AMARELAS
Thomas Jefferson
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O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
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Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
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IMPÉRIO
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a Europa
A invasão da Espanha
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Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
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A imperatriz
do bom gosto
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Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
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As grandes obras
de Paris
Tecnologia
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As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Tecnologia
Reinventando o mundo

O barco a vapor já existe.
Uma carruagem sobre trilhos
é testada. O que mais virá por aí?

Super Lúdico
Maquete do barco americano: movida a vapor, uma máquina aciona as rodas que fazem girar as pás laterais

Não está longe um futuro em que as cidades são iluminadas por uma energia barata e abundante, os meios de transporte alcançam velocidades vertiginosas e as máquinas produzem bens de consumo em quantidades impossíveis para a mão-de-obra humana. As bases dessa revolução tecnológica já foram lançadas. Nesse campo, Inglaterra e França travam uma disputa bem mais produtiva que os confrontos em armas, enquanto os Estados Unidos despontam como outro promissor concorrente. Um exemplo impressionante disso é o chamado barco a vapor que desde setembro passado se desloca pelo plácido Rio Hudson, transportando carga leve e até quarenta passageiros entre Nova York, uma metrópole incipiente que já ultrapassa o Rio de Janeiro em habitantes – 60 000 –, e a capital do estado, Albany (atualmente, inverno no Hemisfério Norte, passa por reformas para aprimorar o desempenho). O que provoca em barulho compensa em velocidade: o tempo de viagem foi reduzido a pouco mais de um terço, ou trinta horas, em comparação com os quatro dias que os barcos a vela demoram para percorrer o mesmo trajeto. O North River é o primeiro barco a vapor a fazer viagens regulares, em linha comercial. Além de dispensar as velas, ele não depende da força nem da direção dos ventos. Toras de pinho e carvalho, queimadas continuamente numa caldeira, produzem o vapor que movimenta o pistão e os eixos da máquina que faz girar, nas laterais do barco, grandes rodas de pás giratórias que mergulham na água e impelem o casco para a frente.

A maravilha técnica foi aperfeiçoada por Robert Fulton, engenheiro que saiu da Pensilvânia, conheceu na Inglaterra a máquina a vapor de James Watt e morou mais de vinte anos na França. Com muitas idéias e pouco dinheiro, Fulton não se intimida com fracassos. Quando morava na França, fez um primeiro barco a vapor (que afundou no Sena), desenvolveu o protótipo de uma estranha embarcação submarina (o Nautilus, que fez água) e inventou um projétil também subaquático, que batizou de torpedo (outro fracasso). Em compensação, conheceu o embaixador americano em Paris, Robert Livingston, um ricaço que viu o potencial das engenhocas. Entusiasmado, obteve direito exclusivo de navegação comercial a vapor nos Estados Unidos, um ramo que pode prosperar, apesar do estranhamento inicial – a viagem inaugural do North River foi acompanhada há sete meses por multidões embasbacadas e descrita, com certo exagero jornalístico, da seguinte maneira: "Um monstro enorme, vomitando fogo e fumaça, rasgando as águas com suas barbatanas e agitando o rio com seu barulho".

A nova força motriz prenuncia grandes mudanças na navegação. As embarcações, além de mais rápidas, poderão se movimentar contra o vento e a correnteza, cortando caminho como nenhum barco a vela é capaz. Cientistas dos países desenvolvidos também estão tentando descobrir como aplicar a propulsão a vapor ao transporte terrestre. Um sério candidato a se tornar o Fulton da locomoção em terra é o engenheiro inglês Richard Trevithick, pai da incipiente carruagem movida a vapor que chama de "Demônio Resfolegante". Atualmente, ele se dedica a aperfeiçoar o espetáculo com que pretende sacudir Londres (e ganhar dinheiro também, visto que a entrada será paga): uma máquina a vapor montada numa carruagem com rodas, que corre sobre trilhos, batizada de "Pegue-me Se Puder". Trevithick, que, como se vê, também tem talento para dar nomes de alto apelo publicitário a seus inventos, já construiu três engenhos semelhantes, mas esbarrou sempre no problema do peso da máquina de ferro, que acabava por quebrar os trilhos. Para a apresentação londrina, trabalha em uma máquina menor e mais leve, capaz de rebocar um pequeno vagão de passageiros à velocidade de 10 milhas por hora.

O americano Fulton e o inglês Trevithick retratam os avanços no campo da física e da química nos últimos anos – e o eterno impulso humano de domar as forças da natureza e utilizá-las a serviço do homem. Sabem-se hoje coisas jamais imaginadas sobre a luz (tem raios chamados de infravermelhos), o calor (origina-se no movimento) e até a água (divide-se em moléculas de hidrogênio e oxigênio). Foi o estudo dos fenômenos naturais que levou o escocês Watt a viabilizar usos práticos para a máquina a vapor, a qual tem sido progressivamente aperfeiçoada com o objetivo de melhorar o rendimento das minas, das manufaturas e da produção em geral. O propulsor que Fulton usa no North River é inglês, fabricado pela firma Boulton & Watt, a primeira no mundo a produzir máquinas a vapor em grande escala.

A idéia de não só inventar máquinas e processos, mas também aplicá-los para o próprio progresso econômico, é tão poderosa quanto a energia gerada pelos novos mecanismos. Há duas semanas, outro escocês, William Murdock, apresentou à Royal Society de Londres uma dissertação com o título "A aplicação do gás de carvão para fins econômicos", na qual relata suas experiências com o uso do gás obtido pela combustão do carvão para iluminar casas e lugares públicos. Murdock, um dos principais engenheiros da Boulton & Watt, estuda o assunto há mais de quinze anos e já utiliza gás para iluminar sua casa e a oficina onde trabalha. Uma primeira experiência com a iluminação pública a gás foi feita no ano passado em Pall Mall, a movimentada rua onde todo mundo que conta em Londres tem um clube ou uma associação. Não é impossível que as velas de cera e os lampiões alimentados a óleo de baleia algum dia sejam considerados coisa do passado, substituídos por uma invenção mais eficiente e mais prática, num movimento que já se esboça como típico do século atual. São tantas as transformações a caminho que é até difícil encontrar uma maneira de classificá-las. Talvez revolução? Industrial?