| |
Gastronomia
Castelos de açúcar
Escultor de delícias,
o chef Carême agrada
aos famosos e vira estrela da cozinha
Cozinheiros de gente importante
sempre foram dados a estrelismos, mas o jovem Marie-Antoine
Carême está criando um novo patamar para a reputação
da categoria. Exigente e cheio de idéias, ele quer
ser chamado de chef e não pára de inventar pratos.
Seus banquetes mais comentados são servidos no Château
de Valençay, a luxuosa propriedade próxima a
Paris pertencente a Charles Maurice de Talleyrand, ex-bispo,
atual príncipe e eterno confabulador. Ele deixou o
cargo de ministro das Relações Exteriores de
Napoleão Bonaparte, mas continua a servir as melhores
intrigas políticas da Europa temperadas pelas
invenções do jovem Antonin, como o chef é
conhecido pelos íntimos: molhos aveludados, cascatas
de camarões, um tal de vol-au-vent (massa oca
para ser incrementada com recheios salgados ou doces) e, principalmente,
esculturas de açúcar em formatos fantasiosos,
que vão desde templos gregos até harpas. Chamadas
de pièces montées, ou peças montadas,
elas enchem os olhos dos convivas de Talleyrand, famoso pelas
tiradas espirituosas. "O melhor auxiliar de um diplomata
é seu cozinheiro", costuma dizer o príncipe.
Coerentemente, quem reina nas amplas cozinhas do castelo medieval,
recém-reformado e redecorado, é Carême.
Sua ascensão é
uma história de sucesso contra todas as probabilidades.
De família muito pobre, foi abandonado pelos pais aos
9 anos. Conseguiu um lugar de aprendiz de confeiteiro e venceu
pela dedicação ao trabalho. Primeiro, lapidou
seu talento em açúcar, marzipã e massa
de confeiteiro para, só mais recentemente, avançar
sobre os outros pratos de um banquete. Com cozinheiros renomados,
aprendeu a arte dos molhos e depois "a parte principal
do preparo de um bufê frio", segundo relata. "Vi
muita coisa, fiz observações valiosas e soube
tirar proveito delas", conta. Seu primeiro trabalho como
prestador de serviços à corte foi o cerimonioso
casamento de Jerônimo Bonaparte, irmão de Napoleão,
com a princesa Catarina de Wurtembergue. Carême respondeu
pelos pratos frios servidos na festa no palácio de
Fontainebleau, em agosto passado. Surpreendeu os convidados
com catorze peças montadas com presuntos (seis), cabeças
de porco recheadas (duas) e lombos de vitela envolvidos em
uma gelatina salgada colorida (seis). Esse trabalho elaborado
com pratos ornamentais virou a marca registrada de Carême,
que exige nada menos que a perfeição na montagem.
Como os jardins geométricos em que os franceses são
mestres, as peças, em geral feitas em duplicata, distribuem-se
pela mesa em perfeita simetria.
Além de fazer banquetes
em palácios, Carême trabalha em sua confeitaria,
na Rua de La Paix, ao lado da Praça Vendôme,
o centro do comércio chique de Paris. Ali, em ritmo
e tamanho impressionantes, são fabricados doces esculturais
para as mesas mais bem freqüentadas da França.
A produção de cada uma dessas figuras, que podem
chegar a 1 metro de altura, exige tempo, cuidado e talento
além de uma boa dose de coragem. São
horas de preparação em uma cozinha pelando de
quente, pois qualquer corrente de vento pode ser fatal às
construções de açúcar. Durante
o preparo, Carême desafia o bom senso e os espíritos
impressionáveis com um gesto que parece circense: esfria
as mãos em água gelada para em seguida enfiá-las
dentro do açúcar em ebulição.
Diz que é a única forma de saber se a calda
já está no ponto certo para a produção
dos fios que darão forma a colunas, telhados, pedestais
e todas as figuras arquitetônicas por ele admiradas
e copiadas durante suas poucas horas de lazer na Biblioteca
Nacional. "Considero a arquitetura a primeira entre as
artes, e o principal ramo da arquitetura é a confeitaria",
diz, com exagero característico (veja abaixo uma
receita menos arriscada).
Embora não tenha
sido contratado como chef fixo por Talleyrand, trabalhar com
o príncipe torna o nome de Carême conhecido nos
altos círculos europeus. O fato de que esteja afastado
do governo é temporário desde os tempos
da monarquia Talleyrand dá um jeito de se perpetuar
no poder. O diplomata é um aristocrata de berço,
que entende de comida e estabelece o tipo de desafio que qualquer
chef para valer adora. Chegou a incumbir Carême de criar
um cardápio diferente para cada dia do ano, levando
em conta a sazonalidade dos produtos franceses. Tirar o melhor
dos produtos da estação está na alma
da arte culinária e a tarefa foi cumprida com maestria
pelo chef o resultado deverá ser publicado em
um livro de receitas e reflexões que Carême pretende
lançar. "O título mais nobre que se pode
dar a um homem rico é o de gourmet, e quem compartilha
o vinho fino e a boa comida com seus amigos é o mais
nobre de todos os gourmets", suspira ele, sem esconder
a admiração por aquele que considera o maior
de todos os gourmets, Talleyrand. Vivido, cínico e,
dizem, suscetível a qualquer quantidade de dinheiro,
contanto que seja enorme, o príncipe capricha nas frases
de efeito. "A vida seria suportável se não
existissem os prazeres", provoca, mergulhado nas prazerosas
delícias do chef.
|
PÊSSEGOS DE FESTA
Pedro Rubens
 |
Uma sobremesa fácil
de fazer e de grande efeito visual. Chamada de suédois
de pêssego, foi servida no jantar oferecido
pelos marechais de Napoleão Bonaparte para comemorar
sua coroação como imperador, em 1804.
A receita do chef Carême:
1 disco de massa folhada
pronta
18 pêssegos
220 gramas de açúcar
1 maçã
Geléia de damasco
Morangos ou uvas para guarnecer
Água
Asse em fôrma
apropriada o disco de massa de 20 centímetros
(medida francesa) de diâmetro, pincelado com gema.
Sobre ele, disponha fatias de seis pêssegos. Coloque
os pêssegos restantes numa panela, cubra-os pela
metade com água e o açúcar. Deixe
ferver e depois vire-os. Quando as cascas se soltarem,
retire-os. Reduza a calda do cozimento à metade.
Junte a maçã picada e a geléia
de damasco. Derrame metade da calda reduzida sobre os
pêssegos na fôrma e leve ao forno por quinze
minutos. Retire o caroço dos pêssegos cozidos
com uma colherinha e recheie cada um com a calda fria
restante. Monte-os em forma de pirâmide sobre
a massa assada com as fatias de pêssego e enfeite-os
com as frutas frescas escolhidas.
|
| |