| |
Império
À beira do abismo
Um rei fraco, um primeiro-ministro
odiado
e 118 000 soldados franceses a caminho:
a Espanha está em luta pela sobrevivência
Se tivesse espírito
vingativo, o que não é o caso, o príncipe
regente português poderia estar fazendo comentários
vitriólicos sobre seu sogro, Carlos IV, o rei da Espanha.
Traído pelo rei, que se aliou a Napoleão Bonaparte
contra o próprio genro, o príncipe João
hoje está numa posição confortável,
em comparação à dele: conseguiu escapar
de Portugal, chegou a salvo ao Rio de Janeiro com toda a família
e, enquanto não recupera o poder perdido, tem as vastidões
brasileiras como base de relançamento político.
Já o futuro do rei da Espanha é um mistério
envolto em nevoeiro. A fúria napoleônica agora
se volta contra ele: Portugal foi uma espécie de aperitivo
antes do prato principal, a Espanha. Tropas francesas já
estão conquistando cidades espanholas próximas
da fronteira e nada, muito menos o desmoralizado Exército
local, poderá detê-las. Empurrados por uma espetacular
ironia histórica, Carlos IV e a mulher, a voluntariosa
rainha Maria Luísa, cogitam até imitar o genro
João e a filha deles, a princesa Carlota Joaquina,
e fugir para alguma das muitas colônias espanholas na
América, possivelmente o México. Ao contrário
do que aconteceu com os portugueses, que apenas esboçaram
reações mais fortes à fuga da família
real, os espanhóis, historicamente mais esquentados,
podem partir para a violência.
Museu do Prado
 |
| O rei Carlos IV: traído, entre
outros, pelos franceses com quem se aliou, pensa em seguir
o exemplo do genro João e partir para as colônias
na América |
O pretexto usado pelo general Joachim Murat, homem de confiança
e cunhado do imperador Napoleão Bonaparte, é
que está a caminho de Portugal para reforçar
as tropas francesas que ocupam o país desde o ano passado.
Nem a mais ingênua das almas acredita nisso. Calcula-se
em 118 000 o número de soldados franceses e aliados
já em território espanhol claramente,
uma força de invasão. Tomaram Pamplona e San
Sebastian, na fronteira norte, e chegaram a Barcelona, onde
usaram um ardil para conquistar a guarnição
local. O comandante francês pediu ao governador espanhol
que desse abrigo a um comboio de "feridos", os quais,
uma vez dentro do forte, tiraram os cobertores e saltaram
das macas, revelando-se granadeiros muito bem armados. Se
ainda restasse alguma dúvida, na semana passada o representante
espanhol na França, Eugénio Izquierdo, chegou
de Paris e relatou a conclusão de seus informantes:
Napoleão quer mesmo varrer do mapa da Europa a casa
de Bourbon, derrubando do trono espanhol os últimos
reis pertencentes a essa orgulhosa e teimosa dinastia. Carlos
IV e a rainha Maria Luísa estão em pânico.
Embora a informação
seja verdadeira, Izquierdo é um exemplo do clima de
conspiração que impera nas altas esferas espanholas.
Num ambiente tóxico, onde todos tentam constantemente
trair uns aos outros, ele está mesmo a serviço
do homem mais odiado da Espanha, Manuel de Godoy, primeiro-ministro
e o verdadeiro governante da Espanha. Izquierdo trai o rei
com Godoy; o rei trai Portugal com Napoleão; seu filho
e herdeiro, o príncipe Fernando, trai o pai com nobres
descontentes (chegou a ser preso no ano passado). Maria Luísa,
a rainha, notoriamente trai o marido com Godoy. Napoleão
despreza e manipula a todos. Sobre Godoy, já
disse que é "um pequeno canalha que vai nos abrir
as portas da Espanha". Prefere usar o ressentido Fernando,
embora não tenha dele um conceito melhor ("Ele
é indiferente a tudo, muito materialista, come quatro
vezes por dia e não tem idéia alguma sobre nada").
Com quase nenhuma margem de manobra, a corte espanhola está
refugiada no belo palácio de inverno de Aranjuez, nas
cercanias da capital.
Resistir, negociar ou fugir?
Diante da impossibilidade das duas primeiras opções,
resta a fuga para o outro lado do Atlântico, longe de
Napoleão e das guerras européias. Godoy e sua
real amante inclinam-se por essa opção. Mas
Fernando, o príncipe das Astúrias, se opõe
ferrenhamente à fuga e tem o apoio da maioria de seus
tios e irmãos. Fernando odeia igualmente a mãe
e o poderoso ministro. Acusa os dois de manipular seu pai,
o rei, para alcançar objetivos pessoais. Sabe também
que a maioria dos espanhóis, plebeus ou nobres, compartilha
o mesmo ódio. Em lugar dos grandes títulos concedidos
a Godoy ministro, almirante, generalíssimo e
até príncipe da Paz, por um acordo negociado
com a França há treze anos , o povo o
chama de El Choricero. Também circulam versinhos escrachados
(entre os mais publicáveis: "Lascivo qual garanhão,
de rameiras rodeado, com duas mulheres casado; na ambição
sem igual, na soberbia sem par, e a ruína do estado").
Apesar da má fama, ou por causa dela, a ala feminina
concorda que é um homem bonito alto, de cabelos
claros e bochechas rosadas. Fica bem até em quadros
de Francisco de Goya, o pintor que transforma seus retratados,
em especial os da família real, em seres assustadores.
O declínio da Espanha
é uma versão ampliada dos problemas que afligem
Portugal: atraso social, obscurantismo religioso, economia
indolente e dependente dos produtos coloniais, incapacidade
de acompanhar as novas condições de competição
dos mercados internacionais. O soberano anterior, Carlos III,
fez uma tentativa de modernizar ao reformar as leis obsoletas
e a organização política e econômica
do reino, mas o espírito liberal do novo século
ainda passa longe do país. A Espanha hoje é
uma potência cansada e à beira do abismo. Praticamente
impotente, tanto em termos políticos quanto militares.
A família real se consome em intrigas, a aristocracia
perdeu a capacidade de governar, os intelectuais ilustrados
perderam as ilusões de mudanças democráticas
representadas pela França. Em vez de progresso e abertura,
Napoleão manda uma força de ocupação.
A última esperança da Espanha é a legendária
teimosia do povo espanhol.
| |