Entrevista: Kevin Mitnick O bandido
virou mocinho  Rosana
Zakabi
| | Monty
Brinton
 |
O
americano Kevin Mitnick ficou conhecido na década de 90 como o primeiro
e o mais famoso hacker da história. Ele entrou para a lista de procurados
do FBI após uma impressionante trajetória de invasões a sites
de empresas e do governo. Em 1995, apanhado em sua casa, foi condenado a cinco
anos de prisão por ter causado prejuízos estimados em 80 milhões
de dólares. Seu histórico é obviamente o de um transgressor.
A diferença de Mitnick para os hackers que andam hoje soltos no ciberespaço
é que o americano nunca colocou um centavo no bolso. Seus golpes eram praticados
pela tentação do desafio.
Mitnick
conseguiu liberdade condicional em 2000 e ficou três anos proibido de se
aproximar de um computador ligado na rede. Também foi proibido de ganhar
dinheiro escrevendo livros ou artigos sobre suas aventuras de hacker até
fevereiro de 2007. Podia apenas escrever ficção e contar proezas
alheias. Nesse período, o ex-hacker lançou dois livros, o best-seller
A Arte de Enganar, no qual descreve técnicas de invasão de
redes com histórias fictícias, e A Arte de Invadir, com histórias
reais de amigos e hackers conhecidos (os dois estão disponíveis
no Brasil). Agora, finalmente, acaba de lançar sua autobiografia. Hoje,
aos 43 anos, o ex-hacker é dono de uma consultoria de segurança
de sistemas, a Mitnick Security Consulting, nos Estados Unidos. De Las Vegas,
onde vive, ele deu a seguinte entrevista a VEJA: Veja
- O senhor foi considerado no passado o hacker mais perigoso do mundo. Hoje,
tornou-se consultor de segurança. Como é estar do outro lado do
jogo? Kevin Mitnick - É uma satisfação muito
grande poder ajudar consumidores, grandes companhias e agências ligadas
ao governo americano a se proteger dos invasores e das fraudes. De certa forma,
é uma maneira de compensar os prejuízos que causei no passado. Invadir
sistemas é uma habilidade que pode ser utilizada tanto para fins criminosos,
como legítimos. A vantagem, agora, é que utilizo essa habilidade
para melhorar a vida das pessoas. Veja
- Como é o seu trabalho? Mitnick - Muitas empresas me
contratam para testar seu sistema e ver até onde um hacker pode chegar.
Faço todos os testes, avalio a estrutura e a organização
da empresa para levantar todas as falhas de segurança e, a partir dessa
análise, ensino a elas como se proteger dos invasores. Veja
- Os hackers de hoje são mais perigosos que os do passado? Mitnick
- De certa maneira, sim. Não porque eles sejam mais competentes que no
passado e sim porque o objetivo da invasão mudou. Nas décadas de
80 e 90, uma pessoa tornava-se hacker por hobby. Eram adolescentes em busca do
desafio intelectual. Agora, com o advento do e-commerce e dos bancos on-line,
o objetivo principal de se tornar hacker é tirar proveito financeiro da
empresa invadida, ou derrubar uma companhia concorrente. Veja
- As estratégias utilizadas pelos hackers estão mais sofisticadas? Mitnick
- Os hackers de hoje estão mais eficientes em manter uma rede de comunicação
entre si. Muitas vezes, eles unem seus conhecimentos e suas habilidades para descobrir
a vulnerabilidade dos sistemas das grandes empresas. É mais rápido
e fácil invadir um sistema em grupo do que sozinho. Veja
- Existe crime organizado na internet? Mitnick - Sim, nos últimos
anos as quadrilhas se multiplicaram na rede. Existem várias subdivisões
dentro de uma mesma organização de hackers. Enquanto um grupo se
concentra na invasão do sistema de computadores, outro se ocupa em obter
mais informações dos funcionários da empresa e da organização.
Uma terceira frente fica encarregada de vender os dados do cartão de crédito
dos clientes dessa companhia no mercado negro, ou informações confidenciais
das empresas para os concorrentes. Sempre há muito dinheiro envolvido. Veja
- Há hackers envolvidos com terrorismo? Mitnick - Não
tenho informações de grupos de hackers que utilizam computadores
para executar ataques terroristas. O que sabemos que é eles usam muito
esse meio para se comunicar entre si, em códigos ou e-mails criptografados,
e para descobrir os planos e atividades dos agentes americanos que caçam
os terroristas. Veja - Hoje
está mais fácil ou mais difícil invadir os sistemas, se comparado
à fase em que o senhor era hacker? Mitnick - Em algumas situações,
está muito mais fácil. Nos últimos anos, a tecnologia contribuiu
para melhorar a segurança dos sistemas. O problema é que a maioria
das empresas ainda não está preparada para se proteger contra o
que eu chamo de engenharia social, ou seja, as estratégias utilizadas pelos
hackers para persuadir pessoas e obter dados confidenciais das empresas. Uma companhia
pode gastar milhares de dólares em tecnologia de segurança, firewalls
e criptografia, mas se o hacker conseguir enganar um funcionário dentro
da empresa, e fizer com que ele lhe passe dados como senhas de acesso e arquivos
internos, todo o dinheiro gasto com a segurança de sistemas será
em vão. E, na maioria das vezes, esse funcionário nem perceberá
que ajudou o hacker a organizar um ataque. Atualmente, a mão-de-obra de
uma empresa é a parte mais vulnerável ao ataque dos hackers.
Veja - Quem são os principais alvos dos hackers numa corporação? Mitnick
- Antigamente eram os CEOs, porque eles detinham as informações
privilegiadas. Mas hoje, com os avanços da tecnologia e a democratização
das informações, até os funcionários numa escala bem
mais baixa guardam dados confidenciais numa pasta do computador. São esses
trabalhadores que os hackers visam. Eles têm acesso a uma grande quantidade
de informação sobre a empresa, como a situação financeira
da companhia, sua lista de clientes e planos de marketing, mas não têm
o conhecimento detalhado do que pode ser uma ameaça à segurança.
Assim, caem nos golpes aplicados pelos hackers mais facilmente. Veja
- Que estratégias os invasores utilizam para enganar esses funcionários? Mitnick
- É comum eles ligarem fingindo ser chefe de um departamento e pedir alguma
informação sigilosa, dizendo que é urgente. Para convencer
o funcionário de que estão falando a verdade, fingem que conhecem
algumas pessoas importantes na empresa e utilizam argumentos que fazem sentido
no dia-a-dia da companhia, como citar algum evento importante que realmente está
para acontecer, ou relatar alguma falha no sistema que ocorre freqüentemente
no cotidiano. Veja - O que
as empresas devem fazer para se proteger desse golpe? Mitnick -
Primeiro, é preciso estender a política de segurança a toda
a empresa, independentemente da posição. É preciso treinar
os funcionários para não se deixar enganar pelos hackers que se
passam por gerentes ou prestadores de serviço, orientando a nunca fornecer
informações confidenciais por telefone ou e-mail, como dados de
acesso ao computador ou a política organizacional da empresa e, após
receber esse tipo de mensagem ou ligação, sempre avisar seus superiores.
Veja - Quais são os
principais erros que as empresas cometem no sistema de segurança de rede? Mitnick
- Um dos maiores erros é subestimar a capacidade dos hackers de invadir
seu sistema. Por não acreditarem que serão alvos de hackers, ou
que os invasores não serão tão eficientes a ponto de causar
estragos, muitas empresas mantém um sistema de segurança básico,
com vários pontos vulneráveis. Entre as principais falhas, estão
o fato de não ter um sistema de back-up no banco de dados, não manter
o sistema operacional atualizado constantemente, demorar para resolver um problema
apontado pelo computador e utilizar senhas de acesso previsíveis. Veja
- Que conselhos o senhor daria para as pessoas protegerem seus computadores? Mitnick
- Manter o firewall ativado evita 80% das invasões. Os ataques mais sofisticados
exploram a vulnerabilidade do navegador dos usuários. Para deixar o browser
mais seguro, é fundamental manter o antivírus atualizado e instalar
no computador um detector de spyware, o programa que se instala no micro sem o
consentimento do usuário e passa a monitorá-lo. Veja
- O computador mais seguro é o que está desligado? Mitnick
- Essa idéia é falsa. O hacker consegue convencer o usuário
a entrar no escritório e ligar aquele computador. Uma única informação
pode ser utilizada de várias maneiras e levar a outras. A arte da fraude
consiste em ter paciência e ser persistente. O hacker sabe que pode conseguir
o que almeja. Tudo é questão de tempo. Veja
- Quais são os principais crimes cometidos na internet? Mitnick
- Os casos de extorsão, em que os hackers ameaçam tirar do ar o
site de uma corporação por um determinado período caso a
companhia não pague uma quantia em dinheiro, estão se tornando muito
comuns. Um golpe que já existe há alguns anos e continua crescendo
é o phishing, ou seja, o envio de mensagens falsas para capturar informações
dos clientes, como números de contas bancárias, cartões de
créditos e as respectivas senhas. Hoje existe phishing até em sites
de relacionamentos e de mensagens instantâneas. Veja
- É seguro utilizar o internet banking em casa? Mitnick
- O serviço de internet banking, por si só, é seguro. O perigo
é a existência de brechas dentro do computador do usuário.
Um hacker consegue roubar dados do usuário a partir da vulnerabilidade
de seu micro e não do serviço de internet banking. Por isso, é
fundamental manter todas as ferramentas de segurança do computador pessoal
ativadas e atualizadas, como o antivírus e o firewall. Veja
- O senhor utiliza os serviços de internet banking? Mitnick
- Sim, porque se eu for vítima de fraude, o banco terá de me reembolsar.
Os riscos, nesse caso, são maiores para o banco e para as operadoras de
cartão de crédito que para o próprio cliente. Veja
- Fazer compras em lojas virtuais é arriscado? Mitnick
- Hoje os riscos são os mesmos que os das lojas do mundo real. Um hacker
raramente vai se concentrar em invadir um computador para tentar roubar o número
de um único cartão de crédito. Isso porque todas as informações
enviadas para um site seguro saem criptografadas do computador do usuário.
Daria um trabalho imenso e levaria muito tempo para decodificá-las. É
claro que é preciso escolher bem a loja on-line que se vai fazer compras,
mas isso também vale para as lojas do mundo real. As grandes lojas, como
Amazon e eBay, costumam ser mais confiáveis, pois mantém um sistema
de segurança eficiente para armazenar os dados financeiros dos clientes.
Veja - Utilizar internet pelo
telefone celular é seguro? Mitnick - Os celulares são
o mais novo alvo dos hackers. Para se ter uma idéia, hoje há spywares
para celular. A boa notícia é que a tecnologia para esses aparelhos
está se aperfeiçoando cada vez mais. Até pouco tempo atrás,
utilizar internet pelo celular era arriscadíssimo, mas os fabricantes estão
se conscientizando de que implantar um sistema de segurança eficiente também
é fundamental para esses equipamentos. Hoje, os riscos de se utilizar internet
pelo celular são praticamente os mesmos que os do PC. Veja
- É verdade que utilizar internet pelo celular ou laptop próximo
aos aeroportos é perigoso, porque os hackers conseguem roubar dados do
sistema com mais facilidade? Mitnick - Os aeroportos hoje são
ambientes propícios para o roubo de dados do computador. Existem quadrilhas
que agem nesses locais apenas com esse propósito. Eles se aproveitam das
brechas no sistema de um notebook que um sujeito está utilizando no lounge
do aeroporto e, utilizando outro laptop, invadem seu sistema. Nesses locais, o
risco é muito grande. Veja
- As pessoas ainda reconhecem o senhor na rua? Mitnick - Algumas
vezes. Costumo ser bastante reconhecido quando utilizo meu notebook em público,
num café, por exemplo. Não sei se é porque as pessoas associam
o computador a mim. Veja - O
senhor se arrepende de ter sido hacker e de ter roubado informações
no passado? Mitnick - Sim, eu era muito imaturo naquele tempo e
reconheço que cometi erros estúpidos. Me considero uma pessoa de
sorte, pois tenho agora uma nova chance de utilizar minhas habilidades com outros
objetivos. Existem hoje muitas formas de aprender sobre as técnicas dos
hackers sem precisar invadir o sistema alheio. Há cursos de segurança
de sistemas nas universidades e escolas especializadas a preços muito mais
acessíveis do que na época em que eu iniciei minhas atividades de
hacker. Veja - Depois que saiu
da prisão, o senhor chegou a conversar com Tsutomu Shimomura, o especialista
em segurança eletrônica que o desmascarou? Mitnick
- Eu nunca falei com ele em toda a minha vida, nem antes nem depois da prisão.
É um sujeito muito arrogante, que se acha mais esperto do que todo mundo.
Não tenho o menor interesse em manter qualquer tipo de relação
com ele. Veja - O que o senhor
dirá em sua autobiografia? Mitnick - Contarei em detalhes
todas as aventuras que eu vivi quando ainda era hacker, o que eu realmente fiz,
por que eu fiz, como foi lidar com os agentes federais americanos, a fuga e a
perseguição no ciberespaço. Muito do que foi dito sobre mim
até hoje, principalmente sobre como foram as invasões, está
incorreto. No livro, vou esclarecer tudo isso. Veja
- Por que o senhor se tornou um hacker? Mitnick - Virei um hacker
não para roubar dinheiro ou tirar vantagem sobre alguma empresa. Era mais
pelo prazer de invadir o site de uma grande companhia ou do governo americano
e não ser pego. Cada vez que eu era bem-sucedido, aumentava o desafio e
os riscos. Era como participar de um jogo on-line em que, ao ganhar, passa-se
para outra fase mais difícil. Veja
- Qual foi a invasão mais desafiadora que o senhor praticou quando era
hacker? Mitnick - Uma das mais desafiadoras foi invadir o sistema
da Motorola, em 1994. Era um dos mais seguros daquele tempo e ninguém conseguia
invadi-lo. Tive de enfrentar vários níveis de segurança até
conseguir entrar, de fato. Veja
- É verdade que os hackers brasileiros são os mais habilidosos
do mundo? Mitnick - Eu não conheço nenhum pessoalmente,
mas sei que os hackers brasileiros têm essa fama. Alguns grupos no Brasil
ficaram conhecidos por modificar a página principal de grandes companhias
em todo o mundo. |