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Entrevista: Felipe
Massa
Retorno ao pódio
Desde a morte de Ayrton Senna, em
1994, o Brasil não tinha
um piloto com reais chances de brigar por um título da Fórmula
1.
Agora, a oportunidade está nas mãos de Felipe Massa.

Vanessa Vieira
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Lailson Santos

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"Não dou a mínima para as comparações com Senna. Comparar
pilotos de épocas diferentes é o mesmo que comparar jogadores
de hoje com os da época do Pelé. Não tem nada a ver." |
Fazia tempo que os torcedores brasileiros
não tinham um piloto competitivo na Fórmula 1. O último brasileiro
a sagrar-se campeão no esporte foi Ayrton Senna, em 1991. Desde
que Felipe Massa passou a integrar a Ferrari, em 2006, essa
história começou a mudar. Naquele ano, ele venceu os grandes
prêmios de Istambul e Interlagos e terminou a temporada em terceiro
lugar. Menos de dois anos depois, Felipe, de 27 anos, já é um
dos favoritos ao título em uma das temporadas mais disputadas
da F1, em que três outros pilotos têm chances de ganhar o campeonato.
Numa passagem por São Paulo, o piloto, que vive em Mônaco, concedeu
a VEJA.com a seguinte entrevista.
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"Até
hoje uso a mesma cueca nas corridas, desde aquela época
que ganhei o GP do Brasil. É a mesma, coitadinha
da cueca. Já perdeu até as pregas do lado.
Aquela cueca é a número 1. Está até
escrito nela: BR 1. Mas eu lavo."
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Veja
– O que você
espera desta temporada? Acha que este pode ser o seu ano?
Massa – Espero dar seqüência ao meu trabalho
e, se tudo der certo, que ele me leve à realização
do meu sonho de me tornar campeão de Fórmula 1.
Mas não adianta fazer planos. Tenho que focar sempre
na próxima corrida. Esse é o caminho, não
tem outro.
Veja – Rubinho (Rubens
Barrichello) sofria com o estresse gerado pela expectativa do
público de que ele fosse um substituto do Ayrton Senna.
As inevitáveis comparações com Senna também
te assustam?
Massa – Simplesmente, não ligo. Aliás,
não dou a mínima para qualquer comparação
do gênero. Comparar pilotos de épocas diferentes
é o mesmo que comparar jogadores de hoje com os da época
do Pelé. Não tem nada a ver. Também já
estou acostumado a lidar com a expectativa das pessoas. Até
porque eu tenho de lidar duplamente com a expectativa. Corro
para uma equipe italiana que é alvo uma pressão
muito forte. Na Itália, se a Ferrari ganha, está
apenas fazendo a obrigação. Se perde, é
motivo para te atirarem pedras. Por outro lado, sou brasileiro,
e também tenho a cobrança do Brasil, que me apóia,
mas que quer um piloto com chances de vencer, um piloto campeão.
Acho que isso faz parte do jogo e acho que consigo me sair bem,
até porque já sofri muitas pressões depois
de um resultado ruim e consegui ganhar uma corrida na semana
seguinte, depois de duas semanas só sofrendo críticas.
Veja – Como é
ser o primeiro piloto brasileiro, desde Ayrton Senna, a ter
condições reais de ser campeão de Fórmula
1?
Massa – Acho que não é bem assim. Não
podemos esquecer as possibilidades que o Rubinho teve de ganhar
e brigar pelo campeonato. Correu seis anos na Ferrari e foi
duas vezes vice-campeão mundial. Às vezes as pessoas
se esquecem do que ele fez. Para ser campeão, é
preciso ter tudo a favor: ser o mais rápido, ser constante
– fazendo pontos em todas as corridas – e ter a sorte de estar
no lugar certo na hora certa. Se faltar um, talvez você
não seja campeão.
Veja – No começo
da temporada, quando você ainda não havia pontuado,
a imprensa internacional dava como certo que você deixaria
a Ferrari, depois da saída de Jean Todt do posto de diretor-executivo
da escuderia. Chegou a ficar preocupado?
Massa – Não porque eu praticamente havia acabado
de renovar meu contrato com a Ferrari até o fim de 2010.
Além disso, eu sabia qual era o meu trabalho dentro da
equipe e o que equipe pensava de mim. Sabia que numa semana
poderia ser motivo de críticas, mas que na outra poderia
vencer e acabar com isso, que foi o que aconteceu. Além
disso, a Ferrari não contrata um piloto porque ele é
amigo, porque o piloto é filho do presidente da empresa.
Ela contrata porque acredita que ele tem capacidade de trazer
resultados para a equipe – que é o objetivo final dela.
Não fui contratado porque era bonzinho, gente boa, nem
porque conhecia o Jean Todt, ou porque o filho dele é
meu manager. Fui chamado porque demonstrei ter potencial de
crescimento e de brigar por vitórias, que foi o que realmente
aconteceu. Em dois anos de Ferrari, ganhei sete corridas, fiz
12 pole positions, já briguei pelo campeonato. Isso mostra
que não estou lá porque conheço alguém,
mas porque tenho condições de estar numa Ferrari.
Acho que com tudo o que aconteceu, as pessoas finalmente enxergaram
meu potencial.
Veja – Nesta fase de
críticas, do começo do ano, Michael Schumacher
o defendeu publicamente. Como é sua relação
com ele?
Massa – Sempre o tive como um professor. Entrei novo
na Ferrari, com uma experiência bem menor e me espelhei
nele. Sempre tentei tirar o máximo, aprender o máximo
sobre o jeito como ele trabalha sendo um líder dentro
da equipe. Mesmo quando ele não me falava nada, eu estava
observando o que ele fazia, volta a volta. Tudo isso me fez
crescer bastante. Me ajudou a ter uma evolução
muito rápida tanto como piloto quanto na parte técnica.
Além disso, temos uma amizade. Sempre nos falamos por
telefone. No ano passado ele veio participar da minha corrida
de Kart em Florianópolis. Às vezes nos encontramos
na Europa para jogar futebol.
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"Não
sinto medo de morrer nas pistas. No dia em que tiver medo
de pilotar por medo de sofrer um acidente, não
vou conseguir tirar o máximo do carro, não
vou conseguir andar no limite e ser eficiente."
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Veja – Atualmente, dentro
da Ferrari, existe um segundo piloto? É uma situação
tensa em relação ao Kimi (Raikkonen, companheiro
de escuderia) ou ele aceita bem o equilíbrio entre vocês?
Massa – Hoje em dia a Ferrari tem um modo de trabalhar
totalmente voltado aos dois pilotos. Com os dois pilotos com
condições iguais, andando juntos, fica difícil
apontar aquele que terá mais chance. Eu e o Kimi estamos
disputando um com o outro cada corrida, estamos separados no
campeonato por um ponto. A equipe trabalha voltada aos dois
pilotos e até usa essa rivalidade para crescer e melhorar
como equipe. É claro que eu quero ganhar, assim como
ele, mas prevalece o respeito pela equipe. Até porque
se a gente começar a brigar, pode jogar muitos pontos
fora e até perder o campeonato. No ano passado, os pilotos
da McLaren se dividiram e acabaram perdendo o campeonato. Para
mim, a situação na Ferrari é ideal: sou
100% respeitado dentro da equipe, e sinto que a empresa está
fazendo de tudo para me ajudar, assim como para ajudar o Kimi.
Veja – Quem é
o seu rival nesta temporada: Lewis Hamilton, Raikkonen ou Robert
Kubica?
Massa – Profissionalmente, eu diria que os três
estão no mesmo nível. Neste momento, não
dá para dizer quem é meu principal adversário,
porque o campeonato está embolado como há muito
tempo não ficava. No plano pessoal, me identifico mais
com o Kubica. Ele é um cara legal, aberto, e neste ponto
acho que se parece comigo.
Veja – Há espaço
para a camaradagem na Fórmula 1? Você tem amigos
entre os pilotos?
Massa – Tenho vários amigos, como o Rubinho,
o Schumacher e... é, não tem muitos assim. Mas
tenho boas relações, não tenho problemas
com nenhum piloto. Mas acho que amizade, são poucos.
Amizade é uma palavra muito forte para descrever essa
boa relação. Apesar de a gente correr junto, a
gente se vê muito pouco. Num treino, você trabalha
ali o dia todo, mas não encontra os outros pilotos. Só
na pista. E até num fim de semana de corrida, você
vê os pilotos uma ou duas vezes, no fim de semana inteiro.
Vê de longe. Não tem essa coisa de ficar todo mundo
junto. O resto do tempo, cada um está focado na sua equipe
trabalhando.
Veja – Qual é
relação que um piloto profissional tem com a velocidade?
Você ainda sente a adrenalina ou já se acostumou?
Massa – A adrenalina faz parte do meu trabalho. Não
é que eu sinta medo. Cada vez que você entra na
pista, você sabe o que está fazendo e está
extremamente confortável no carro. A velocidade não
assusta. O que dispara a adrenalina é entrar numa classificação
e querer fazer aquela volta perfeita. É você se
concentrar 100% e tirar tudo do carro. Chegar ao limite, nem
mais nem menos. Isso te dá emoção. Uma
corrida como a de Mônaco, na chuva, é adrenalina
a cada volta. Qualquer fração de segundo que você
errar, frear um pouquinho antes ou depois numa poça,
é motivo para você bater e jogar pontos importantes
no lixo. Não sinto medo de morrer nas pistas. No dia
em que tiver medo de pilotar por medo de sofrer um acidente,
não vou conseguir tirar o máximo do carro, não
vou conseguir andar no limite e ser eficiente.
Veja – Você é
ansioso? Chega a perder o sono antes de uma corrida?
Massa – Não. Posso até perder um pouco
o sono de quinta para sexta, por vontade de iniciar logo o treino.
Minha ansiedade é para começar logo a trabalhar.
Mas não lembro de não ter dormido de um sábado
para domingo por causa de uma corrida. O que acontece comigo
é que fico tão focado na véspera, que muitas
vezes minha mulher está falando comigo e eu não
estou escutando o que ela diz, estou pensando em outra coisa.
Às vezes eu até respondo, mas no automático,
sem prestar atenção.
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"No
GP do Bahrein, eu fiz a classificação inteira
com a música da Ivete Sangalo na minha cabeça:
‘Poeira, poeira...’ Eu não queria estar com aquela
música na minha cabeça, mas ela não
saía. São coisas extremamente estranhas
que passam na cabeça de um piloto."
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Veja – E quando
está no carro, dá para pensar em outras coisas
que não a corrida?
Massa – Uma vez, quando eu estava vencendo a corrida
no Brasil, tinha vantagem bem ampla em relação
a quem vinha atrás. Nessas situações é
quando você tem mais chances de perder a atenção,
porque você está guiando fácil. Às
vezes eu passava pela reta e me distraía olhando para
a arquibancada. Aí eu me lembrava e dizia: "não,
não posso desviar meu foco". Porque eu poderia errar.
Você pode perder a concentração pensando
em coisas estúpidas. No GP do Bahrein, eu fiz a classificação
inteira com a música da Ivete Sangalo na minha cabeça:
"Poeira, poeira..." Eu não queria estar com
aquela música na minha cabeça, mas ela não
saía. São coisas extremamente estranhas que passam
na cabeça de um piloto.
Veja – Em 2007, você
repetia na corrida a mesma cueca com que foi bem no treino para
dar sorte...
Massa – Até hoje uso a mesma cueca nas corridas,
desde aquela época que ganhei o GP do Brasil. É
a mesma, coitadinha da cueca. Já perdeu até as
pregas do lado. Aquela cueca é a número 1. Está
até escrito nela: BR 1. Mas eu lavo.
Veja – E que outras superstições
você tem?
Massa – Tenho várias. Sempre entro no carro
pelo lado esquerdo. A luva e a sapatilha de corrida eu coloco
sempre a peça do lado direito antes. Tenho uma calça
jeans da sorte e um tênis que uso sempre. Se um dia deu
tudo certinho, e fiquei em primeiro, tento lembrar tudo que
fiz naquele dia para fazer igual. Por exemplo, acordar e sair
da cama com o pé direito. Vou para o banheiro e me pergunto
por que lado eu tinha começado a escovar o dente. Comecei
pelo lado direito? Então tento começar igual.
Mas não me desgasta. É automático.
Veja – É verdade
que você fazia bicos no autódromo de Interlagos
para ficar mais próximo dos pilotos?
Massa – Estreei na Fórmula 1 em 2002. Em 2001,
no ano anterior, trabalhei como piloto do carro de intervenção
no Grande Prêmio do Brasil. Ficava numa curva da pista
com três médicos para atender as emergências.
Em 1999, trabalhei como entregador de comida. O empresário
que me ajudava na época, tem restaurantes em São
Paulo e forneceu a comida da equipe Bennetton. Ele fazia as
compras e mandava entregar para o cozinheiro da equipe. Como
eu não tinha credencial para circular em Interlagos,
vi naquilo a oportunidade de ter acesso ao autódromo.
Com isso, terça, quarta, quinta e sexta eu fui para a
pista, circulei nos boxes, vi como eram os carros, a equipe.
Mas o jeito de eu entrar era carregando caixas de macarrão,
bananas, batatas. Um dia, eu virei para o cozinheiro da Bennetton
e disse: "Quem sabe um dia ainda não nos reencontramos?"
Ele deu risada. E hoje ele é o cozinheiro da Ferrari.
Quando entrei na Fórmula 1, fui até ele e perguntei
se ele se lembrava de mim. Quando eu disse para ele que eu era
aquele menino da comida, de Interlagos, ele quase teve um troço.
Veja – Quem são
seus ídolos na Fórmula 1? O que você procura
copiar deles?
Massa – Ayrton Senna foi ídolo de todos nós
pela sua dedicação, pelo que fazia nas pistas.
Sempre enxerguei Senna e Schumacher como pilotos diferenciados.
Pilotos que eram completos, que tinham tudo junto. Às
vezes, você vê um piloto extremamente talentoso,
mas que não tem a habilidade técnica. Há
outros com menos talento, mas extremamente dedicados à
parte física e técnica. É difícil
encontrar um piloto que reúna tudo, como os dois. Se
eu conseguir ser um Senna nas corridas de classificação,
e um Schumacher no GP, não perco nunca mais.
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