AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

CIDADES
Paris está em obras

Monumentos, praças e melhorias põem o
imperador nas alturas e transformam a capital

Um comandante tantas vezes vitorioso tem o direito de celebrar, concorde-se ou não com seus métodos. Mas quantos arcos Napoleão Bonaparte vai espalhar por Paris até se dar por satisfeito? Os arquitetos preferidos do imperador francês, Charles Percier e Pierre Fontaine, mal acabaram de construir o Arco do Triunfo do Carrossel, entre os palácios do Louvre e das Tulherias, e ele já encomendou outro monumento, ainda mais imponente. O visitante que chega a Paris pode ver o canteiro de obras do segundo Arco do Triunfo no meio da praça circular que fica no fim da Avenida dos Campos Elísios. O autor do projeto, Jean Chalgrin, inspirou-se nos arcos da Roma da antiguidade, mas passou literalmente das medidas. O monumento de Napoleão a si mesmo terá dimensões jamais ousadas. Serão 50 metros de altura, mais que uma torre de doze andares – se existissem torres desse tamanho em Paris –, e largura suficiente para que exércitos inteiros marchem por baixo dele, como convém a um monumento de celebração da guerra. O arco é uma das grandes obras do projeto de reurbanização que está mudando Paris.

Na sempre elegante Praça Vendôme, uma coluna majestosa imita, em escala maior, outro monumento romano, a famosa coluna de Trajano. É mais uma celebração ao, digamos, ego do imperador, com um friso em espiral registrando os eventos heróicos das campanhas napoleônicas entre 1805 e 1807. No topo, haverá uma estátua do próprio em vestes romanas, à imagem de um César moderno. Para atiçarem o fervor patriótico dos parisienses, os construtores dizem, com mais ímpeto propagandístico do que compromisso com a verdade, que o material da coluna é o ferro dos canhões inimigos capturados em Austerlitz. Colunas, arcos triunfais, César, Roma – acertou quem identificou aqui uma idéia fixa. A Roma antiga é o paradigma histórico, e arquitetônico, do imperador francês, que pretende reinar sobre a Europa como o fizeram os césares. Colunas gregas, cúpulas grandiosas e frontões triangulares reinterpretam, com tecnologia e materiais atuais, a tradição greco-romana. As formas austeras desse estilo que poderia ser chamado de neoclássico evocam o passado e ao mesmo tempo combinam com o espírito moderno que Napoleão quer inspirar. Seu projeto é fazer de Paris um exemplo de cidade racional, organizada e limpa, sem nada do ar medieval que ainda sobrevive em áreas centrais – nem do mau cheiro característico dos grandes centros, um traço comum que vai do Rio de Janeiro a Londres, passando, claro, pela capital francesa.

Para onde se olhe em Paris, existem obras. São novas ruas, praças e pontes sobre o Rio Sena; esgotos, fontes e canais de abastecimento de água; grandes armazéns e mercados de alimentos. Um local carregado de memórias revolucionárias, a Bastilha, simboliza bem a fúria reurbanizadora. No lugar dos escombros da famigerada prisão tomada pelos rebelados em 14 de julho de 1789, foi aberta uma grande praça. Lá está sendo erguido o "silo da fartura", um enorme armazém onde os padeiros de Paris terão de guardar farinha e trigo suficientes para prover a cidade de pão durante três meses. Também há instalações para armazenar azeite e vinho – o que mais pode querer um parisiense comum, tendo garantido o abastecimento desses alimentos essenciais?

No ímpeto de remodelação de Paris à sua imagem, Napoleão ainda precisa terminar a arrumação da própria casa e seu quintal, por assim dizer. Ao se instalar nas Tulherias, ele encontrou um palácio semi-abandonado – a corte dos Luíses havia tempos vivia em Versalhes – num entorno em mau estado. Os arquitetos Percier e Fontaine traçaram um plano para retomar a construção do vizinho e inacabado Palácio do Louvre e uni-lo às Tulherias, formando um grande conjunto palacial que será o mais imponente da Europa. Além disso, Napoleão mandou tocar adiante um projeto antigo e nunca executado: abrir uma rua que sai da Praça da Concórdia, em frente às Tulherias, e corre ao longo dos jardins do palácio, alcançando adiante uma das alas do Louvre. O projeto da chamada Rua Rivoli mostra uma sucessão de fachadas uniformes, com prédios sóbrios de três andares, com elegantes arcadas no nível do chão. A nova rua tem lotes à venda. Os compradores podem construir imóveis residenciais ou comerciais a seu gosto, desde que mantenham o desenho-padrão da fachada. Ruas transversais ligam essa artéria à Rua de Saint-Honoré e à Praça Vendôme. Também foi retomada, na mesma área, a construção da nova igreja de Sainte-Marie-Madeleine, no lugar de uma antiga capela. A nova Madeleine, como a chamam os parisienses, foi dedicada por Napoleão à glória da Grande Armée, seu exército imperial. Venerar as armas numa igreja parece uma idéia de mau gosto que o tempo se encarregará de sepultar, devolvendo Paris, devidamente remodelada, a seus cultos habituais: a boa mesa, os vinhos finos, o comércio requintado e o charme eterno.