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Família Real
Que país é este
Um gigante que não cabe no papel
de colônia e espera
o futuro acelerado pela transferência da família
real
Museus Castro
Maya
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| Leque aberto: a separação
não precisa ser litigiosa, mas está escrita
no futuro de Brasil e Portugal, representados nas duas
alegorias da cena comemorativa da chegada da corte ao
Rio |
Que lugar é este aonde acabamos
de chegar, devem ter pensado os milhares de portugueses que
desembarcaram no Rio de Janeiro na tarde ensolarada de 8 de
março de 1808, desde já uma data histórica.
Para começar, é um país, mesmo que em
formação e ainda chamado de colônia
esclarecimento importante, visto que, com a chegada da família
real, deram de falar que vivemos aqui numa massa amorfa e
desconjuntada, como se não tivéssemos nos dado
conta até agora de quem somos. Nem Nova Lusitânia
nem América Portuguesa, como ainda querem alguns, o
nome desta nação em formação é
Brasil, e ponto final. Habitado por 3 milhões de pessoas
atenção, brasileiros, não brasilianos,
como preferem alguns , é um lugar de proporções
tão vastas que custa à mente européia,
e às locais também, imaginar até onde
chegam suas fronteiras e à lógica aceitar que
continuará na posição subalterna de hoje.
A transferência do governo português para cá
acelera, inevitavelmente, a dinâmica em direção
a um futuro independente. As primeiras medidas tomadas por
dom João, o príncipe regente e futuro rei
ou simplesmente João, para manter os padrões
de informalidade daqui , foram positivas. A abertura
ao comércio, decretada durante a escala da família
real na Bahia, é apenas o primeiro e incipiente passo
para que o Brasil encontre seu lugar na ordem econômica
internacional. Outras deficiências escandalosas deverão
ser supridas em breve é inacreditável,
por exemplo, que aqui não exista ensino superior nem
se possam publicar livros. Espera-se que a criação
de um aparato de estado à altura da nova posição
do Brasil como reino alternativo redunde em eficiência
e progresso, não em excesso de cargos públicos
e outras mordomias, tão caras dos dois lados do Atlântico.
O mundo está fervilhando
de idéias que podem inspirar o Brasil. As duas grandes
potências européias, França e Inglaterra,
apesar da guerra, oferecem ambas modelos políticos
instrutivos. Embora Napoleão Bonaparte tenha traído
as origens ao se proclamar imperador, a transformação
conceitual que produziu na França a Declaração
dos Direitos do Homem veio para ficar. A Inglaterra não
tem revolução nem Constituição
escrita, mas o rei se sujeita ao Parlamento, como deve ser.
Na jovem república dos Estados Unidos, vigora o princípio
simplesmente transformador de que todos os homens nascem livres
e iguais. A economia também está no início
de importantes transformações. Avanços
tecnológicos promovidos pelos britânicos e por
seus irmãos rebeldes, os americanos, tornam possível
a produção de bens de consumo em quantidades
difíceis de conceber pelos padrões vigentes
aqui. Por que uma mulher teria mais do que os dois ou três
vestidos necessários para se apresentar em sociedade?
A resposta, provavelmente, é porque ela pode. Inserir
o Brasil numa economia que funcionará em escala global
é obrigatório. Além de liberar o comércio,
a chegada da corte portuguesa também enterra o decreto
real de 1785, pelo qual se ordenava que, à exceção
da indústria têxtil, todas as fábricas
em território brasileiro "deviam ser extintas
e abolidas". A anomalia trazia a assinatura de Maria
I, a rainha afastada por insanidade, que chegou ao Rio de
Janeiro com o resto da família real.
Museu Mariano Procópio
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| Insígnia que vai agraciar os
responsáveis pela viagem bem‑sucedida da
família real: as primeiras medidas de dom João
são positivas; o Brasil espera mais |
Um país com liberdade para produzir e comercializar,
regido por leis por que não uma Constituição?
, integrado por cidadãos livres, donos de seu
trabalho e de suas opiniões, sem a ignomínia
da escravidão nem a injustiça do domínio
colonial. O Brasil merece isso tudo, embora não se
espere que a transferência do governo português
produza as mudanças por passe de mágica. João,
tantas vezes criticado como um príncipe hesitante,
pode ser mais esperto do que se imagina. Talvez não
demore a perceber que a separação entre Brasil
e Portugal é inevitável, mas não precisa
ser litigiosa. Ainda é cedo para dizer se haverá
uma transição pacífica para a independência,
como parece estar nas raízes brasileiras, ou um levante
em armas, como já aconteceu nas duas ex-colônias
americanas hoje independentes os Estados Unidos e o
Haiti. Mas já dá para prever que o alcance histórico
da chegada da família real é um assunto que
vai continuar a ser discutido pelos próximos 100, quem
sabe até 200 anos.
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