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Família Real
O príncipe imperfeito
Ele queria uma vida de caçadas,
assados e missa cantada. A mulher e o corso implacável
acabaram com seu sossego
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Óleo s/ tela
Domenico Pellegrini/Consulado Geral de Portugal no Rio
de Janeiro/Reprodução Oscar Cabral

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Regendo problemas: o irmão mais
velho morreu, a mãe enlouqueceu e João
assumiu as rédeas do reino enfraquecido e ameaçado
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Ele vai entrar para a história
como dom João VI, rei de Portugal. Por enquanto, não
é rei nem tem número. Exceto o nome com que
deverá ser conhecido, muita coisa ainda está
em aberto para este homem de 40 anos que se tornou o primeiro
chefe de uma família real a pisar no solo do novo continente.
O príncipe regente não é exatamente um
estadista de destaque nem, reconheça-se, um
homem bonito , mas na última hora tomou a decisão
que lhe salvou a pele e a de toda a corte portuguesa: a retirada,
se quisermos usar a palavra polida para fuga, com destino
ao Brasil. É o gesto pragmático que marcará
para sempre a biografia do príncipe de muitos defeitos,
que a história talvez se encarregará de ampliar,
e algumas boas idéias. Pragmatismo pode não
ser uma virtude muito exaltada, mas, no caso de dom João,
fez a diferença entre sobreviver ou se tornar mais
um dos reis destronados que vivem exilados em Londres, humilhados
pela hegemonia francesa. A decisão, difícil
e sem precedentes, de transferir a coroa portuguesa para o
Brasil ganha uma dimensão especial quando se considera
que João Maria José Francisco Xavier de Paula
Luís Antônio Domingos Rafael de Bragança
tem mais problemas do que nomes. Príncipe herdeiro
de um país que, tecnicamente, não existe no
momento, ele tem sido incessantemente perseguido por Napoleão
Bonaparte, pressionado pelos ingleses, traído pelos
sogros espanhóis e enganado pela mulher, que conspira
o tempo todo contra o próprio marido. A mãe,
todos sabem, é louca.
A conjunção
de elementos políticos e familiares desfavoráveis
desabou sobre os ombros não muito preparados de um
príncipe de temperamento conciliador e ao mesmo tempo
desconfiado, com certa tendência à melancolia.
Se o mundo em violenta transformação não
o arrancasse do gosto pelo isolamento, ele provavelmente continuaria
ensimesmado, quase recluso no Palácio de Mafra, o grandioso
complexo barroco, com igreja, convento, biblioteca e jardins
que convidam à elevação da alma, longe
de Lisboa. Lá, entre padres, criados e os cortesãos
mais íntimos, e bem longe da mulher, a princesa Carlota,
ele se trancafiou ao longo de quase todo o ano passado. Nos
intermináveis corredores e salões, enfeitados
com mármores raros e madeiras brasileiras, recebeu
a sucessão de más notícias a França
estava decidida a engolir Portugal, não importando
quanto tentasse contemporizar. Se conseguisse convencer ninguém
menos que Napoleão Bonaparte a mudar de idéia,
compraria briga com os ingleses, aliados clássicos
de Portugal. Para se distrair do dilema torturante, o regente
passou os dias decisivos de 1807 dividido entre as missas,
os cânticos religiosos e a caça, passatempo aristocrático
que também rende os assados suculentos tão apreciados
em sua mesa. Os assuntos de estado, cada vez mais prementes,
foram tratados por meio dos ministros, que se deslocavam de
Lisboa, e de representantes estrangeiros, sobretudo os ingleses,
que não se cansavam de avisar: está chegando
a hora. Não é difícil avaliar quanto
custou a um príncipe que é tudo, menos aventureiro,
abrir mão da vida que sempre conheceu e embarcar na
perigosa viagem rumo ao Brasil.
Agora, quando se comemora
que a aventura chegou a bom termo, prova do acerto da decisão,
o príncipe João talvez se sinta um pouco mais
seguro e finalmente supere o fato de que, na verdade, não
nasceu para ser rei. Aos brasileiros, até hoje só
acostumados à monarquia muito a distância, convém
lembrar que os príncipes nascidos em famílias
reais são todos mimados e cobertos de honrarias, mas
importante mesmo é um só: o filho mais velho
e herdeiro da coroa. Durante a infância e a juventude,
João, o segundo na linha de sucessão, foi uma
espécie de reserva, enquanto seu irmão José,
seis anos mais velho, era preparado para ser rei. Por volta
dos 18 anos, João começou a ser encarado como
potencial herdeiro porque José, embora casado havia
tempo, ainda não tinha produzido nenhum filho. Como
é quase obrigatório na família real portuguesa,
que costuma casar seus infantes como são chamados
os príncipes mais novos com os equivalentes
espanhóis, contratou-se o casamento dinástico
de João com Carlota Joaquina, filha do rei Carlos IV
e da rainha Maria Luísa da Espanha. Não se espera
que esse tipo de união seja exemplo de felicidade conjugal,
mas, mesmo pelos parâmetros mais flexíveis, pode-se
dizer que foi um casamento feito no inferno. Carlota é
teimosa, esperta, determinada, vingativa e extremamente insatisfeita
com o marido. Sem ânimo e às voltas com doenças
(sofre de erisipela, varizes, hemorróidas e tonturas,
além dos acessos melancólicos), parece quase
um milagre que ele tenha tido nove filhos com Carlota, dos
quais sobrevivem oito. As más-línguas dizem
que o milagre pode ter explicações mais terrenas.
A caçula do casal, Ana de Jesus Maria, tem pouco mais
de 1 ano, sendo que, há mais tempo do que permitiria
a boa reputação da princesa, João e Carlota
só se encontram em ocasiões oficiais.
Fundação
Biblioteca Nacional/Reprod. Renan Cepeda
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O destino de João deu a primeira das muitas guinadas
com a prematura morte do príncipe José, em 1788.
Aos 21 anos, ele se tornou o herdeiro do trono. Quatro anos
depois, em janeiro de 1792, uma junta médica declarou
que sua mãe, a rainha Maria I, estava "em estado
de loucura"; em 10 de março, o Conselho de Estado
pediu ao príncipe João que assumisse as rédeas
do reino. Ele se tornou inicialmente príncipe governante
e, em 1799, príncipe regente. Portugal já estava
consumido pelo furacão de mudanças desencadeado
com a revolução na França. Sem vocação
aparente para o comando, João também enfrentava
o inimigo interno a própria mulher, que por
duas vezes urdiu conspirações para depô-lo.
Cercado de um pequeno grupo de conselheiros de confiança,
vem aprendendo a reinar. Com sua expressão sossegada,
o lábio superior frouxo dos Habsburgo, de quem descende,
a barriguinha saliente e as coxas roliças, o regente
pode dar a impressão de que não vê muito
do que se passa à sua volta. Engano: ele lê e
comenta os documentos que lhe são encaminhados, ouve
os ministros, mantém-se a par das intrigas de sua corte.
Chora com facilidade e refere-se a si mesmo na terceira pessoa
("Sua Majestade"). Católico devoto, embora
sem os extremos de fanatismo de sua mãe, é apreciador
entusiasta da música sacra, dos cantos gregorianos,
da missa cantada quando mais jovem, arriscava-se inclusive
na difícil arte do cantochão. Parece solitário,
o que é comum aos que vivem no mundo rarefeito dos
homens que vão ser reis. É impossível
que não tenha sido corroído pela humilhação
a que a mulher o expôs com a conspiração
dos fidalgos, o fracassado complô de 1805 para depô-lo.
Os ares do Brasil podem fazer bem a este príncipe,
que, sem nunca ter pisado num campo de batalha, tem muitos
motivos para estar cansado de guerra. Espera-se que o contrário
também seja verdadeiro.
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