AMARELAS
Thomas Jefferson
FAMÍLIA REAL
O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Família Real
Tal mãe...
...tal filha

Sede de poder e gosto por intrigas movem
a princesa Carlota. É uma coisa de sangue

Pode uma mulher pretender fazer política? Tramar, conspirar, conquistar, corromper e, acima de tudo, desejar ardorosamente o poder, da mesma maneira como fazem os homens? De modo geral, a resposta é conhecida: não. O modo geral não se aplica, porém, a algumas cabeças coroadas seduzidas pelas intrigas políticas nem, menos ainda, a duas das mulheres mais mandonas do mundo no momento: Maria Luísa, a rainha consorte da Espanha, e sua filha, Carlota Joaquina, a princesa do Brasil. Idênticas em tudo – na aparência, na personalidade forte e no desejo de manipular maridos fracos –, elas também enfrentam desafios excepcionais. Maria Luísa, a mãe, pode perder tudo: a coroa da Espanha e o poder a que sempre ambicionou, através do marido, o rei Carlos IV, ou do amante, o primeiro-ministro Manuel de Godoy. Carlota, a filha, já perdeu. Teve de acompanhar o marido, o príncipe dom João, na fuga de Portugal para o Brasil, e todas as suas conspirações contra ele até hoje fracassaram. Por causa disso, vive em estado de animosidade conjugal e de impopularidade junto a todos os círculos leais ao príncipe. Jamais, no entanto, desiste.

É difícil estabelecer quanto da má fama da princesa de 32 anos se deve a comportamentos condenáveis e qual a parcela debitada à rejeição despertada por mulheres ambiciosas. A coluna das virtudes reconhecidas praticamente se limita ao fato de que é mãe dedicada dos dois meninos, Pedro e Miguel, e das seis filhas. Os cuidados maternais são contrabalançados pelo fato de que o futuro e a quantidade de poder das consortes reais dependem do destino dos filhos. A princesa sabe o que é nascer numa família real e ser usada para fins políticos. Era uma menina de apenas 10 anos quando os pais a encaminharam para o destino quase obrigatório de tantas infantas espanholas: casar-se com um herdeiro do trono português. Antes de partir para nunca mais ver a família, fez uma apresentação pública, como uma espécie de teste de qualidade. Respondeu a perguntas sobre religião, geografia, história, gramática e línguas, e provou sua habilidade em etiqueta, dança, canto, pintura e equitação. A Gazeta de Lisboa derramou-se em elogios: "Tudo satisfez tão completamente que não se pode expressar a admiração que deve causar uma instrução tão vasta em uma idade tão tenra". Transplantada para o seio da austera família real portuguesa enquanto aguardava a idade adequada para consumar o casamento (15 anos), Carlota se comportou, vejam só, como criança. "Ela não faz o que mandam", queixou-se muitas vezes sua ama, Anna Miquelina, em cartas a amigos em Madri. "Acorda tarde e leva horas para se vestir"; à mesa, "come com as mãos e joga comida no rosto do infante e dos criados". Dom João, oito anos mais velho, fazia o possível para contê-la, ao mesmo tempo em que se embevecia com sua vivacidade. "Ela é muito esperta e tem bastante bom senso para alguém tão criança", escreveu. "É muito desinibida, não tem vergonha alguma."

A princesa gosta de dançar e de andar a cavalo, atividade em que demonstra a incomparável fidalguia dos castelhanos. Quando contrariada, não mede as palavras (inclusive as mais impublicáveis). Não foi agraciada com beleza, como é comum na dinastia dos Bourbon, mas, mais do que exagero, há verdadeiro preconceito nos venenosos comentários feitos por madame Jean-Andoche Junot, a esnobe Laure, nos breves meses em que seu marido, antes de se tornar o conquistador de Portugal, foi embaixador da França em Lisboa. Na sua descrição, a princesa é "o mais horrível exemplo de feiúra", com estatura de anã, corpo assimétrico (Carlota manca, em decorrência de um acidente de caça) e "peito inexistente"; tem "olhos injetados, pele cor de vegetal e cabelo grosso, armado, com aparência de sujo". Apreciou suas roupas e enfeites, mas ressaltou, no mesmo tom ferino: "A beleza das jóias, junto com a extrema feiúra da pessoa que as usa, produz um efeito incrivelmente estranho e faz com que a princesa mal pareça um ser da nossa espécie".

Desprovida de formosura, sua força está em seu interior: Carlota tem plena convicção de que está destinada ao comando. É infanta da Espanha, princesa do Brasil, futura rainha de Portugal – e, ao pé de ouvidos aliados, garante que tem muito mais talento para administrar os assuntos de estado do que seu marido. Esse sentimento, aliás, arruinou seu casamento de maneira irreparável: príncipe e princesa vivem separados, vêem-se só em ocasiões oficiais, raramente se falam e disputam palmo a palmo todo tipo de questão, de regras de etiqueta a cargos na corte. A crise conjugal precipitou-se há três anos, quando o adoentado João se recolheu no distante Palácio de Mafra, deixando Carlota em Lisboa. Má idéia. Ela logo se enredou numa conspiração de cortesãos insatisfeitos, que alegavam estar o príncipe acometido da mesma loucura da mãe e propunham afastá-lo. Quem ficaria em seu lugar? Carlota, claro. O plano foi descoberto, o príncipe João ordenou uma investigação e Carlota entrou em 1806 como uma espécie de pária na corte. Pediu socorro ao pai, usando a carinhosa mas oficial saudação: "Papai do meu coração, da minha vida e da minha alma. Vou aos pés de Vossa Majestade na maior consternação para dizer a Vossa Majestade que o Príncipe está cada dia pior da cabeça e que em conseqüência está tudo perdido (...) e que é chegada a ocasião de Vossa Majestade acudir-me a mim, e a seus netos". Envolvido em seus próprios problemas, o rei da Espanha não moveu uma palha. Quando o planejamento da partida para o Brasil começou a ficar evidente, em meados do ano passado, a princesa ouviu que só o marido iria com os meninos e se desesperou. "Mamãe do meu coração, da minha vida e da minha alma, livra-me a mim de morrer, e às inocentes filhas, e também livra-me de algum insulto, porque meus filhos estão por ir e ter tudo embarcado", escreveu no fim de setembro à rainha Maria Luísa. Outra vez em vão. "Minha querida filha, quisera dar-te os auxílios que em sua situação necessitam as almas, mas a distância e as relações políticas reduzem a ação de nossos desejos", esquivou-se a mãe.

Se há dúvidas sobre se Carlota realmente trai o marido no sentido conjugal do termo, sobre sua mãe, a rainha Maria Luísa, todos concordam: além de aliada política, ela é amante do odiado Manuel de Godoy (veja reportagem sobre a situação periclitante na Espanha). Mulheres fortes de reis fracos muitas vezes não têm opção a não ser se envolver em assuntos políticos. Até Luísa, a rainha da Prússia, em tudo o oposto de sua homônima espanhola, precisou interferir em nome da salvação nacional. Com a Prússia destroçada em campo de batalha por Napoleão Bonaparte, Luísa, que é linda, inteligente e adorada pelos súditos, apelou. Pôs as melhores roupas e as jóias mais reluzentes e foi até Napoleão pedir por seu país. O imperador francês trocou por elogios as críticas que lhe fazia por se meter em política e insuflar o marido indeciso (parece epidemia...). "A rainha da Prússia é uma mulher encantadora; mostrou-se bastante coquete", escreveu Napoleão, brincando que, se o marido dela, Frederico, não entrasse no salão em seguida, ele acabaria cedendo a Luísa. Não o fez, claro – a Prússia hoje está menor, mais fraca e mais pobre. A Espanha pode seguir por caminho igual ou pior: as tropas francesas avançam sobre o país, os reis saíram de Madri e há rumores de revolta popular. Mal pisou no Rio de Janeiro, a princesa Carlota foi colocada a par da situação em seu país natal e seus olhos negros brilharam com a ambição de sempre. Se seus pais perderem o trono, quem sabe não existirá espaço para a filha mais velha do rei, do outro lado do oceano, assumir a regência, se não da distante Espanha, pelo menos de suas colônias aqui, tão perto?