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Família Real
Os últimos dias
Um drama como Portugal nunca
viu: com o inimigo
à vista, o príncipe reúne a família
e vem para o Brasil
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Óleo s/ tela Nicolas
Delerive/Museu Nacional dos Coches, Lisboa

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| João se despede dos súditos,
em versão oficial da partida: na realidade, chovia,
o cais estava atravancado de gente e bagagem e nobres
se atiravam ao mar |
Se fosse um romance de aventura,
a fuga dramática de toda a elite dirigente de Portugal
poderia ser intitulada Os Últimos Dias de Lisboa. Os
tablóides ingleses preferiram fazer piada, usando caricaturas
de um frustrado Napoleão Bonaparte, ou "Boney",
como apelidam ironicamente o imperador francês, furioso
por perder sua presa no último minuto. Mas para os
portugueses não teve nada de engraçado enfrentar
os acontecimentos incontroláveis que se precipitaram
como um arrastão. No fim de novembro do ano passado,
o pequeno reino se viu na insustentável posição
de estar em guerra, simultaneamente, com a França napoleônica,
com a vizinha Espanha e, pelo menos nominalmente, com a Inglaterra,
sua tradicional aliada. Os invasores franceses já se
aproximavam de Lisboa quando o príncipe regente João
finalmente pegou família, fidalgos, criadagem, tesouros
e documentos e veio ser rei de Portugal no Rio de Janeiro.
O clima foi de desespero, tanto entre os que foram embora
quanto para os que ficaram. "A desgraça, a desordem
e o espanto existiam por toda parte em Lisboa", anotou
uma testemunha.
O atropelo da partida diante
de uma invasão anunciada demonstra quanto Portugal
tentou até o fim se equilibrar em cima do muro da proclamada,
embora fictícia, neutralidade na briga da França
com a Inglaterra. Essa neutralidade consistiu, na prática,
em fingir para os franceses, logo ali nos seus calcanhares,
que só mantinha laços com os ingleses por obrigação
comercial, e fingir para os ingleses, sua corda de salvação,
que não fazia questão nenhuma de ser amigo de
seus inimigos. Entre julho e agosto do ano passado, o muro
começou a rachar. Missão cumprida no resto da
Europa, Napoleão voltou os olhos para Portugal e começou
a brincar de lobo e cordeiro com ele, naturalmente,
na condição de predador. Os registros meticulosos
de suas cartas e mensagens permitem reconstituir os fatos.
Em 19 de julho, mandou seu ministro do Exterior "informar
o embaixador português de que os portos de seu país
devem ser fechados à Inglaterra até 1º
de setembro; na falta disso, eu declararei guerra a Portugal
e confiscarei as mercadorias inglesas". O trabalho sujo
deveria ser feito por meio dos representantes diplomáticos
em Madri. Alguma dúvida sobre as intenções
de Napoleão? "Na falta disso, os embaixadores
da França e da Espanha deixarão Lisboa e ambas
as potências declararão guerra contra Portugal;
em 1º de setembro um exército francês marchará
até Baiona, pronto para se unir a um exército
espanhol para a conquista de Portugal."
Enfurnado no Palácio
de Mafra, o príncipe regente fez o habitual: tentou
contemporizar. Anunciou que iria aderir ao bloqueio, e só.
Mas a urgência do assunto se impunha e, discretamente,
os navios de guerra portugueses receberam ordens de voltar
a Lisboa. No Conselho de Estado, a mais alta autoridade sob
o rei, discutiu-se primeiro a possibilidade de enviar ao Rio
de Janeiro o pequeno príncipe herdeiro, Pedro, de apenas
8 anos, como forma de garantir pelo menos a continuidade da
dinastia dos Bragança. Depois, voltou a aflorar a idéia
de "transferir a capital do império para o Brasil",
uma mudança em massa de toda a alta hierarquia portuguesa.
A hipótese existe há mais de dois séculos
e voltou a ser discutida no governo atual pelo menos desde
que a Espanha invadiu e abocanhou um pedaço de Portugal,
em 1801. Nesse ano, com Napoleão já em plena
ação, Pedro de Almeida Portugal, marquês
de Alorna e respeitado conselheiro militar, escreveu ao príncipe
regente: "A balança da Europa está tão
mudada que os cálculos de há dez anos saem todos
errados na era presente. Em todo o caso o que é preciso
é que Vossa Alteza Real continue a reinar (...). Vossa
Alteza Real tem um grande império no Brasil, e o mesmo
inimigo que ataca agora com tanta vantagem talvez que trema,
e mude de projeto, se Vossa Alteza Real o ameaçar de
que se dispõe a ser imperador naquele vasto território
adonde pode facilmente conquistar as colônias espanholas
e aterrar em pouco tempo as de todas as potências da
Europa". Em agosto de 1807, não estava em discussão
fazer com que o inimigo tremesse, apenas ludibriá-lo.
Museu Nacional
de Arte Antiga/Luisa Oliveira/Instituto dos Museus e da
Conservação, I.P.
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| Os ingleses dão risada: na charge,
"Boney", como apelidam Napoleão, puxa
a peruca de Junot por não ter conseguido impedir
a fuga da família real e chama o general de "seu
grandessíssimo patife" |
Setembro passou em frenética
troca de mensagens. Sem que os portugueses soubessem, as tropas
invasoras já estavam a caminho. Com a operação
militar em marcha, Napoleão rejeitou a contraproposta
de adesão ao bloqueio e reiterou todas as suas exigências.
Em outubro, tudo se acelerou. Os embaixadores da França
e da Espanha romperam relações com Portugal
e foram embora; chegou a Lisboa a notícia de que o
general Jean-Andoche Junot, com um exército de 25 000
homens, marchava pela Espanha em direção à
fronteira; o príncipe João deixou Mafra e se
instalou no Palácio da Ajuda; a frota portuguesa, reunida
no Tejo, era aprontada para, oficialmente, proceder à
retirada em massa rumo ao Brasil. Ao mesmo tempo, Portugal
tratava de garantir a proteção da Inglaterra.
Em novembro, com tudo desmoronando, Portugal empreendeu duas
tentativas desesperadas de se recompor com a França.
Primeira: despachou Pedro José de Meneses Coutinho,
o marquês de Marialva, para comunicar a Napoleão
que todas as suas exigências seriam atendidas; a título
de incentivo, levava um punhado de diamantes, uma espada cravejada
de brilhantes e uma proposta de casamento entre famílias.
Segunda, produto da primeira: expulsou todos os ingleses,
inclusive o embaixador, Percy Smythe, lorde Strangford, um
especialista em Camões e em conchavos políticos.
Nada deu certo. O marquês de Marialva não passou
de Madri. Ao chefe da invasão, Junot, Napoleão
mandou dizer: "Acabei de saber que Portugal declarou
guerra à Inglaterra; isso não basta, continue
sua marcha; tenho razões para acreditar que existe
um arranjo para ganhar tempo". Em guerra contra as duas
grandes potências mundiais, Portugal se via perdido.
Lorde Strangford não
foi para Londres. Foi para o London, navio da frota
britânica comandada pelo intrépido Sydney Smith
que estava na boca do Porto de Lisboa. Para atacar os navios
portugueses antes que os franceses pusessem as mãos
neles? Para garantir a saída da família real?
Naquele exato instante, ninguém sabia ao certo. Chovia
torrencialmente, como é comum no fim do outono, e dois
rios transbordaram no caminho de Junot, um obstáculo
que apenas atrasou a invasão que na descrição
de um observador francês "foi um desfile militar,
não uma guerra". No dia 13 de novembro, o jornal
oficial de Napoleão, Le Moniteur, antecipou-se
ligeiramente aos fatos e registrou que o príncipe regente
de Portugal tinha perdido o trono. "A queda da casa de
Bragança constituirá mais uma prova de como
é inevitável a perda de todos quantos se unirem
aos ingleses", dizia. Uma cópia do jornal chegou
às mãos de Sydney Smith e foi prontamente encaminhada
a Lisboa. O conselho e o príncipe regente se renderam
ao inevitável: os Bragança tinham de partir,
deixando em seu lugar um Conselho de Regência. Joaquim
José de Azevedo, uma espécie de faz-tudo da
corte, foi tirado da cama por um mensageiro, levado ao Palácio
da Ajuda e instruído a preparar o embarque para o dia
27. De lá mandou avisar cortesãos e clérigos
importantes para preparar a mudança, foi para o cais,
montou sua mesa de trabalho e pôs mãos à
espantosa obra. A seu cargo estava transferir a família
real em peso (incluindo as crianças e uma rainha louca
e idosa) e todo o aparato institucional, mais os nobres (um
duque, sete marqueses, duas marquesas, cinco condes), os agregados,
os criados, os negociantes ricos e amedrontados o suficiente
para comprar um lugar na frota e convidados aleatórios
em geral. A providência mais comentada de Azevedo fez
jus à fama da burocracia portuguesa: só embarcava
quem tivesse o papelzinho uma espécie de guia
assinada.
"Uma cena terrível
de confusão e aflição tomou conta de
todas as classes assim que se tornou conhecida a intenção
do príncipe de embarcar para o Brasil: milhares de
homens, mulheres e crianças estavam constantemente
na praia, empenhando-se por escapar a bordo. Muitas senhoras
distintas entraram na água na esperança de alcançar
os botes, mas algumas, desgraçadamente, morreram na
tentativa", descreve o tenente Thomas ONeill, que
estava ao mar, em seu navio, mas ouviu a história de
outro oficial britânico, "um cavalheiro em cuja
veracidade eu posso ter a mais absoluta confiança".
Dos palácios foram removidos louças, pratarias,
móveis, obras de arte, até duas pequenas carruagens.
Das igrejas e conventos, paramentos e peças de ouro
e prata uma espécie de justiça poética,
visto que os metais preciosos provinham maciçamente
do Brasil. Só de documentos, foram empacotados 34 caixotes
grandes. Toda a portentosa biblioteca do Palácio da
Ajuda 60 000 volumes foi acondicionada para
a viagem. O tesouro real foi raspado até o fundo. Centenas
de carruagens dirigiram-se para o porto, sob a chuva incessante.
Botes faziam fila para levar a bagagem aos navios. Foram dois
dias e meio de caos e desespero. "Que grande confusão
houve no cais", registrou o funcionário Eusébio
Gomes. "Todos a quererem embarcar, o cais amontoado de
caixas, caixotes, baús, malas, malotões e trinta
mil coisas, que muitas ficaram no cais tendo seus donos embarcado,
outras foram para bordo e seus donos não puderam ir."
Os lisboetas comuns pareciam
atônitos, quando não revoltados. Os poderosos
partiam enquanto os sujeitos comuns ficavam à mercê
dos invasores franceses, pintados como a encarnação
do mal, incluindo rabo e chifres. No começo da tarde
de 27 de novembro, a família real embarcou. O príncipe
João chegou em carruagem simples, cocheiro sem libré,
com o infante espanhol Pedro Carlos, irmão da princesa
Carlota, que está sob a guarda do casal. A princesa
veio depois, com os dois filhos e as seis filhas, criados,
ama-de-leite para a menorzinha. Por fim chegou ao porto a
rainha Maria, 73 anos, afastada do trono há mais de
uma década. "Que desordem e que confusão;
a rainha sem querer embarcar por forma alguma, o príncipe
aflito por esse motivo. Foi o (capitão Francisco) Laranja
quem fez que a rainha embarcasse. E então o príncipe
deu beija-mão às pessoas que ali estavam e entre
lágrimas e suspiros começaram a embarcar, e
não se pode descrever o que aqui se passou", relata
Gomes. Àquela altura, as tropas francesas já
eram avistadas chegando à cidade. Durante todo o dia
28, com os franceses a um passo, o mau tempo impediu que a
frota saísse do Tejo. Em pleno tumulto, o destituído
embaixador inglês lorde Strangford desembarcou no porto,
na qualidade de "amigo particular". Tinha convencido
seus superiores de que era de bom alvitre que se reunisse
com o príncipe regente para "mostrar a ele, na
linguagem direta e simples da verdade, o único meio
de segurança que ainda detém" qual
fosse, dar as mãos à Inglaterra. Ele também
se impressionou: "Lisboa estava em estado de ressentido
descontentamento, horrível demais para ser descrito".
Strangford só se encontrou com o príncipe no
dia seguinte, domingo, 29, a bordo do Príncipe Real.
Lá estava quando o tempo abriu e Sua Alteza cruzou
a barra para mar aberto. Começavam a grande viagem
e alguns novos capítulos na história.
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