BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado

Entrevista: Jorge Castañeda
Esquerda, volver


Thomaz Favaro

 Tenpei Kitani
 
EXCLUSIVO ON-LINE
Áudios e transcrições
Castañeda fala sobre
Che Guevara

"Chávez não é Castro;
é Perón com petróleo"


Jorge Castañeda, de 54 anos, foi ministro das Relações Exteriores do México durante o governo de Vincent Fox. Atualmente é professor da Universidade de Nova York e da Universidade Autônoma do México. Castañeda já foi um esquerdista à moda antiga, quando iniciou sua carreira política no Partido Comunista Mexicano, na década de 70. Progressivamente, abandonou o radicalismo e tornou-se um respeitado analista da esquerda. Escreveu mais de uma dezena de livros, entre eles A Utopia Desarmada, onde analisa a derrota da esquerda com o fim da União Soviética, e A Vida em Vermelho, uma biografia do guerrilheiro Che Guevara. Castañeda falou a VEJA por telefone, de sua casa em Nova York. Na terça-feira, dia 17, ele vem à Porto Alegre para uma palestra sobre os caminhos da democracia na América Latina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Veja – Em 2006, onze países latino-americanos realizaram eleições. Qual foi o balanço?
Castañeda – A esquerda em seu conjunto está se fortalecendo na América Latina. Isso é evidente não apenas nas seis eleições vencidas por candidatos esquerdistas, mas também naquelas em que eles perderam, como no México e Peru, onde conseguiram porcentagens de votos altíssimas.

VejaO senhor escreveu que a esquerda latino-americana está dividida em duas. Por quê?
Castañeda – Há duas esquerdas bem distintas no continente. Uma esquerda democrática, moderna e globalizada, que respeita a economia de mercado e busca relações amistosas com os Estados Unidos. Isto não significa submissão. O tratado de livre-comércio do Chile com os americanos, por exemplo, não impediu o país de alinhar-se na ONU contra a guerra no Iraque. A outra esquerda tem tentações autoritárias, estatizantes, empenhada em confrontar os Estados Unidos e pouco renovada em seu discurso e ideologia.

Veja – Quais são os exemplos atuais dessas esquerdas?
Castañeda – Entre os governos da esquerda democrática, fazem parte Chile e Uruguai, que buscaram acordos comerciais com os Estados Unidos, e também o Brasil. Lula visitou Bush duas vezes em um mês, mantém políticas econômicas ortodoxas e, apesar das crises em seu governo, segue respeitando os direitos humanos e a democracia. A esquerda autoritária é representada por Venezuela, Bolívia, Argentina, Nicarágua, Peru, México e talvez Equador, com cada vez mais radicalismo, autoritarismo e estatismo. Daniel Ortega, da Nicarágua, quer nacionalizar a indústria elétrica do país e já começa a incendiar sua retórica com o mesmo antiamericanismo de sempre. Andrés Manuel Lopez Obrador, o candidato perdedor do México, mostrou não ter nenhum respeito pelas instituições democráticas do país. Chávez faz tudo isso ao mesmo tempo: nacionaliza tudo, fecha os meios democráticos de expressão e aumenta cada dia mais o tom de estridência contra os Estados Unidos.

Veja – O que explica essa diferença entre as duas esquerdas?
Castañeda - Sua origem. A esquerda moderna tem origem nos velhos partidos socialistas dos anos 60 e 70. No Brasil, é o caso do PT. Já a esquerda autoritária é filha do velho populismo latino-americano, do peronismo, dos militares na Venezuela e do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, no México. Os velhos militantes da esquerda fizeram sua autocrítica, revisaram seu passado comunista e o marxismo, embora não o tenham feito com Cuba. Souberam adaptar-se à nova realidade econômica e política do mundo globalizado. A esquerda populista nunca fez esses ajustes porque suas referências nunca foram o marxismo nem o socialismo. Agora vemos os resultados.

VEJA Por que representantes da esquerda democrática da América Latina toleram a ditadura de Fidel Castro?
Castañeda – Embora as esquerdas latino-americanas tenham feito seus ajustes, alguns setores seguem muito presos à revolução cubana, como é o caso de políticos como José Dirceu e o mexicano Cuauhtémoc Cárdenas, que não estão dispostos a colocar suas convicções democráticas à frente de seu agradecimento a Cuba. A exceção é o Chile, que sempre votou a favor de resoluções da ONU condenando as violações dos direitos humanos em Cuba. O resto da esquerda latino-americana não quis dar este passo.

Veja - Chávez pode substituir Fidel como o novo farol da esquerda latino-americana?
Castañeda – Acho que não se trata de uma substituição, mas de uma complementaridade quase perfeita entre o discurso cubano, os recursos humanos cubanos, o dinheiro venezuelano e os equipamentos militares russos vendidos a Chávez. Esse conjunto substitui a tentativa cubana dos anos 60 e 70 de exportar a revolução e, por seu caráter multifacetário, tem mais chances de consegui-lo.

Veja Por que discursos populistas, como o de Chávez, são tão atraentes na América Latina?
Castañeda – São atraentes somente em alguns países. Na Argentina, o populismo tem raízes fortes. Continua sendo cativante porque o país está voltando à época anterior à substituição de importações, quando era um mero exportador de produtos primários, as commodities, e vigorava o discurso populista ao estilo Perón.

Veja - Argentina teve um grande crescimento econômico nos últimos anos. Isso aconteceu por causa de ou apesar de Néstor Kirchner?
Castañeda – Nem um nem outro. O crescimento é fruto do boom de produtos agrícolas e matérias-primas e do efeito de recuperação depois da crise de 2001, da qual o PIB argentino ainda não se refez. Digamos que Kirchner, que segue passo a passo o manual do populista, com uma relação direta com as massas, uma retórica nacionalista e uma conduta estatizante em matéria de política econômica, ainda não pôs isso tudo a perder.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |