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Gente
Mais um no sofá
de Juliette
Com quem será que
JULIETTE RÉCAMIER, 30, vai ficar? Anfitriã de
um dos salões mais bem freqüentados de Paris,
casada há quinze anos com o banqueiro falido (e quase
trinta anos mais velho), ela é figura conhecida pela
beleza e pelas posições independentes. Continua
a receber pessoas ligadas ao antigo regime e, para espanto
geral, recusou o convite para ser dama de companhia da imperatriz
Josefina. No momento enfrenta um dilema: debate os prós
e os contras da proposta de casamento que recebeu do príncipe
Augusto, primo de Frederico III da Prússia, em quem
despertou paixão avassaladora quando se conheceram,
meses atrás. Correspondem-se assiduamente, e ela tem
uma queda pelo príncipe, tanto que o presenteou com
um retrato em pose provocante, reclinada no móvel que
mais a favorece, uma espécie de sofá sem encosto.
Mas casar como, se já é casada? Justamente:
madame Récamier sugeriu ao marido a anulação
do casamento, confirmando de maneira indireta os boatos de
que ele nunca foi consumado em sociedade, tudo se sabe,
ou se presume. Os salões parisienses esperam o próximo
capítulo com ansiedade.
Decadência sem
elegância
Ela já foi considerada
a mulher mais bela da Europa. Casada por conveniência
com um aristocrata, EMMA HAMILTON usa o título de lady,
embora tenha sido muita coisa no passado, exceto uma dama.
O futuro parece pior ainda. Aos 46 anos, afundada em dívidas,
Emma lembra pouco a jovem anfitriã que seduzia convidados
ilustres com as Atitudes, quadros vivos em que incorporava
figuras mitológicas como Ariadne de Creta (a pele de
leopardo no quadro ao lado é licença poética).
Com pouca roupa e definitivamente muita atitude, Emma atingiu
o auge do prestígio social quando acompanhou o marido,
William Hamilton, enviado britânico a Nápoles.
Compreensivo, Hamilton aceitou quando ela não só
teve um caso com o almirante Horatio Nelson, herói
de guerra, como o instalou na mesma casa. Os três voltaram
juntos para Londres; lá nasceu Horatia, sua filha com
Nelson, hoje com 7 anos. Marido e amante morreram (o almirante
na histórica batalha de Trafalgar), Emma se enredou
no jogo e em compras extravagantes. Hoje, procura faturar
algum hospedando conhecidos do almirante na casa que ele lhe
deixou. Teme-se que nem a venerada memória de Nelson
a livre do destino reservado aos devedores na Inglaterra:
cadeia.
O herói da princesa
de Gales
Muitas damas portuguesas
ainda suspiram por seu salvador: o contra-almirante SYDNEY
SMITH, comandante da frota inglesa que deu cobertura à
fuga da corte na saída do porto de Lisboa, mas em seguida
voltou à sua atividade preferida: lutar contra os franceses.
Smith tem tudo para encarnar o herói romântico.
Com um único navio, incendiou meia frota napoleônica.
Audaz e aventureiro, já foi espião e prisioneiro
de guerra escapou da cadeia em Paris, com a ajuda de
monarquistas franceses. Só tem dois problemas. Primeiro,
é o espírito independente, insolente até,
que funciona mal na carreira militar, iniciada como grumete
na idade habitual, aos 13 anos. Segundo, é que todas
as pessoas bem informadas olham para Smith e se perguntam:
ele teve mesmo um romance com a princesa de Gales? A princesa
Carolina e seu marido, Jorge, o herdeiro do trono inglês,
vivem separados, num clima pior ainda que seus equivalentes
portugueses, João e Carlota. Quando um homem como Smith
se aproximou, bem de perto, dela...
Sem família e
sem confortos. Mas com cabelo
Fotos Igespar Dida AF/Henrique
Ruas
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ue Ruas
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Entre as muitas pessoas
felizes com o desembarque da corte portuguesa no Rio de Janeiro,
poucas têm tantos motivos para se alegrar quanto as
filhas do meio da prole de João e Carlota Joaquina.
As duas princesinhas, ISABEL MARIA e MARIA FRANCISCA, foram
as únicas, entre oito irmãos, a viajar desgarradas
da família. Longe do pai e da mãe, com quem
são incrivelmente parecidas, acompanhadas apenas por
uma tia viúva, elas acabaram no grupo de navios que
seguiu direto para o destino final, sem calmarias nem escalas.
Claro que chegaram muito antes, no dia 17 de janeiro. Mas
não desembarcaram a tia achou desrespeito. As
infantas, como são chamadas, ficaram trancafiadas a
bordo durante mais 36 dias, sofrendo desconfortos inúteis
em nome do protocolo, até se confirmar que seus reais
pais estavam na Bahia. Aí desceram e se fecharam no
Paço Real por mais duas semanas, aguardando a chegada
do restante da família. Pelo menos não sofreram
com os piolhos no meio das cabeças tosadas da
corte, são das poucas a conservar os longos e negros
cachos.
O homem de 250 000 dólares
Misturar política
e negócios é inevitável, ainda mais quando
o envolvido é JOHN JACOB ASTOR, magnata do comércio
de peles. Candidato a homem mais rico dos Estados Unidos,
ele está sofrendo com a atual guerra dos embargos comerciais
(no caso, o decretado pelo governo americano contra os ingleses).
O único com poder de reverter a situação
é o presidente Thomas Jefferson, alvo dos recados constantes
desse filho de um açougueiro alemão nascido
em Waldorf. O emigrante está fazendo fortuna com o
negócio de peles de animais exóticos, compradas
aos nativos americanos e transformadas em casacos na Europa
e no Oriente seus preços são competitivos
até na China. Agora, começou a diversificar,
investindo em terrenos em Nova York. Às vésperas
de completar 45 anos, já acumulou uma fortuna calculada
em 250 000 dólares. Não é impossível
que seja o primeiro a ultrapassar a barreira do milhão.
As mágoas da
czarina infeliz
Basta olhar para o lindo
rostinho de ELIZABETE ALEXEIEVNA, 29 anos, para perceber que
anda triste. Nascida no estado germânico de Baden, a
imperatriz, ou czarina, como dizem os russos, custou a se
adaptar à vida em Moscou, e a convivência familiar
é complicada. Não bastassem a indiferença
do marido, Alexandre I, que mantém há anos
e não esconde de ninguém uma ligação
amorosa com uma princesa polonesa, e o péssimo relacionamento
que tem com a sogra, Maria Fedorovna, Elizabete não
consegue fazer o que todos esperam dela: ter um herdeiro.
Ela perdeu a primeira filhinha e a segunda está adoentada.
Até suas tentativas de seguir os liberais padrões
da corte russa, procurando amores paralelos, deram errado.
Elizabete consome-se nas suspeitas de que o czar e o irmão
dele, o grão-duque Constantino, estão por trás
do assassinato do homem em cujos ombros fortes ela chorava
suas penas, o capitão Alexis Okhotnikov, morto a facadas
no fim do ano passado. Nascida princesa Luísa Maria
de Baden, a czarina infeliz vive na Rússia desde os
14 anos, quando foi convocada como noiva real pela incomparável
Catarina, a Grande. Não se fazem mais imperatrizes
como esta.
A arte de pintar rainhas
Numa profissão dominada
até a última ponta dos pincéis pelos
homens, é um espanto que ÉLISABETH LOUISE VIGÉE-LE
BRUN tenha feito tanto sucesso. Agora, aos 53 anos, com a
saúde debilitada, está pensando em diminuir
o ritmo, parar de rodar as cortes européias a trabalho
e ir morar no campo. Filha de artista, separada de um marchand,
Élisabeth pinta desde os 15 anos. Não tem a
grandeza de um David nem a visão de um Ingres, os nomes
do momento na pintura da França, mas faz quadros encantadores,
que as mulheres em especial adoram (é dela o retrato
de Emma Hamilton, na página 48). Ficou amiga da decapitada
rainha Maria Antonieta quando a pintou. Ultimamente vem sentindo
o peso das viagens constantes e da ansiedade que cada obra
provoca preocupada com o bem-estar dos clientes, chega
a precisar de quatro sessões para pintar um rosto.
Nada de guardar os pincéis, porém: as encomendas
continuam a chegar.
A salvadora da pátria
Entre uma guerra e outra,
continua o nada clandestino romance de Napoleão Bonaparte
com a polonesa MARIA WALEWSKA. Esse verdadeiro caso de segurança
nacional tem a aprovação de uma nação
inteira; até do marido dela, o conde Athenasius Walewski.
A campanha na Polônia foi um passeio para Napoleão
o povo viu nele a chance de se livrar da ocupação
estrangeira (a do momento era a Prússia). No meio da
multidão que foi saudá-lo, o conquistador foi
conquistado pela condessinha de 21 anos e olhos de um azul
celestial. Ali mesmo, Maria ganhou dele um buquê de
flores ("Napoleão tirou o chapéu, inclinou-se
e não sei o que me disse, porque só pensava
em expressar o que eu sentia: bem-vindo, mil vezes bem-vindo",
anotou ela em seu diário). Nos dias seguintes, recebeu
insistentes pedidos de um encontro a sós. Resistiu;
ele lhe ofereceu a independência nacional. Que patriota
polonesa recusaria? Maria aceitou. O novo Grão-Ducado
de Varsóvia agradece.
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