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Família Real
Tal mãe...
...tal filha
Sede de poder e gosto por
intrigas movem
a princesa Carlota. É uma coisa de sangue
Pode uma mulher pretender
fazer política? Tramar, conspirar, conquistar, corromper
e, acima de tudo, desejar ardorosamente o poder, da mesma
maneira como fazem os homens? De modo geral, a resposta é
conhecida: não. O modo geral não se aplica,
porém, a algumas cabeças coroadas seduzidas
pelas intrigas políticas nem, menos ainda, a duas das
mulheres mais mandonas do mundo no momento: Maria Luísa,
a rainha consorte da Espanha, e sua filha, Carlota Joaquina,
a princesa do Brasil. Idênticas em tudo na aparência,
na personalidade forte e no desejo de manipular maridos fracos
, elas também enfrentam desafios excepcionais.
Maria Luísa, a mãe, pode perder tudo: a coroa
da Espanha e o poder a que sempre ambicionou, através
do marido, o rei Carlos IV, ou do amante, o primeiro-ministro
Manuel de Godoy. Carlota, a filha, já perdeu. Teve
de acompanhar o marido, o príncipe dom João,
na fuga de Portugal para o Brasil, e todas as suas conspirações
contra ele até hoje fracassaram. Por causa disso, vive
em estado de animosidade conjugal e de impopularidade junto
a todos os círculos leais ao príncipe. Jamais,
no entanto, desiste.
É difícil
estabelecer quanto da má fama da princesa de 32 anos
se deve a comportamentos condenáveis e qual a parcela
debitada à rejeição despertada por mulheres
ambiciosas. A coluna das virtudes reconhecidas praticamente
se limita ao fato de que é mãe dedicada dos
dois meninos, Pedro e Miguel, e das seis filhas. Os cuidados
maternais são contrabalançados pelo fato de
que o futuro e a quantidade de poder das consortes reais dependem
do destino dos filhos. A princesa sabe o que é nascer
numa família real e ser usada para fins políticos.
Era uma menina de apenas 10 anos quando os pais a encaminharam
para o destino quase obrigatório de tantas infantas
espanholas: casar-se com um herdeiro do trono português.
Antes de partir para nunca mais ver a família, fez
uma apresentação pública, como uma espécie
de teste de qualidade. Respondeu a perguntas sobre religião,
geografia, história, gramática e línguas,
e provou sua habilidade em etiqueta, dança, canto,
pintura e equitação. A Gazeta de Lisboa
derramou-se em elogios: "Tudo satisfez tão completamente
que não se pode expressar a admiração
que deve causar uma instrução tão vasta
em uma idade tão tenra". Transplantada para o
seio da austera família real portuguesa enquanto aguardava
a idade adequada para consumar o casamento (15 anos), Carlota
se comportou, vejam só, como criança. "Ela
não faz o que mandam", queixou-se muitas vezes
sua ama, Anna Miquelina, em cartas a amigos em Madri. "Acorda
tarde e leva horas para se vestir"; à mesa, "come
com as mãos e joga comida no rosto do infante e dos
criados". Dom João, oito anos mais velho, fazia
o possível para contê-la, ao mesmo tempo em que
se embevecia com sua vivacidade. "Ela é muito
esperta e tem bastante bom senso para alguém tão
criança", escreveu. "É muito desinibida,
não tem vergonha alguma."
A princesa gosta de dançar
e de andar a cavalo, atividade em que demonstra a incomparável
fidalguia dos castelhanos. Quando contrariada, não
mede as palavras (inclusive as mais impublicáveis).
Não foi agraciada com beleza, como é comum na
dinastia dos Bourbon, mas, mais do que exagero, há
verdadeiro preconceito nos venenosos comentários feitos
por madame Jean-Andoche Junot, a esnobe Laure, nos breves
meses em que seu marido, antes de se tornar o conquistador
de Portugal, foi embaixador da França em Lisboa. Na
sua descrição, a princesa é "o mais
horrível exemplo de feiúra", com estatura
de anã, corpo assimétrico (Carlota manca, em
decorrência de um acidente de caça) e "peito
inexistente"; tem "olhos injetados, pele cor de
vegetal e cabelo grosso, armado, com aparência de sujo".
Apreciou suas roupas e enfeites, mas ressaltou, no mesmo tom
ferino: "A beleza das jóias, junto com a extrema
feiúra da pessoa que as usa, produz um efeito incrivelmente
estranho e faz com que a princesa mal pareça um ser
da nossa espécie".
Desprovida de formosura,
sua força está em seu interior: Carlota tem
plena convicção de que está destinada
ao comando. É infanta da Espanha, princesa do Brasil,
futura rainha de Portugal e, ao pé de ouvidos
aliados, garante que tem muito mais talento para administrar
os assuntos de estado do que seu marido. Esse sentimento,
aliás, arruinou seu casamento de maneira irreparável:
príncipe e princesa vivem separados, vêem-se
só em ocasiões oficiais, raramente se falam
e disputam palmo a palmo todo tipo de questão, de regras
de etiqueta a cargos na corte. A crise conjugal precipitou-se
há três anos, quando o adoentado João
se recolheu no distante Palácio de Mafra, deixando
Carlota em Lisboa. Má idéia. Ela logo se enredou
numa conspiração de cortesãos insatisfeitos,
que alegavam estar o príncipe acometido da mesma loucura
da mãe e propunham afastá-lo. Quem ficaria em
seu lugar? Carlota, claro. O plano foi descoberto, o príncipe
João ordenou uma investigação e Carlota
entrou em 1806 como uma espécie de pária na
corte. Pediu socorro ao pai, usando a carinhosa mas oficial
saudação: "Papai do meu coração,
da minha vida e da minha alma. Vou aos pés de Vossa
Majestade na maior consternação para dizer a
Vossa Majestade que o Príncipe está cada dia
pior da cabeça e que em conseqüência está
tudo perdido (...) e que é chegada a ocasião
de Vossa Majestade acudir-me a mim, e a seus netos".
Envolvido em seus próprios problemas, o rei da Espanha
não moveu uma palha. Quando o planejamento da partida
para o Brasil começou a ficar evidente, em meados do
ano passado, a princesa ouviu que só o marido iria
com os meninos e se desesperou. "Mamãe do meu
coração, da minha vida e da minha alma, livra-me
a mim de morrer, e às inocentes filhas, e também
livra-me de algum insulto, porque meus filhos estão
por ir e ter tudo embarcado", escreveu no fim de setembro
à rainha Maria Luísa. Outra vez em vão.
"Minha querida filha, quisera dar-te os auxílios
que em sua situação necessitam as almas, mas
a distância e as relações políticas
reduzem a ação de nossos desejos", esquivou-se
a mãe.
Se há dúvidas
sobre se Carlota realmente trai o marido no sentido conjugal
do termo, sobre sua mãe, a rainha Maria Luísa,
todos concordam: além de aliada política, ela
é amante do odiado Manuel de Godoy (veja
reportagem sobre a situação periclitante na
Espanha). Mulheres fortes de reis fracos muitas vezes
não têm opção a não ser
se envolver em assuntos políticos. Até Luísa,
a rainha da Prússia, em tudo o oposto de sua homônima
espanhola, precisou interferir em nome da salvação
nacional. Com a Prússia destroçada em campo
de batalha por Napoleão Bonaparte, Luísa, que
é linda, inteligente e adorada pelos súditos,
apelou. Pôs as melhores roupas e as jóias mais
reluzentes e foi até Napoleão pedir por seu
país. O imperador francês trocou por elogios
as críticas que lhe fazia por se meter em política
e insuflar o marido indeciso (parece epidemia...). "A
rainha da Prússia é uma mulher encantadora;
mostrou-se bastante coquete", escreveu Napoleão,
brincando que, se o marido dela, Frederico, não entrasse
no salão em seguida, ele acabaria cedendo a Luísa.
Não o fez, claro a Prússia hoje está
menor, mais fraca e mais pobre. A Espanha pode seguir por
caminho igual ou pior: as tropas francesas avançam
sobre o país, os reis saíram de Madri e há
rumores de revolta popular. Mal pisou no Rio de Janeiro, a
princesa Carlota foi colocada a par da situação
em seu país natal e seus olhos negros brilharam com
a ambição de sempre. Se seus pais perderem o
trono, quem sabe não existirá espaço
para a filha mais velha do rei, do outro lado do oceano, assumir
a regência, se não da distante Espanha, pelo
menos de suas colônias aqui, tão perto?
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