| Mito engarrafado
Por que os míticos vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti produzem
os melhores e mais disputados pinot noirs do mundo 
Roberto Gerosa
 | | Grands-Echézeaux,
Romanée-Saint-Vivant, La Tâche e Romanée-Conti: excelência em vinho há séculos |
No século XVIII, o historiador da Borgonha Claude Courtépée escreveu: "Em Vosné-Romanée
não existem vinhos comuns". Em pleno século XXI, especialistas e enófilos de todas
os cantos do mundo ainda compartilham da mesma opinião deste cronista sobre os
tintos da Borgonha. Os vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti - conhecida pela
sigla DRC - representam, no entanto, a jóia da coroa deste abençoado trecho de
terra. Para o escritor de vinhos inglês Hugh Johnson, por exemplo "faltam sinônimos
para definir a intensidade e o poder" dos tintos engarrafados na propriedade.
O poderoso, e controverso, crítico americano Robert Parker define a Domaine de
la Romanée-Conti como a mais importante vinícola do planeta em seu livro "The
World's Greatest Wine Estates", em que lista as 50 principais propriedades do
mundo do vinho: "Não há pinot noir que chegue perto dos que são produzidas ali",
conclui. Parker elege as safras 2003, 1999 e 1990 do Romanée-Conti como excepcionais
- a de 90 leva 99 pontos de um total de 100 possíveis.
Um pouco de história
"Trata-se de uma
propriedade famosa pela excelente qualidade de seu vinho. Sua localização
no território vinícola de Vosne é a mais adequada para a
perfeita maturação das uvas; mais alta no lado oeste, recebe os
primeiros raios de sol em todas as estações do ano, sendo impregnada
pelo calor mais intenso do dia.(...) Não podemos negar que o vinho de La
Romanée é o melhor de toda Cote D'Or, e até mesmo de todas
as vinícolas da República Francesa: quando as condições
climáticas permitem, este vinho se distingue dos de outros excelentes terroirs;
sua cor esplêndida e aveludada, sua energia e seu buquê encantam todos
os sentidos humanos. Bem guardado, torna-se muito melhor quando se aproxima de
8 a 10 anos; transforma-se então em um bálsamo para os idosos, os
frágeis e os deficientes, e devolve a vida aos moribundos." O
texto acima poderia ter sido escrito a semana passada, mas trata-se de um documento
do período do Terror da Revolução Francesa. A história
da Domaine de la Romanée-Conti é tão rica quanto longa. São
onze séculos de registros que remontam aos monges da Ordem de St. Vincent,
no século X. A propriedade teve vários donos até ser adquirida
pelo príncipe de Conti, que acrescentou seu nome ao vinhedo. Na Revolução
Francesa foi confiscada e, em 1794, é leiloada e troca de mãos entre
diversas famílias até que Duvault-Blochet adquire a propriedade
e anexa os vinhedos de Richebourg, Échézeaux e Grands-Échézeaux,
em 1896. Aubert de Villaine, um remanescente desta família, está
à frente do vinhedo até os dias de hoje. Em 1942, por conta de dificuldades
enfrentadas na II Guerra, parte do vinhedo é vendido à família
Henry Leroy, um negociante da região. Em 1946, as vinhas são atacadas
pela praga da philoxera e todo o vinhedo é arrancado e replantado. Entre
1946 e 1951 não são lançadas safras de Romanée-Conti.
Em 1952 a colheita é reiniciada e os primeiros resultados são decepcionantes.
De lá para cá, na medida em que o as garrafas se tornaram disputadas
por enólogos milionários, brigas entre as famílias proprietárias
foram constantes, até que Aubert de Villaine torna-se, a partir de 1992,
o principal responsável pelos vinhos da Domaine, quando a parceria com
outro mito da Borgonha, Lalou Bize-Leroy, foi encerrada. "Nós tínhamos
diferentes visões e Lalou estava mais interessada em sua Domaine Leroy
do que na DCR", conta De Villaine. "Eu considero que foi a partir deste
momento que eu consegui fazer sozinho o que realmente eu achava que devia ser
feito", explicou à VEJA.com. O
olho do dono
Aubert de Villaine, a sexta geração
à frente dos vinhedos, tem a dimensão do que seus vinhos representam
para a França e para o mundo. "A Domaine não tem preço",
enfatiza. É adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente
da biodinâmica, aquela que rejeita o uso de defensivos químicos e
acredita na influência dos astros sobre as vinhas. "É uma importante
ferramenta para fazer vinhos", justifica De Villaine, que mantém uma
equipe permanente de 25 funcionários no campo que usam tração
animal no tratamento do solo. Para ele, a melhor maneira de lidar com um terroir
perfeito como a Domaine de la Romanée-Conti é a menor interferência
possível: "Este pedaço de terra tem sido dedicado à
excelência em fazer vinho há séculos. Meu trabalho é
de guardião deste terreno", declarou.
Sua excelência, o vinho
Tintos como o
Grands-Échézeaux, o La Tâche e o Romanée-Conti são
objetos de desejo de todo enófilo. O preço nas alturas, e a dificuldade
em comprar uma garrafa, são explicados pela reduzidíssima produção
frente à superlativa procura. "É algo que eu especialmente
não gosto", lamenta Aubert de Villaine. As safras são irregulares,
e a pinot noir, a única uva permitida, é de difícil manejo.
"De cada dez safras de Romanée-Conti, uma realmente vale o preço",
explica o especialista e crítico da revista Gula, Guilherme Rodrigues.
Nos melhores anos, no entanto, não há vinho que se aproxime em termos
de qualidade, intensidade de aromas, elegância, longevidade e paladar como
os rótulos produzidos nos vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti. Todos
os vinhos grand crus da DRC são tratados com o mesmo cuidado. A colheita
é tardia, com o objetivo de obter a maturação perfeita das
uvas, e extrair taninos de alta qualidade. Os cachos nem sempre são desengaçados,
ou seja, os cabos não são retirados em toda colheita. A fermentação,
com maceração, dura um mês, com temperatura controlada que
jamais ultrapassa 33ºC. A bebida envelhece por no mínimo 18 meses
em barris de carvalho francês novo. Os vinhos nunca são filtrados
no engarrafamento. Na constelação de rótulos da DRC também
há lugar para um branco especialíssimo, o Montrachet, da uva chardonnay,
a única variedade branca permitida na região. "É possível
produzir um bom chardonnay em várias partes do mundo", compara De
Villaine. "Mas o chardonnay da Borgonha sempre terá uma frescura,
um caráter e uma sensualidade que é muito difícil encontrar
em outro lugar". Os
vinhos, segundo De Villaine |
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Rótulo | Vinho |
Área (hectares) |
Preço (2004) |
Definição |
 | Echézeaux
| 4,5 | R$
1.350,00 | Frescor |
 | Grands-Echézeaux
| 3,5 | R$
1.980,00 | Sedução |
 | Romanée-Saint-Vivant
| 5,2 | R$
2.980,00 | Elegância |  | Richebourg
| 3,51 | R$
3.180,00 | Riqueza
|  | La
Tâche |
6,06 | R$
3.480,00 | Espiritualidade |
 | Montrachet |
0,67 | R$
8.500,00 | Meditação |
 | Romanée-Conti |
1,8 | R$
10.980,00 | Contemplação |
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