AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
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Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
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As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Moda
É um escândalo

Pelo menos em seus sonhos secretos, todas as mulheres do mundo querem ser como Josefina, a imperatriz francesa. A elegância natural da mulher de Napoleão Bonaparte, que tem algo em comum com o nosso continente – ela nasceu na ilha da Martinica –, é ressaltada por excepcionais cuidados com a aparência e novidades em matéria de estilo. Veja-se este retrato, pintado por Henri-François Riesener.

Mais do que o espetacular conjunto de jóias de safira, a original e diáfana gola de gaze engomada, o manto imperial de veludo carmim e as duas coroas, as mulheres vêem no vestido de brocado de seda um retrato da modernidade que se...

A imperatriz da elegância: modernidade encanta as mulheres, detalhes provocantes como o contorno entrevisto dos seios arregalam os olhos dos homens

...espalha da França para o resto do planeta (os homens provavelmente se fixam no decote e na finura do tecido, que deixam entrever os contornos dos seios, um escândalo típico da liberdade de costumes vigente no país nos últimos vinte anos, desde a revolução). Não é preciso ter simpatias bonapartistas para admirar a silhueta sutil criada pelos vestidos justos no corpo, com corte abaixo do busto, em comparação com os modelos pesados, de saias rodadas e pregueadas, que ainda predominam em Portugal, como se viu com a chegada das princesas e de outras damas da nobreza. Ao contrário, até na Inglaterra, a maior inimiga de Napoleão, as mulheres não estão resistindo aos vestidinhos leves, quase batas.

Imitar Josefina não é nada fácil. Aliás, só mesmo tendo um marido imperador para manter o seu ritmo. Obcecada por moda, ela compra descontroladamente. Tem 700 vestidos e 250 chapéus, numa contagem aproximada feita recentemente. E mesmo assim porque todo ano dá uma geral no guarda-roupa: reforma algumas peças e passa outras adiante, para as cunhadas e damas de companhia. Insuflada por seu costureiro, Louis-Hippolyte Leroy, o inventor da manga justa ligeiramente bufante acima do ombro típica do estilo atual, em um único ano ela encomendou 985 pares de luvas, 556 xales, 520 sapatos e 136 vestidos. Suas jóias não couberam nem no móvel especial para guardar preciosidades que pertencia a Maria Antonieta, a última rainha da França, sacrificada na guilhotina. Tanto luxo encerra uma contradição típica das atuais circunstâncias vividas pela França: as roupas ainda guardam as linhas simples e despojadas típicas da pós-revolução, mas recobertas por uma camada da suntuosidade exigida pelo novo status imperial francês, que tem só quatro anos de vida mas já imita furiosamente, e às vezes até sobrepuja, o esplendor da monarquia deposta. Com seu pendor para interferir em tudo, o autoproclamado imperador até proibiu que as mulheres repitam vestidos de festa nas grandes ocasiões.

Reprodução
Inventando moda: cabelo repicado no corte porco-espinho;
decotes abusados e tecidos finos mesmo no inverno, quando
o redingote (no centro) é a salvação

Coisa de novo-rico, dizem as esnobes. Mas nem elas escapam de se apaixonar pelos modismos franceses, que se sucedem em velocidade alucinante. A última é que, no inverno, as mulheres estão usando casacos até os pés, chamados redingotes, sobre os vestidos. Até hoje, esses casacões eram coisa de homens, principalmente militares em campanha – aí, outra influência dos tempos napoleônicos. Os redingotes podem salvar vidas das vítimas da moda, literalmente. Os vestidinhos atuais, que foram inspirados originalmente nas túnicas greco-romanas, são decotados e semitransparentes. Graças aos avanços tecnológicos, a indústria produz tecidos cada vez mais finos (embora nada ainda se iguale à musselina de algodão que vem da Índia, via comércio inglês: por ela, Josefina burla até o bloqueio imposto por seu marido aos produtos que tenham alguma coisa a ver com a Inglaterra). No auge da loucura das francesas por imitar as roupas da Antiguidade, houve mulheres saindo às ruas de Paris com vestidos molhados para que ficassem mais transparentes e colados no corpo, como se fossem estátuas gregas. Por causa disso, registraram-se casos de morte por doença dos pulmões.

O vestido estilo império, como é chamado, tem roda de no máximo 2,50 metros – essa medida é outra novidade francesa, o que aumenta a complexidade da tarefa das mulheres que tentam copiar o modelo. Pode ser em qualquer cor, contanto que esta seja o branco. A lavagem a cloro, processo desenvolvido há mais de uma década, confere uma alvura única aos tecidos. Josefina introduziu os bordados dourados em forma de letra T, como no vestido da coroação feito por Leroy. A imagem da cerimônia, de 1804, rodou mundo, reproduzida por jornais e revistas (no retrato de Riesener, ela usa uma variação do mesmo modelo). Apesar da paixão por novidades, Josefina não aderiu à moda dos cabelos curtos. Um dos subprodutos mais bizarros da Revolução de 1789, o corte porco-espinho, todo repicado, que entra e sai da moda na França, foi inspirado nos cabelos toscamente cortados das mulheres condenadas à guilhotina, para facilitar o trabalho dos carrascos. A atual imperatriz tem bons motivos para evitar o corte revolucionário. Seu primeiro marido, o visconde Alexandre de Beauharnais, foi decapitado em 1794, durante o período conhecido como Terror. Ela mesma chegou a ser presa. Dois anos depois, um jovem e ambicioso militar chamado Napoleão se apaixonou loucamente por ela.

A idéia de cortar os cabelos voluntariamente pode parecer espantosa para as brasileiras, em especial as moradoras do Rio de Janeiro, que se condoeram do estado da recém-chegada princesa Carlota Joaquina e de outras mulheres da corte portuguesa, que desembarcaram com a cabeça raspada por causa dos infernais piolhos que infestavam os navios onde fizeram a travessia marítima. Embora os modismos franceses sejam acompanhados com grande curiosidade, através das revistas de moda de Paris que chegam até aqui, também é inimaginável que as mulheres do Rio um dia saiam às ruas exibindo os seios em roupas decotadas.