| Entrevista: Aubert
de Villaine O monsieur Romanée-Conti Vinho
é feito para beber, e não para colecionar, defende o produtor
dos rótulos mais cobiçados, e caros, do planeta 
Roberto Gerosa
| 
| Fernando
Moraes  | Aubert
de Villaine e sua criação mais famosa: R$ 10.980,00, a safra de 2004, um mito
para poucos | Mais comentado do que degustado, o Romanée-Conti
é um desses vinhos que ultrapassa sua natureza e ganha status de obra de
arte. Aubert de Villaine, 68 anos, é o guardião deste tesouro líquido.
Está à frente, desde 1974, da Domaine de La Romanée-Conti (DRC), de apenas 250.000 metros quadrados, onde se concentram seis grand crus — a mais alta categoria que um vinhedo pode alcançar na região da Borgonha, na França. Ali são elaborados rótulos como Grands
Échézeaux, Romanée-Saint-Vivant, La Tâche, além
da estrela da casa, o Romanée-Conti, que custa inacreditáveis R$
10,980,00 a safra de 2004 (veja quadro). No Brasil, o vinho
ultrapassou o círculo dos enófilos e acabou no noticiário
político — e na boca do povo — quando o presidente Lula comemorou sua eleição,
em 2002, como uma garrafa oferecida pelo seu então marqueteiro, Duda Mendonça.
Rios de tinta, e páginas de internet, já
foram gastos descrevendo as qualidades deste tinto único, elaborado com
a uva pinot noir e disputado por poderosos e milionários de todo o mundo.
Aubert de Villaine, que assina todas os rótulos, passa ao largo desta mistificação.
Acima de tudo, ele é um defensor da personalidade e da pureza de suas criações,
que são a expressão do lugar onde os vinhedos são cultivados:
a Borgonha. De Villaine falou com exclusividade à VEJA.com, de seu escritório
na Domaine, antes de embarcar para o Brasil, onde vem lançar a safra 2004
do Romanée, no início de novembro. Veja
– O que faz o Romanée-Conti ser um vinho cultuado pelos especialistas
e desejado pelos milionários do mundo?
De Villaine
A principal razão é que ele é um vinho de terroir. O Romanée-Conti
é uma espécie de símbolo desta idéia. Seu vinhedo
está localizado num local privilegiado, um grand cru de apenas 1,8 hectare
(18.000 metros quadrados), no centro nervoso de nossa Domaine, em Vosne-Romanée.
O resultado é um vinho elegante, suave, feminino e com grande personalidade
e finesse, qualidades que já eram observadas pelo príncipe Conti,
no século XVIII, quando ele adquiriu o vinhedo. Outra explicação
é a escassez. A produção é muito pequena e a demanda
alta. São cerca de 5.500 garrafas por ano, que são disputadas em
todo o mundo. E esta produção não vai se alterar nunca, ela
é determinada pelo tamanho do vinhedo.
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| "A DRC Não tem preço.
E nunca ninguém fez uma oferta" |
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Veja – Seus vinhos alcançam
preços estratosféricos nos mercados de investimento e na internet.
O que acha disso? De Villaine Isso é algo completamente
fora de nosso controle e que lamento profundamente. São valores tão
altos que transformam os vinhos em item de colecionador, em troféus. Quando
um produto atinge esta faixa de preço, eu acredito que as pessoas temem
abri-los. Isso é um erro. Vinho não é para colecionar, nem
para especular, mas para beber e dividir entre os amigos. Veja
–Algum grupo já fez alguma oferta pela Domaine de la Romanée-Conti?
De Villaine – A DRC não tem preço. E nunca ninguém
fez uma oferta. E nós esperamos que permaneça assim. Veja
– O senhor já provou um pinot noir fora da França que lembre
os da Borgonha? De Villaine Eu nunca provei um pinot noir
que carregasse a personalidade dos vinhos que produzimos na Borgonha. Talvez um
dia, mas até o momento, não. A pinot noir foi inventada na Borgonha.
É uma variedade que não tem muito sabor por si mesma. Há
uvas, como a cabernet sauvignon, que têm uma forte sabor varietal, e se
dão bem em várias partes do mundo. A pinot noir se deu bem na Borgonha
por uma boa razão, por ser a mais perfeita tradução desta
região. Veja –
Como se sente sendo o responsável pelo vinhedo onde são produzidos
os melhores vinhos do planeta? De Villaine Sou um privilegiado,
mas também muito consciente de minha responsabilidade. Este pedaço
de terra onde eu faço vinho tem se dedicado à excelência há
séculos. Minha missão não é colocar uma marca pessoal,
mas manter uma tradição. Veja
– Como explicar, para um leigo, o significado de terroir e sua influência?
De Villaine Terroir é a um pedaço de solo delimitado
pelo homem, com certas condições climáticas, ideal para um
certo tipo de vinho. É uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida
pela história. Os monges começaram este trabalho, no século
XI ou XII, ao delimitar os vinhedos da Borgonha e as uvas que seriam plantadas:
a pinot noir, para os tintos, e a chardonnay para os brancos. Este conceito alcançou
o nível mais elevado na Borgonha. Um bom exemplo da influência do
terroir vem de dois vinhedos nossos: o Grands-Échézeaux e o Échézeaux.
Mesmo sendo vizinhos, há diferenças de solo entre eles. Em Échézeaux,
há muitas pedras; no Grands-Échézeaux, o solo é mais
profundo, nunca serão encontradas grandes pedras saltando para fora da
superfície — ou seja, em Échézeaux é possível
caminhar usando sapatos finos, já no Grands-Échézeaux é
necessário calçar botas. O vinho que resulta de cada um desses solos
tem a sua personalidade. O aroma e o paladar não são as coisas mais
importantes — isso se altera a cada safra —, mas sim esta personalidade, que vem
da terra. Uma energia que percebemos quando provamos, a cada ano, um Échézeaux
e um Grands-Échézeaux. Veja –
O senhor acha que os países do novo mundo se apropriaram dessa idéia
de forma irresponsável? De Villaine Infelizmente
a palavra terroir não tem copyright. E todo mundo usa. Mas terroir não
é marketing. O conceito não pode ser usado por um vinhedo de 1000
hectares no Novo Mundo, nem mesmo no Languedoc, na França. A história
é indispensável para quem quer aplicar este conceito em seu pedaço
de terra. É preciso de tempo. Os vinhos de terroir são, na minha
opinião, superiores a qualquer outro. Veja
– Como o senhor avalia a influência do megacrítico americano
Robert Parker e de seu critério de avaliação de 100 pontos?
De Villaine Eu acho que ele é um dos maiores responsáveis
pelo crescimento do consumo de vinhos no mundo — é claro que o fato de
as pessoas estarem mais ricas também ajudou. Quanto às notas, me
parece bizzaro. Nós achamos impossível justificar uma avaliação
com números. O que Parker diz sobre a bebida é mais interessante
que suas notas. Mas é o jeito que funciona, e não podemos fazer
nada contra isso. Eu espero que os consumidores aprendam que isso não é
importante.
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| "Vinho não é para
colecionar, mas para beber e dividir entre os amigos." |
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Veja – O presidente Lula, quando eleito
para seu primeiro mandato, em 2002, comemorou sua vitória com uma garrafa
de Romanée-Conti 1997. Era uma boa safra? De Villaine
Não é uma grande safra, mas eu me sinto muito orgulhoso que
seu presidente tenha escolhido este vinho para celebrar sua vitória. Eu
espero que tenha sido porque ele ama vinho e não por conta do rótulo.
Veja – Nem uma coisa nem outra,
a garrafa foi um presente de seu marqueteiro de então, Duda Mendonça,
e a notícia gerou muita polêmica na opinião pública.
De Villaine O curioso, me contaram depois, é que foi criado
uma página na internet com o nome "romannecontiparatodos", que
defendia que o objetivo dos socialistas era tornar todos ricos, para que também
pudessem beber o vinho. É divertido, mas impossível. Nunca haverá
Romanée-Conti para todos. Como eu disse, são só 5.500 garrafas
por ano. Veja – O serviço
de vinho é cheio de regras. Uma delas determina que um branco jamais deve
ser servido após um tinto. O senhor concorda? De Villaine
Não, de maneira alguma. Eu acredito que um bom vinho branco pode muito
bem vir após os tintos. O Montrachet que produzimos, por exemplo, é
tão sensual, redondo e poderoso que pode até atrapalhar o sabor
dos tintos. Ele deve ser bebido sozinho. Aqui em casa, sempre que podemos, servimos
vinho branco com queijos, no final da refeição. Veja
– E quais são os seus vinhos do dia-a-dia? De
Villaine Eu procuro tirar vantagem da comida e experimentar
diferentes vinhos do mundo e da França, junto com minha família. Sou muito interessado
no que se produz fora da França, mas não tenho rótulos favoritos. Veja
– Os especialistas costumam descrever uma infinidade de aromas, alguns
meio esquisitos, nas taças de
vinho. Isso não intimida um pouco os consumidores que não conseguem
distinguir estas coisas? De Villaine Não fico surpreso
que as pessoas não identifiquem estes aromas todos nos vinhos que compram.
Eu mesmo não sou capaz de reconhecê-los. Aliás, acho muito
aborrecido. Não estou interessado nisso, e sim na personalidade do vinho.
Até admiro quem tem esta capacidade. Mas para mim, não há
interesse algum.
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| "Parker é um dos maiores
responsáveis pelo crescimento do consumo de vinhos no mundo" |
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Veja – O senhor foi um dos participantes
do histórico Julgamento de Paris, em 1976, quando vinhos californianos
e franceses foram confrontados pela primeira vez numa degustação
e os americanos se saíram melhor. Como foi esta experiência?
De Villaine A prova não foi exatamente como foi contada.
Fomos convidados para degustar rótulos californianos. Nós não
sabíamos que teriam vinhos franceses. Mas não me arrependo, pois
a Califórnia buscava e merecia um espaço na mesa dos consumidores.
Se este painel não acontecesse, arrumariam outra maneira. Eu passei seis
meses de minha vida, quando tinha 24 ou 25 anos, na Califórnia, e experimentei
muitos vinhos de lá. Foi o primeiro vinho do Novo Mundo que eu bebi. Veja
– O vinho francês vem perdendo espaço nos últimos anos,
quais são as conseqüências? De Villaine
Estimula a competição e desafia a fazer produtos melhores. Hoje
em dia não há mais espaço para vinhos medíocres na
França. Aliás, os vinhos medíocres tendem a desaparecer do
mundo. Mas eu acredito fortemente que nós continuaremos, por muitos anos,
sendo uma referência. Podemos dizer, sem ser arrogantes, que o vinho é
uma de nossas maiores contribuições para a humanidade. Veja
– Por que a Domaine de la Romanée-Conti adotou técnicas orgânicas
e biodinâmicas nos vinhedos? De Villaine Nós
não escolhemos ser orgânicos, isso se tornou uma opção
natural, pois só de maneira orgânica é possível fazer
vinhos de qualidade. Logo após a II Guerra Mundial tivemos problemas no
vinhedos da Borgonha — perdemos todas as plantas entre 1946 e 1951, não
há safras neste período — e o uso de tratores, fertilizantes químicos
e pesticidas pareciam ser a solução mais moderna. Aos poucos, porém,
entendemos que isso não era progresso, mas o contrário, atraso.
Já a biodinâmica tem um respeito ainda maior aos mecanismos naturais,
há um retorno às coisas que nossos avós costumavam fazer.
Uma atenção aos movimentos da lua, este tipo de coisa. Mas eu não
estou interessado na filosofia da biodinâmica. Para nós se trata
de uma decisão prática. Nós obtemos um equilíbrio
melhor e mais perfeito de solo, e com isso alcançamos uma defesa mais consistente
da vinha contra as pragas. Veja – O senhor
já bebeu algum rótulo brasileiro? Acha possível produzir
bons vinhos no Brasil? De Villaine Não, nunca. Espero
provar alguns durante minha viagem. Grandes vinhos, eu não sei. Mas com
certeza alguns bons vinhos podem ser feitos. Veja
– Especialistas recomendam que seus rótulos sejam abertos após
15, 20 anos, ou até mais. O que se ganha e o que perde após tantos
anos de garrafa? De Villaine Com os anos de garrafa você
perde alguma qualidade da juventude, a energia, e principalmente o aspecto mais
frutado da bebida, mas ganha-se em sutileza e elegância. Os grandes vinhos
são como uma jovem. Começam a exibir sua beleza aos 15 anos e precisam
chegar pelo menos os 20 anos para atingir maior complexidade e maturidade.
Veja – A França é uma
grande produtora de vinhos, mas ultimamente seus políticos parecem que
não dão muita importância para a bebida. Por quê?
De Villaine É verdade. Os políticos que governam a
França não têm interesse pelo vinho. O tema se tornou politicamente
incorreto, pois há uma forte campanha contra o álcool, que tem sempre
sido endereçado, infelizmente, ao vinho. É um grande erro. Bons
vinhos são mais cultura do que álcool, que é algo secundário.
Ninguém bebe bom vinhos por conta do álcool, mas sim por conta da
cultura, do prazer e da satisfação. Veja
– O senhor tem planos de se aposentar. Quem assume seu lugar na Domaine
de la Romanée-Conti? De Villaine Pretendo me aposentar
em 4 ou 5 anos Eu tenho 68 anos, e comecei quando era jovem. Tenho um sobrinho
que certamente assumirá meu lugar. Além disso, o meu parceiro, Henri
Roch, é muito jovem ainda.
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| "Os políticos que
governam a França não têm interesse pelo vinho" |
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Veja – Em uma visita ao Brasil, em
1995, o senhor conheceu a adega do ex-governador Paulo Maluf e ficou surpreso
com sua coleção de Romanée-Conti. O que mais lhe chamou a
atenção? De Villaine Ele tinha algumas safras
antigas que nem nós temos mais na nossa adega, na Domaine. O que aconteceu
com o senhor Maluf? Ele foi preso, não? Veja
– Sim, isso foi em 2005. Agora ele está livre. De Villaine
Bom para ele... Veja – E o que se
pode esperar da safra 2004 que o senhor vem apresentar no Brasil? De Villaine
É um vinho muito interessante, com charme, e um poder de sedução
muito impressionante. Eu realmente adoro o resultado. Talvez não esteja
no nível de grandes safras como a de 1999 ou 2005, mas está em um
patamar muito alto. Nós só conseguimos dispor de uma porcentagem
muito pequena para o seu país. Aos poucos, porém, estamos tentando
aumentá-la Veja – Se o senhor fosse
obrigado a escolher um único vinho para beber até o fim da vida,
qual seria? De Villaine É algo que nunca pensei a
respeito. Seria uma condenação, como estar numa cadeia. Mas se eu
tivesse de escolher, certamente seria um vinho da Domaine, talvez o Romanée
Saint-Vivant. |