AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Império
Parente é serpente

Os Bonaparte são quase uma família normal: ciúme,
ambição, ingratidão e, no caso de Paulina, devassidão

Fazia quase 2 000 anos que Roma não via nada parecido. Uma mulher de sobrenome ilustre – irmã de Napoleão Bonaparte, casada com o príncipe Camilo Borghese – retratada seminua, com apenas um leve panejamento entre ela e a imaginação dos espectadores. Que por sinal estão ficando loucos com a recém-inaugurada escultura de Paulina feita por Antonio Canova, mestre em transformar o mármore em curvas sensuais. O contraste entre serenidade clássica e apelo francamente erótico tem atraído visitantes extasiados, inclusive à noite – a luz dos archotes acentua o efeito realista da escultura, dotada de um mecanismo oculto que a faz girar. A princípio, o veneziano Canova, um dos artistas favoritos da família Bonaparte, pensou em retratar a jovem princesa como Diana, a casta deusa caçadora. Como Paulina Bonaparte e castidade são palavras que não cabem na mesma frase, ela preferiu interpretar o papel da Vênus Vitoriosa, mais adequado para uma mulher que começou a enlouquecer os homens aos 14 anos e não parou mais. Sua coleção de diamantes é tão famosa quanto a de amantes. Diz-se sobre Paulina que tem a beleza de uma deusa, como se comprova pela escultura, e os padrões morais de uma gata. Apesar das baixarias, ela nutre afeto verdadeiro pelo irmão. Numa família excepcionalmente complicada, que saiu de uma vida de apertos na Córsega para o centro do poder na Europa, os problemas que ela cria para o irmão são até irrisórios. Ambição, ciúme e ingratidão grassam em quantidades tamanhas entre a parentada que ele costuma reclamar: "Minha família me faz mais mal do que eu lhe faço bem".

E não são poucas as benesses que o imperador espalha em família. José, o irmão mais velho, é rei de Nápoles há três anos, num trono tirado a Fernando de Bourbon e Maria Carolina de Habsburgo (irmã da decapitada Maria Antonieta). Embora tenha aceitado a coroa, e dotações de muitos milhões de francos, José continua a ter o coração republicano, a ponto de exasperar o irmão – "O que quer José? Que pretende? Faz-me oposição, une-se a meus inimigos. Não quer ser príncipe", queixa-se o imperador. Luís, o irmão do meio, a quem Napoleão se esfalfou para propiciar uma boa educação nos tempos de pobreza, é rei da Holanda desde 1806. Casado com a enteada de Napoleão, Hortência, filha de Josefina, é um rei esforçado mas infeliz, espremido entre interesses conflitantes. A Holanda é uma potência comercial que seria gravemente prejudicada se levasse à risca o boicote comercial à Inglaterra, exigido por Napoleão. Quando Luís faz vista grossa, o irmão o acusa de condescendência e até de traição. Mais de uma vez Luís já ofereceu sua renúncia. Para complicar, embora tenha perdido um filho pequeno no ano passado, tem a única coisa que Napoleão não consegue: herdeiros legítimos. Ao caçula, Jerônimo, Napoleão destinou o reino recém-criado da Vestfália, um estado alemão. Para ganhar a coroa, teve de se casar com a princesa Catarina de Wurtembergue e passar por cima de um detalhe: já era casado, por amor, com a americana Elizabeth Patterson. Napoleão obrigou o irmão a voltar dos Estados Unidos e proibiu Elizabeth, grávida, de desembarcar em qualquer porto de seus domínios – ela foi morar com o pai, milionário de Baltimore. Luciano, o irmão rebelde, é mais difícil de controlar. Num ato que somou a ofensa à injúria a Portugal, ele rejeitou a parte que lhe caberia na partilha do país. Achou pouco um futuro reino da Lusitânia do Norte, denominação que nunca pegou para o território português ocupado pela França. Mora atualmente em Londres, onde se casou, pela segunda vez, sempre contra a vontade do irmão.

Napoleão usa os membros da família como peças de confiança no grande jogo de reconstrução da Europa. O que não conquista pela espada, ele consegue através de contratos de casamento. A aristocracia tradicional despreza os arrivistas, mas, quando não tem opção, junta-se a eles. O alinhamento familiar está passando por algumas mudanças: Napoleão pensa em deslocar José do trono de Nápoles para nada menos que o da Espanha, cuja invasão já começou, comandada pelo marechal Joachim Murat, casado com Carolina Bonaparte (sobre ela, o homem mais poderoso do mundo reclamou certa vez: "Para que uma mulherzinha da família ouça minhas opiniões, é preciso que eu faça discursos como se estivesse diante do Senado"). A outra irmã, Elisa, separada do marido corso, está para ser promovida, de princesa da pequena Lucca a grã-duquesa da Toscana. Além de levar a corte na sublime Florença, a promoção consolida o domínio napoleônico sobre a Península Itálica. O casamento de Paulina com Camilo Borghese, da família de príncipes e papas, também foi um assunto de estado. Borghese era o que se poderia chamar de radical chique: tinha simpatias pela França revolucionária, morava em Paris e acabou vendendo ao cunhado, por preço de ocasião, uma parte da coleção de arte da família. O tesouro está no antigo palácio real de Paris, transformado em museu, o Louvre.

Paulina e o príncipe já não vivem juntos, embora ela mantenha em seu poder os fabulosos diamantes Borghese. Para os inimigos, é uma "cortesã coroada". Para os admiradores, uma adorável cabecinha-de-vento. De vento e dura. "Ponha na cabeça que perderá minha amizade e não poderá mais contar comigo se continuar a se deixar levar por maus conselhos", ralha o irmão, sem nenhum efeito. Paulina é seu xodó, e, por mais que afronte todos os limites, Napoleão acaba cedendo. Ele só venceu quando a obrigou a ir com seu primeiro marido, o general Charles Leclerc, para a Ilha de São Domingos. Paulina voltou viúva – Leclerc morreu de febre amarela, uma doença que a medicina ainda não consegue vencer – e tão ingovernável quanto a ex-colônia francesa, que declarou independência e agora se chama Haiti.