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Entrevista: Hugh Johnson
O anticrítico

O autor do clássico A História do Vinho fala sobre
o prazer de beber, as novas regiões vinícolas, e coloca
em dúvida a opinião do crítico americano Robert Parker


Roberto Gerosa

Divulgação
Hugh Johnson em seu habitat natural e sua autobiografia: "Sou um impressionista"

O escritor inglês Hugh Johnson publicou seu primeiro livro sobre vinho em 1966. De lá para cá, firmou-se como um dos autores mais respeitados do meio. Títulos como A História do Vinho, o Atlas Mundial e do Guia de Bolso foram traduzidos em todo o mundo e são obrigatórios na biblioteca de todo apreciador da bebida. Em seu último livro, A Life Uncorked, ainda sem tradução no Brasil, Johnson conduz seus leitores por uma viagem em torno da bebida nos últimos 40 anos, tendo como pano de fundo os rótulos que mantêm em sua adega, na mansão de Essex, na Inglaterra, onde vive com a mulher, Judy. Ali, estão catalogados e armazenados seus tesouros líquidos prediletos — tintos de Bordeaux, brancos alemães da uva riesling e grandes champanhes franceses, "a mais palpável contribuição da França para a felicidade humana".

Hugh Johnson não aceita o papel de crítico. Seu estilo destoa da corrente que domina o cenário atual, aquela que classifica os vinhos com notas, e tem como expoentes máximos o americano Robert Parker e a revista Wine Spectator. "Eu observo as virtudes de cada vinho e os aprecio pelo o que eles são", explica "Sou um impressionista." Mas Johnson teme o poder sobre os consumidores destes especialistas, a quem chama de absolutistas. "A palavra final e a influência destes poderosíssimos über-críticos, como Parker, representam um perigo para a diversidade do mundo do vinho", alerta.

Colunista da revista especializada inglesa Decanter, considerada a bíblia dos enófilos, Johnson trata com clareza um tema que, segundo o filósofo Pierre Boisset, é algo ao mesmo tempo mais simples do que as pessoas falam e mais complexo do que pensam. "Para apreciar um vinho não é necessário devorar uma enciclopédia, mas é preciso prestar atenção. E praticar", ensina. Johnson continua aprendendo — e principalmente praticando. Bebe, mais do que prova, cerca de 2.000 vinhos por ano, nenhum brasileiro, até agora. "Mas sei que é apenas a ponta o iceberg." E continua percorrendo os principais vinhedos ao redor do mundo todos os anos. Entre uma viagem e outra, o autor inglês concedeu a seguinte entrevista, por e-mail, a VEJA.com.

"Meus vinhos favoritos alteraram pouco. Eu sou capaz de apreciar novas criaηυes sem necessariamente substituir as antigas paixυes."

Veja — Por que é bom beber vinho?
Hugh Johnson — É bom para o espírito, fantástico no paladar, me desperta e me ajuda a dormir. E ainda me faz ver, e entender, o lado positivo da vida.

Veja — O senhor escreve sobre tintos, brancos e espumantes há mais de 40 anos, um período de profundas transformações neste negócio. Sua preferência também sofreu alguma mudança?
Hugh Johnson — Provavelmente mudei mais lentamente, e com maior relutância, do que a maioria dos jornalistas. Meus vinhos favoritos alteraram, surpreendentemente, pouco. Eu sou capaz de apreciar novas criações sem necessariamente substituir as antigas paixões. No fundo do coração, sou um conservador...

Veja — Há algo que o senhor ainda não conheça sobre o tema?
Hugh Johnson — O assunto é inesgotável. Todo ano são lançadas novas safras, com diferentes características. E as safras antigas se desenvolvem e se alteram com o tempo.

Veja — Além de escritor, o senhor também foi produtor e consultor, em 1986, do mítico Château Latour, em Bordeaux, na França. Qual trabalho é o mais difícil, o do escritor ou o do produtor?
Hugh Johnson — O último. Para um escritor, o aprendizado é opcional; para o produtor, é essencial. Mas eu nunca fui mais do que um amador entre tantos profissionais – que, como em todo gênero humano, estão divididos entre os perfeccionistas e os cínicos.

Veja — Entre os países produtores que surgiram nos últimos anos, qual foi o que mais lhe surpreendeu?
Hugh Johnson — São vários. A Nova Zelândia é um caso exemplar, saiu do nada para algo muito próximo do topo de qualidade. A Grécia também surpreendeu a todos nós. Alguns bons vinhos estão surgindo em regiões da América Latina, que eu nunca visitei. O Uruguai é um bom exemplo. Ou seja, nacionalidade não é mais uma barreira; o que importa é o terreno e comprometimento com a qualidade.

Veja — Os vinhos chilenos e argentinos são muito apreciados e consumidos no Brasil. Qual sua opinião sobre eles?
Hugh Johnson — Eu descobri o vinho chileno na década de 1970 e acompanho seu desenvolvimento com grande prazer. A Argentina começou seu processo de modernização mais tarde, mas tem feito progressos incríveis. Mas eu não pagaria o valor que eles cobram por seus rótulos de topo de linha.

Veja — Quais são as principais diferenças entre os vinhos produzidos no Novo e no Velho Mundo?
Hugh Johnson — De modo geral, no Velho Mundo as uvas amadurecem vagarosamente. No Novo Mundo, o processo é mais acelerado. Resultado: nos vinhedos do Velho Mundo se produz as bebidas mais elegantes.

Veja — Mas o senhor concorda que, hoje em dia, até por conta dos rótulos destes novos países, os vinhos de qualidade estão mais acessíveis do que há 10 ou 20 anos?
Hugh Johnson — Certamente. Apesar de não ser correto afirmar, como alguns escritores insistem, de que é difícil encontrar vinho ruim à venda.

Veja — Dá para prever qual será a próxima moda do mercado?
Hugh Johnson — Modas surgem, com freqüência, como uma reação a uma tendência predominante. Talvez surja uma reação aos vinhos de mesa muito doces, alcoólicos e superconcentrados, que predominam hoje em dia. As vinícolas, acredito, devem produzir menos varietais também (vinhos de uma só variedade de uva).

Veja — O senhor costuma dizer que somente pontos exclusivos da terra são capazes de dar ao vinho o reconhecimento do lugar e caráter consistente, aquilo que os especialistas chamam de terroir. Este conceito, de origem francesa, vem sendo usado de uma maneira errada por produtores do Novo Mundo?
Hugh Johnson — Agradeço a Deus que novas regiões vinícolas tenham despertado para o conceito de terroir e estejam procurando extrair o melhor de cada lugar e selecionando, com seriedade, as uvas mais adequadas. Pode-se até chamar estes lugares de terroirs, se preferir, mas a palavra sempre terá um sabor e uma identidade francesa muito particular.

"Eu não ofereço uma crítica do vinho pelo vinho, observo as virtudes de cada rótulo e os aprecio pelo que eles são. Eu sou um impressionista."

Veja — Olhar, cheirar, girar a taça, provar e depois cuspir a bebida faz parte do ritual de uma degustação profissional. Há algum prazer em beber vinho sem engolir?
Hugh Johnson — O prazer, talvez, seja mais intelectual do que físico, mas é assim que os padrões são estabelecidos. Pode parecer grotesco para um amador, mas todo trabalho especializado soa tolo para que não é do ramo.

Veja — O senhor classificou o crítico americano Robert Parker de ditador do gosto e mostrou que sua influência é perigosa para a diversidade dos vinhos em todo o mundo. Por que o senhor acha isso?
Hugh Johnson — Eu fiquei alarmado ao ler, em sua biografia, que as provas de Robert Parker não eram às cegas, ou seja, ele sabe o rótulo que está avaliando. Na minha opinião, este tipo de julgamento instantâneo tem um valor limitado. A palavra final e a influência destes poderosíssimos "über-críticos", como Parker, representam um perigo para a diversidade do mundo do vinho que dispensa maiores explicações. Eu, ao contrário, não ofereço uma crítica do vinho pelo vinho, observo as virtudes de cada rótulo e os aprecio pelo que eles são. Eu sou um impressionista – e, espero, alguém que ajude os leitores a fazer suas escolhas.

Veja — Qual a melhor maneira a harmonizar comida e vinho e por que as pessoas têm tanta dificuldade na combinação?
Hugh Johnson — As pessoas têm dificuldade? Bom, experimentar e arriscar é a melhor resposta. Não há problema. Mesmo a pior combinação de um vinho com um prato jamais será uma ameaça à vida.

Veja — Para apreciar um bom vinho é necessário seguir todas as regras, ou seja, beber na taça adequada, na temperatura apropriada e ainda decantar a bebida antes?
Hugh Johnson — Para bons vinhos, a taça correta é necessária. Temperatura adequada é essencial; já o uso do decânter (jarra onde o vinho é colocado para respirar e decantar seus resíduos antes de ser consumido) é opcional. Para um vinho do dia-a-dia não é preciso seguir tantas regras.

Veja — É importante reconhecer aqueles aromas todos de frutas, flores e mesmo de animais que os especialistas listam em suas avaliações?
Hugh Johnson — A descrição dos aromas talvez não seja algo essencial, mas é natural, em qualquer assunto, que grupos com interesse em comum compartilhem estas sensações e discutam entre si.

Veja — Qual sua opinião sobre as tampas de rosca (screw cap), em substituição às tradicionais rolhas de cortiça?
Hugh Johnson — 95% de todos os vinhos produzidos poderiam usar tampas de rosca sem qualquer prejuízo na qualidade da bebida. A grande discussão é sobre os vinhos mais finos. É preciso experimentar e aguardar o que acontece com o passar dos anos.

Veja — O senhor acha razoável pagar tanto dinheiro pelo prazer de beber rótulos de safras excepcionais, como alguns Bordeaux, Borgonhas e Champanhes que alcançam cifras milionárias nos leilões e lojas especializadas?
Hugh Johnson — Érazoável se valer a pena. O homem que souber a resposta é capaz de bancar qualquer coisa sobre a terra. Sempre haverá, no entanto, ganhos e perdas.

Veja — Como saber o momento certo de abrir aquela garrafa especial, guardada na adega?
Hugh Johnson — Vinho, naturalmente, é para ser aberto. A questão é quando. É insano pagar tão caro por garrafas excepcionais e bebê-las antes de mostrar seu melhor potencial. Paciência pode não estar na ordem do dia, mas para apreciar safras especiais é uma qualidade indispensável.

Veja — Se o mundo fosse acabar hoje, qual garrafa o senhor abriria para brindar junto a sua esposa, Judy, uma vida dedicada ao vinho?
Hugh Johnson — Seria uma das minhas raras garrafas de antigo Tokay (um branco doce da Hungria). Ele tem todas as qualidades que fazem que o vinho seja um assunto tão rico: profundidade, intensidade de sabor, vitalidade, singularidade e história.

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