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Império
Parente é serpente
Os Bonaparte são quase
uma família normal: ciúme,
ambição, ingratidão e, no caso de Paulina,
devassidão
Fazia quase 2 000 anos que
Roma não via nada parecido. Uma mulher de sobrenome
ilustre irmã de Napoleão Bonaparte, casada
com o príncipe Camilo Borghese retratada seminua,
com apenas um leve panejamento entre ela e a imaginação
dos espectadores. Que por sinal estão ficando loucos
com a recém-inaugurada escultura de Paulina feita por
Antonio Canova, mestre em transformar o mármore em
curvas sensuais. O contraste entre serenidade clássica
e apelo francamente erótico tem atraído visitantes
extasiados, inclusive à noite a luz dos archotes
acentua o efeito realista da escultura, dotada de um mecanismo
oculto que a faz girar. A princípio, o veneziano Canova,
um dos artistas favoritos da família Bonaparte, pensou
em retratar a jovem princesa como Diana, a casta deusa caçadora.
Como Paulina Bonaparte e castidade são palavras que
não cabem na mesma frase, ela preferiu interpretar
o papel da Vênus Vitoriosa, mais adequado para uma mulher
que começou a enlouquecer os homens aos 14 anos e não
parou mais. Sua coleção de diamantes é
tão famosa quanto a de amantes. Diz-se sobre Paulina
que tem a beleza de uma deusa, como se comprova pela escultura,
e os padrões morais de uma gata. Apesar das baixarias,
ela nutre afeto verdadeiro pelo irmão. Numa família
excepcionalmente complicada, que saiu de uma vida de apertos
na Córsega para o centro do poder na Europa, os problemas
que ela cria para o irmão são até irrisórios.
Ambição, ciúme e ingratidão grassam
em quantidades tamanhas entre a parentada que ele costuma
reclamar: "Minha família me faz mais mal do que
eu lhe faço bem".
E não são
poucas as benesses que o imperador espalha em família.
José, o irmão mais velho, é rei de Nápoles
há três anos, num trono tirado a Fernando de
Bourbon e Maria Carolina de Habsburgo (irmã da decapitada
Maria Antonieta). Embora tenha aceitado a coroa, e dotações
de muitos milhões de francos, José continua
a ter o coração republicano, a ponto de exasperar
o irmão "O que quer José? Que pretende?
Faz-me oposição, une-se a meus inimigos. Não
quer ser príncipe", queixa-se o imperador. Luís,
o irmão do meio, a quem Napoleão se esfalfou
para propiciar uma boa educação nos tempos de
pobreza, é rei da Holanda desde 1806. Casado com a
enteada de Napoleão, Hortência, filha de Josefina,
é um rei esforçado mas infeliz, espremido entre
interesses conflitantes. A Holanda é uma potência
comercial que seria gravemente prejudicada se levasse à
risca o boicote comercial à Inglaterra, exigido por
Napoleão. Quando Luís faz vista grossa, o irmão
o acusa de condescendência e até de traição.
Mais de uma vez Luís já ofereceu sua renúncia.
Para complicar, embora tenha perdido um filho pequeno no ano
passado, tem a única coisa que Napoleão não
consegue: herdeiros legítimos. Ao caçula, Jerônimo,
Napoleão destinou o reino recém-criado da Vestfália,
um estado alemão. Para ganhar a coroa, teve de se casar
com a princesa Catarina de Wurtembergue e passar por cima
de um detalhe: já era casado, por amor, com a americana
Elizabeth Patterson. Napoleão obrigou o irmão
a voltar dos Estados Unidos e proibiu Elizabeth, grávida,
de desembarcar em qualquer porto de seus domínios
ela foi morar com o pai, milionário de Baltimore. Luciano,
o irmão rebelde, é mais difícil de controlar.
Num ato que somou a ofensa à injúria a Portugal,
ele rejeitou a parte que lhe caberia na partilha do país.
Achou pouco um futuro reino da Lusitânia do Norte, denominação
que nunca pegou para o território português ocupado
pela França. Mora atualmente em Londres, onde se casou,
pela segunda vez, sempre contra a vontade do irmão.
Napoleão usa os
membros da família como peças de confiança
no grande jogo de reconstrução da Europa. O
que não conquista pela espada, ele consegue através
de contratos de casamento. A aristocracia tradicional despreza
os arrivistas, mas, quando não tem opção,
junta-se a eles. O alinhamento familiar está passando
por algumas mudanças: Napoleão pensa em deslocar
José do trono de Nápoles para nada menos que
o da Espanha, cuja invasão já começou,
comandada pelo marechal Joachim Murat, casado com Carolina
Bonaparte (sobre ela, o homem mais poderoso do mundo reclamou
certa vez: "Para que uma mulherzinha da família
ouça minhas opiniões, é preciso que eu
faça discursos como se estivesse diante do Senado").
A outra irmã, Elisa, separada do marido corso, está
para ser promovida, de princesa da pequena Lucca a grã-duquesa
da Toscana. Além de levar a corte na sublime Florença,
a promoção consolida o domínio napoleônico
sobre a Península Itálica. O casamento de Paulina
com Camilo Borghese, da família de príncipes
e papas, também foi um assunto de estado. Borghese
era o que se poderia chamar de radical chique: tinha simpatias
pela França revolucionária, morava em Paris
e acabou vendendo ao cunhado, por preço de ocasião,
uma parte da coleção de arte da família.
O tesouro está no antigo palácio real de Paris,
transformado em museu, o Louvre.
Paulina e o príncipe
já não vivem juntos, embora ela mantenha em
seu poder os fabulosos diamantes Borghese. Para os inimigos,
é uma "cortesã coroada". Para os admiradores,
uma adorável cabecinha-de-vento. De vento e dura. "Ponha
na cabeça que perderá minha amizade e não
poderá mais contar comigo se continuar a se deixar
levar por maus conselhos", ralha o irmão, sem
nenhum efeito. Paulina é seu xodó, e, por mais
que afronte todos os limites, Napoleão acaba cedendo.
Ele só venceu quando a obrigou a ir com seu primeiro
marido, o general Charles Leclerc, para a Ilha de São
Domingos. Paulina voltou viúva Leclerc morreu
de febre amarela, uma doença que a medicina ainda não
consegue vencer e tão ingovernável quanto
a ex-colônia francesa, que declarou independência
e agora se chama Haiti.
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