasil 25 produtos diferentes, de ternos, camisas, gravatas e biquínis a cobertores, óculos e sapatos. Sempre em busca de mais um contrato pelos quatro cantos do mundo, o costureiro e empresário francês Pierre Cardin - nascido Pietro, em Veneza, há 59 anos - passou nove dias no Brasil, divididos entre São Paulo e Porto Alegre, arrastando atrás de si uma comitiva de 25 pessoas. Ao embarcar para Buenos Aires no fim da semana passada, Cardin deixou engatado mais um contrato. Sob sua licença, a Rurita, de São Paulo, vai fazer pela primeira vez no Brasil modelos da chamada linha prêt-à-couture - um meio-termo entre a alta costura, de modelos exclusivos, e o prêt-à-porter, a moda executada em série nas fábricas.

A criação da moda - e os negócios - dominam a vida desse homem magro, de maneiras afáveis, trajes elegantes e discretos, amante do balé, da pintura e dos carros antigos. Milionário, famoso, sua etiqueta está presente hoje em 97 países. Até a China terá, dentro de semanas, uma butique Cardin. Ao líder polonês do movimento Solidariedade, Lech Walesa, Cardin ofereceu recentemente um conjunto de temos, camisas e gravatas. Walesa gostou do presente e voltou à Polônia com um novo e esfuziante guarda-roupa Cardin.

No Brasil, anunciou sua disposição de abrir no Rio de Janeiro ou em São Paulo uma filial de um dos mais famosos templos da gastronomia francesa, o restaurante Maxim's, de Paris, do qual adquiriu o controle acionário em maio passado. Pretende, na verdade, semear Maxim's pelo mundo, como fez com sua marca. O interesse, no caso, é puramente de investidor: Cardin come frugalmente, não é dado à vida noturna e bebe em raras ocasiões. Ao falar a VEJA, por uma hora, em Porto Alegre, Cardin mostrou-se preocupado o tempo todo em esconder o punho direito da camisa sob a manga do paletó. Tinha esquecido de colocar uma das abotoaduras.

VEJA - A etiqueta Cardin existe hoje em uma centena de países. Como o senhor se sente à frente desse império da moda?
CARDIN - É muito duro, muito duro. Existe um trabalho imenso, muitas viagens e muita criação. E bastante difícil hoje em dia ser um grande costureiro, e eles quase não existem mais. Sou talvez um dos últimos grandes costureiros, o último grande costureiro. Mesmo na França, não há mais grandes costureiros como no passado. No máximo cinco, quando antes havia vinte ou trinta.

VEJA - O senhor foi o primeiro grande costureiro a partir para a massificação, para o prêt-à-porter, ainda na década de 50, e naquela ocasião sofreu muitas críticas de outros costureiros. O que pensa hoje dessas críticas?
CARDIN - A alta costura era um privilégio. Não se podia conceber que o patrão e o empregado vestissem as mesmas roupas. Hoje, isso acontece. É uma questão de mentalidade. Nessa época, eu era jovem e contestador. Não compreendia por que algumas pessoas tinham dinheiro para comprar um modelo e outras não. Eu era jovem...

VEJA - O senhor não se considera mais jovem e contestador?
CARDIN - Não, agora eu contexto de outra maneira. Se eu fosse como antes, numa viagem de negócios, traria serviçais, meu motorista, mordomo, meu próprio carro. Hoje, sou como um viajante comercial. Que diferença há entre Pierre Cardin e seus assessores? Eles se hospedam nos mesmos hotéis, tomam o mesmo avião, comem o mesmo que eu e trabalham como eu.

VEJA - Quando se diz que uma mulher veste um modelo exclusivo Cardin, o que significa isso?
CARDIN - A alta costura é como os automóveis. Você tem vontade de possuir um carro pessoal, você troca o interior, a cor, todos os elementos. É a mesma coisa a alta-costura. A cliente vê um modelo marrom, não gosta, quer vermelho. Ela decide também sobre o tecido. Enfim, quer um modelo personalizado. A cliente pode e escolhe entre os modelos da coleção, ou a partir de desenhos, mas isso custa muito caro.

VEJA - Quanto?
CARDIN - Um modelo desses, sem bordado, sai em torno de 5 000 dólares (cerca de 560 000 cruzeiros) e mesmo assim não se ganha muito dinheiro. Não é tão caro porque somos obrigados a mobilizar toda a Maison para um único modelo. Ganhamos mais dinheiro com gravatas que com modelos de 2 000, 3 000 dólares. Os tecidos escolhidos são muito caros, as despesas da Maison são altas: o aluguel, os modelos, os manequins, o papel, a pintura, o tapete. É uma usina, a costura é uma grande organização, e é essa organização que custa caro, não é propriamente a roupa. Quando se cobram 5 000 dólares por um traje, alguns dizem: "São ladrões!". Mas isso não é absolutamente verdade.

VEJA - O senhor tem muitos clientes que pedem modelos exclusivos?
CARDIN - Sim. As princesas da Arábia Saudita, por exemplo, que têm muito dinheiro, encomendam 200 trajes de cada vez. Para as crianças, mandam fazer cinqüenta roupas diferentes a cada três meses. No escritório de Paris, elas vêem apenas os desenhos, os croquis. A partir deles, escolhem os trajes que querem e encomendam 200, 300. Nós fazemos essas peças individualizadas e as remetemos geralmente pelos aviões particulares de nossas clientes. Felizmente, ainda temos coisas assim na alta-costura, porque, se não tivéssemos clientes desse porte, não haveria mais alta-costura. Elas não querem que façamos duas vezes o mesmo vestido. São como as rainhas e princesas de antigamente.

VEJA - O senhor começou com moda feminina. O que o levou a entrar também no mercado da moda masculina?
CARDIN - Há 25 anos, os ingleses mantinham a reputação de homens muito elegantes, e eu me indagava: por que Paris não faz também moda para homem? Resolvi começar e tive um grande sucesso, inclusive junto aos críticos ingleses de moda. Assim, continuei nesse caminho.

VEJA - Qual o homem mais elegante do mundo? Ainda é o inglês?
CARDIN - Não tem nacionalidade. É a personalidade, não é a nacionalidade, que faz a elegância. Tenho visto muitos ingleses que são realmente terríveis.

VEJA - Há quem compre modelos de alta-costura masculinos?
CARDIN - Em princípio, esses modelos costumam ser protótipos para dar uma imagem à coleção, a imagem de Cardin. Mas, se aparecem interessados, os modelos lhes são vendidos. Custam caro e, como são roupas muito espetaculares, é preciso que os homens que as vão usar sejam também espetaculares.

VEJA - Quem é espetacular, por exemplo?
CARDIN - O cantor inglês Elton John encomendou recentemente 25 modelos de alta-costura em couro, feitos especialmente para ele. Elton John é diferente. Então, nada mais natural que queira usar roupas diferentes. Fiz roupas para ele, levando em conta que é um homem pequeno. Nem por isso o efeito é menor.

VEJA - Depois da moda masculina, vieram os acessórios com a marca Cardin. Hoje, existem móveis e até relógios com sua etiqueta. Qual sua participação pessoal na criação, por exemplo, de um relógio?
CARDIN - Sou eu quem decido se ele será redondo, quadrado, pontiagudo; qual será sua altura ou sua largura; se será vermelho, verde, amarelo. Sou eu quem dá toda a orientação, para ter uma personalidade, um estilo. Do contrário, não haveria estilo na Maison. Cada um faria as coisas à sua maneira. Não sou eu quem faz tudo, claro. Digo como quero, faço o primeiro desenho de uma garrafa, por exemplo, e depois digo: inspirem-se nesse desenho e façam a garrafa nessa linha. Eu decido. Do contrário, não é Cardin, são os outros.

VEJA - Esse sistema funciona em qualquer produto de sua linha?
CARDIN - Não existe um croquis, um desenho que deixe a Maison Cardin em Paris sem que eu tenha controle sobre isso. A coleção sou eu forçosamente quem faz. Mas a adaptação - um bolso ou dois, três bolsos, azul ou vermelho, isso não é comigo, é com meu pessoal. Comparando, é como um diretor de agência de publicidade. Ele não pode fazer tudo: dá a orientação, instrui sobre a confecção de uma peça publicitária e, se o resultado do trabalho não fica bom, manda fazer de novo. Assim fazemos nós na Maison Cardin. Mandamos os croquis, as informações sobre a matéria-prima ou um protótipo para nossos licenciados em todo o mundo. E esperamos pelo resultado. Se não fica como queremos, mandamos fazer outra vez.

VEJA - Quais são seus planos para a China, onde o senhor vai inaugurar uma butique agora? Pretende mudar o estilo das túnicas Mao?
CARDIN - Os chineses querem vestir-se de outra maneira, querem estar na moda. E já usam moda: um pequeno lenço, por exemplo. As roupas que conhecemos dos chineses são como "sobrevestimentas". Por baixo, eles usam sempre alguma coisa que lembra a moda - um pequeno lenço de cor, uma camisa. Vi um manequim na China que usava sete pulôveres coloridos por baixo da túnica.

VEJA - Como o senhor se sente diante da perspectiva de entrar nesse mercado de 1 bilhão de pessoas na China?
CARDIN - É uma vitória da alta-costura. É, para mim, uma enorme recompensa, uma espécie de medalha. Não me interessa o luxo, interessa-me a criação e quero vestir o maior número possível de pessoas.

VEJA - Como será seu trabalho na China?
CARDIN - Para começar, farei coisas bastante simples: casacos, saias, blusas, lenços, sapatos. Vou usar os tecidos deles, suas estamparias, seu algodão, seda, casimira. Vou usar as coisas deles para eles. A China é um país muito pobre, mas possui as mais nobres matérias-primas para a confecção de roupas. E bizarro, não?

VEJA - Qual a moda para este ano?
CARDIN - Tenho um estilo muito pessoal, não faço a moda - faço "minha moda". Sou muito exclusivo. Cada costureiro tem seu estilo, mas o meu é muito particular. Não posso falar como será "a moda".

VEJA - E qual a "moda Cardin"?
CARDIN - É muito moderna, jamais retrospectiva, jamais folclórica. É inspirada na matemática, na ciência, em tudo que é físico, tudo que é planetário, tudo que é aviação. São formas que nascem da abstração. Em seu interior coloco um corpo. Não visto um corpo. O talhe, as cadeiras não me interessam. É uma abstração, como a água e o copo. Eu ponho o líquido no copo e ele toma sua forma. Enquanto os outros tomam um corpo e o vestem, comigo é o contrário. Eu não respeito o talhe.

VEJA - A moda se altera sem parar, todos os anos praticamente. As pessoas que não acompanham essa constante mutação se sentem constrangidas. O senhor não acha que isso é um exagero?
CARDIN - A moda tem de mudar mesmo. Trata-se de uma questão social, utilitária. Se um jornal diz as mesmas coisas todos os dias, vai à falência. Pois se dá o mesmo com a produção de roupas. Para que as fábricas funcionem, deve existir moda. As pessoas que pensam o contrário se esquecem de que moda não é apenas roupa. E tudo que existe em torno dela: fios, lã, algodão, botões, máquinas de cortar, couros. Enfim, um vasto mundo industrial que depende do que as pessoas vestem. Metade das pessoas que vivem em Nova York, por exemplo, depende da moda. Há um outro aspecto: a moda em si, como criação, é muito importante para as pessoas. Quem não gosta de se vestir bem? Acho mesmo que, depois da comida, é a coisa mais importante para cada um de nós.

VEJA - Mas o preço da atualização nas roupas acaba sendo alto demais com mudanças tão freqüentes.
CARDIN - Não tanto assim. A moda hoje não é mais um privilégio de pessoas que têm dinheiro e não trabalham, como foi no passado. Com o prêt-à-porter, veio a produção em série. Se o criador faz um modelo para uma pessoa, vai custar muito caro. Mas, se milhões e milhões de unidades são confeccionadas nas fábricas, o preço é baixo. Deixa de ser propriamente uma questão de costura, estilo, e passa ao terreno da produção de mercadorias em escala industrial.

VEJA - É por isso que os grandes estilistas estão aderindo ao prêt-à-porter?
CARDIN - Certamente. Sem o prêt-à-porter, nem mesmo eu sobreviveria. Já teria parado há vinte anos.

VEJA - Quem anda na moda é mais elegante do que quem fica alheio e mantém um guarda-roupa mais conservador?
CARDIN - Elegância e moda são duas coisas diferentes. Ninguém precisa andar na moda para ter elegância. A elegância é um estado de alma, um comportamento, a qualidade da pessoa que sabe escolher suas cores, suas proporções, os tecidos que lhe ficam bem. Pode-se ser deselegante andando rigorosamente na moda.

VEJA - Cite uma brasileira elegante.
CARDIN - Patsy Scarpa, de São Paulo, por exemplo, é uma mulher extremamente elegante. Por sinal, cliente minha.

VEJA - Muitos estilistas procuram nas ruas alguns sinais que lhes indiquem tendências que a moda dos ateliês possa incorporar. Nesse caso, a rua é que influencia a moda e não o contrário. O que o senhor vê nas ruas?
CARDIN - Não se vê muita elegância nas ruas. E uma provocação. Quando vão a festas ou a jantares, as mulheres procuram vestir-se bem. Mas, ao se preparar para andar na rua, elas aparentemente ficam com medo de se diferenciar das outras, de se individualizar pelas roupas. As pessoas temem a individualização, não apenas no terreno da vestimenta.

VEJA - E o que chama mais sua atenção nesse sentido?
CARDIN - Veja os jeans, por exemplo. Todos usam jeans, são como carneiros, especialmente a juventude. Sem contar os jeans, as roupas em geral se parecem muito umas com as outras. Creio que isso é um sinal negativo. Falta personalidade no vestir.

VEJA - O senhor fabrica jeans e é contra eles?
CARDIN - Não sou absolutamente contra os jeans. Continuarei a fazê-los. Lamento, porém, que se tenham transformado num uniforme para tantas pessoas. Lamento também o prejuízo que causam à indústria têxtil. Com a explosão dos jeans, a seda, o linho e o algodão passaram a ser menos procurados, provocando uma crise nas fábricas. Os que têm capacidade de criação, os estilistas, também se sentem um tanto prejudicados com esse modelo padronizado. É como se todo mundo passasse de repente a comer só alcachofra e os outros alimentos fossem desprezados.

VEJA - As pessoas hoje vão à igreja e à boate de jeans. Também vão à praia e ao trabalho com essa roupa. Quem usa jeans está sempre deselegante em ambientes menos esportivos?
CARDIN - Não, também podem ser elegantes. Ocorre que os jeans não são moda. Da mesma forma que as camisas, eles são uma peça do vestuário.

VEJA - Qual sua opinião sobre o modo de vestir do brasileiro?
CARDIN - Este é um país do verão. Então, não podemos compará-lo a países onde se usam mantôs, peles, coisas mais pesadas. Na simplicidade da praia, segue-se moda no Brasil com uma curiosa característica. Se as calças são colantes, aqui são muito colantes; se as roupas são bufantes, aqui são muito bufantes.

VEJA - Como o senhor vê o uso do paletó e da gravata num país de clima quente como o Brasil?
CARDIN - Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É um costume.

VEJA - Os costureiros brasileiros se dizem criadores de moda. Há uma moda brasileira?
CARDIN - Para mim, não. Há um folclore brasileiro. Acho que os costureiros brasileiros são obrigados a receber influências de Paris, porque Paris é internacional. Em Paris, há costureiros japoneses, ingleses, alemães, franceses, italianos, espanhóis. É preciso existir uma cidade assim, onde as pessoas se reúnam num festival anual para ouvir o veredicto sobre o que é bom e o que não é bom.

VEJA - A costura americana ou a japonesa, também fortes, não ameaçam Paris nem um pouco?
CARDIN - Os costureiros de todas as nacionalidades ainda estão sob a influência de Paris. Paris é melhor e sua supremacia, em minha opinião, continua sem ameaças à vista.