AMARELAS
Thomas Jefferson
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O Brasil aonde
a corte chegou
Foi um caos
deixar Portugal
Sede e sofrimento
na fuga pelo mar
O Rio de Janeiro
recebe os reais
Dom João, o príncipe cheio de problemas
Carlota Joaquina:
ela quer o poder
IMPÉRIO
Napoleão domina
a Europa
A invasão da Espanha
já começou
Os Bonaparte: caso
de família
Império Otomano:
os radicais no poder
Moda
A imperatriz
do bom gosto
Quem é quem em 1808
Perfil
Sociedade
Faltam maridos
na Inglaterra
Cidades
As grandes obras
de Paris
Tecnologia
Gastronomia
As delícias do
chef Carême
  O FIM DA HISTÓRIA
  O que aconteceu com os principais personagens
mencionados nesta edição

   
 

Entrevista: Thomas Jefferson
O gênio americano

O presidente dos Estados Unidos expõe as
idéias que fundamentam a República erguida
sobre o primado da razão

Em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos da América, Thomas Jefferson, 64 anos, mantém o hábito de falar sobre tudo. Ele não precisa de falsa modéstia. Como o principal (e brilhante) autor da Declaração da Independência de 4 de julho de 1776, Jefferson lançou as bases de uma experiência política com repercussões ainda em curso tanto na Europa quanto nas colônias do novo continente, inclusive no Brasil. Nesse extraordinário documento, todos os homens são declarados iguais e dotados de direitos inalienáveis à vida e – aí o toque de gênio – à busca da felicidade; o poder dos governos deriva do consentimento dos governados; e a monarquia dá lugar à república federal e laica. Estadista de múltiplos talentos – é arquiteto, músico, geógrafo, inventor, estudioso de botânica e arqueólogo –, Jefferson às vezes se deixa arrebatar pela retórica revolucionária, embora não siga nenhuma das práticas de governo sanguinárias que mancharam os ideais republicanos na França. Contrário à escravidão, mantém trabalhadores nessas condições em suas propriedades. Aqui, um resumo do que vai por uma das mentes mais impressionantes de nosso tempo.

Veja – Quando ainda era embaixador dos Estados Unidos na França, o senhor conversou com brasileiros interessados no apoio de seu país a um levante pela independência do Brasil?
Jefferson – Conversei, embora tenha tido o cuidado de esclarecer que eu não tinha instruções, nem autoridade, para dizer uma palavra a quem quer que fosse sobre o assunto e que somente podia comunicar minhas idéias pessoais.

Veja – Quais seriam essas idéias?
Jefferson – Minha opinião na época era que não estávamos, como nação, em condições de nos intrometer em nenhuma guerra e que desejávamos particularmente cultivar a amizade de Portugal, país com que mantínhamos um comércio vantajoso. Isso posto, porém, disse que uma revolução bem-sucedida no Brasil não podia deixar de nos interessar. Disse ainda que as perspectivas de lucro poderiam atrair certo número de indivíduos em auxílio da causa, bem como oficiais nossos, entre os quais não faltavam militares excelentes – estes guiados pelos motivos mais puros. Mostrei, também, que nossos concidadãos, sendo livres para deixar o país sem consentimento do governo, tinham liberdade de ir para qualquer outro que desejassem.

Veja – Os Estados Unidos experimentam um sistema de governo diferente de tudo o que se conhece. Ele corre o risco de fracassar?
Jefferson – Nenhum experimento pode ser mais interessante do que este que estamos tentando. Tenho confiança em que terminaremos por demonstrar o fato de que o homem pode ser governado pela razão e pela verdade.

Veja – Reis governam por direito divino. E o presidente de uma República?
Jefferson – Considero o povo que constitui a sociedade ou a nação a fonte de toda autoridade. Não tenho dúvida de que o resultado de nossa experiência mostrará que se pode confiar aos homens governar a si mesmos, sem um senhor. Nenhuma raça de reis jamais se mostrou superior a um só homem de bom senso em vinte gerações. Caso se viesse a provar o contrário disso, eu concluiria que ou não há um Deus, ou ele é um ser malévolo.

Veja – Uma das críticas mais ouvidas contra o governo republicano é que ele é fraco.
Jefferson – Confesso que não sou amigo de governo muito enérgico. É sempre opressivo.

Veja – Ainda existem simpatizantes da monarquia nos Estados Unidos?
Jefferson – Tenho consciência de que há defeitos em nosso governo federal, mas eles são tão mais leves que os das monarquias que os encaro com muita indulgência. Confio também no bom senso do povo para remediá-los, ao passo que os males do governo monárquico são irremediáveis. A qualquer de nossos compatriotas que desejar um rei, recomendo que vá à Europa. Voltará bom republicano.

Veja – Que defeitos o senhor reconhece no sistema de governo republicano?
Jefferson – O principal é a turbulência a que está sujeito. Mas a meu ver uma pequena rebelião de vez em quando é boa medida, e tão necessária no mundo político quanto as tempestades no mundo físico.

Veja – Quer dizer que as rebeliões não devem ser punidas?
Jefferson – Devem. Mas a observação dessa verdade deve fazer com que os governantes republicanos honestos amenizem as punições, de sorte a não as desencorajar demais. Rebeliões são um remédio necessário à saúde do governo.

Veja – Mesmo as mais violentas?
Jefferson – Que país poderá preservar a liberdade se seus governantes não forem advertidos, de tempos em tempos, de que o povo preserva o espírito de resistência? Deixemo-lo levantar-se em armas. O remédio está em esclarecê-lo quanto aos fatos, perdoá-lo e pacificá-lo. O que significam umas poucas vidas perdidas em um século ou dois? Deve-se regar a árvore da liberdade, de quando em vez, com o sangue de patriotas e tiranos. É seu adubo natural.

Veja – Mas isso não constitui um fator desestabilizador grande demais?
Jefferson – Eu prefiro as inconveniências decorrentes do excesso de liberdade às decorrentes de um grau muito pequeno dela.

Veja – O senhor acha que convulsões e guerras em nome da liberdade, como as provocadas pela Revolução Francesa, valem a pena?
Jefferson – É um infortúnio que os esforços da humanidade para recobrar a liberdade da qual tem sido privada por tanto tempo sejam acompanhados de violências, erros e mesmo crimes. Mas, enquanto choramos pelos meios, devemos rezar pelo fim.

Veja – Os Estados Unidos não têm uma religião oficial. Por quê?
Jefferson – As opiniões dos homens não são da esfera do governo civil nem estão sob sua jurisdição. Nessa questão, os poderes do governo se estendem apenas aos atos injuriosos a outros. Mas não me faz injúria que meu vizinho diga que existem vinte deuses, ou deus nenhum. Nem mexe no meu bolso, nem quebra minha perna. Sou pela liberdade de religião e contra todas as manobras que resultem na ascendência legal de uma seita sobre outra; pela liberdade de imprensa e contra todas as violações da Constituição para silenciar pela força, e não pela razão, as queixas e as críticas dos cidadãos, justas ou injustas, contra a conduta de seus agentes. E sou favorável a encorajar o progresso da ciência em todos os seus ramos.

Veja – As colônias que deram origem ao seu país foram fundadas por refugiados religiosos. O que o senhor diria ao cidadão que tem dificuldade em aceitar essa doutrina de separação entre Igreja e estado?
Jefferson – Livre-se de todos os medos e preconceitos diante dos quais as mentes fracas se curvam servilmente. Instale a razão firmemente em sua cátedra e traga diante do seu tribunal todo fato, toda opinião. Questione com coragem até mesmo a existência de um deus; porque, se existe um, ele deve aprovar a precedência da razão sobre o medo cego.

Veja – O senhor é contra a escravidão, que existe nos Estados Unidos e no Brasil. Que argumentos usa no embate das idéias com seus defensores?
Jefferson – Todas as relações entre senhor e escravo trazem embutido o perpétuo exercício das mais turbulentas paixões, do mais constante despotismo por parte de um e da submissão degradante por parte do outro. Não acho possível que um homem consiga preservar sua conduta e sua moral sem que elas sejam depravadas por tais circunstâncias.

Veja – Mas o senhor tem escravos na sua fazenda. E mais: já declarou que não quer que eles fiquem nos Estados Unidos, se e quando forem libertados.
Jefferson – Não quero por vários motivos: enraizados preconceitos sustentados pelos brancos, dez mil lembranças dos negros das ofensas que receberam, novas provocações, as diferenças reais que a natureza criou. Essas e muitas outras circunstâncias nos dividirão em partidos e produzirão convulsões que provavelmente não terão fim senão pelo extermínio de uma ou de outra raça.

Veja – Como fazendeiro e entusiasta dos assuntos do campo, o senhor parece não gostar muito da vida urbana.
Jefferson – Aqueles que cultivam a terra são os cidadãos mais virtuosos e possuem maior amor à pátria. Mercadores, ao contrário, são os menos virtuosos e os que menos amam a pátria.

Veja – Isso é motivo para que sejam controlados?
Jefferson – A agricultura, as manufaturas, o comércio e a navegação, os quatro pilares da nossa prosperidade, são mais bem-sucedidos quanto mais livremente deixados à iniciativa individual. Mas alguma proteção contra embaraços ocasionais pode ser interposta eventualmente.

Veja – De que maneira o senhor emprega o dinheiro público?
Jefferson – Sou por um governo rigorosamente frugal e simples, que aplique todas as possíveis poupanças das receitas públicas no abatimento da dívida nacional, e não na multiplicação de funcionários e vencimentos com o mero objetivo de conquistar partidários.

Veja – E a nomeação de parentes para cargos no governo?
Jefferson – O público jamais será convencido a acreditar que a nomeação de um parente foi feita com base apenas no mérito, sem a influência das opiniões familiares. Tampouco pode aceitar que cargos cuja distribuição confiou a seu presidente para fins públicos sejam divididos como propriedade familiar.

Veja – O fato de o voto do homem comum ter o mesmo peso que o daqueles que têm muitas posses continua a ser alvo de críticas. Como o senhor justifica essa igualdade?
Jefferson – Minhas observações não me capacitam a afirmar que a integridade é característica da riqueza. Acredito, de forma geral, que as decisões do povo, em conjunto, serão mais honestas e mais desinteressadas do que as de homens abastados.

Veja – Na sua opinião, quais devem ser as condições para alguém se tornar cidadão dos Estados Unidos da América?
Jefferson – Sou favorável à extensão do direito de sufrágio – em outras palavras, dos direitos de cidadão – a todos os que tenham a intenção permanente de viver no país. Quem quer que deseje viver num país deve querer bem a ele e tem o direito natural de tomar parte em sua preservação.

Veja – Embora envolvido com ela em tempo integral, o senhor já declarou odiar a política.
Jefferson – Não tenho a ambição de governar homens. É um ofício doloroso e ingrato.

Veja – Mesmo no sistema republicano que o senhor tanto defende?
Jefferson – O leme de um governo livre é sempre árduo.

Veja – O senhor sonha com um terceiro mandato?
Jefferson – Minha opinião original era que o presidente dos Estados Unidos deveria ser eleito por sete anos, e daí em diante tornar-se para sempre inelegível. Depois me dei conta de que sete anos é tempo demais para alguém ser irremovível, e que deveria haver um modo pacífico de afastar, no meio do caminho, um homem que estivesse trabalhando mal. O tempo de serviço de oito anos, com a possibilidade de afastamento ao final dos quatro primeiros, se aproxima do meu princípio, corrigido pela experiência. Por coerência, decidi afastar-me ao final do segundo mandato.

Veja – Por que o senhor acha que James Madison, o atual secretário de Estado, é um bom candidato a suceder-lhe na Presidência?
Jefferson – Não há outra pessoa nos Estados Unidos que, no leme de nossos negócios, deixaria minha mente tão completamente descansada a respeito da sorte de nossa nave política. 

Veja – O senhor acredita que, nestes dois mandatos, sempre tomou as melhores decisões?
Jefferson – Posso ter errado às vezes. Não há dúvida de que errei: é a lei da natureza humana. Para erros honestos, entretanto, pode-se esperar indulgência.

Veja – Como o senhor definiria, em uma frase, suas crenças políticas?
Jefferson – Jurei, perante o altar de Deus, hostilidade eterna a toda forma de tirania sobre o espírito do homem.