TV reinventa o lucrativo negócio da saudade

A nostalgia agora é fabricada ao gosto do espectador

Nada é mais antigo que o passado recente, dizia Nelson Rodrigues (1912-1980). Se conhecesse a TV atual, o cronista teria de rever sua máxima: ao menos no ar, nada é mais antigo que o próprio presente. O novo sucesso do Viva é uma versão modernizada de algo mais velho que andar para trás: a Escolinha do Professor Raimundo, surgida no rádio em 1952 e eternizada na TV por Chico Anysio. Antes, o canal que transmite quase 24 horas diárias de itens arqueológicos da Globo havia promovido a ressurreição do humorístico Sai de Baixo, extinto em 2002, e do musical Globo de Ouro, transmitido entre 1972 e 1990. Em 2017, virão por aí um novo programa dos Trapalhões, com os originais Renato Aragão e Dedé Santana, e um revival do Cassino do Chacrinha, com o ator Stepan Nercessian na pele do apresentador.

Na seara da TV por streaming, o passado também se revela muito promissor. O último fenômeno da Netflix foi Stranger Things, série cuja trama extrai frescor da celebração aos anos 80, da moda aos filmes de Steven Spielberg. A Netflix já tinha dado nova vida a séries do passado mais ou menos recente. O elenco de Três É Demais, sitcom da década de 80, voltou a reunir-se para uma continuação que fala da mesma família vinte anos depois, Fuller House. A Netflix resgatou, ainda, a mais alternativa Arrested Development, cancelada em 2006. Em novembro, lançará novos episódios de Gilmore Girls, série sobre a relação entre uma mãe moderninha e sua filha, com as mesmas atrizes de nove anos atrás. E a viagem no tempo vai longe: a empresa anuncia para 2018 uma versão contemporânea de Perdidos no Espaço, clássico retrô-futurista dos anos 60.

Se a indústria da saudade sempre foi um filão lucrativo do entretenimento, o advento dos canais pagos e do mercado de vídeo, a partir dos anos 80, redobrou sua importância. Enorme parte do que se vê na TV por assinatura é pura velharia. Filmes e séries antigos oferecem aos estúdios e emissoras de TV a chance de continuar faturando ad infinitum com as produções de arquivo, diluindo, assim, seus custos ao longo do tempo. Como bem sabe qualquer espectador, eles dão outra mãozinha aos programadores da TV paga: permitem preencher horas e horas com reprises sem fim.

O raiar de serviços on-demand como a Netflix intensificou o fenômeno. “Na nova paisagem da TV, os programas não estão mais fadados a ser exibidos e logo em seguida desaparecer do ar. Na batalha pela atenção das pessoas, uma série produzida há vinte anos tem a mesma chance de ser vista que outra recém-lançada”, disse a VEJA o chefão de conteúdo da empresa, Ted Sarandos.

Para além de uma questão de escala, o negócio do saudosismo acaba de entrar em etapa inédita. Com a ajuda de algoritmos, dados de audiência e pesquisas nas redes sociais, a indústria do entretenimento agora consegue vender a nostalgia sob medida. A Escolinha do Professor Raimundo ilustra bem a utilidade dessa nova forma de apelo nostálgico. Desde 2010, o Viva exibe a versão original, com Chico Anysio. A Escolinha vintage ajudava a fazer do canal um dos mais vistos entre o público masculino da TV paga. Além das reprises, suas vendagens em DVD chamavam atenção. “O ótimo desempenho nos levou a criar uma segunda faixa de exibição da antiga Escolinha no horário nobre”, diz Carla Rosas, gerente de produção do Viva.

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  1. Marco Antonio Aguiar Santos

    Chacrinha já dizia: Na TV nada se cria e tudo se copia. O negócio da saudade seja reprisando programas antigos ou criando “reboots” como a Escolinha do Professor Raimundo demonstra apenas uma coisa: a total falta de criatividade. Vemos diversos programas que são franquias estrangeiras da Freemantle ou Endemol. Não existe nada que estimule algo novo. Os atuais programas e novelas são chatos, poucos se salvam. Se pensarmos em Humor então a coisa está triste.

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