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Moda
É um escândalo
Pelo menos em seus sonhos
secretos, todas as mulheres do mundo querem ser como Josefina,
a imperatriz francesa. A elegância natural da mulher
de Napoleão Bonaparte, que tem algo em comum com o
nosso continente ela nasceu na ilha da Martinica ,
é ressaltada por excepcionais cuidados com a aparência
e novidades em matéria de estilo. Veja-se este retrato,
pintado por Henri-François Riesener.
Mais do que o espetacular
conjunto de jóias de safira, a original e diáfana
gola de gaze engomada, o manto imperial de veludo carmim e
as duas coroas, as mulheres vêem no vestido de brocado
de seda um retrato da modernidade que se...
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| A imperatriz da elegância: modernidade
encanta as mulheres, detalhes provocantes como o contorno
entrevisto dos seios arregalam os olhos dos homens |
...espalha da França
para o resto do planeta (os homens provavelmente se fixam
no decote e na finura do tecido, que deixam entrever os contornos
dos seios, um escândalo típico da liberdade de
costumes vigente no país nos últimos vinte anos,
desde a revolução). Não é preciso
ter simpatias bonapartistas para admirar a silhueta sutil
criada pelos vestidos justos no corpo, com corte abaixo do
busto, em comparação com os modelos pesados,
de saias rodadas e pregueadas, que ainda predominam em Portugal,
como se viu com a chegada das princesas e de outras damas
da nobreza. Ao contrário, até na Inglaterra,
a maior inimiga de Napoleão, as mulheres não
estão resistindo aos vestidinhos leves, quase batas.
Imitar Josefina não
é nada fácil. Aliás, só mesmo
tendo um marido imperador para manter o seu ritmo. Obcecada
por moda, ela compra descontroladamente. Tem 700 vestidos
e 250 chapéus, numa contagem aproximada feita recentemente.
E mesmo assim porque todo ano dá uma geral no guarda-roupa:
reforma algumas peças e passa outras adiante, para
as cunhadas e damas de companhia. Insuflada por seu costureiro,
Louis-Hippolyte Leroy, o inventor da manga justa ligeiramente
bufante acima do ombro típica do estilo atual, em um
único ano ela encomendou 985 pares de luvas, 556 xales,
520 sapatos e 136 vestidos. Suas jóias não couberam
nem no móvel especial para guardar preciosidades que
pertencia a Maria Antonieta, a última rainha da França,
sacrificada na guilhotina. Tanto luxo encerra uma contradição
típica das atuais circunstâncias vividas pela
França: as roupas ainda guardam as linhas simples e
despojadas típicas da pós-revolução,
mas recobertas por uma camada da suntuosidade exigida pelo
novo status imperial francês, que tem só quatro
anos de vida mas já imita furiosamente, e às
vezes até sobrepuja, o esplendor da monarquia deposta.
Com seu pendor para interferir em tudo, o autoproclamado imperador
até proibiu que as mulheres repitam vestidos de festa
nas grandes ocasiões.
Reprodução
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Inventando moda: cabelo repicado
no corte porco-espinho;
decotes abusados e tecidos finos mesmo no inverno, quando
o redingote (no centro) é a salvação |
Coisa de novo-rico, dizem
as esnobes. Mas nem elas escapam de se apaixonar pelos modismos
franceses, que se sucedem em velocidade alucinante. A última
é que, no inverno, as mulheres estão usando
casacos até os pés, chamados redingotes, sobre
os vestidos. Até hoje, esses casacões eram coisa
de homens, principalmente militares em campanha aí,
outra influência dos tempos napoleônicos. Os redingotes
podem salvar vidas das vítimas da moda, literalmente.
Os vestidinhos atuais, que foram inspirados originalmente
nas túnicas greco-romanas, são decotados e semitransparentes.
Graças aos avanços tecnológicos, a indústria
produz tecidos cada vez mais finos (embora nada ainda se iguale
à musselina de algodão que vem da Índia,
via comércio inglês: por ela, Josefina burla
até o bloqueio imposto por seu marido aos produtos
que tenham alguma coisa a ver com a Inglaterra). No auge da
loucura das francesas por imitar as roupas da Antiguidade,
houve mulheres saindo às ruas de Paris com vestidos
molhados para que ficassem mais transparentes e colados no
corpo, como se fossem estátuas gregas. Por causa disso,
registraram-se casos de morte por doença dos pulmões.
O vestido estilo império,
como é chamado, tem roda de no máximo 2,50 metros
essa medida é outra novidade francesa, o que
aumenta a complexidade da tarefa das mulheres que tentam copiar
o modelo. Pode ser em qualquer cor, contanto que esta seja
o branco. A lavagem a cloro, processo desenvolvido há
mais de uma década, confere uma alvura única
aos tecidos. Josefina introduziu os bordados dourados em forma
de letra T, como no vestido da coroação feito
por Leroy. A imagem da cerimônia, de 1804, rodou mundo,
reproduzida por jornais e revistas (no retrato de Riesener,
ela usa uma variação do mesmo modelo). Apesar
da paixão por novidades, Josefina não aderiu
à moda dos cabelos curtos. Um dos subprodutos mais
bizarros da Revolução de 1789, o corte porco-espinho,
todo repicado, que entra e sai da moda na França, foi
inspirado nos cabelos toscamente cortados das mulheres condenadas
à guilhotina, para facilitar o trabalho dos carrascos.
A atual imperatriz tem bons motivos para evitar o corte revolucionário.
Seu primeiro marido, o visconde Alexandre de Beauharnais,
foi decapitado em 1794, durante o período conhecido
como Terror. Ela mesma chegou a ser presa. Dois anos depois,
um jovem e ambicioso militar chamado Napoleão se apaixonou
loucamente por ela.
A idéia de cortar
os cabelos voluntariamente pode parecer espantosa para as
brasileiras, em especial as moradoras do Rio de Janeiro, que
se condoeram do estado da recém-chegada princesa Carlota
Joaquina e de outras mulheres da corte portuguesa, que desembarcaram
com a cabeça raspada por causa dos infernais piolhos
que infestavam os navios onde fizeram a travessia marítima.
Embora os modismos franceses sejam acompanhados com grande
curiosidade, através das revistas de moda de Paris
que chegam até aqui, também é inimaginável
que as mulheres do Rio um dia saiam às ruas exibindo
os seios em roupas decotadas.
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