AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Gente

Mais um no sofá de Juliette

Com quem será que JULIETTE RÉCAMIER, 30, vai ficar? Anfitriã de um dos salões mais bem freqüentados de Paris, casada há quinze anos com o banqueiro falido (e quase trinta anos mais velho), ela é figura conhecida pela beleza e pelas posições independentes. Continua a receber pessoas ligadas ao antigo regime e, para espanto geral, recusou o convite para ser dama de companhia da imperatriz Josefina. No momento enfrenta um dilema: debate os prós e os contras da proposta de casamento que recebeu do príncipe Augusto, primo de Frederico III da Prússia, em quem despertou paixão avassaladora quando se conheceram, meses atrás. Correspondem-se assiduamente, e ela tem uma queda pelo príncipe, tanto que o presenteou com um retrato em pose provocante, reclinada no móvel que mais a favorece, uma espécie de sofá sem encosto. Mas casar como, se já é casada? Justamente: madame Récamier sugeriu ao marido a anulação do casamento, confirmando de maneira indireta os boatos de que ele nunca foi consumado – em sociedade, tudo se sabe, ou se presume. Os salões parisienses esperam o próximo capítulo com ansiedade.

 

Decadência sem elegância

Ela já foi considerada a mulher mais bela da Europa. Casada por conveniência com um aristocrata, EMMA HAMILTON usa o título de lady, embora tenha sido muita coisa no passado, exceto uma dama. O futuro parece pior ainda. Aos 46 anos, afundada em dívidas, Emma lembra pouco a jovem anfitriã que seduzia convidados ilustres com as Atitudes, quadros vivos em que incorporava figuras mitológicas como Ariadne de Creta (a pele de leopardo no quadro ao lado é licença poética). Com pouca roupa e definitivamente muita atitude, Emma atingiu o auge do prestígio social quando acompanhou o marido, William Hamilton, enviado britânico a Nápoles. Compreensivo, Hamilton aceitou quando ela não só teve um caso com o almirante Horatio Nelson, herói de guerra, como o instalou na mesma casa. Os três voltaram juntos para Londres; lá nasceu Horatia, sua filha com Nelson, hoje com 7 anos. Marido e amante morreram (o almirante na histórica batalha de Trafalgar), Emma se enredou no jogo e em compras extravagantes. Hoje, procura faturar algum hospedando conhecidos do almirante na casa que ele lhe deixou. Teme-se que nem a venerada memória de Nelson a livre do destino reservado aos devedores na Inglaterra: cadeia.

 

O herói da princesa de Gales

Muitas damas portuguesas ainda suspiram por seu salvador: o contra-almirante SYDNEY SMITH, comandante da frota inglesa que deu cobertura à fuga da corte na saída do porto de Lisboa, mas em seguida voltou à sua atividade preferida: lutar contra os franceses. Smith tem tudo para encarnar o herói romântico. Com um único navio, incendiou meia frota napoleônica. Audaz e aventureiro, já foi espião e prisioneiro de guerra – escapou da cadeia em Paris, com a ajuda de monarquistas franceses. Só tem dois problemas. Primeiro, é o espírito independente, insolente até, que funciona mal na carreira militar, iniciada como grumete na idade habitual, aos 13 anos. Segundo, é que todas as pessoas bem informadas olham para Smith e se perguntam: ele teve mesmo um romance com a princesa de Gales? A princesa Carolina e seu marido, Jorge, o herdeiro do trono inglês, vivem separados, num clima pior ainda que seus equivalentes portugueses, João e Carlota. Quando um homem como Smith se aproximou, bem de perto, dela...

 

Sem família e sem confortos. Mas com cabelo


Fotos Igespar Dida AF/Henrique Ruas
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Entre as muitas pessoas felizes com o desembarque da corte portuguesa no Rio de Janeiro, poucas têm tantos motivos para se alegrar quanto as filhas do meio da prole de João e Carlota Joaquina. As duas princesinhas, ISABEL MARIA e MARIA FRANCISCA, foram as únicas, entre oito irmãos, a viajar desgarradas da família. Longe do pai e da mãe, com quem são incrivelmente parecidas, acompanhadas apenas por uma tia viúva, elas acabaram no grupo de navios que seguiu direto para o destino final, sem calmarias nem escalas. Claro que chegaram muito antes, no dia 17 de janeiro. Mas não desembarcaram – a tia achou desrespeito. As infantas, como são chamadas, ficaram trancafiadas a bordo durante mais 36 dias, sofrendo desconfortos inúteis em nome do protocolo, até se confirmar que seus reais pais estavam na Bahia. Aí desceram e se fecharam no Paço Real por mais duas semanas, aguardando a chegada do restante da família. Pelo menos não sofreram com os piolhos – no meio das cabeças tosadas da corte, são das poucas a conservar os longos e negros cachos.

 

O homem de 250 000 dólares

Misturar política e negócios é inevitável, ainda mais quando o envolvido é JOHN JACOB ASTOR, magnata do comércio de peles. Candidato a homem mais rico dos Estados Unidos, ele está sofrendo com a atual guerra dos embargos comerciais (no caso, o decretado pelo governo americano contra os ingleses). O único com poder de reverter a situação é o presidente Thomas Jefferson, alvo dos recados constantes desse filho de um açougueiro alemão nascido em Waldorf. O emigrante está fazendo fortuna com o negócio de peles de animais exóticos, compradas aos nativos americanos e transformadas em casacos na Europa e no Oriente – seus preços são competitivos até na China. Agora, começou a diversificar, investindo em terrenos em Nova York. Às vésperas de completar 45 anos, já acumulou uma fortuna calculada em 250 000 dólares. Não é impossível que seja o primeiro a ultrapassar a barreira do milhão.

 

As mágoas da czarina infeliz

Basta olhar para o lindo rostinho de ELIZABETE ALEXEIEVNA, 29 anos, para perceber que anda triste. Nascida no estado germânico de Baden, a imperatriz, ou czarina, como dizem os russos, custou a se adaptar à vida em Moscou, e a convivência familiar é complicada. Não bastassem a indiferença do marido, Alexandre I, que mantém há anos – e não esconde de ninguém – uma ligação amorosa com uma princesa polonesa, e o péssimo relacionamento que tem com a sogra, Maria Fedorovna, Elizabete não consegue fazer o que todos esperam dela: ter um herdeiro. Ela perdeu a primeira filhinha e a segunda está adoentada. Até suas tentativas de seguir os liberais padrões da corte russa, procurando amores paralelos, deram errado. Elizabete consome-se nas suspeitas de que o czar e o irmão dele, o grão-duque Constantino, estão por trás do assassinato do homem em cujos ombros fortes ela chorava suas penas, o capitão Alexis Okhotnikov, morto a facadas no fim do ano passado. Nascida princesa Luísa Maria de Baden, a czarina infeliz vive na Rússia desde os 14 anos, quando foi convocada como noiva real pela incomparável Catarina, a Grande. Não se fazem mais imperatrizes como esta.

 

A arte de pintar rainhas

Numa profissão dominada até a última ponta dos pincéis pelos homens, é um espanto que ÉLISABETH LOUISE VIGÉE-LE BRUN tenha feito tanto sucesso. Agora, aos 53 anos, com a saúde debilitada, está pensando em diminuir o ritmo, parar de rodar as cortes européias a trabalho e ir morar no campo. Filha de artista, separada de um marchand, Élisabeth pinta desde os 15 anos. Não tem a grandeza de um David nem a visão de um Ingres, os nomes do momento na pintura da França, mas faz quadros encantadores, que as mulheres em especial adoram (é dela o retrato de Emma Hamilton, na página 48). Ficou amiga da decapitada rainha Maria Antonieta quando a pintou. Ultimamente vem sentindo o peso das viagens constantes e da ansiedade que cada obra provoca – preocupada com o bem-estar dos clientes, chega a precisar de quatro sessões para pintar um rosto. Nada de guardar os pincéis, porém: as encomendas continuam a chegar.

 

A salvadora da pátria

Entre uma guerra e outra, continua o nada clandestino romance de Napoleão Bonaparte com a polonesa MARIA WALEWSKA. Esse verdadeiro caso de segurança nacional tem a aprovação de uma nação inteira; até do marido dela, o conde Athenasius Walewski. A campanha na Polônia foi um passeio para Napoleão – o povo viu nele a chance de se livrar da ocupação estrangeira (a do momento era a Prússia). No meio da multidão que foi saudá-lo, o conquistador foi conquistado pela condessinha de 21 anos e olhos de um azul celestial. Ali mesmo, Maria ganhou dele um buquê de flores ("Napoleão tirou o chapéu, inclinou-se e não sei o que me disse, porque só pensava em expressar o que eu sentia: bem-vindo, mil vezes bem-vindo", anotou ela em seu diário). Nos dias seguintes, recebeu insistentes pedidos de um encontro a sós. Resistiu; ele lhe ofereceu a independência nacional. Que patriota polonesa recusaria? Maria aceitou. O novo Grão-Ducado de Varsóvia agradece.