AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Império
À beira do abismo

Um rei fraco, um primeiro-ministro odiado
e 118 000 soldados franceses a caminho:
a Espanha está em luta pela sobrevivência

Se tivesse espírito vingativo, o que não é o caso, o príncipe regente português poderia estar fazendo comentários vitriólicos sobre seu sogro, Carlos IV, o rei da Espanha. Traído pelo rei, que se aliou a Napoleão Bonaparte contra o próprio genro, o príncipe João hoje está numa posição confortável, em comparação à dele: conseguiu escapar de Portugal, chegou a salvo ao Rio de Janeiro com toda a família e, enquanto não recupera o poder perdido, tem as vastidões brasileiras como base de relançamento político. Já o futuro do rei da Espanha é um mistério envolto em nevoeiro. A fúria napoleônica agora se volta contra ele: Portugal foi uma espécie de aperitivo antes do prato principal, a Espanha. Tropas francesas já estão conquistando cidades espanholas próximas da fronteira e nada, muito menos o desmoralizado Exército local, poderá detê-las. Empurrados por uma espetacular ironia histórica, Carlos IV e a mulher, a voluntariosa rainha Maria Luísa, cogitam até imitar o genro João e a filha deles, a princesa Carlota Joaquina, e fugir para alguma das muitas colônias espanholas na América, possivelmente o México. Ao contrário do que aconteceu com os portugueses, que apenas esboçaram reações mais fortes à fuga da família real, os espanhóis, historicamente mais esquentados, podem partir para a violência.

Museu do Prado
O rei Carlos IV: traído, entre outros, pelos franceses com quem se aliou, pensa em seguir o exemplo do genro João e partir para as colônias na América


O pretexto usado pelo general Joachim Murat, homem de confiança e cunhado do imperador Napoleão Bonaparte, é que está a caminho de Portugal para reforçar as tropas francesas que ocupam o país desde o ano passado. Nem a mais ingênua das almas acredita nisso. Calcula-se em 118 000 o número de soldados franceses e aliados já em território espanhol – claramente, uma força de invasão. Tomaram Pamplona e San Sebastian, na fronteira norte, e chegaram a Barcelona, onde usaram um ardil para conquistar a guarnição local. O comandante francês pediu ao governador espanhol que desse abrigo a um comboio de "feridos", os quais, uma vez dentro do forte, tiraram os cobertores e saltaram das macas, revelando-se granadeiros muito bem armados. Se ainda restasse alguma dúvida, na semana passada o representante espanhol na França, Eugénio Izquierdo, chegou de Paris e relatou a conclusão de seus informantes: Napoleão quer mesmo varrer do mapa da Europa a casa de Bourbon, derrubando do trono espanhol os últimos reis pertencentes a essa orgulhosa e teimosa dinastia. Carlos IV e a rainha Maria Luísa estão em pânico.

Embora a informação seja verdadeira, Izquierdo é um exemplo do clima de conspiração que impera nas altas esferas espanholas. Num ambiente tóxico, onde todos tentam constantemente trair uns aos outros, ele está mesmo a serviço do homem mais odiado da Espanha, Manuel de Godoy, primeiro-ministro e o verdadeiro governante da Espanha. Izquierdo trai o rei com Godoy; o rei trai Portugal com Napoleão; seu filho e herdeiro, o príncipe Fernando, trai o pai com nobres descontentes (chegou a ser preso no ano passado). Maria Luísa, a rainha, notoriamente trai o marido com Godoy. Napoleão despreza – e manipula – a todos. Sobre Godoy, já disse que é "um pequeno canalha que vai nos abrir as portas da Espanha". Prefere usar o ressentido Fernando, embora não tenha dele um conceito melhor ("Ele é indiferente a tudo, muito materialista, come quatro vezes por dia e não tem idéia alguma sobre nada"). Com quase nenhuma margem de manobra, a corte espanhola está refugiada no belo palácio de inverno de Aranjuez, nas cercanias da capital.

Resistir, negociar ou fugir? Diante da impossibilidade das duas primeiras opções, resta a fuga para o outro lado do Atlântico, longe de Napoleão e das guerras européias. Godoy e sua real amante inclinam-se por essa opção. Mas Fernando, o príncipe das Astúrias, se opõe ferrenhamente à fuga e tem o apoio da maioria de seus tios e irmãos. Fernando odeia igualmente a mãe e o poderoso ministro. Acusa os dois de manipular seu pai, o rei, para alcançar objetivos pessoais. Sabe também que a maioria dos espanhóis, plebeus ou nobres, compartilha o mesmo ódio. Em lugar dos grandes títulos concedidos a Godoy – ministro, almirante, generalíssimo e até príncipe da Paz, por um acordo negociado com a França há treze anos –, o povo o chama de El Choricero. Também circulam versinhos escrachados (entre os mais publicáveis: "Lascivo qual garanhão, de rameiras rodeado, com duas mulheres casado; na ambição sem igual, na soberbia sem par, e a ruína do estado"). Apesar da má fama, ou por causa dela, a ala feminina concorda que é um homem bonito – alto, de cabelos claros e bochechas rosadas. Fica bem até em quadros de Francisco de Goya, o pintor que transforma seus retratados, em especial os da família real, em seres assustadores.

O declínio da Espanha é uma versão ampliada dos problemas que afligem Portugal: atraso social, obscurantismo religioso, economia indolente e dependente dos produtos coloniais, incapacidade de acompanhar as novas condições de competição dos mercados internacionais. O soberano anterior, Carlos III, fez uma tentativa de modernizar ao reformar as leis obsoletas e a organização política e econômica do reino, mas o espírito liberal do novo século ainda passa longe do país. A Espanha hoje é uma potência cansada e à beira do abismo. Praticamente impotente, tanto em termos políticos quanto militares. A família real se consome em intrigas, a aristocracia perdeu a capacidade de governar, os intelectuais ilustrados perderam as ilusões de mudanças democráticas representadas pela França. Em vez de progresso e abertura, Napoleão manda uma força de ocupação. A última esperança da Espanha é a legendária teimosia do povo espanhol.