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Entrevista: Jancis Robinson
A mestra dos tintos e brancos
Para a mais respeitada crítica de
vinho do mundo não existe
certo ou errado, mas preferências e sensibilidades diferentes

Paula Neiva
Matt Prince
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| Jancis: "A complexidade do vinho
é uma qualidade. Tanto que o problema dos vinhos baratos
é que são simples demais." |
A inglesa Jancis Robinson, 58 anos, é uma das mais maiores
autoridades de vinho do mundo — o que causa espanto especialmente
por se tratar de um meio em que os homens são imensa
maioria. Filósofa por formação, começou
a se interessar por enologia há cerca de trinta anos,
quando a apreciação da bebida ainda era considerada,
por muitos, uma frivolidade. Jancis foi a primeira especialista
fora do círculo de vinicultores a receber, em 1984, o
título de Master of Wine, o respeitado e exigente
teste de qualificação que avalia o conhecimento
teórico e prático sobre vinhos. É autora
de livros importantes, entre eles o The World Atlas of Wine,
em parceria com o crítico Hugh Johnson (leia
entrevista), com tradução prevista
para novembro deste ano pela Nova Fronteira. Jancis mantém,
ainda, desde 1989, uma coluna sobre o tema no jornal londrino
Financial Times e atualizações freqüentes
em seu site.
Como palestrante, percorre o mundo, convidada para degustações
e avaliações de rótulos. "O vinho está
na moda, é símbolo de status, cultura e sofisticação", diz.
Por seu rigor técnico, foi escolhida consultora oficial da adega
do Palácio de Buckingham, em Londres, onde vive a rainha Elizabeth
II. Jancis Robinson falou com a repórter Paula Neiva, com exclusividade
para a VEJA.com, sobre a adega da rainha, o debate que teve
com o megacrítico Robert Parker, e ainda analisa as conseqüências
das mudanças climáticas nos vinhedos e conta o que achou dos
vinhos nacionais que provou.
Veja - A
nova edição do Atlas Mundial do Vinho está
prevista para ser lançada no Brasil ainda este ano. Quais
são as novidades?
Jancis – A questão
das mudanças climáticas agora está presente
em praticamente todas as páginas da nova edição.
Afinal, o clima fez com que a Alemanha produzisse vinhos secos
mais maduros e o Canadá elaborasse bons tintos. Já
a Austrália sofre uma terrível seca. A nova edição,
que, por sinal, é a maior edição de todos
os tempos, dá mais atenção a regiões
como a América do Sul e a Califórnia e traz novos
mapas da Espanha, Austrália, Nova Zelândia, África
do Sul e Grécia, entre outros.
Veja
- A senhora é consultora da adega da rainha Elizabeth
II, da Inglaterra. Qual o vinho preferido de sua majestade?
Jancis – Nunca fiz essa pergunta a ela. A julgar pela adega
do palácio de Buckingham, seu gosto é bem tradicional.
Os vinhos mais representativos são bordeaux tintos, como
Château Léoville Barton e Château Lynch-Bages.
Há também muitas garrafas de borgonhas brancos
e champanhe. Muito champagne.
Veja
– Que marcas de champagne?
Jancis – No casamento do príncipe Charles
com Camilla Parker Bowels, a adega estava lotada de garrafas
de champagne Pol Roger.
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"O
aquecimento global ainda não causou problemas a Bordeaux,
apesar de deixar as safras mais previsíveis, mas acredito
que, em poucos anos, o calor
irá castigar algumas safras de lá."
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Veja – Não é
um champagne de primeiríssima linha, como seria de se
esperar num casamento real...
Jancis – A família real não
gasta muito nas recepções que oferece, para evitar
críticas de que está desperdiçando dinheiro.
Nas recepções maiores, para até 300 pessoas,
costuma-se servir vinhos em torno de 6 libras por garrafa, como
um tinto da Côtes du Rhône,
da França, ou um sauvignon blanc da Nova Zelândia.
Veja - Quais países
com tradição recente na produção
vinícola já têm vinhos de boa qualidade?
Jancis - A Áustria
e a Grécia evoluíram muito nos últimos
dez anos e conseguiram mudar de imagem no mercado internacional.
Os vinhos brancos austríacos ganharam fãs no mundo
inteiro e os tintos já começam a fazer história.
A Austrália já exporta mais vinho para a Inglaterra
do que a França. Já a Nova Zelândia, apesar
da produção restrita, apresenta bons sauvignon
blancs e pinot noirs, enquanto os da África do Sul têm
uma das melhores relações custo-benefício
do mundo. Também vale a pena citar a Alemanha, que já
fazia ótimos vinhos, mas promoveu uma verdadeira revolução
em estilo e qualidade, especialmente no que se refere aos brancos
secos. No caso da Alemanha, boa parte dessa evolução
se deve ao aquecimento global.
Veja - Os produtores
tradicionais, porém, estão preocupados com as
mudanças climáticas...
Jancis – É
verdade. Já houve prejuízos em 2003, quando uma
onda de calor intenso invadiu a Europa. Os vinhos franceses
da Borgonha, por exemplo, que usam uvas sensíveis
ao calor, sofreram muito. O aquecimento global ainda não
causou problemas a Bordeaux, apesar de deixar as safras mais
previsíveis, mas acredito que, em poucos anos, o calor
irá castigar algumas safras de lá. Em contrapartida,
é possível que o aquecimento global produza vinhos
brancos mais atraentes em determinadas localidades. Também
veremos mais produtos que substituem uvas conhecidas, como cabernet
sauvignon e chardonnay, por variedades com características
locais.
Veja - O
aumento da temperatura poderá inviabilizar a produção
de alguns vinhos?
Jancis –
Sim, é possível. Mas por outro lado essas mudanças
podem melhorar as safras em outras áreas do mundo. Além
da Alemanha, as regiões mais beneficiadas seriam a Califórnia
e o Chile, pois se as temperaturas no interior do continente
continuarem a subir, o clima na costa do Pacífico tende
a ficar mais fresco. Com isso, os vinhos poderiam melhorar.
Veja - Quais países
têm chances de entrar para a lista dos bons produtores
nos próximos anos?
Jancis – Minha aposta são países do
leste europeu, como Eslovênia e Hungria, além de
Uruguai e México. E, é claro, a China, que já
tem a sexta maior indústria de vinhos do mundo.
Veja -
O interesse pelo vinho aumentou vertiginosamente em países
sem grande tradição em seu consumo, como o Brasil.
Por que isso aconteceu?
Jancis – Quando saí
de Universidade Oxford, em 1971, não ousava dizer que
me interessava por vinho e comida, pois esses eram temas considerados
demasiadamente frívolos. Isso mudou radicalmente. O vinho
está na moda e, além disso, passou a ser um símbolo
de status, cultura e sofisticação.
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"Os
espumantes (brasileiros), de maneira geral, são bem-feitos,
com bolhas pequenas e persistentes, embora sem muita complexidade."
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Veja – O que a senhora
acha dos vinhos brasileiros?
Jancis – Há cerca de cinco anos, quando visitei
pela primeira vez o Brasil, provei vinhos do Vale do São
Francisco, que me surpreenderam positivamente, considerando
que essa é uma região quente e que oferece mais
de uma colheita por ano. Já tinha provado outros vinhos
brasileiros e lembro que alguns deles tinham gosto ralo e, em
outros, a fruta parecia dominada pelo gosto do carvalho, o que
não é bom. Em degustações mais recentes
de vinhos brasileiros, essa percepção ocorreu
com menor freqüência. No ano passado,
minha assistente degustou um Salton Talento 2004 e alguns
brancos da Villa Francioni que lhe deixaram uma ótima
impressão.
Veja – O que melhorou
nos vinhos brasileiros?
Jancis – A fruta está mais apropriada e o
aroma melhorou. Ainda assim, o gosto não permanece muito
tempo na boca. Talvez por alguns serem muito jovens ou provenientes
de regiões úmidas. Provei apenas três vinhos
brancos. O Villa Francioni sauvignon blanc 2006 é muito
bom. O Casa Valduga gewurztraminer 2007 e o Cavallieri chadornnay
2006 também são bons. Embora não sejam
excepcionais, têm cor e sabor característicos da
fruta. Os espumantes, de maneira geral, são bem-feitos,
com bolhas pequenas e persistentes, embora sem muita complexidade.
Veja -
O que a senhora acha do vinho português?
Jancis – Sou uma grande partidária dos
vinhos portugueses. Eles têm características muito
peculiares, graças às uvas características
do país, como a touriga nacional. Graças à
proximidade das regiões vinícolas portuguesas
com o oceano Atlântico, os vinhos têm bons níveis
de acidez e de taninos e não são muito doces.
Veja - Alguns críticos
dizem que os vinhos hoje têm tantos aromas e sabores –
ou "notas", como se diz no jargão – numa única
garrafa que fica difícil combiná-los com pratos
elaborados. A senhora concorda?
Jancis – Não. Acho que a complexidade do vinho é
uma qualidade. Tanto que o problema dos vinhos baratos é
que são simples demais. Talvez o que esteja acontecendo
seja um exagero na busca de uma combinação perfeita.
A imperfeição, nesse caso, também pode
trazer prazer à mesa.
Veja – Não há
um pouco de exagero em apontar incontáveis aromas e gostos
num vinho?
Jancis – Existe um certo exagero, sim. Eu mesma não
costumo incluir uma lista longa de aromas em minhas análises.
Primeiro, porque acho que as pessoas podem ter percepções
diferentes sobre um mesmo vinho. Depois, porque acredito que
seja completamente inútil esse tipo de informação.
Afinal, ninguém vai acordar um dia, dizendo que está
com vontade de beber um vinho com gosto de mel e pétalas
de rosa.
Veja – Vale
a pena pagar inacreditáveis 8 000
reais por uma garrafa de um rótulo famoso?
Jancis – Assim como com acontece com as antigüidades
e as peças de arte, não há como justificar
racionalmente um preço desses. Claro que esse valor não
significa que o vinho oferecerá 100 vezes mais prazer
que um de 80.
Veja – Uma garrafa dessas
vende mais pelo status que o rótulo oferece do que pelo
vinho em si?
Jancis – Exatamente.
Veja – Hoje o vinho se
tornou um investimento. Muita gente compra garrafas para revendê-las
daqui a 20 ou 30 anos. Quais rótulos darão lucro
no futuro?
Jancis – Embora seja colunista de um jornal especializado
em finanças, o Financial
Times, tenho que admitir que não me interesso muito
pelo viés econômico do vinho. Para minha insatisfação,
porém, vejo que esse tópico se tornou muito importante,
já que o preço dos vinhos mais renomados não
pára de subir. Hoje existem até fundos de investimento
especializados em vinhos. Diria que os tintos de Bordeaux de
primeira linha, de safras como as de 2005, 2004, 2000 e alguns
de 2001 são boas opções.
Veja – Os críticos
de vinho costumam ser homens. O fato de ser mulher a atrapalha
na profissão?
Jancis – Está provado que o paladar feminino é
mais sensível que o do homem. A diferença entre
eles e nós é que não costumamos alardear
nossas opiniões. Ainda hoje, apesar de ser respeitada,
tenho que trabalhar um pouco mais duro que eles para desfazer
a mentalidade de vestiário masculino de clube que existe
no meio dos vinhos. Para os homens, existe uma correspondência
entre o mundo do vinho e o esportivo. A sociedade espera que
o homem entenda de vinho e isso acaba por pressioná-lo,
modificando a relação que ele tem com a bebida.
Eles são competitivos, gostam de se gabar por terem provado
um determinado vinho que obteve nota máxima ou precisam
mostrar que sabem mais que o outro. Acho as mulheres mais relaxadas
nesse sentido, mais focadas em sentir o prazer que a bebida
proporciona. Essa pode ser a razão que leva algumas pessoas
a pensar que os vinhos de que eu gosto não são
tão concentrados ou fortes.
Veja – O que
a senhora acha da substituição da tradicional
rolha de cortiça pela tampa de rosca (screw
cap)?
Jancis – A tampa de rosca é prática, mas
nada charmosa. Custo a acreditar que esse seja o limite em termos
de design. Acho que a tampa de rosca influencia, sim, o gosto.
Pode até melhorar a qualidade de alguns vinhos brancos,
tornando-os mais precisos, frutados e frescos. Mas não
se provou ainda se podem ser usadas em tintos para envelhecimento.
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"Não
existe certo e errado na apreciação de um vinho. Todos
têm preferências individuais e sensibilidades diferentes."
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Veja - Para quem não
é especialista em vinho, quais as regras básicas
para não levar gato por lebre?
Jancis – A lógica
é a mesma de uma livraria: encontre um bom vendedor e
explique o seu gosto. Aliás, há muitos paralelos
entre livros e vinhos. Para ambos, o autor, a empresa que o
produz e a propaganda boca-a-boca contam muito. Além,
claro, do gosto de cada um.
Veja - A assinatura
de uma vinícola no rótulo é um indicativo
da qualidade do vinho?
Jancis – É o fator número um. Os melhores
produtores se desfazem do estoque quando acreditam que o vinho
não saiu à altura do nome da vinícola.
Veja – Há quatro
anos, a senhora deu uma nota baixíssima a um vinho bem
avaliado por outro crítico respeitado — e controverso
— , o americano Robert Parker. Afinal, chegou-se à conclusão
de quem estava certo?
Jancis – A verdade é que não existe
certo e errado na apreciação de um vinho. Todos
têm preferências individuais e sensibilidades diferentes.
Portanto, uma discordância não surpreende, principalmente
quando se trata de um Chatêau Pavie 2003, que levou ao
extremo sua maturidade e o nível de tanino. Recentemente,
voltei a prová-lo e mantive minha opinião. Tenho
certeza de que Parker manteve a dele.
Veja - O que significa
o fato de dois juízes respeitados terem opiniões
opostas sobre o mesmo vinho?
Jancis – Que a análise de vinho é
pessoal. Por isso, acho que reduzir um vinho a uma nota é
tolo, ilusório. Vou dar um exemplo. Um júri profissional
como o Grand Jury European que, como se sabe no meio ,
é mais favorável a vinhos modernos, divulgou um
ranking onde o Château Pavie 2003 estava mal colocado.
O mesmo vinho, ao ser avaliado por um grupo de profissionais
ingleses, ficou numa posição intermediária.
Veja - Se a senhora pudesse
eleger apenas um grande vinho, qual seria ele?
Jancis – Um vinho madeira Cossart Bual da safra
de 1908 (U$ 824,00 no site Peter
Wylie Fine Wines) seria uma ótima opção.
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