| Entrevista: Tom Cruise Quero
fazer comédia Trabalhando em dez projetos
de filmes e dono de seu próprio estúdio, o ídolo americano
continua sendo um ator e produtor incansável – mesmo após duas
décadas de sucesso. Seu sonho? Fazer o público rir 
Isabela Boscov
| AP  |
"No começo de carreira, fui categorizado como um ator secundário, e não queriam
me dar o papel principal em Negócio Arriscado. Tendo feito Negócio Arriscado,
o rótulo virou outro, o de ídolo adolescente. E assim por diante."
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trechos da entrevista exclusiva (em inglês)
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No último dia 3 de fevereiro, pouco
antes de ir embora do Brasil, Tom Cruise recebeu VEJA para uma entrevista exclusiva
– em que, como em todos os cinco dias que passou no país, se mostrou atencioso,
gentil e entusiasmado. A visita do incansável ator e produtor, que tem
fama de trabalhar duro, tinha um objetivo claro: promover seu mais novo filme,
Operação Valquíria, que recupera a história
verídica do oficial do Exército alemão Claus von Stauffenberg,
que conduziu um complô para matar Hitler durante a II Guerra Mundial. Na
entrevista a seguir, Cruise falou ainda sobre seu incessante prazer de atuar e
da United Artists, estúdio controlado por ele. Veja
– Você deve estar satisfeito com a ótima recepção
de Operação Valquíria na Alemanha, já que Claus
von Stauffenberg, o protagonista, é um herói moderno no país. Cruise
– Esse é, sem dúvida, o ouro que temos em mãos. Eu estava
até certo ponto confiante que os alemães não se decepcionariam
com o filme, em razão da atenção tremenda que demos aos detalhes
– essa é, afinal, a história deles. Ainda assim, não se trata
de um documentário, e sim de um filme, uma recriação, e uma
certa ansiedade é inevitável. Veja
– Vocês não sentiram uma certa emoção em rodar essa
história nos pontos de Berlim em que ela aconteceu? Afinal, muitas das
cicatrizes da II Guerra Mundial e do que ela acarretou ainda estão visíveis
na cidade. Cruise – Não poderíamos ter filmado em
nenhum outro lugar: estar lá contribuiu de maneira imprescindível
para o clima do filme. Foi quase um resgate cultural, uma vez que para as novas
gerações esse é um passado distante. E filmar no Benderblock,
onde Strauffenberg foi executado, foi um sentimento intenso. Só posso dizer
que foi um alívio vê-lo do ponto de vista de 2008, e não no
de 1943. Veja – Tomando seus
últimos personagens – Stauffenberg, o produtor grosseirão de Trovão
Tropical, o senador conservador de Leões e Cordeiros e o assassino
profissional de Colateral, por exemplo –, seria certo dizer que você
hoje se interessa por buscar personagens com mais arestas, digamos? Cruise
– Acho que sempre interpretei personagens assim – em A Cor do Dinheiro,
Rain Man, Nascido em 4 de Julho, Magnólia. Todos eles
são homens complicados e imperfeitos – como todos nós. Veja
– Você tem fama de ser muito trabalhador. Cruise – Considero
que fazer aquilo de que gosto é um privilégio. No começo
da carreira, eu pensava que, bem, se esta for a minha última oportunidade
como ator, eu pelo menos tive essa oportunidade. E essa alegria e esse compromisso
só aumentam à medida que aprendo sobre cinema e sobre interpretar.
Portanto, gosto de trabalhar com pessoas que também levem o compromisso
do trabalho a sério. Todo dia que se passa é um dia que não
posso ter de volta, e todo filme que faço é um filme que não
poderei refazer. De forma que dar o melhor de si é uma obrigação.
Uma obrigação muito prazerosa.
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| "Se eu pudesse
fazer três filmes por ano, faria. Mas há sempre aquele pequeno detalhe chamado
qualidade. Minhas expectativas são muito altas." |
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Veja – Como se mantém
esse interesse vivo e intacto, apesar do sucesso, da popularidade e da celebridade
– que nem sempre é o lado bom do negócio? Cruise –
Tive muita sorte em, já no começo, trabalhar com as pessoas com
quem trabalhei. E sei apreciar as oportunidades que tive e ser grato por elas.
Esse sentimento nunca me abandona. Trabalho desde os 8 anos de idade: entregava
jornais, cortava grama, fazia entregas, e contribuía para a minha família,
que é tão importante para mim. Quanto à celebridade, eu a
compreendo, digamos. É parte de fazer o que eu gosto. Veja
– A maioria dos atores sofre da angústia de que tudo vai se acabar,
e de que aquele trabalho que conseguiram é o último. Você
também? Cruise – Não exatamente. A dúvida é,
e o que vem depois? Quando fiz Taps, no começo de carreira, fui
categorizado como um ator secundário, e não queriam me dar o papel
principal em Negócio Arriscado. Tendo feito Negócio Arriscado,
o rótulo virou outro, o de ídolo adolescente. E assim por diante.
Mas gosto de aprender, acho que estou sempre aprendendo, e por isso gosto de fazer
tantos filmes diferentes. Além disso, para mim é um prazer todo
especial trabalhar não solitariamente, mas com outras pessoas – com um
diretor, um roteirista, uma equipe, e ver o filme evoluir. E ser capaz de aceitar
as mudanças, porque, não importa o quanto você trabalhe no
roteiro e na pré-produção, um filme muda à medida
que vai sendo feito. Mas nunca tive esse medo de não conseguir outro papel.
Minha questão sempre é: como faço para que as coisas funcionem
daqui para a frente. Neste momento mesmo, estou trabalhando em dez roteiros diferentes
com vários amigos e colaboradores, tentando decidir quais devo fazer. É
excitante e pode ser meio doloroso às vezes – tentar entender, por que
isso ou aquilo não está funcionando? Se eu pudesse fazer três
filmes por ano, faria. Mas há sempre aquele pequeno detalhe chamado qualidade.
Minhas expectativas são muito altas. Veja
– É essa a razão por trás da sua aquisição
da United Artists, a de gerar material? Quando você e a Paramount se separaram,
você poderia ter conseguido qualquer outro contrato que desejasse. Cruise
– Sempre gerei material e ajudei outros artistas a gerar seu material também.
Essa história da Paramount é interessante. É uma coisa de
relações-públicas mesmo, que, não importa quantas
vezes você tente esclarecer... Nunca tive um acordo com a Paramount. Produzi
e protagonizei filmes para vários outros estúdios – Sony, Warner
Bros., DreamWorks. Para mim, o mais importante sempre foi minha disponibilidade
como produtor e ator. Nunca tive um contrato de exclusividade com a Paramount.
E quando me ofereceram a United Artists... Mas não tenho exclusividade
nem com meu estúdio. Sou dono da UA, mas não cuido do dia-a-dia
do estúdio. Isso seria um emprego em tempo integral. Veja
– Imagino que Operação Valquíria venha a ser essencial
para cimentar a United Artists como uma operação viável. Cruise
– Todo filme é essencial. Valquíria já começou
a cumprir seu papel nesse sentido, uma vez que já está no azul.
Todo filme que der dinheiro será crucial para o estúdio. Veja
– Como ator, há algum território em que você ache que ainda
não se aventurou, ou em que não sucedeu como gostaria? Cruise
– Adoro comédia. O personagem de Trovão Tropical... foi uma
delícia fazê-lo e criá-lo junto com Ben Stiller. Mas só
quero fazer mais filmes, em todo e qualquer gênero. Adoro também
fazer filmes de ação. Também gosto de dançar, e se
eu achasse um bom roteiro de musical não hesitaria em fazê-lo. Cada
filme tem seu desafio específico: em O Último Samurai, por
exemplo, tive de treinar por mais de um ano inteiro até dominar o uso da
espada japonesa. E precisei de cada minuto daquele ano. Nunca fiz nada tão
difícil. Mas, com certeza, mais comédia. Gosto de rir, e de fazer
rir. Veja – Fazer papéis
secundários, como em Magnólia ou Trovão Tropical,
é uma espécie de alívio da pressão de ter de carregar
um filme? Cruise – A pressão está sempre ali. Não
existe alívio. O alívio está em fazer coisas diferentes,
simplesmente. Em termos básicos, continuo apaixonado por atuar e por fazer
filmes. | |
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