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CIDADES
Paris está em obras
Monumentos, praças e melhorias põem
o
imperador nas alturas e transformam a capital
Um comandante tantas vezes vitorioso
tem o direito de celebrar, concorde-se ou não com seus
métodos. Mas quantos arcos Napoleão Bonaparte
vai espalhar por Paris até se dar por satisfeito? Os
arquitetos preferidos do imperador francês, Charles
Percier e Pierre Fontaine, mal acabaram de construir o Arco
do Triunfo do Carrossel, entre os palácios do Louvre
e das Tulherias, e ele já encomendou outro monumento,
ainda mais imponente. O visitante que chega a Paris pode ver
o canteiro de obras do segundo Arco do Triunfo no meio da
praça circular que fica no fim da Avenida dos Campos
Elísios. O autor do projeto, Jean Chalgrin, inspirou-se
nos arcos da Roma da antiguidade, mas passou literalmente
das medidas. O monumento de Napoleão a si mesmo terá
dimensões jamais ousadas. Serão 50 metros de
altura, mais que uma torre de doze andares se existissem
torres desse tamanho em Paris , e largura suficiente
para que exércitos inteiros marchem por baixo dele,
como convém a um monumento de celebração
da guerra. O arco é uma das grandes obras do projeto
de reurbanização que está mudando Paris.
Na sempre elegante Praça
Vendôme, uma coluna majestosa imita, em escala maior,
outro monumento romano, a famosa coluna de Trajano. É
mais uma celebração ao, digamos, ego do imperador,
com um friso em espiral registrando os eventos heróicos
das campanhas napoleônicas entre 1805 e 1807. No topo,
haverá uma estátua do próprio em vestes
romanas, à imagem de um César moderno. Para
atiçarem o fervor patriótico dos parisienses,
os construtores dizem, com mais ímpeto propagandístico
do que compromisso com a verdade, que o material da coluna
é o ferro dos canhões inimigos capturados em
Austerlitz. Colunas, arcos triunfais, César, Roma
acertou quem identificou aqui uma idéia fixa. A Roma
antiga é o paradigma histórico, e arquitetônico,
do imperador francês, que pretende reinar sobre a Europa
como o fizeram os césares. Colunas gregas, cúpulas
grandiosas e frontões triangulares reinterpretam, com
tecnologia e materiais atuais, a tradição greco-romana.
As formas austeras desse estilo que poderia ser chamado de
neoclássico evocam o passado e ao mesmo tempo combinam
com o espírito moderno que Napoleão quer inspirar.
Seu projeto é fazer de Paris um exemplo de cidade racional,
organizada e limpa, sem nada do ar medieval que ainda sobrevive
em áreas centrais nem do mau cheiro característico
dos grandes centros, um traço comum que vai do Rio
de Janeiro a Londres, passando, claro, pela capital francesa.
Para onde se olhe em
Paris, existem obras. São novas ruas, praças
e pontes sobre o Rio Sena; esgotos, fontes e canais de abastecimento
de água; grandes armazéns e mercados de alimentos.
Um local carregado de memórias revolucionárias,
a Bastilha, simboliza bem a fúria reurbanizadora. No
lugar dos escombros da famigerada prisão tomada pelos
rebelados em 14 de julho de 1789, foi aberta uma grande praça.
Lá está sendo erguido o "silo da fartura",
um enorme armazém onde os padeiros de Paris terão
de guardar farinha e trigo suficientes para prover a cidade
de pão durante três meses. Também há
instalações para armazenar azeite e vinho
o que mais pode querer um parisiense comum, tendo garantido
o abastecimento desses alimentos essenciais?
No ímpeto de remodelação
de Paris à sua imagem, Napoleão ainda precisa
terminar a arrumação da própria casa
e seu quintal, por assim dizer. Ao se instalar nas Tulherias,
ele encontrou um palácio semi-abandonado a corte
dos Luíses havia tempos vivia em Versalhes num
entorno em mau estado. Os arquitetos Percier e Fontaine traçaram
um plano para retomar a construção do vizinho
e inacabado Palácio do Louvre e uni-lo às Tulherias,
formando um grande conjunto palacial que será o mais
imponente da Europa. Além disso, Napoleão mandou
tocar adiante um projeto antigo e nunca executado: abrir uma
rua que sai da Praça da Concórdia, em frente
às Tulherias, e corre ao longo dos jardins do palácio,
alcançando adiante uma das alas do Louvre. O projeto
da chamada Rua Rivoli mostra uma sucessão de fachadas
uniformes, com prédios sóbrios de três
andares, com elegantes arcadas no nível do chão.
A nova rua tem lotes à venda. Os compradores podem
construir imóveis residenciais ou comerciais a seu
gosto, desde que mantenham o desenho-padrão da fachada.
Ruas transversais ligam essa artéria à Rua de
Saint-Honoré e à Praça Vendôme.
Também foi retomada, na mesma área, a construção
da nova igreja de Sainte-Marie-Madeleine, no lugar de uma
antiga capela. A nova Madeleine, como a chamam os parisienses,
foi dedicada por Napoleão à glória da
Grande Armée, seu exército imperial. Venerar
as armas numa igreja parece uma idéia de mau gosto
que o tempo se encarregará de sepultar, devolvendo
Paris, devidamente remodelada, a seus cultos habituais: a
boa mesa, os vinhos finos, o comércio requintado e
o charme eterno.
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