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Tecnologia
Reinventando o mundo
O barco a vapor já existe.
Uma carruagem sobre trilhos
é testada. O que mais virá por aí?
Super Lúdico
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| Maquete do barco americano: movida a
vapor, uma máquina aciona as rodas que fazem girar
as pás laterais |
Não está longe um futuro
em que as cidades são iluminadas por uma energia barata
e abundante, os meios de transporte alcançam velocidades
vertiginosas e as máquinas produzem bens de consumo
em quantidades impossíveis para a mão-de-obra
humana. As bases dessa revolução tecnológica
já foram lançadas. Nesse campo, Inglaterra e
França travam uma disputa bem mais produtiva que os
confrontos em armas, enquanto os Estados Unidos despontam
como outro promissor concorrente. Um exemplo impressionante
disso é o chamado barco a vapor que desde setembro
passado se desloca pelo plácido Rio Hudson, transportando
carga leve e até quarenta passageiros entre Nova York,
uma metrópole incipiente que já ultrapassa o
Rio de Janeiro em habitantes 60 000 , e a capital
do estado, Albany (atualmente, inverno no Hemisfério
Norte, passa por reformas para aprimorar o desempenho). O
que provoca em barulho compensa em velocidade: o tempo de
viagem foi reduzido a pouco mais de um terço, ou trinta
horas, em comparação com os quatro dias que
os barcos a vela demoram para percorrer o mesmo trajeto. O
North River é o primeiro barco a vapor a fazer
viagens regulares, em linha comercial. Além de dispensar
as velas, ele não depende da força nem da direção
dos ventos. Toras de pinho e carvalho, queimadas continuamente
numa caldeira, produzem o vapor que movimenta o pistão
e os eixos da máquina que faz girar, nas laterais do
barco, grandes rodas de pás giratórias que mergulham
na água e impelem o casco para a frente.
A maravilha técnica foi aperfeiçoada
por Robert Fulton, engenheiro que saiu da Pensilvânia,
conheceu na Inglaterra a máquina a vapor de James Watt
e morou mais de vinte anos na França. Com muitas idéias
e pouco dinheiro, Fulton não se intimida com fracassos.
Quando morava na França, fez um primeiro barco a vapor
(que afundou no Sena), desenvolveu o protótipo de uma
estranha embarcação submarina (o Nautilus,
que fez água) e inventou um projétil também
subaquático, que batizou de torpedo (outro fracasso).
Em compensação, conheceu o embaixador americano
em Paris, Robert Livingston, um ricaço que viu o potencial
das engenhocas. Entusiasmado, obteve direito exclusivo de
navegação comercial a vapor nos Estados Unidos,
um ramo que pode prosperar, apesar do estranhamento inicial
a viagem inaugural do North River foi acompanhada
há sete meses por multidões embasbacadas e descrita,
com certo exagero jornalístico, da seguinte maneira:
"Um monstro enorme, vomitando fogo e fumaça, rasgando
as águas com suas barbatanas e agitando o rio com seu
barulho".
A nova força motriz prenuncia
grandes mudanças na navegação. As embarcações,
além de mais rápidas, poderão se movimentar
contra o vento e a correnteza, cortando caminho como nenhum
barco a vela é capaz. Cientistas dos países
desenvolvidos também estão tentando descobrir
como aplicar a propulsão a vapor ao transporte terrestre.
Um sério candidato a se tornar o Fulton da locomoção
em terra é o engenheiro inglês Richard Trevithick,
pai da incipiente carruagem movida a vapor que chama de "Demônio
Resfolegante". Atualmente, ele se dedica a aperfeiçoar
o espetáculo com que pretende sacudir Londres (e ganhar
dinheiro também, visto que a entrada será paga):
uma máquina a vapor montada numa carruagem com rodas,
que corre sobre trilhos, batizada de "Pegue-me Se Puder".
Trevithick, que, como se vê, também tem talento
para dar nomes de alto apelo publicitário a seus inventos,
já construiu três engenhos semelhantes, mas esbarrou
sempre no problema do peso da máquina de ferro, que
acabava por quebrar os trilhos. Para a apresentação
londrina, trabalha em uma máquina menor e mais leve,
capaz de rebocar um pequeno vagão de passageiros à
velocidade de 10 milhas por hora.
O americano Fulton e o inglês Trevithick
retratam os avanços no campo da física e da
química nos últimos anos e o eterno impulso
humano de domar as forças da natureza e utilizá-las
a serviço do homem. Sabem-se hoje coisas jamais imaginadas
sobre a luz (tem raios chamados de infravermelhos), o calor
(origina-se no movimento) e até a água (divide-se
em moléculas de hidrogênio e oxigênio).
Foi o estudo dos fenômenos naturais que levou o escocês
Watt a viabilizar usos práticos para a máquina
a vapor, a qual tem sido progressivamente aperfeiçoada
com o objetivo de melhorar o rendimento das minas, das manufaturas
e da produção em geral. O propulsor que Fulton
usa no North River é inglês, fabricado
pela firma Boulton & Watt, a primeira no mundo a produzir
máquinas a vapor em grande escala.
A idéia de não só
inventar máquinas e processos, mas também aplicá-los
para o próprio progresso econômico, é
tão poderosa quanto a energia gerada pelos novos mecanismos.
Há duas semanas, outro escocês, William Murdock,
apresentou à Royal Society de Londres uma dissertação
com o título "A aplicação do gás
de carvão para fins econômicos", na qual
relata suas experiências com o uso do gás obtido
pela combustão do carvão para iluminar casas
e lugares públicos. Murdock, um dos principais engenheiros
da Boulton & Watt, estuda o assunto há mais de
quinze anos e já utiliza gás para iluminar sua
casa e a oficina onde trabalha. Uma primeira experiência
com a iluminação pública a gás
foi feita no ano passado em Pall Mall, a movimentada rua onde
todo mundo que conta em Londres tem um clube ou uma associação.
Não é impossível que as velas de cera
e os lampiões alimentados a óleo de baleia algum
dia sejam considerados coisa do passado, substituídos
por uma invenção mais eficiente e mais prática,
num movimento que já se esboça como típico
do século atual. São tantas as transformações
a caminho que é até difícil encontrar
uma maneira de classificá-las. Talvez revolução?
Industrial?
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