AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Internacional
Vitória dos extremistas

Militares aliados aos religiosos fundamentalistas usam
jovem sultão para impedir reformas; há resistência

Radicais muçulmanos estão provocando instabilidade política e levantes armados no coração do poder otomano. Esse grande e, na opinião de alguns analistas, decadente império fundado por guerreiros turcos, que se ramifica por todo o Oriente Próximo, vive uma tumultuada sucessão política. O pano de fundo é uma discussão que provoca as reações mais apaixonadas: o império dos sultões pode se modernizar, seguindo inovações européias, e ao mesmo tempo manter a identidade muçulmana tradicional, ou deve se ater às velhas estruturas, com seu passado de glórias e futuro duvidoso? O sultão deposto há menos de um ano, Salim III, inclinou-se pela primeira opção. Por causa disso, o clero fundamentalista aprovou uma fatwa – equivalente a um decreto religioso – condenando-o por "introduzir os métodos dos infiéis entre os muçulmanos". Em seguida, Salim foi deposto num golpe militar e substituído pelo primo, o atual sultão, Mustafá IV. O senhor sisudo dos retratos oficiais tem menos de 30 anos (28 exatamente) e nenhuma experiência para portar o tradicional turbante emplumado. Talvez por isso tenha permitido que o primo continuasse vivo – pela tradição otomana, quando a transição não é pacífica, o sultão derrubado é envenenado, não raro juntamente com seus muitos filhos. Prisioneiro no harém do fabuloso palácio de Topkapi, onde os eunucos não deixam passar nenhum homem que não seja da família, mas as intrigas entram à vontade, Salim provavelmente sabe que está em curso um levante de tropas leais à sua liderança, que avançam em direção a Istambul, a capital do império que no Ocidente continua a ser chamada de Constantinopla.

O chefe dos revoltosos é o paxá Mustafá Bairaktar, comandante militar da frente do Danúbio. Os 10 000 homens sob seu comando são da região dos Bálcãs, em geral bósnios de cabeleira loira e combativos albaneses, considerados muito mais eficientes no ofício de dizimar inimigos do que os soldados do Exército regular. O Exército é justamente o pivô do atual confronto entre reformistas e fundamentalistas. O sultão deposto criou há quinze anos o Exército da Nova Ordem, em turco Nizam-I Cedid, com ajuda de instrutores e engenheiros militares vindos da França – uma tropa com fardamento moderno e armamento padronizado, instruída à maneira européia de manobrar e combater. Foi isso que provocou a oposição dos janízaros, que formam o grosso do Exército otomano tradicional. Na época em que o império dos turcos estava em expansão, muitos europeus tremiam à idéia desses soldados de turbantes, calças bufantes e cimitarras na cintura. Hoje, são mais um fator de instabilidade interna.

Salim III não foi nenhum transgressor nem, muito menos, simpatizante dos cristãos. Como todo sultão, considerava-se o Sucessor do Profeta (entre outros títulos, que incluíam Comandante dos Fiéis e o nada modesto Senhor do Universo), mas percebeu como a Europa se desenvolve e progride, enquanto o Império Otomano, que há cinco séculos se considera o centro do mundo, fica para trás. Depois que ele criou o novo exército e modernizou a frota naval, os janízaros, aliados aos religiosos conservadores, bloquearam o ímpeto reformista. Aproveitando o mais fútil dos motivos – uma revolta de milicianos contra a ordem de usar uniformes à moda européia –, emborcaram caldeirões de cozinha no pátio dos quartéis, seu tradicional chamado à rebelião, depuseram Salim e alçaram Mustafá ao trono.

Mas quem são, afinal, esses soldados que derrubam sultões? Sua origem remonta ao século XIV e conserva a aura que inspirou terror durante séculos: eram meninos arrancados à força de famílias cristãs dos Bálcãs, convertidos ao Islã e treinados em condições espartanas. Não podiam se casar, não usavam barba – privilégio dos muçulmanos livres – e viviam isolados nos quartéis. Recebiam um soldo, o que fez deles o primeiro exército profissional na região desde as legiões romanas. Tinham cirurgiões e hospitais volantes para cuidar dos feridos e foram dos primeiros a trocar o arco e a flecha por armas de fogo. Com o tempo, o prestígio militar trouxe privilégios, a antiga disciplina quebrou-se e hoje nem o império que criou um método radical no serviço público – todos os funcionários são castrados, para evitar o nepotismo – conseguiu impedir que virassem uma casta corrupta. Os filhos de veteranos (a obrigação de celibato há muito caiu em desuso) têm preferência no recrutamento, não importa sua aptidão para a guerra; comandantes venais negociam lugares na tropa e embolsam os soldos dos mortos, que viram "fantasmas", no sentido simbólico. O treinamento foi negligenciado, e boa parte do efetivo nominal, estimado em 112 000 homens, é militar só na fachada. Ganha a vida em ofícios variados e não serve para o combate moderno. É, por tudo isso, o mais perigoso tipo de força militar: aquela que não é forte o bastante para enfrentar inimigos externos, mas está sempre disposta a chantagear e derrubar seu próprio governo.

O fator que envenena ainda mais uma situação já complicada é o fundamentalismo religioso, provavelmente alimentado pela percepção de que a era de glórias dos impérios movidos pela fé muçulmana pertence ao passado. As intervenções externas também tendem a acirrar o radicalismo que revive tanto no coração do império turco quanto em suas províncias árabes. No Egito tomado pelos franceses, por exemplo, o general Jean-Baptiste Kléber foi morto por um estudante sírio com uma punhalada no coração (a reação dos franceses não foi nada civilizada: o assassino teve o braço direito queimado ainda em vida e em seguida foi empalado em praça pública; o crânio foi mandado para a França). Mais do que o destino de Salim, o sultão prisioneiro, e Mustafá, seu jovem e ameaçado substituto, está em jogo no momento o rumo que o mundo muçulmano vai tomar no confronto entre modernização, com todos os seus custos, e conservadorismo, ancorado na interpretação mais estrita da grande religião fundada por Maomé. Uma questão complexa, que pode demorar algum tempo para ser resolvida.