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Família Real
A viagem infernal
Navios mal supridos, aperto,
enjôo, medo e mau
humor. Assim a família real atravessou o Atlântico
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Óleo s/ tela Geoff
Hunt, RSMA/Coleção particular Kenneth
Light/ Reprodução Paulo Scheuenstuhl

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| O Príncipe
Real, levando o próprio, chega ao Rio de Janeiro:
alívio depois de 99 dias de desconforto e ansiedade
para milhares de homens, mulheres e crianças, a
maioria na primeira viagem |
Imaginem pessoas que deixaram
para trás tudo o que têm na vida posses,
carreiras e até o próprio país. Imaginem
uma viagem em navios apertados, com muito mais passageiros
do que normalmente levam, com pouca água, péssima
comida, náuseas quando ventava, surtos de doenças
quando parava. Multipliquem tudo por 99, o número de
dias que durou a penosa travessia desde Lisboa até
São Sebastião do Rio de Janeiro, exceção
feita à bem-vinda escala em Salvador. Isso dá
uma idéia aproximada do alívio sentido pelos
mais de 2 000 passageiros, quase todos de primeira viagem,
que, amontoados em quatro navios, entraram no último
dia 7 na baía guardada pelo paredão de pedra
do Pão de Açúcar. Como não existe
visitante que não se extasie com essa vista, o alívio
se somou ao encanto e tudo se misturou ao estranhamento dos
europeus ainda não acostumados à idéia
de que, neste começo de março, estamos em pleno
verão. O primeiro a sentir o que é o calor carioca,
num dia de céu gloriosamente azul, foi o próprio
príncipe João. Em companhia dos dois filhos
homens, Pedro e Miguel, o regente desembarcou no dia 8 do
Príncipe Real e a esta altura já
deve saber que carioca é como se chama tudo pertinente
ao Rio, e não o nome dos índios que continuam
a habitar na cidade. Sua mãe, a rainha Maria I, que
está afastada do trono por doença, só
veio a terra dois dias depois. Do Afonso de Albuquerque
desceram a princesa Carlota Joaquina e quatro das seis filhas
do casal. Enquanto os personagens principais descansam em
terra firme, já se pode reconstituir o que foi a extenuante
jornada marítima.
Por causa da correria na
fuga, praticamente sob a mira dos canhões franceses,
não existe lista precisa dos navios, tripulações
e passageiros que partiram de Lisboa em 29 de novembro, um
dia frio e chuvoso. Mas eram mais de cinqüenta naus contando
a frota portuguesa, a escolta inglesa e os navios mercantes
que estavam no porto ou próximos a ele naquele momento.
Nelas, cerca de 15 000 pessoas, metade tripulantes e
a outra metade os fidalgos, funcionários públicos
e criados que acompanharam a família real portuguesa
nessa inédita viagem. "Os navios de guerra portugueses
apresentavam uma aparência desleixada, por terem tido
só três dias para se preparar para a fuga. Mais
pareciam destroços que navios de guerra", descreve
o irlandês Thomas ONeill, tenente da Marinha britânica
que presenciou a partida a bordo do navio de escolta London.
No início da tarde, quando a esquadra portuguesa que
deixava o porto se encontrou com os navios ingleses amigos,
o comandante da escolta, o contra-almirante Sydney Smith,
foi visitar o príncipe João e com ele conversou
"na popa ostentando seu pavilhão, a única
parte do navio livre de entulhos e aglomeração".
Smith ficou preocupado: "Eles têm multidões
de homens, mulheres e crianças, todos refugiados indefesos,
e um monte de bagagem a bordo, pouquíssimos marinheiros
e não há água nem provisões para
uma viagem de duração considerável".
Os navios partiram todos
juntos, mas de manhã já estavam espalhados por
causa de uma tempestade. "No mar aberto, a esquadra enfrentava,
nesses primeiros dois dias de viagem, tempestades excepcionalmente
severas e ventos que, pelo quadrante que sopravam, tornavam
a vida a bordo incômoda pelo movimento e, para a maioria
não acostumada, pelo medo de que a aventura terminasse
a qualquer momento", relata um passageiro. Ele toca num
ponto importante: apesar da história de glórias
da navegação portuguesa, poucos dos viajantes
conheciam as durezas dos percursos marítimos. Aliás,
tirando as curtas distâncias entre Lisboa e suas propriedades
no interior, poucos estão habituados a viajar. O próprio
príncipe regente só saiu de Portugal uma vez,
em 1796, para se encontrar com o sogro Carlos IV, o rei da
Espanha, em Badajoz, pouco além da fronteira.
No dia 2 de dezembro, João
deu ordens a um dos oito navios de linha, o Medusa,
para seguir à frente e chegar primeiro ao Rio de Janeiro,
dando tempo ao vice-rei Marcos de Noronha e Brito, o conde
dos Arcos, de se preparar para o inimaginável: acolher
a família real e sua corte. Dois dias depois, com o
tempo já firme, o comandante Smith destacou quatro
naus britânicas para escoltar os portugueses no restante
da viagem. Ele próprio voltou à sua atividade
habitual, lutar contra os franceses. A qualidade do serviço
de bordo pode ser avaliada pelas cartas com reclamações
que a princesa Carlota ficou mandando ao marido a correspondência
entre os navios é levada por botes. "Quanto ao
que me dizes a respeito da cozinha, é necessário
que tu autorizes o conde de Caparica com algum oficial hábil
dessa nau para que unidos façam o arranjamento melhor
possível castigando os que não quiserem obedecer-lhe",
aconselhou o príncipe. O mau tempo impediu uma escala
para reabastecimento na bela Ilha da Madeira e, pior, dividiu
a esquadra. Quando se percebeu, o Príncipe Real
e o Afonso de Albuquerque, mais suas fragatas de apoio
Urânia e Minerva, haviam se separado do
resto a família real portuguesa quase inteira
ficou sozinha em pleno alto-mar.
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Museu Imperial/Reprodução
Oscar Cabral

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| Comunicação a distância:
Carlota reclamava de tudo; João, instalado em outro
navio, tentava aplacá-la em bilhetes despachados
em botes |
Passadas as borrascas
e o medo de naufrágio , as queixas aumentaram.
"O número de pessoas que seguiram a sorte de seus
protetores reais era tão grande, e cada navio estava
lotado a tal ponto, que mal havia espaço para deitar
no convés; as senhoras, destituídas de bagagem,
tinham apenas as roupas que usavam. Nossa situação
era tão desesperadora que espero que ninguém
venha a experimentar ou testemunhar coisa igual", lamentou
um fidalgo. Também se espalhou a impressão de
que a viagem "foi muito mal planejada, que deveriam ter
tido mais tempo, que mais navios deveriam ter sido preparados".
Os ânimos acirraram-se a tal ponto que dom João,
o único a permanecer calmo, proibiu que se discutisse
a decisão de deixar Lisboa. Ele também cancelou
a parada prevista nas Ilhas de Cabo Verde as últimas
antes do destino. A pressa não teve efeito. Quase no
Equador, os cinco navios entraram numa zona de calmaria e
passaram a virada de 1807 para 1808 praticamente parados.
Os navios, sobretudo o Afonso de Albuquerque, sentiam
os efeitos de mais de um mês ao mar, lotados de passageiros.
"Como a navegação pesada do Afonso
nos retardava materialmente e o Príncipe estava
se tornando insalubre, tendo 1 054 pessoas a bordo, pensei
ser meu dever oferecer o navio de Sua Majestade para acomodação
de Sua Alteza Real e comitiva", anotou no diário
de bordo o capitão James Walker, do Bedford.
João e Carlota principescamente agradeceram e recusaram;
em vez disso, em 16 de janeiro o regente mandou avisar o capitão,
por sinais, de que iriam para Salvador, na Bahia.
A essa altura, surgiram
dois alentos: ventos mais constantes e um brigue proveniente
do porto do Recife com frutas, verduras e legumes, muitos
deles desconhecidos pelos europeus gentileza do governador
Caetano de Miranda Montenegro, avisado pelo Medusa,
o navio despachado na frente. Em 22 de janeiro, depois de
passarem 55 dias no mar, a comitiva real e escolta chegaram
ao porto de Salvador totalmente vazio, a não
ser pelo atônito governador João Saldanha da
Gama, o conde da Ponte. A surpresa é compreensível:
embora também tivesse recebido a notícia de
que a corte portuguesa estava a caminho do Brasil, o governador
não contava que fosse parar na Bahia e nem sequer sabia
qual era exatamente o protocolo a ser seguido; afinal, era
a primeira vez que um membro da realeza pisava o solo em uma
colônia. Na dúvida, Saldanha da Gama mandou todo
mundo ficar em casa, em silêncio. As cenas que viu talvez
não tenham correspondido às expectativas, com
nobres em trajes descompostos saindo de embarcações
caindo aos pedaços. "Minha pena é inadequada
para descrever a situação angustiosa das pobres
mulheres que superlotavam a nau", descreveu um marinheiro
do Bedford. No dia seguinte, com as damas trajando
vestido emprestado pelas senhoras locais, o desembarque teve
mais solenidade, com música, aplausos e salvas de canhão,
seguidos de missa solene e cantada na catedral. E assim Sua
Alteza Real e sua mais rica e importante colônia afinal
tiveram o primeiro contato. Certamente saltou à vista
dos recém-chegados que o Brasil é mais quente,
mais moreno e muito mais animado que Portugal, em especial
por causa das festas que a toda hora agitam as ruas de Salvador,
ao ritmo da música africana.
Reprodução
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| O London,
um dos quatro navios ingleses destacados para escoltar
a esquadra portuguesa: na altura da Ilha da Madeira, nevoeiro
e separação |
O príncipe regente aproveitou a estada: fez passeios,
visitou plantações, recebeu a elite local. Conheceu
um dos ilustres filhos da terra, José da Silva Lisboa,
que contribuiu com suas idéias liberais para uma das
medidas mais importantes dessa nova fase, a assinatura da
carta régia que abre os portos brasileiros às
nações amigas (leia-se: Inglaterra) e efetivamente
suspende o isolamento forçado em que vivemos até
agora. A abertura dos portos é uma questão de
sobrevivência, com a perda de Portugal, e de boa convivência
com os ingleses, que possibilitaram a fuga da família
real. Mas também coincide com a causa da liberdade
econômica defendida ardorosamente por Lisboa. "A
melhor economia consiste em permitir indústria ativa,
trabalho discreto, instrução franca e comércio
livre", prega o especialista, que viajou de Salvador
para o Rio com a comitiva real. Outra iniciativa bem recebida
do príncipe regente foi a criação da
Escola Médico-Cirúrgica de Salvador, que acaba
com a vergonhosa inexistência de ensino superior no
Brasil só para comparar: no Peru, sob domínio
espanhol, a universidade de Lima existe desde 1551; a respeitada
Harvard, nos Estados Unidos, data de 1636. Apesar da graça
e das ofertas sedutoras dos baianos, que propuseram construir
um palácio em troca de sediar a corte, o príncipe
manteve o roteiro original: fixar-se no Rio, o atual centro
do poder colonial, muito bem guardado por fortalezas e mais
longe ainda dos franceses. Em 26 de fevereiro, a esquadra
partiu às 16 horas, diz o registro do Bedford,
navegavam em mar aberto. Sem percalços e com muito
melhor aparência do que na chegada à Bahia, dez
dias depois os navios e seus passageiros aportaram, inteiros,
no destino que a partida apressada sugeria quase inalcançável:
São Sebastião do Rio de Janeiro, quase uma visão
do paraíso depois da viagem infernal.
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