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Internacional
Vitória dos extremistas
Militares aliados aos religiosos
fundamentalistas usam
jovem sultão para impedir reformas; há resistência
Radicais muçulmanos
estão provocando instabilidade política e levantes
armados no coração do poder otomano. Esse grande
e, na opinião de alguns analistas, decadente império
fundado por guerreiros turcos, que se ramifica por todo o
Oriente Próximo, vive uma tumultuada sucessão
política. O pano de fundo é uma discussão
que provoca as reações mais apaixonadas: o império
dos sultões pode se modernizar, seguindo inovações
européias, e ao mesmo tempo manter a identidade muçulmana
tradicional, ou deve se ater às velhas estruturas,
com seu passado de glórias e futuro duvidoso? O sultão
deposto há menos de um ano, Salim III, inclinou-se
pela primeira opção. Por causa disso, o clero
fundamentalista aprovou uma fatwa equivalente a um
decreto religioso condenando-o por "introduzir
os métodos dos infiéis entre os muçulmanos".
Em seguida, Salim foi deposto num golpe militar e substituído
pelo primo, o atual sultão, Mustafá IV. O senhor
sisudo dos retratos oficiais tem menos de 30 anos (28 exatamente)
e nenhuma experiência para portar o tradicional turbante
emplumado. Talvez por isso tenha permitido que o primo continuasse
vivo pela tradição otomana, quando a
transição não é pacífica,
o sultão derrubado é envenenado, não
raro juntamente com seus muitos filhos. Prisioneiro no harém
do fabuloso palácio de Topkapi, onde os eunucos não
deixam passar nenhum homem que não seja da família,
mas as intrigas entram à vontade, Salim provavelmente
sabe que está em curso um levante de tropas leais à
sua liderança, que avançam em direção
a Istambul, a capital do império que no Ocidente continua
a ser chamada de Constantinopla.
O chefe dos revoltosos é
o paxá Mustafá Bairaktar, comandante militar
da frente do Danúbio. Os 10 000 homens sob seu comando
são da região dos Bálcãs, em geral
bósnios de cabeleira loira e combativos albaneses,
considerados muito mais eficientes no ofício de dizimar
inimigos do que os soldados do Exército regular. O
Exército é justamente o pivô do atual
confronto entre reformistas e fundamentalistas. O sultão
deposto criou há quinze anos o Exército da Nova
Ordem, em turco Nizam-I Cedid, com ajuda de instrutores e
engenheiros militares vindos da França uma tropa
com fardamento moderno e armamento padronizado, instruída
à maneira européia de manobrar e combater. Foi
isso que provocou a oposição dos janízaros,
que formam o grosso do Exército otomano tradicional.
Na época em que o império dos turcos estava
em expansão, muitos europeus tremiam à idéia
desses soldados de turbantes, calças bufantes e cimitarras
na cintura. Hoje, são mais um fator de instabilidade
interna.
Salim III não foi
nenhum transgressor nem, muito menos, simpatizante dos cristãos.
Como todo sultão, considerava-se o Sucessor do Profeta
(entre outros títulos, que incluíam Comandante
dos Fiéis e o nada modesto Senhor do Universo), mas
percebeu como a Europa se desenvolve e progride, enquanto
o Império Otomano, que há cinco séculos
se considera o centro do mundo, fica para trás. Depois
que ele criou o novo exército e modernizou a frota
naval, os janízaros, aliados aos religiosos conservadores,
bloquearam o ímpeto reformista. Aproveitando o mais
fútil dos motivos uma revolta de milicianos
contra a ordem de usar uniformes à moda européia
, emborcaram caldeirões de cozinha no pátio
dos quartéis, seu tradicional chamado à rebelião,
depuseram Salim e alçaram Mustafá ao trono.
Mas quem são, afinal,
esses soldados que derrubam sultões? Sua origem remonta
ao século XIV e conserva a aura que inspirou terror
durante séculos: eram meninos arrancados à força
de famílias cristãs dos Bálcãs,
convertidos ao Islã e treinados em condições
espartanas. Não podiam se casar, não usavam
barba privilégio dos muçulmanos livres
e viviam isolados nos quartéis. Recebiam um
soldo, o que fez deles o primeiro exército profissional
na região desde as legiões romanas. Tinham cirurgiões
e hospitais volantes para cuidar dos feridos e foram dos primeiros
a trocar o arco e a flecha por armas de fogo. Com o tempo,
o prestígio militar trouxe privilégios, a antiga
disciplina quebrou-se e hoje nem o império que criou
um método radical no serviço público
todos os funcionários são castrados,
para evitar o nepotismo conseguiu impedir que virassem
uma casta corrupta. Os filhos de veteranos (a obrigação
de celibato há muito caiu em desuso) têm preferência
no recrutamento, não importa sua aptidão para
a guerra; comandantes venais negociam lugares na tropa e embolsam
os soldos dos mortos, que viram "fantasmas", no
sentido simbólico. O treinamento foi negligenciado,
e boa parte do efetivo nominal, estimado em 112 000 homens,
é militar só na fachada. Ganha a vida em ofícios
variados e não serve para o combate moderno. É,
por tudo isso, o mais perigoso tipo de força militar:
aquela que não é forte o bastante para enfrentar
inimigos externos, mas está sempre disposta a chantagear
e derrubar seu próprio governo.
O fator que envenena ainda
mais uma situação já complicada é
o fundamentalismo religioso, provavelmente alimentado pela
percepção de que a era de glórias dos
impérios movidos pela fé muçulmana pertence
ao passado. As intervenções externas também
tendem a acirrar o radicalismo que revive tanto no coração
do império turco quanto em suas províncias árabes.
No Egito tomado pelos franceses, por exemplo, o general Jean-Baptiste
Kléber foi morto por um estudante sírio com
uma punhalada no coração (a reação
dos franceses não foi nada civilizada: o assassino
teve o braço direito queimado ainda em vida e em seguida
foi empalado em praça pública; o crânio
foi mandado para a França). Mais do que o destino de
Salim, o sultão prisioneiro, e Mustafá, seu
jovem e ameaçado substituto, está em jogo no
momento o rumo que o mundo muçulmano vai tomar no confronto
entre modernização, com todos os seus custos,
e conservadorismo, ancorado na interpretação
mais estrita da grande religião fundada por Maomé.
Uma questão complexa, que pode demorar algum tempo
para ser resolvida.
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