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Sociedade
Procura-se marido
A realidade das inglesas
sem posses e sem
homens que as sustentem (ou foram para a
guerra, ou foram embora) está virando ficção
Stan Honda/AFP
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| Retrato de Jane Austen quando jovem:
livros sobre os dramas de mulheres que, como ela, não
conseguem encontrar bons nem maus partidos |
Ao contrário do Brasil, onde historicamente faltam mulheres,
a Inglaterra vive um problema social apenas sussurrado, mas
muito sentido: não há homens suficientes para
moças de classe média ou alta em idade de se casar.
Os motivos desse dilema social são a mortalidade de homens
jovens nas guerras européias, a emigração
e a rígida aplicação do direito de primogenitura.
Por causa dele, os filhos mais velhos do sexo masculino herdam
o grosso dos bens de família e, quando os há,
os títulos de nobreza. Sobram assim mulheres bem-nascidas
mas mal-herdadas, que têm dificuldade em encontrar par
numa sociedade em que o espírito empreendedor e científico
convive com regras bastante rígidas. Um retrato desses
dramas aparece em detalhes especialmente saborosos em dois livros
ainda inéditos escritos por uma autora chamada Jane Austen.
A própria escritora é a típica, com todo
o respeito, solteirona inglesa. Está com 32 anos e mora
na casa de um irmão.
Quem já leu os originais
de Elinor e Marianne (viúva perde tudo com a
morte do marido, pois a herança cabe ao filho de um
casamento anterior dele, e é obrigada a se mudar com
as três filhas para o interior) e de Primeiras Impressões
(mãe de cinco filhas solteiras e sem dote tenta desesperadamente
casá-las com bons partidos), ambos títulos ainda
provisórios, surpreendeu-se com o texto bem elaborado
e com sua focada conexão com a atualidade. Os enredos
retratam os costumes, as relações sociais e
a busca quase desesperada de tantas jovens inglesas pelo altar.
Apesar do bom nível de instrução e do
projeto de ganhar a vida escrevendo livros, Jane Austen não
compartilha idéias avançadas como as de outra
escritora inglesa, Mary Wollstonecraft. Em A Reivindicação
dos Direitos da Mulher, a falecida autora (morreu de complicações
do parto da segunda filha, também chamada Mary) defendia
a educação como instrumento para a maior participação
política, econômica e social das mulheres. Em
comum entre ambas existe a idéia de que o casamento
deve ser por amor, não por interesse. Para Jane Austen,
isso tudo só acontece na imaginação.
Sua última chance de se casar foi há seis anos,
quando aceitou o pedido de casamento de um amigo da família,
Harris Bigg-Wither, mas depois se arrependeu e desfez o compromisso.
Hoje, para se casar com um homem como Mr. Darcy, o personagem
alto, moreno, misterioso e rico de Primeiras Impressões,
só mesmo na ficção. Para que o livro
seja um sucesso, a escritora só precisa concordar em
trocar o título banal. Até agora, a melhor proposta
é Orgulho e Preconceito.
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